Acaso ou destino

11 Capítulo 10 - O primeiro ataque


A iluminação de emergência tingia os corredores do hospital de vermelho.

Do lado de fora da sala, portas se fechavam e vozes assustadas se misturavam ao som dos alarmes. A mensagem transmitida pelos alto-falantes terminara, mas a ameaça continuava suspensa no ar.

Os Volturi viriam a Forks.

E não viriam sozinhos.

Jacob permaneceu diante de Sarah, mantendo o próprio corpo entre ela e a porta. Os músculos de seus braços tremiam, e a temperatura da sala parecia aumentar ao redor dele.

— Não se transforme — Carlisle advertiu. — Existem câmeras nos corredores.

— As luzes estão apagadas.

— O sistema de segurança possui bateria independente.

Jacob fechou as mãos.

— Então desligue as câmeras.

— Já foram desligadas — respondeu uma voz feminina do lado de fora.

Os dois se voltaram para a porta.

Uma mulher apareceu no corredor.

Era alta e muito pálida, com cabelos quase brancos presos em uma trança. Usava roupas escuras e caminhava com uma tranquilidade perturbadora, como se não houvesse pessoas correndo ou pacientes em perigo ao redor dela.

Seus olhos eram vermelhos.

Carlisle assumiu uma postura defensiva.

— Selene.

Um sorriso surgiu nos lábios da vampira.

— Carlisle Cullen. O médico morto que voltou a sentir o próprio coração.

Sarah percebeu que aquela era a mulher vista por Alice.

A vidente dos Volturi.

Selene inclinou ligeiramente a cabeça ao observá-la.

— E você deve ser a criança escondida.

Jacob avançou um passo.

— Dê meia-volta.

— O guardião — ela disse, ignorando a ameaça. — Imaginei que fosse maior.

Um rosnado escapou do peito dele.

Carlisle se colocou ao seu lado.

— Onde estão os outros?

— Perto o suficiente.

— O que fizeram com os funcionários?

— Nada permanente. A maioria está reunida no andar inferior, acreditando que existe um vazamento de gás. Seus colegas humanos são fáceis de conduzir quando pensam estar obedecendo a um protocolo de segurança.

Sarah tentou passar por Jacob.

Ele bloqueou seu caminho.

— Há pacientes ligados a aparelhos — ela disse. — Se desligaram a energia...

— O gerador está funcionando — Selene respondeu. — Não viemos matar seus pacientes.

— Então por que estão aqui?

A vampira se aproximou.

— Para conhecer você.

Jacob mostrou os dentes.

— Já chegou perto demais.

Selene parou.

Seus olhos se voltaram para a mão de Sarah, ainda unida à de Jacob.

— Interessante.

— O quê? — Sarah perguntou.

— Sua luz cobre o lobo.

Jacob apertou os dedos dela.

— Não responda.

— Ela não precisa responder — Selene explicou. — Meu dom não lê pensamentos. Eu vejo aquilo que existe por baixo deles.

Carlisle manteve os olhos no corredor.

— Você encontrou algum objeto da linhagem Mitena.

Selene sorriu.

— Uma pequena caixa de prata retirada de uma sepultura muito antiga. Dentro dela havia um pedaço de tecido manchado com o sangue da primeira mulher.

Sarah sentiu o estômago se contrair.

— Vocês profanaram o túmulo dela.

— Ela estava morta havia mais de quinhentos anos. Não acredito que tenha se importado.

A marca no ombro de Sarah começou a arder.

— Foi assim que me encontrou?

— Foi assim que soubemos que nasceria. Durante séculos, o tecido permaneceu escuro e silencioso. Então, vinte e quatro anos atrás, a mancha começou a brilhar.

— No dia em que nasci.

— Exatamente.

Sarah recordou os anos de medo vividos pela mãe.

— Se sabiam que eu existia, por que esperaram?

— A luz desapareceu pouco depois de seu nascimento. Sua mãe foi mais habilidosa do que imaginávamos.

— Mas vocês a encontraram.

