Acasos
2 Ironias
Minha semana no colégio foi um pouco tensa, estávamos perto de terminar o terceiro ano e os simulados para o vestibular eram constantes. Eu estava um pouco confusa com tudo isso, a grande quantidade de provas, e a pilha de conteúdos para estudar, revisar... Eu precisava tomar as rédeas da situação para não perder o juízo.
Felizmente tinha algo diferente para prender minha atenção nos momentos livres, a pintura. Com o começo do curso eu havia comprado muitos materiais novos, e estava animada para usá-los, mas apesar do ânimo, sempre tinha problemas com bloqueio criativo ainda mais com todo o estresse causado pelo colégio, mas ainda assim queria me distrair, comecei a pincelar coisas aleatórias e aos poucos comecei a esboçar dois olhos, com leveza, até que achei os olhos familiares, resolvi terminar o rosto, tentei lembrar o máximo de detalhes, e então, lá estava ele, Miguel.
O rosto dele no momento em que me notou o observando, ficara gravado na minha memória. Ele tinha belos olhos, eram intensos e prendiam a atenção de qualquer garota com muita facilidade, ele podia usar isso para conquistar várias, devia ser o tipo pegador, não tinha cara de alguém romântico, mas tenho que admitir que é difícil deduzir algo com tanta certeza depois de conhecê-lo por apenas algumas horas.
Na quarta, recebi uma mensagem da Gisele me chamando para irmos para ao cinema ver um filme que tinha acabado de sair e ela estava louca para ver. Acabei aceitando o convite, não parecia uma má ideia sair um pouco e o filme até parecia interessante.
— Mãe, eu vou sair hoje à noite – falei enquanto ela se ocupava em preparar seu café.
— Sair com quem?
— Com a Gisele, a garota que falei que também faz o curso de pintura.
— E vocês vão para onde?
— Vamos só ver um filme e depois comer alguma coisa.
— Hm... Tudo bem, só tenta não vir muito tarde, você sabe que seu pai não gosta, e eu também não gosto de você perambulando por aí tarde da noite. É perigoso.
— Não se preocupe, eu vou chegar cedo.
Ela sorriu para mim e continuou sua tarefa, quando eu já ia virando em direção ao meu quarto ela falou:
— Arranje uma roupa bem bonita, vai que você encontra alguém... Interessante por lá – e soltou um risinho
— Eu só vou ver o filme mãe, nem começa.
Quando chegou perto da hora combinada, comecei a me arrumar. Vesti um vestido soltinho florido que eu adorava, coloquei um casaquinho por cima, e calcei meus sapatos. Dei uma última olhada no espelho, peguei minha bolsa e desci.
— Estou indo mamãe!
— Se cuide, querida.
Quando cheguei ao cinema, Gisele estava logo na frente com as entradas. Ela me deu um abraço, estava muito animada, o que era contagiante.
— Vamos comprar as pipocas e o refrigerante.
Depois que compramos tudo fomos para a sala, estava lotada. O filme passou bem rápido na verdade, mas tinha sido ótimo, afinal de contas tinha sido uma boa ideia sair, a minha mente ficou livre de toda aquela carga tensa de coisas relacionadas à escola.
Quando saímos da sala, Gisele me chamou para irmos comer alguma coisa numa lanchonete muito famosa que ficava bem próxima do cinema, a Dancing Queen, além de lanchonete também funcionava nela uma danceteria e um karaokê, era um lugar animado com gente de toda idade, mas principalmente jovens. Eu só tinha ido lá uma vez quando fui ao cinema com minha prima Eloisa, que é consideravelmente, o que eu poderia chamar de melhor amiga. Quando entramos fomos atingidas pelo som frenético de uma música eletrônica, que tocava e junto várias pessoas dançavam animadas, era um ambiente que não permitia que você ficasse “pra baixo”. Toda decoração era bem destacada e com cores marcantes, havia luzes dispostas em vários lugares que lembravam holofotes.
— Esse lugar é simplesmente incrível não acha Lizzy? — ela pareceu receosa por um instante — Tudo bem se eu te chamar assim? Nem sei se você gosta...
— Tudo bem, eu gosto e o lugar é realmente ótimo.
Procuramos um lugar um pouco mais afastado para nos sentarmos e então fizemos nosso pedido. O lugar estava cheio e tanto o karaokê como a parte da danceteria estavam praticamente lotados.
— Você costuma sair muito, Lizzy? – perguntou-me Gisele enquanto pegávamos nosso pedido.
— Não muito na verdade, eu não tenho muitos amigos, então geralmente não tenho lugares interessantes pra ir, nem com quem ir.
— Ah, entendo – ela pareceu ainda mais curiosa – E você tem namorado?
Eu fiquei meio sem graça em responder. Eu nunca tinha tido um namorado, eu já tinha gostado de um cara há uns 2 anos, sendo que entre nós só aconteceu um único beijo, e inclusive, depois disso ele simplesmente sumiu. Até hoje eu me sinto mal por isso, será que tinha sido tão ruim assim? Era algo que eu me perguntava as vezes, nunca soube a explicação daquilo e preferia ocultar esse evento da minha vida de tão ridículo que eu considerava.
— Bem, eu nunca namorei na verdade. Acho que não levo jeito pra essas coisas.
— Poxa vida, mas você nunca nem ao menos beijou alguém? – ela parecia chocada
— Sim, uma vez...
