Acasos de uma Psicose - O Início
3 Jogo da Verdade
Sophie se aproximou de Natasha silenciosamente. Ela olhou para os outros que estavam arrumando os livros. Até aquele momento ninguém havia dito nenhuma palavra. O relógio marcava sete horas da noite. Natasha olhou confusa para Sophie se perguntando o que aquela garota estranha queria com ela.
— O que quer?
Sophie franziu as sobrancelhas e tirou da jaqueta o pequeno diário rosa que havia causado tanta euforia. Natasha arregalou os olhos para Sophie e estendeu a mão para pegar, mas Sophie foi mais rápida e tirou o diário de sua vista.
— Prometa! — Sophie cochichou.
— Prometer o que? — Ela resmungou.
— Prometa que nunca mais fará mal a alguém novamente!
— Olha, isso eu não posso prometer...
— Então seu diário ficará comigo. — Sophie já ia se afastar, quando Natasha a puxou.
— Me entregue! Por favor! — ela implorou. — Eu prometo não me meter na vida de nenhum de vocês novamente, mas só me entregue.
— Natasha, não é só de Matthew, Charlotte ou Madeline que tem que parar com o bullying. E sim com todos. — Natasha fechou os olhos.
— Eu não posso...
— Por que não? — Sophie se atreveu a perguntar.
— Ei! Vocês duas! — era Madeline. — Terminamos!
Sophie olhou para Natasha que fazia uma expressão que ela nunca tinha visto nela. Era expressão que demonstrava piedade. Sophie suspirou e entregou o diário.
— Natasha, tente mudar Okay?
Natasha não respondeu. As duas foram até onde estavam os outros.
— Eu vou comprar um lanche pra gente. — Matthew falou.
— Não devemos... Tipo ir embora? — Sophie perguntou.
— Sim, mas estou morta de fome. E aposto que quando eu chegar em casa... Meu pai não me dará o jantar. — Todos olharam para Madeline. — O que foi?
— Como seu pai pode ser tão mal? — Natasha perguntou.
— Como você pode ser tão má? — Madeline sorriu.
— Tudo bem, eu vou comprar. — Matthew bufou.
— Não precisa comprar tudo sozinho. — Charlotte falou, mas Matthew balançou a cabeça, dando um sorriso fraco.
— Tenho minhas economias. — Ele ia saindo, quando Emma chamou:
— Espere! Vou com você! — Charlotte puxou Emma, olhando com a mesma expressão: — Você fez algo que havíamos prometido em não fazer. — Ela se referia a nunca se meter com Natasha. — Então aqui estou eu quebrando outra promessa.
Charlotte tentou falar algo, mas ficou muda. Enquanto Emma ia atrás de Matthew.
Matthew e Emma seguiam em silêncio por todo caminho. Emma olhava a cada cinco segundos para Matthew, mas ele nunca dizia nada. Emma se perguntou se ele não tinha assunto ou se ele apenas não queria falar mesmo, o que era o caso.
Assim que chegaram a máquina, Matthew colocou as moedas na máquina de salgados, enquanto Emma colocava na máquina de refrigerante. Quando estavam voltando, Emma continuou olhando o em cinco e cinco segundos, Matthew finalmente retribuiu o olhar e sorriu:
— Porque está fazendo isso?
Emma rapidamente corou e gaguejou:
— Não é na-da... — ele deu um sorriso cafajeste.
— Então quer dizer que está me olhando de segundo e segundo, e não é nada?
— Bom, estava me perguntando... O porquê de ter feito aquilo. — Emma deu de ombros.
— Imagine o que é ser atormentado pela mesma pessoa por anos e não fazer nada. — ele sussurrou. — Acho que estou apenas cansado.
— Tudo algum dia cansa, sabia disso? — Emma falou.
— É... Já ouvi falar disso. — ele respondeu.
— Pois é.
— É. — logo o silêncio veio novamente.
Chegaram à biblioteca e as garotas estavam em uma roda.
— Estávamos esperando vocês. — Natasha disse olhando a unha. — Arrumou uma namorada, esquisito?
Emma ficou mais vermelha que um tomate. Matthew revirou os olhos.
— O que estão fazendo? — ele perguntou se sentando e entregando os salgados. Emma fez o mesmo entregando os refrigerantes. Havia uma garrafa Pepsi em pé no centro.
— Jogo da verdade. — Natasha bufou. — Já ouviu falar?
— Não Natasha. — Matthew disse abrindo seu refrigerante. — Fui criado por índios.
— Dá pra vocês pararem com isso? — Sophie murmurou.
— Todo mundo sabe como joga? — Charlotte perguntou comendo um salgadinho.
— Bom... — Madeline disse timidamente. — Sei que é pra um perguntar e outro responder, mas nunca joguei, então não sei como funciona.
— É bastante simples. — Charlotte explicou. — Se a tampa parar em você terá que responder uma pergunta de todos os participantes, é proibido não responder e é proibido contar a alguém.