Selene observou a reação dela com curiosidade.

— Tarde demais. Sophia já estava doente quando a localizamos. A morte dela produziria o resultado de que precisávamos.

Jacob avançou antes que alguém pudesse detê-lo.

— Vocês a mataram?

Selene não recuou.

— Não foi necessário. A doença fez o trabalho.

— Responda — Sarah exigiu. — Os Volturi causaram a doença de minha mãe?

Pela primeira vez, a tranquilidade da vampira diminuiu.

— A morte de Sophia já estava próxima quando a encontramos. Apenas garantimos que ela compreendesse o perigo.

Sarah sentiu o ar desaparecer dos pulmões.

— Vocês falaram com ela.

— Uma única vez.

— O que disseram?

— Que não poderia esconder você para sempre.

As lágrimas se formaram nos olhos de Sarah, mas ela se recusou a permitir que caíssem.

— Foi por isso que ela me mandou a La Push.

— Sua mãe fez uma escolha inteligente. Sem os lobos, você já estaria a caminho de Volterra.

Jacob soltou a mão de Sarah.

— Fique com Carlisle.

— O que vai fazer?

— Tirar essa coisa do hospital.

— Não pode se transformar aqui.

— Não preciso me transformar para isso.

Selene soltou uma risada baixa.

— Aro não me enviou para lutar com você.

— Então não deveria ter vindo.

— Fui enviada para entregar uma mensagem e confirmar o despertar.

— A mensagem foi entregue — Carlisle disse. — Agora vá embora.

Selene olhou para o corredor atrás de si.

— Ainda não terminamos.

Dois homens surgiram na iluminação vermelha.

Um era alto e de cabelos escuros. O outro possuía cabelos castanhos presos na nuca. Ambos tinham olhos vermelhos e vestiam roupas semelhantes às de Selene.

Jacob aspirou o ar.

— Foram vocês que estiveram perto da casa.

— Estávamos observando — respondeu o homem de cabelos escuros.

— E o vampiro que atacou a matilha?

— Agiu sem autorização — Selene explicou. — A promessa de um lugar na guarda atrai criaturas ambiciosas. Aro não lamentará sua morte.

Carlisle olhou para ela.

— A recompensa não partiu dos Volturi?

— Partiu de alguém que deseja impressioná-los. Existem muitas disputas em Volterra, mesmo quando Aro finge não perceber.

Sarah tentou organizar a informação.

— Então há outros me procurando.

— Muitos — Selene respondeu. — Alguns querem entregá-la aos Volturi. Outros pretendem conservar seu poder para si. Em breve, perceberá que Volterra é o único lugar verdadeiramente seguro.

— Uma prisão não é segurança.

— Todas as pessoas vivem dentro de alguma prisão. Algumas apenas possuem paredes mais bonitas.

Jacob começou a tremer com maior intensidade.

Carlisle percebeu que faltava pouco para a transformação.

— Selene, retire seus acompanhantes e deixe o hospital.

— Depois de confirmarmos uma última coisa.

O homem de cabelos castanhos desapareceu do corredor.

Jacob girou o corpo, tentando acompanhar o movimento.

Um grito surgiu no andar inferior.

Sarah reconheceu a voz de uma enfermeira.

— O que fizeram?

— Trouxemos uma pequena demonstração — Selene respondeu.

O sistema de comunicação voltou a funcionar.

A voz do vampiro ecoou pelos alto-falantes:

— Sala de espera do primeiro andar. Uma mulher, dois homens e uma criança. Escolha um deles.

Sarah sentiu o sangue gelar.

— Escolher para quê?

— Para salvar — Selene respondeu. — Queremos descobrir se seu poder depende da proximidade da morte.

Carlisle avançou.

— Isso acaba agora.

Um estrondo atingiu o andar inferior.

Depois, gritos.

Sarah correu para a porta.

Jacob a segurou pela cintura.

— Não.

— Há pessoas lá embaixo.

— É uma armadilha.

— Eu sei.

— Então não vai.

— Se alguém está ferido por minha causa...