— Só uma vez? – ela riu – Você precisa conhecer pessoas novas.
Começou a tocar uma música nova na área do karaokê, ela arregalou os olhos e se virou rápido para olhar, eu também virei. Era um grupo de rapazes, dois deles subiram para cantar e os outros ficaram em baixo apenas dando apoio.
— Eu amo essa música! Vamos ver de perto, rápido.
Do nada eu estava sendo arrastada em direção ao karaokê, quando chegamos mais perto, Gisele começou a balançar os braços, outras pessoas também estavam se agrupando para assistir a apresentação dos rapazes, até que um deles virou em direção ao pessoal.
— Caramba, olha é o Miguel do curso.
Eu gelei.
— Você o conhece? — Perguntei quase gritando em meio ao barulho.
— Claro, nós estudamos na mesma escola, só não somos tão próximos.
Ele virou outra vez, parecia saber a música de cor, nem precisava olhar a letra, até que ele nos notou em meio aos outros.
— Ele tá olhando pra você Lizzy! Hmmm...
Eu virei o rosto disfarçadamente, em seguida olhei para Gisele.
— Sério? Eu nem notei – ela me olhou com um sorriso perverso e ergueu uma sobrancelha.
Quando a música acabou, todos bateram palmas. Ele não era exatamente um cantor profissional, desafinou um pouco, mas nada de tão gritante. Senti minhas pernas perderem um pouco de suas forças quando notei que ele estava vindo na nossa direção.
— E aí Gisa, tudo bem? – Disse ele abraçando-a logo em seguida.
— Oi Miguel, tudo tranquilo. Arrasou hein? Adoro aquela música
— Ah, valeu, também curto pra caramba – ele virou para me olhar como se perguntasse quem era aquela.
— Essa daqui é a minha amiga Elizabete, ela faz o curso de pintura com a gente.
— Sabia que te conhecia de algum lugar — disse ele sorrindo — Olá Elizabete
— Olá – minha voz saiu num volume quase inauditível.
— Por que vocês não sentam um pouco com a gente?
“Respire fundo e aja naturalmente” – pensei.
— Claro, vamos Lizzy?
— Sim...
Ela me analisou por um momento, deu de ombros e seguiu.
Sentamos com junto dele e um outro garoto, o restante do grupo estava disperso pelo salão. Todos nos apresentamos entre si e em pouco tempo todos estavam conversando. Percebi uma certa afinidade entre a Gisele e outro cara, que se chamava Vítor, ela trocava sorrisos com ele e ria de tudo que ele dizia. Enquanto todos conversavam, eu permaneci imóvel, apenas balançando a cabeça ou sorrindo quando alguém dizia algo engraçado. Até que o Miguel decidiu focar em mim, seus olhos me analisaram por alguns instantes, eu engoli em seco.
— Você fala de mais Eliza.
Haha, a melhor piada. Era de se esperar vindo de quem veio. Eu ainda não tinha engolido bem a história da apresentação no primeiro dia do curso.
— Estou apenas acompanhando a conversa. — Seu rosto ganhou um ar divertido depois dessa afirmação, parecia desafiado.
— Por que não fala sobre você?
— Bem... O que você quer saber necessariamente?
— Qualquer coisa
Os outros pararam a conversa como se aguardassem uma disputa num jogo de cartas.
— Eu sou uma pessoa tímida, tenho uma grande paixão pela pintura, estou prestes a terminar o ensino e tenho uma certa aversão a pessoas superficiais...
Céus, eu deveria realmente evitar abrir a minha boca.
— Hm, ok então. — Seu rosto mudou de desafiado para simplesmente desinteressado.
O Vítor sorriu como se entendesse o que eu havia dito. Ele era um rapaz muito atraente, seus olhos eram de um tom castanho extremamente escuro, o sorriso largo e um cabelo liso bagunçado com gel, e pelo jeito como a Gisele olhava para ele, eu não parecia ter sido a única a perceber.
Depois do meu comentário, Miguel não direcionou mais a conversa para mim. Eles se despediram logo depois de mais uma rodada de conversas aleatórias, indo em direção aos outros.
Gisele pareceu um tanto desapontada por não ter falado com o Vítor por mais tempo, mas logo recuperou o sorriso,ou pelo menos queria parecer que tinha recuperado, até que o celular dela tocou.
— Lizzy, eu só vou atender lá fora rapidinho por causa do barulho, já volto.
— Tudo bem, pode ir.
Enquanto ela saía, vi os garotos conversando com uma atendente que estava num balcão não muito longe de onde eu estava. Procurei desviar o olhar para que não percebessem que eu estava observando, mas quando olhei de volta, a atendente estava vindo em direção a minha mesa. Ela parou quando estava de frente comigo e me entregou um papel.
— Mandaram isso pra você.
Eu fiquei feito estátua encarando o papel
— Quem mandou?
— Não posso dizer só me pediram pra entregar à senhorita.
— Bem, obrigado então...
Assim que a atendente virou as costas, curiosa como sou, abri o papel rapidamente, e quando eu li o que tinha escrito meu choque se intensificou.
(56) 9778-9456
Gostei de você, moça.
Manda uma mensagem quando puder
Vítor
Antes que a Gisele chegasse, amassei rápido o papel e joguei na bolsa. Olhei mais uma vez para onde estavam os garotos. Vítor estava olhando sorridente, o que me deixou sem graça, e o Miguel já não estava mais lá.
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