Acasos

1 Apresentações


— Eliza, é a décima vez que eu te chamo! Tem certeza que quer se atrasar no primeiro dia do curso?

Acordei desesperada com os gritos de minha mãe, era o primeiro dia de aula no curso de pintura eu estava empolgada há dias para que começasse logo, mas ela tinha razão em estar gritando, faltavam só vinte minutos para dez horas, que no caso, era o horário que a aula começaria. Dei um pulo da cama e corri para tomar um banho, quando finalmente terminei de me aprontar escolhendo rapidamente algo que me caísse bem, fui tomar café da manhã.

— Você sempre se atrasa, será que nunca vai tomar jeito?

— Se o sono deixasse... — meus olhos ainda estavam pesados de sono.

— Continue insistindo em dormir tarde e ele nunca vai deixar — ela parou por um instante e abriu um sorriso – Ansiosa?

Minha mãe sabia mais do que qualquer pessoa o quanto pintar era importante para mim, era meu jeito de me expressar e de liberar todas as minhas emoções, era simplesmente incrível. Desde criança sempre tive muitos problemas com minha autoestima, e isso me tornava cada vez mais insegura. No ensino fundamental eu me achava feia e sem graça, quase como o patinho feio da sala, e meus colegas ajudavam a reforçar isso, seja com palavras ou com atitudes e era nas minhas telas que eu liberava toda essa tensão. Claro que ao longo dos anos eu fui melhorando, e aprendendo a lidar com esses problemas, mas vez ou outra eu era ainda atingida, no auge dos meus dezessete anos...

— Com certeza, mãe – respondi.

Enquanto comia sentia meu estômago se revirando, era difícil comer assim. Talvez eu estivesse mais ansiosa do que devia, outro pequeno problema meu, criar expectativas demais.

Quando terminei de comer, minha mãe me levou para a aula. Saímos de casa faltando cinco minutos para as dez. Assim que nós chegamos ao prédio eu me despedi rapidamente, e andei apressada em direção à porta. Quando entro na recepção, o coração acelerado por nervosismo e pela pressa em chegar lá, acabo me deparando com várias pessoas mais ou menos da minha idade, todos olharam para mim, senti as bochechas queimarem de vergonha. Decidi então falar com a recepcionista e descobri que o curso começaria um pouco mais tarde devido a um imprevisto com a professora. Respirei aliviada e fui tentar achar um lugar para me sentar. Fiquei parada olhando por toda a recepção, todas as cadeiras estavam ocupadas, quando resolvi apenas esperar de pé próxima aos outros alunos fui surpreendida com uma pancada nas costas.

— Ai meu Deus! Foi sem querer, eu juro.

Quando olho para trás uma garota um pouco mais baixa que eu tentava equilibrar um suporte para tela, ela pedia desculpas insistentemente. Senti uma certa compaixão por ela, no fim das contas, eu também era muito desastrada.

— Ah, tudo bem, não doeu...

— Tem certeza? Eu não fiz por querer é que eu sou meio desastrada mesmo...

— Sério, não precisa se preocupar.

Novamente, estavam todos olhando para mim... Ou melhor, para a gente.

A garota então pareceu mais aliviada, de repente abriu um sorriso e esticou a mão em minha direção.

— Olá, eu me chamo Gisele, estarei participando das aulas de pintura, e você?

— Hm... Sou Elizabete, mas pode me chamar de Eliza, também cursarei as aulas de pintura.

— Legal! Poderemos ser amigas então, prometo não te atingir com mais nada.

Ela parecia bastante simpática, era pálida feito um papel, cabelos escorridos e um sorriso largo. Tentei sorrir gentilmente.

— Claro

De repente todos olharam em direção a porta, quando me virei para olhar também, avistei uma mulher de cabelo ruivo, na altura dos ombros, com um jeito jovial, ainda que seu corpo denunciasse uns quarenta anos, ela entrou e olhou cada um de nós como se nos analisasse.

— Então, estão prontos?

Uns fizeram silêncio, outros murmuravam desconfiados e a maioria soltou gritinhos de animação. Gisele me olhou com empolgação, retribui com um sorriso sem graça.

— Vamos, vamos meus queridos jovens artistas, já nos atrasamos demais – sua expressão mudou, parecia um pouco mais séria — e quanto ao meu atraso, gostaria desde já de me desculpar com todos por esse pequeno inconveniente...