— Foi ferido por eles.

— Isso não muda o que preciso fazer.

Selene observava a discussão com interesse.

— A lenda não exagerou sobre o coração dela.

Jacob virou-se para a vampira.

— Se alguma dessas pessoas morrer, vou arrancar sua cabeça.

— Então é melhor permitir que Sarah desça.

Carlisle se aproximou de Jacob.

— Eu irei primeiro.

— Não sem a família.

— Alice deve ter visto o ataque.

Como se respondesse ao chamado, o som de vidro se quebrando ecoou do outro lado do hospital.

Em seguida, um impacto fez as paredes estremecerem.

Selene perdeu o sorriso.

Edward apareceu no final do corredor, acompanhado por Bella, Jasper e Emmett.

— Você deveria saber que Alice vê as decisões depois que são tomadas — Edward disse.

O vampiro de cabelos escuros avançou sobre ele.

Emmett interceptou o ataque, lançando a criatura contra a parede. O concreto se partiu, mas o ruído foi abafado pelos alarmes.

Jasper se moveu para ajudar.

O terceiro vampiro surgiu atrás de Sarah.

Jacob a empurrou na direção de Carlisle e recebeu o ataque no lugar dela. Os dois atravessaram a porta de uma sala vazia e desapareceram entre móveis quebrados.

— Jacob! — Sarah gritou.

Bella segurou seus ombros.

— Fique perto de mim.

Uma barreira invisível se expandiu ao redor delas.

Selene ergueu a mão.

O ar pareceu vibrar.

Sarah sentiu uma pressão tentar atravessar sua cabeça. Não era dor, mas uma força que procurava algo dentro dela.

A barreira de Bella se manteve.

— O que está fazendo? — Bella perguntou.

— Procurando o limite da luz.

Selene pressionou novamente.

Bella recuou um passo.

Sarah sentiu a própria marca arder.

Instintivamente, segurou a mão da vampira ao seu lado.

Uma luz prateada se espalhou pelos braços das duas.

O escudo de Bella se expandiu de maneira abrupta.

A barreira atravessou o corredor, envolveu Carlisle, Edward, Jasper e Emmett e alcançou até mesmo Jacob na sala destruída.

Edward deixou de ouvir todos os pensamentos.

Jasper perdeu a capacidade de sentir as emoções.

Selene cambaleou.

— Impossível.

Bella olhou para Sarah.

— Você ampliou meu escudo.

— Não sei como.

— Continue segurando minha mão.

O homem que lutava com Emmett tentou fugir. Edward o interceptou sem depender da leitura mental. Jasper aproveitou o movimento e o imobilizou.

Na sala ao lado, Jacob lançou o outro vampiro pelo buraco aberto na parede. Seu corpo tremia, mas ele ainda resistia à transformação.

— Sarah! — chamou.

— Estou bem!

O alívio quase o fez perder a concentração.

Selene observou a luz ao redor das mãos de Sarah e Bella.

— Aro ficará satisfeito.

Carlisle avançou.

— Ele não receberá nada.

— Já recebeu.

Ela tocou um pequeno medalhão preso ao pescoço.

— Tudo o que vejo é enviado a ele através deste objeto.

Edward tentou ler seus pensamentos, mas o escudo ampliado o impedia.

— Sarah, solte Bella — pediu.

— Por quê?

— Preciso saber como o medalhão funciona.

Bella retirou lentamente a própria mão.

A luz desapareceu.

Edward voltou a ouvir os pensamentos ao redor.

Seus olhos se fixaram em Selene.

— Quebre o medalhão.

Emmett reagiu imediatamente.

Lançou o vampiro que mantinha preso contra Selene e avançou em seguida. Ela desviou do corpo, mas não conseguiu impedir que Emmett arrancasse a corrente de seu pescoço.

Carlisle esmagou o medalhão sob o sapato.

Uma pedra vermelha se partiu.

Selene gritou.

Não de dor física.

De perda.

— Aro saberá que destruíram uma propriedade dos Volturi.

