Fria, é assim que eu descrevo a noite de hoje, debaixo das cobertas pesadas, com um livro sob o nariz, e uma fresta aberta da cortina, o calor parece me fugir apenas.

estou com frio e preguiça de rastejar até o andar de baixo para regular a calefação, mas assim o faço, devagar, como se como se as escadas fossem de gelo e com pressa eu pisasse forte demais e elas quebrassem, continuei devagar observando o silencio da mansão que era interrompido pelo tilintar do gelo nos copos de whisky na sala de reunião do meu pai no fim do corredor perto da escada, de vez em quando uma risada espalhafatosa me fazia estremecer e querer voltar para o quarto e ficar passando frio até a reunião acabar, e os “convidados” se retirarem pela porta dos fundos, minha mãe deveria estar encolhida na poltrona perto da janela cuidando a porta dos fundos se abrir para poder relaxar.

Aqui ninguém suporta, aguenta, ou se sente seguro com as “visitas” noturnas que meu pai recebe em sua sala.

Aquele dia, quando entrei em casa, o ritual se repetiu: minha mãe subiu de cabeça abaixada as escadas, e meu pai ficou ali, olhando para o nada, e atendendo o telefone ao primeiro toque, quando Hammer veio avisa-lo que os “convidados” tinham chegado, sabíamos que era nossa hora de subir, eu, Lola, e a cadela.

Segui pela sala, observando o lado de fora pela grande porta de vidro que ficava bem no centro da sala de recepções parei no meio do caminho e corri escada a cima de novo desistindo da calefação quando o barulho de vidro quebrando veio do andar de cima e me atingiu.

Abri a porta do quarto num rompante.

–Para de fazer barulho Lola — sussurrei querendo bater na minha irmã, mas ao mesmo tempo me abaixando e a ajudando a juntar os cacos do pote de vidro que ela guardava tinta, que no momento tinha respingado verde por todo quarto branco com tons claros.

–ela vai me matar- ela sentou no chão e me ajudou

–não... ela só vai te deixar de castigo e te fazer limpar- respondi e virei os cacos na lixeira perto da porta e sai fechando a porta atrás de mim e voltando pelo corredor , eu não tenho muito contato com Lola, ela é minha irmã, e eu a amo mais que tudo, mas eu tenho medo dela, de certa forma.

Entrei no meu quarto e me deitei de novo, encarei a fresta nas cortinas pesadas de veludo, encarei, o frio vinha dali, só pode, encarei mais um pouco e me levantei, xinguei a fresta um pouco enquanto me enrolava em um edredom até a janela, realmente, o frio vinha dali, mas o vidro estava fechado , o frio que me percorreu foi de terror, ao ver a luz vermelha dos lasers de mira cruzarem minha frente, me atirei no chão, para o vidro ser estraçalhado pela bala atravessando o quarto e se alojando na parede.

Com dificuldade me desvencilhei do edredom e engatinhei até a porta, me levantei e girei a fechadura, correndo pelo corredor até o quarto da minha mãe.

– Mãe...- ofeguei

Minha mãe estava calma, gritando, mas calma, o grito dela era de autoridade, não medo.

–EU SEI!- ela gritou e me empurrou de volta a porta – Lola primeiro, sabe como ela é – bateu a porta.

Sim eu sei como ela é.

Quando abri a porta e vi o vidro estraçalhado corri para o corpo atirado no chão com cacos sobre os cabelos.

Ela choramingou e eu a arrastei para o corredor, ela tinha um corte perto da têmpora.

–como?- perguntei passando meus dedos trêmulos pelo corte vermelho vibrante e molhado.

– eu estava pintando perto da janela quando quebrou, um caco pegou aqui- ela disse molemente.

Ajudei-a a se levantar antes que fosse pisoteada pelos sócios do meu pai que correram em direção as escadas opostas, armados até os dentes.

–PAI!PAI!- ela berrou com lágrimas querendo fluir.

Ele só se virou e a atirou um beijo antes de seguir correndo junto com os sócios.

Ela tentou ir atrás, mas eu a segurei e a obriguei a entrar no quarto da nossa mãe, que entregou uma mochila a cada um.