— Pra que estamos jogando isto? — Matthew murmurou.
— Foi ideia de Sophie. — Charlotte deu de ombros. — Prontos?
— Roda logo essa droga. — disse Natasha bebendo um gole de Coca-Cola.
Charlotte olhou friamente para Natasha e depois rodou. A tampa da garrafa estava direcionada para Emma. Ela arregalou os olhos.
— Me deixe ver... — Charlotte disse pensativa e logo deu de ombros. — Por que entrou na briga?
— Para separar. — Emma disse rouca.
— Por que você é antissocial? — Matthew perguntou. Emma olhou para ele e logo depois para Charlotte. — Quero dizer, eu não me importo com seu motivo, eu também sou. Só que no meu caso eu não tenho opção. E você Emma Green, qual é o seu motivo?
— Eu... Não quero responder essa pergunta. — Emma sussurrou olhando para os dedos.
— “É proibido não responder a pergunta” esqueceu? — Natasha perguntou revirando os olhos.
— Está tudo bem, Emma... — Charlotte tentou acalma-la. Mas, Emma estava com a respiração irregular, Matthew estava do seu lado e deu um sorriso aquecedor para ela.
— Eu tenho medo das pessoas... — ela sussurrou devagar.
— Como assim tem medo das pessoas? — Natasha perguntou olhando para Emma com uma expressão confusa no rosto.
— Acho que elas são mais do que dizem ser... Como se fossem psicopatas. — Emma sussurrou olhando para o chão.
— Então porque se juntou com Charlotte? — era a vez de Madeline perguntar.
— Por que eu sempre soube que Charlotte não era uma psicopata. — Emma murmurou.
— Como sabe? — Sophie murmurou.
— Bom, eu simplesmente sei. — Ela deu de ombros. — Podemos continuar? — Ela girou a garrafa e parou em Sophie.
— Por que você sempre foi tão calada? — Emma murmurou.
— A maioria de nós aqui também é calada. Tirando Natasha e talvez Madeline. — Sophie deu de ombros. — Mas, meu motivo é a separação dos meus pais que ainda me afeta... Ou afetava.
— Têm algum segredo? — Matthew deu de ombros tomando um gole do refrigerante.
— Qual é! — Natasha balançou a cabeça. — Todo mundo têm segredos!
— Digo qual é o seu segredo sombrio? Aquele que não têm coragem de contar a ninguém? — Matthew sussurrou.
— Por que quer saber? — Sophie perguntou friamente.
— Isso é um jogo da verdade, queria perguntas idiotas como “Qual é o seu sabor de sorvete favorito?” — Matthew devolveu no mesmo tom frio.
— Acho melhor pararmos aqui. — Sophie disse amassando a garrafa.
— Qual é! — Natasha gritou. — O que você esconde que é assim tão terrível?!
Sophie se levantou, assim como todos os outros.
— Eu prometi Okay? Prometi que iria tentar mudar! Porque não começa muda também?! — Natasha continuou gritando.
— O que eu tenho que mudar?! — Sophie gritou.
— Esse seu jeito! Você é toda estúpida! — Natasha deu um sorriso sarcástico. — Sempre tenta ter as melhores notas e ser alguém normal. Mas, não consegue ser!
— Quer saber por que sou assim, droga?! — Sophie estava chorando. — Por que eu pratico a bulimia!
Todos ficaram em silêncio, mas Charlotte logo rompeu o silêncio:
— Já tentou tratamento? — Sophie soltou uma gargalhada irônica.
— Eu? E você? Por que se corta?
— Achei que não estávamos mais jogando. — Charlotte ergueu uma sobrancelha.
— Por que não conta logo?
— Okay. Corto-me simplesmente por minha mãe jogar as responsabilidades maternas dela em cima de mim. Cuido dos meus dois irmãos faz muito tempo, enquanto minha mãe sai para se divertir com outros caras. Quer mais? Meu pai não dá a mínima por mim. Sabe o que ele me disse no meu aniversário passado? “Ah desculpe, querida, mas não posso ir te ver, tenho assuntos mais importantes para tratar”. — Charlotte começou a chorar também.
— Sério que esse é o seu motivo, para se cortar? — Natasha perguntou incrédula. — E qual é o seu, esquisito?
Todos olharam para Matthew.
— Pare de ser tão babaca, está bom?! — Matthew exclamou. — Acha que o motivo precisa ser convincente para você? Você é estúpida, Natasha. Você não sabe o que é se sentir na pele de pessoas que tentaram ficarem bem com tudo, todos malditos dias até chegar ao ponto de se aliviar maltratando o próprio corpo! A vida não é perfeita!
— E daí? Eu sei que ela não é perfeita! Mas, isso não é motivo suficiente para se cortar que nem um idiota!