— Diga que enviaremos os pedaços — Jacob respondeu, surgindo no corredor.

Havia sangue em seu rosto, mas o ferimento já começava a fechar.

O terceiro vampiro apareceu atrás dele. Antes que pudesse atacar, um enorme lobo negro atravessou a janela do corredor.

Sam atingiu a criatura e a lançou para fora do hospital.

Outros lobos aguardavam no estacionamento.

Agora os três invasores estavam cercados.

Selene avaliou a situação.

— Não viemos iniciar uma batalha.

— Feriram pessoas para testar Sarah — Carlisle respondeu. — A batalha começou quando entraram neste hospital.

— Então permita que verifiquemos os feridos — Sarah exigiu.

Selene olhou para ela.

— Uma criança sofreu um corte. A mulher teve o braço quebrado. Um dos homens está inconsciente, mas todos continuarão vivos.

— Isso deveria tornar o que fizeram aceitável?

— Não procuro sua aprovação.

Sarah avançou, mas Jacob segurou seu braço.

— Não chegue perto dela.

Selene sorriu.

— Ouça o lobo, pequena lua.

— Meu nome é Sarah.

— Por enquanto.

O sorriso desapareceu dos lábios de Jacob.

— O que isso significa?

— Em Volterra, ela receberá o nome que corresponde ao lugar que ocupará.

— Ela não irá a Volterra — Bella afirmou.

Selene lançou um olhar para a vampira recém-transformada.

— Você abandonou o coração humano por vontade própria. Não finja que compreende alguém capaz de devolvê-lo.

Bella ficou imóvel.

Por um instante, Sarah sentiu a dúvida surgir nela.

Não arrependimento pela transformação, mas a memória de tudo o que perdera: o calor, o sono, o envelhecimento e a possibilidade de gerar outra vida.

Selene percebeu.

— Todos vocês desejam alguma coisa dela — continuou. — Carlisle deseja o coração. Esme deseja envelhecer ao lado do marido. Rosalie desejaria a maternidade. Bella talvez queira descobrir se ainda pode recuperar uma parte do que abandonou.

— Cale-se — Edward ordenou.

— E você, Edward? Não gostaria de voltar a ouvir o próprio coração enquanto segura a mulher que ama?

A sala ficou silenciosa.

Selene voltou os olhos para Jacob.

— Até mesmo o lobo deseja alguma coisa. Quer saber se o sentimento de Sarah será tão inevitável quanto o dele.

Jacob avançou.

— Eu disse para calar a boca.

Sarah segurou seu braço.

— Ela está tentando nos dividir.

Selene sorriu.

— Talvez. Mas uma mentira só divide quando encontra uma dúvida esperando por ela.

Sam retornou à forma humana do lado de fora. Vestiu a bermuda presa à perna e entrou pela janela destruída.

— Os outros lobos estão com os dois vampiros. Se algum tentar fugir, será destruído.

Carlisle olhou para Selene.

— Retire sua equipe. Informe a Aro que aceitaremos uma conversa na lua cheia, mas apenas nos termos apresentados por Sarah.

— Ele virá.

— Sem iniciar um ataque.

— Isso dependerá do que encontrar.

Jacob soltou um rosnado.

Selene recuou pelo corredor.

— Dez dias, Filha da Lua.

Sarah sustentou seu olhar.

— Meu nome é Sarah Mitena Ateara.

— Veremos qual nome usará depois de conhecer Aro.

Os vampiros se retiraram.

Do lado de fora, a matilha abriu passagem apenas o suficiente para que corressem em direção à floresta. Edward, Jasper e Emmett os seguiram para garantir que deixassem a cidade.

Quando o silêncio voltou ao corredor, Sarah se lembrou das pessoas no andar inferior.

— Os feridos.

Carlisle e Bella a acompanharam pelas escadas. Jacob permaneceu ao lado dela, apesar do sangue no rosto e da roupa rasgada.

— Você também precisa ser examinado — Sarah disse.

— Depois.

— Isso parece familiar.