— ESPEREM POR MIM!

A fala da professora foi interrompida por um grito vindo do lado de fora da recepção, todos olharam para descobrir de quem era aquela voz, até que surge na porta um garoto descabelado, com uma mochila enorme e as mãos ocupadas com várias pastas.

— Atrasado como sempre.

— Bem, pelo visto não sou o único atrasado hein, tia Flora?

— Aqui eu não sou sua tia, me trate como sua professora assim como todos os outros.

Ela então se virou e fez sinal para que a seguíssemos. O garoto balançou a cabeça e seguiu. Fomos todos andando ao longo de um corredor estreito até que chegamos a uma sala com o número 8, seguido logo a baixo pelo nome “Sala de Pintura”, ela abriu a porta e adentramos a sala, cada um procurando um lugar. Eu me sentei em uma das cadeiras que ficavam no meio, próximo à parede, Gisele sentou-se ao meu lado. Havia murmúrios por toda a sala, risinhos e conversas paralelas.

— Antes que todos se acomodem, gostaria de avisar que nesse primeiro dia de aula vamos todos nos sentar em círculo, por isso, gostaria que arrastassem as cadeiras aqui para o centro.

Todo mundo fez o círculo, até que estávamos todos ali, em silêncio olhando uns para os outros. Aquilo estava me deixando desconfortável. Vi o garoto de antes novamente, sentado do lado oposto ao meu. Ele tinha cabelos escuros, levemente ondulados que iam um pouco abaixo das orelhas, seu rosto era sério, o que contrastava com ar divertido de mais cedo. E então, quando parei para notar a cor dos olhos, castanhos, ele percebeu meus olhos o fitando. Eu virei o rosto depressa, por sorte, nesse mesmo momento a professora Flora começou a falar.

— Então, como é o primeiro dia de aula eu gostaria que começássemos nos apresentando, assim podemos nos conhecer melhor, vou começar por mim e em seguida vocês vão se apresentando a partir da minha direita, certo?

Todos balançaram a cabeça em sinal de afirmação, felizmente eu estava bem distante então teria bastante tempo para planejar o que falar e me controlar para não começar a gaguejar. Ela levantou e foi ao centro do círculo. Teríamos todos que fazer aquilo? Eu comecei a me estremecer na cadeira só de pensar.

— Meu nome é Flora, tenho 38 anos e a pintura para mim é como – ela pareceu refletir por um instante – deixar transbordar um pouco de minha alma pelos dedos, pegar o pincel e transmitir tudo para uma tela ou um papel. Tenho um grande amor pela arte da pintura desde criança e segui nesse caminho até hoje como vocês podem ver – ela sorriu gentilmente e prosseguiu — Agora é a vez de vocês.

De acordo com a ordem dada cada foi tomando sua posição, alguns falavam muito, outros já se sentiam um tanto intimidados em falar sobre si mesmo, e a esses eu entendia bem. Sempre fui tímida e este tipo de exposição para mim era trágica, eu sempre gaguejava muito, me perdia nas palavras e ficava vermelha feito um tomate, eu achava isso ridículo, mas não conseguia controlar.

Tentei prestar atenção nos depoimentos, alguns era profundos e me deixavam admiradas, ouvi alguns relatando a pintura como uma espécie de superação para perdas, outros como uma maneira de expressar suas emoções, até que chegou a vez do garoto. Tentei não olhar muito para o seu rosto, ainda com vergonha por ter sido pega no flagra anteriormente.

— Bem, meu nome é Miguel, tenho 18 anos e eu gosto de pintar porque, sei lá, é divertido e talvez seja uma das únicas coisas em que eu sou realmente bom.

Que inspirador... Como ela podia ter apenas aquilo para falar sobre algo tão belo? E meio convencido pelo que parece. Confesso que fiquei desapontada, esperava ouvir algo pelo menos um pouco mais... intenso.

