Darcy Williamson deixou os braços despencarem na mesa, exausto. Trabalhar em casa o deixava ainda mais sobrecarregado. Mas desde que Victoria voltou a morar com ele que Darcy não visitava as obras e as empresas. Não que sua presença na casa realmente fizesse alguma diferença, já que ele só via a filha no horário das refeições. Mas enquanto não encontrasse uma pessoa adequada para ficar com ela fiscalizaria os empregados da mansão de perto.

Na ocasião do divórcio, dois anos atrás, Darcy mudou completamente em relação a filha. Ele costumava ser um pai dedicado, presente e até mesmo carinhoso, mas deixá-la ir morar com Brianna fez com que ele se distanciasse da pequena Victoria. Foi um mecanismo instintivo de defesa, se não demonstrasse sentimentos então ele não sentiria. E, mais importante, a filha não sentiria. Era melhor se manter afastado de Victoria o máximo possível, cuidando de sua educação, seu bem-estar e sua herança, sem acostumar a menina com uma presença que não teria mais diariamente na casa da mãe. E por quase dois anos Darcy e Victoria só se encontraram no final de cada mês. Até que Brianna decidiu viajar, sem data para voltar. Ela tinha conhecido Mike Thompson, um empresário americano com quem ela envolvida e este lhe fez uma proposta: começar uma vida nova na Califórnia. Mas para isso ela deveria estar disposta a deixar tudo para trás, inclusive a filha. Thompson não estava disposto a criar a filha de outro homem. E Brianna concordou. Darcy não conseguia entender como uma mãe poderia deixar a filha para trás, mas um belo dia Brianna apareceu com Victoria e todas as suas coisas e deixou a menina em Pemberley. Darcy ficou desconcertado e a menina ficou em sua casa de campo por duas semanas, até que ele resolveu trazer ela para cidade, para que pudesse ficar com ele.

Agora Victoria estava com ele há quase 1 uma semana e nenhum dos empregados sabia (ou fazia gosto) de cuidar de uma criança. O próprio Darcy acreditou ser melhor contratar alguém de fato preparado para o cargo. Ele era bom nisso, em contratações. Mas só na última hora entrevistou quatro moças e nenhuma fora convincente o suficiente.

Victória estava ainda mais calada no jantar naquela noite. A verdade é que eles não conversavam mais como antigamente. Desejou nunca ter deixado a filha ir embora. Desejou nunca ter se afastado dela. Mas agora era tarde demais. Ele não sabia como conversar com ela. Victoria havia se tornado ainda mais reservada e quieta. Após o fracasso da primeira noite, ele havia pedido Susana que viesse nas seguintes, pois acreditou que ela se sentiria mais confortável diante de uma figura feminina. Obteve o efeito contrário. Naquela noite, após várias entrevistas mal-sucedidas, discutia com Susana a possibilidade de retornar a Pemberley com Victoria.

—Ela não parece se adaptar bem aqui. Das poucas vezes que disse algo me perguntou se não poderia ficar em Pemberley com a Sra. Hudson. Talvez seja melhor. Eu promovo o Clarkson, e ele fica responsável por tudo que eu não conseguir administrar de lá. E posso vir para cá uma vez por semana.

—Darcy meu querido, isso é um absurdo. Você não pode mudar toda sua vida assim por causa de uma garotinha.

—Ela não é uma garotinha, é minha filha Susana.

—Eu sei, mesmo assim. Os filhos que devem se adaptar a rotina dos pais e não o contrário.

—Mas ela está sem preceptora. Brianna costumava cuidar ela própria da educação de Victoria. Eu não tenho condições de fazer isso.

—E você não consideraria enviá-la a um colégio interno?

—Colégio interno?

—Eu conheço vários colégios internos na Suíça muito bons. As filhas de alguns amigos meus estudam em alguns. Eu posso conseguir o contato deles para você.

—Não sei se eu gosto dessa ideia.

—É uma ideia. Se você não encontrar ninguém para cuidar da menina....

Susana se ofereceu para passar a noite, mas Darcy a dispensou. Estava cansado, estressado e não poderia dar a ela a atenção que requeria. Ela ficou um pouco desapontada, mas amanhã ele lhe mandaria flores e alguma jóia e ela se aquietaria. Decidiu se recolher, mas antes passaria no quarto de Victória. Todas as noites ele visitava o quarto dela antes de dormir e lhe beijava a testa, mas era sempre assim, às escondidas. Tinha medo de como Victória reagiria, tinha certeza de que ela o afastaria, pois carregava muita mágoa do pai que praticamente a abandonou sob os cuidados de sua mãe. Levantou-se, apagou as luzes do escritório e se dirigiu ao quarto da menina para o beijo de boa noite. Entretanto, quando ele estava na metade da escada ouviu a campainha tocar. Olhou no relógio e já passava das dez da noite. Quem poderia ser em um horário tão inconveniente? Até seus empregados já haviam se retirado.