— Que nem um idiota?! — Matthew sorriu. — Eu chego todos os dias e sabe o que eu recebo? Um olhar de desprezo do meu próprio pai e um olhar de culpa da minha mãe. Meu pai sai e bebe todas no bar, volta para casa e grita com minha mãe, dizendo o quanto ela foi uma burra por me colocar no mundo, que tudo é culpa dela. Mas, é eu sou um idiota por ficar ouvindo todas as noites minha mãe chorando escondida no banheiro. Ah! Quase ia me esquecendo! Como pude me esquecer disso! — a voz dele soou como uma atuação. — Tenho que enfrentar olhares bizarros em todo canto que vou e ainda suportar você, droga!
Novamente o silêncio tomou conta da biblioteca.
— Gente, por favor, vamos parar com isso. — Emma sussurrou, mas Natasha a ignorou.
— É eu estava enganada. Você não é um idiota. E sim um grande e estúpido covarde! — Natasha cuspiu as palavras com arrogância.
Matthew começou a tremer e Madeline reparou.
— Natasha, cale a boca droga! Não piore as coisas!
— Piorar? Diz à garota que é um cachorrinho de estimação do pai. — ela sorriu.
— Natasha, pare... — Sophie sussurrou.
— Eu me faço a mesma pergunta todos os dias. — Charlotte murmurou. — Onde está seu coração?
— Ele parou de bater faz tempo! — Natasha exclamou. — Quando pisaram nele como se fosse um nada! Sabe por que eu faço isso com vocês? Por que um dia a vida me fez o mesmo! Humilharam-me e me fizeram me sentir um nada!
— Isso não é motivo para você fazer o que faz. — Matthew resmungou. — Poderia se tornar uma pessoa melhor e fazer diferente.
Natasha estava chorando. Seus joelhos cederam e ela caiu.
— Eu não consigo! — ela gritava para si mesma. — Não, depois de sofrer tanto.
Matthew caminhou até Natasha, as garotas olharam atentas e se preparando para caso ele fosse estapeá-la ou algo pior. Mas, Matthew fez algo que fez todas arregalarem os olhos até Natasha. Ele se agachou e tocou sua bochecha.
— Então aceite ser ajudada. — Ele sussurrou. — É isso o que todos nós precisamos. De ajuda.
— Matthew... Mas, e minha popularidade? — Natasha soluçou.
— Acho que um dia vai notar que isso é uma grande perda de tempo. — Sophie disse se ajoelhando ao lado deles.
— O que iremos fazer? — Charlotte sussurrou se ajoelhando também, assim como Emma e Madeline. Natasha limpou os olhos e suspirou.
— Acho que sei o que é melhor. — ela disse com dificuldade. — Talvez, esteja na hora de aceitarmos a diferença um dos outros.
— Está dizendo para a gente se tornemos amigos? — Madeline perguntou incrédula.
— Poderíamos tentar. — Natasha sussurrou.
— Estaria decretando o fim de popularidade. — Emma disse. — Sabe disso?
— Sei. — Natasha disse com mais confiança. — Mas, se eu tenho que mudar. Primeiro tenho que mudar com todos vocês. Eu não espero um pedido de perdão, eu só quero fazer tudo diferente.
— Por quê? — Charlotte perguntou.
— Porque há pouco tempo atrás eu não sabia que Emma tinha medo das pessoas, não sabia que você se cortava por problemas familiares, o mesmo com Matthew, não sabia que Sophie tinha bulimia, e... — ela olhou para Madeline. — Bom, eu sei que têm medo de enfrentar seu pai, por que...
— Eu o amo. E tenho medo de ele não se sentir orgulhoso de mim...
— O que está tentando dizer? — Matthew sussurrou.
— Que eu sempre julguei cada um de vocês, sem nem saber o que passavam.
— Julgamos você também, pelo motivo de ser assim. — disse Emma sorrindo. Todos deram um sorriso.
— É, mas vocês tinham motivos para me odiar. — ela sussurrou. — Talvez, eu estaria no lugar de um de vocês, se não tivesse conquistado a popularidade.
— Conquistado? — Sophie perguntou.
— “A popularidade não se ganha, se conquista.” — Natasha revirou os olhos e deu um sorriso fraco. — Eu estou arrependida por tudo de ruim que eu fiz.
— Então... — Matthew disse se levantando junto com as garotas. — Um grupo?
— E se não der certo? — Sophie perguntou indecisa.
— Então cada um segue com sua vida, sem maldades. — Natasha sussurrou.
Antes que alguém pudesse dizer algo, eles ouviram um barulho de algo caindo. Eles se entreolharam assustados. Matthew encostou um dedo nos lábios e fez sinal para que ficassem calados. Juntos caminharam para o corredor, uma vassoura havia caído no chão.
— O que isso significa? — Matthew sussurrou.
— Que alguém deve ter ouvido tudo o que a gente disse. — Natasha sussurrou.
— Vamos embora daqui. — Madeline disse assustada.
E assim, todos foram em direções as suas casas. Agora, cada um tinha uma opinião formada sobre cada um deles. Mas, ainda assim todos estavam preocupados com quem quer que tenha ouvido a conversa deles.
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