Depois de mais umas cinco pessoas, chegou à vez da Gisele. Eu até estava simpatizando com ela, mesmo que tenhamos nos conhecido devido a ela atacar (acidentalmente) as minhas costas. Ela se levantou e foi em direção ao centro do círculo. Eu sorri tentando encorajá-la

— Eu sou a Gisele, tenho 16 anos e penso que a pintura seja a melhor coisa que faço na minha vida – ela pareceu estar indecisa sobre algo, até que ergueu a cabeça e continuou – quando eu tinha oito anos, eu perdi minha avó, ela era muito importante para mim, e desde sempre foi ela quem me incentivou a pintar e eu devo tudo o que aprendi até hoje a ela, por isso quero me tornar cada vez melhor para que onde quer que esteja, ela se sinta orgulhosa de mim.

Nesse momento notei que uma garota revirava os olhos impaciente, aquilo me irritou. Era uma garota bonita, de cabelo curto desfiado em um corte channel de nariz arrebitado. Será que ela não tinha senso de sensibilidade?

Gisele voltou ao seu lugar, parecia feliz e triste ao mesmo tempo, eu pus a mão no seu ombro em um gesto de consolo, ela tinha sido muito corajosa em se abrir na frente daquelas pessoas, eu certamente não faria o mesmo.

Era a minha vez, eu tentei me acalmar ao máximo enquanto caminhava, me posicionei e notei todos me fitando, Miguel me lançou um olhar desafiador, provavelmente uma vingança pelo que fiz. Engoli em seco.

— Me chamo... Elizabete, tenho 17 anos e pintar é – tive que encarar meus pés para falar — algo muito importante para mim, é uma forma de liberar tudo que sinto...

Fez-se silêncio por toda a sala, eu sorri um pouco tentando não parecer tão esquisita e voltei rapidamente para o meu lugar. A garota de cabelo curto ergueu uma sobrancelha me olhando como se eu fosse um ET, e foi quase assim que eu me senti...

Prestei bem atenção quando foi à vez dela para saber quem era aquele ser tão irritante.

— Meu nome é Denise, tenho 17 anos e sou filha de uma grande artista plástica, por isso desde criança sempre tive contato com a arte e me apaixonei não só pela pintura, como pelo teatro e a fotografia.

Todos olhavam impressionados como se ela fosse uma espécie de celebridade. Não gostei dela, era o que eu tinha a concluir.

Depois que todos se apresentaram, Flora começou a explicar como funcionariam as aulas. No começo trataríamos apenas de teoria, alguns suspiraram emburrados quando essa parte foi mencionada, depois disso finalmente teríamos a parte prática. As horas se passaram rápido, hoje tinha sido praticamente uma apresentação do curso. Ao meio dia todos fomos liberados, me despedi da Gisele, que me passou seu número para pudéssemos nos falar outras vezes, depois ela seguiu a pé carregando seu suporte, que se mostrou totalmente desnecessário já que ninguém pintou nada, eu desejava profundamente que ela não atingisse mais ninguém com aquilo.

Eu resolvi me sentar em um dos banquinhos que ficavam logo a frente do prédio, minha mãe provavelmente chegaria em poucos minutos. Miguel estava próximo a uma árvore do outro lado da rua esperando alguém. Tentei não olhar muito para lá para não passar pela mesma situação de antes. Ele era bonito, isso eu tinha que admitir, mas eu não queria dar entender que estava interessada nele, não era o caso.

Minha mãe chegou pouco tempo depois e então fomos para casa.

— Quero saber de tudo, como foi seu primeiro dia?

Eu caí no sofá encarando o teto

— Foi legal, a professora parece ser gente boa e acho que arranjei uma amiga.

— Sério? Isso é ótimo – ela se sentou do meu lado e me lançou um olhar divertido – E os gatinhos?

Eu joguei a mão no rosto

— Tem alguns meninos bonitinhos... Mas nada em particular.

— Hmm... Ok então — ela me olhou desapontada e saiu para preparar nosso almoço, a minha resposta aparentemente não renderia as fofocas que ela esperava ouvir

A maioria dos alunos tinha mais ou menos a mesma faixa etária que eu, o aluno mais velho tinha 22 anos. Alguns eram até bonitos, não eram nada de surpreendente, mas ainda assim não eram terríveis.

O mais bonito entre eles era Miguel... Por que caras bonitos não podiam ser inteligentes e sensíveis?

“...eu gosto de pintar porque, sei lá, é divertido e talvez seja uma das únicas coisas em que eu sou realmente bom...”.

Que criativo.