Darcy desceu as escadas irritado. Mas sua fisionomia mudou da irritação para o completo choque ao se deparar com as pessoas paradas em sua porta: sua filha Victoria e uma total desconhecida. A moça o encarava dos pés a cabeça, e o olhar dela parecia irritado, quase ferino. Darcy não pode deixar de reparar, que mesmo que ela parecesse prestes a voar em seu pescoço, era uma moça belíssima.

—Boa noite. O senhor pode chamar o seu patrão, por favor? — Ela se dirigiu ao darcy com uma altivez digna de uma dama da alta roda londrina, mas sua capa denunciava que ela não deveria ter muitas posses.

—Elisa. — Victoria a chamou , puxando sua mão. — Esse é o meu pai. — Ao escutar isto, Elisa levantou a sobrancelha e encarou Darcy com ainda mais raiva.

—Ótimo. — Darcy pareceu enfim ter saído do choque, e puxou a filha para um abraço.

—Victoria! O que você está fazendo fora da cama? Onde encontrou essa senhora?- A menina olhou para Elisabeta, que fez sua entrada mesmo sem ser convidada e fechou a porta. A casa estava quentinha, e ela, congelando.

—Saiba, senhor, que encontrei sua filha sozinha há mais de uma hora, sentada em um banco em Westminster. Sozinha! Já havia escurecido e passava da hora de uma criança da idade dela estar na cama! — Darcy olhava da estranha para a filha sem entender o que estava acontecendo. Victoria estava em Westminster? Sozinha? Há mais de uma hora? Como? Por quê? — E quando eu me ofereci para trazê-la de volta, ela se negou! Não queria voltar para essa casa. Agora eu me pergunto que tipo de tratamento o senhor dá a sua filha no qual ela prefere ficar sentada sozinha, no frio do que no conforto de sua casa?

—Eu… eu…- Darcy estava estarrecido. Victoria não queria ter voltado? Ela havia fugido? Ele se abaixou para falar com a filha. — Vicky, filha, é verdade isso que esta senhora está dizendo?

—Senhorita. — Elisabeta corrigiu.

—Desculpe. — Ele olhou para ela depois daquela interrupção absurda. — É verdade tudo isto que esta senhorita disse? Você saiu de casa por que quis? Você não queria retornar? — Victoria encarou os sapatos.

—Eu ouvi o senhor e a Susana falando em me mandar para um colégio na Suíça. E já que ninguém me quer eu resolvi ir embora por conta própria.

Escutar aquelas palavras doeu tanto em Darcy que nem a pior surra que já havia tomado o fez perder tanto o equilibrio. Ele precisou apoiar a mão no chão. Elisabeta se virou para a menina.

—Victoria, querida, lembra do copo de água que me prometeu? Estou morrendo de sede. Você poderia pegar para mim? — vendo ali a possibilidade de escapar do pai, ela concordou prontamente e saiu correndo da sala. Darcy ainda estava tão estarrecido que não cogitou levantar. — Agora eu e o senhor vamos ter uma conversinha de adulto para adulto. Que espécie de pai cogita mandar a própria filha para um colégio interno depois dela ter sido abandonada pela mãe? Que tipo de pai é o senhor, que mesmo estando em casa se recusa receber a filha quando ela só quer lhe mostrar o livro que está lendo? Saiba senhor… — Elisabeta se tocou que não sabia o nome dele.

—Williamson. — Darcy a informou.

—Pois saiba senhor Williamson, que dinheiro não é tudo. O senhor tem uma bela casa, a menina está bem vestida, bem alimentada, mas uma criança precisa de mais. Precisa de cuidado, atenção. Sua filha não se sente amada pelo senhor, e o senhor deveria se envergonhar! — O choque de Darcy estava passando, novamente, e o sangue começava a subir para a cabeça.

—A senhorita conversou com minha filha por uma hora e acha que a conhece melhor do que eu? Acha que pode entrar na minha casa sem ser convidada e gritar comigo? Acha que deve me dizer como educar a milha? Ah, faça-me o favor! Minha própria filha?

—Aparentemente o senhor não está sabendo como fazer isso, de fato.

—Escute aqui, senhorita…?

—Benedito.

—Benedito? De que região a senhorita é? Não importa. Escute aqui, senhorita Benedito, eu agradeço por ter trazido minha filha de volta pra casa em segurança, realmente agradeço. Mas não pode entrar na minha própria casa falando desse jeito comigo!

—Eu falo do jeito que eu quiser! Talvez assim o senhor aprenda alguma coisa. Olha o tamanho dessa casa, num bairro nobre de Londres, aposto que tem muitos empregados, e absolutamente ninguém notou a ausência de uma criança às 8 horas da noite. Eu não posso compactuar com tamanha negligência. O senhor deveria me agradecer por não entregá-lo à polícia!

—Você se acha a dona da razão, senhorita Benedito, mas a verdade é que você não me conhece. Não conhece a minha filha. Não tem ideia de tudo pelo que passamos…

—Ah, eu tenho ideia sim! — Interrompeu Elisabeta — Saiba o senhor que sua filha conversou mais comigo nessa uma hora que passamos juntas do que já conversou com o senhor a vida inteira. Eu sei que ela foi abandonada pelo senhor, e depois pela mãe e agora sente-se a um minúsculo passo de ser abandonada de novo, mandada para longe. E ela nem gosta de Londres. Me parece que é o senhor que não conhece a sua filha aqui. — Como de costume, quando se irritava com britânico, Elisabeta o xingava em português. -Imbecil.

—A senhorita acabou de me chamar de imbecil? — Ele a respondeu em português.

—O senhor fala português? Ah claro.

—A senhorita passou de todos os limites. Mais uma vez agradeço, e me diga quanto quer. — Ele falou tirando a carteira do bolso.

—Como?

—Quanto quer de compensação por ter trazido Victoria sã e salva?

—O senhor acha que pode me comprar? Pois eu quero que o senhor pegue essa carteira e enfie… — Elisabeta levantou a mão e Darcy a segurou.

Em seguida a soltou e passou as mãos pelos cabelos e suspirou cansado. Percebeu que ele e a tal Benedito já estavam bem mais próximos um do outro agora do que quando ela chegou. Ambos com os peitos estufados, expressões irritadas no rosto, numa briga de egos que mal cabiam na mansão Williamson. Deus, como ela era linda. Não havia sequer como reprimir o próprio pensamento porque ele não era cego afinal. E, para ser bem sincero, apesar de toda a prepotência da moça ela estava certa. Não que ele precisasse de todas essas palavras despejadas na sua cara aquela hora da noite dentro da própria casa para sentir-se culpado. Seria mais uma culpa que ele carregaria para sempre consigo. O peso de ter abandonado a filha, não só fisicamente mas também emocionalmente. Aquilo o destruía. Mas ele era orgulhoso demais para admitir isso, ainda mais para uma estranha arrogante e muito corajosa.

Victoria voltou com o copo d'água e permaneceu encolhida próxima a porta que separava a sala de estar da sala de jantar, até que Darcy a chamou.

—Filha, entregue a água da senhorita Benedito e suba para o seu quarto. Já está tarde, amanhã conversamos.

—Sim, papai. — a menina acenou com a cabeça baixa, olhando para o chão. Levantou um pouco a vista e trocou um pequeno sorriso com Elisa. Mas Elisabeta não deixou por isso, e a chamou para um abraço.

—Boa noite, meu bem. Foi um prazer conhecer você. — E então ela sussurrou em seu ouvido. — Se ele te maltratar de novo, deixe um bilhete no banco onde nos encontramos em uma semana. Que eu venho aqui e grito com ele de novo.

Victoria sorriu, balançou a cabeça em concordância e subiu para seu quarto. Elisa voltou com sua expressão de repreensão para o pai da menina:

—Bem, senhor Williamson, espero que o senhor repense essa ideia de mandar sua filha para um colégio interno. E na Suíça ainda! É muito fácil ser pai assim, o senhor devia se envergonhar. Meus pais criaram cinco filhas sem a ajuda de ninguém e com bem menos do que um terço do seu dinheiro, e nenhuma de nós nunca fugiu no meio da noite. Passar bem!

Elisa virou as costas e saiu praticamente marchando de casa, a cabeça erguida. Bateu a porta e se deu conta de que ainda segurava o copo de água. Bebeu tudo em um único gole, voltou a abrir a porta e colocou o objeto de vidro com força demais em cima de um aparador na sala. O pomposo senhor Williamson a olhava incrédulo, em um misto de raiva e curiosidade.