— Aprendi com você.

Na sala de espera, encontraram quatro pessoas assustadas.

Uma enfermeira segurava o braço em uma posição anormal. Dois homens estavam conscientes e apresentavam ferimentos leves. Uma menina de aproximadamente seis anos chorava, com um corte na testa.

O pai da criança estava desacordado no chão.

Sarah se ajoelhou ao lado dele.

— Pulso presente. Respiração regular.

Carlisle examinou suas pupilas.

— Foi sedado. Acordará em alguns minutos.

A menina olhou para o sangue no rosto de Jacob e se encolheu.

Ele recuou imediatamente.

Sarah percebeu.

— Jacob, espere no corredor.

— Não vou deixá-la.

— Há uma criança assustada. E você parece ter atravessado uma parede.

— Eu atravessei uma parede.

— Isso não ajuda.

Bella se aproximou dele.

— Ficarei com Sarah.

Jacob hesitou.

Sarah tocou sua mão.

— Confie em mim.

Ele concordou e saiu, embora permanecesse visível através da porta.

Sarah examinou a menina.

— Como você se chama?

— Lily.

— Eu sou Sarah. Posso ver seu machucado?

A criança assentiu.

O corte era superficial.

Quando Sarah aproximou os dedos, sentiu novamente a centelha.

Dessa vez, afastou-se.

Jacob observara.

Ela se lembrara da promessa.

— Carlisle, pode cuidar dela?

O médico percebeu o que acontecera.

— Posso.

A gratidão no olhar de Jacob atravessou a sala.

Sarah ajudou a imobilizar o braço da enfermeira e organizou os atendimentos. Nenhum dos feridos corria risco.

Somente depois que todos estavam seguros ela permitiu que o próprio corpo relaxasse.

O cansaço retornou de uma vez.

Jacob entrou e a segurou antes que perdesse o equilíbrio.

— Não usei o poder — ela explicou.

— Eu sei.

— Mesmo assim, estou cansada.

— Você passou por um ataque.

— Meu primeiro dia de trabalho foi um desastre.

— Salvou um homem, enfrentou três vampiros e ampliou um escudo sobrenatural.

— E nem completei a documentação de admissão.

Jacob riu.

O som diminuiu parte do medo acumulado.

Carlisle aproximou-se.

— Precisamos deixar o hospital antes que a polícia chegue. Consertaremos os danos e criaremos uma explicação para os funcionários.

— Que explicação pode justificar isso? — Sarah perguntou, olhando para a parede destruída.

— Explosão provocada por uma falha no sistema elétrico.

— Ninguém vai acreditar.

— As pessoas acreditam na explicação que lhes permite continuar vivendo normalmente — Carlisle respondeu.

Sarah olhou para a menina sendo atendida por Bella.

Depois para Jacob.

— Selene estava certa sobre uma coisa.

— Qual?

— Todos desejam algo do meu poder.

Jacob ficou sério.

— Eu não desejo.

— Ela disse que você quer ter certeza de que vou sentir o mesmo.

— Não preciso de um poder para isso.

— Não?

— Preciso de tempo.

Sarah sentiu o coração acelerar.

Jacob tocou seu rosto com cuidado, evitando o sangue que ainda marcava os próprios dedos.

— E de você.

Por um instante, ficaram próximos o suficiente para que Sarah sentisse o calor da respiração dele.

Jacob, porém, não reduziu a distância.

Esperou.

Deixou a escolha nas mãos dela.

Sarah pensou no beijo que depositara em seu rosto, na promessa de escolher todos os dias e na forma como ele atravessara uma parede para impedir que um vampiro a alcançasse.

Ainda não sabia se aquilo era amor.

Mas sabia que não queria recuar.

Sarah segurou a camisa de Jacob e o puxou.

O beijo começou com hesitação.

Um toque breve, quase uma pergunta.

Jacob permaneceu imóvel por uma fração de segundo. Apesar de tudo o que sentia, ainda precisava ter certeza de que aquela aproximação partira dela. Não do imprinting, da profecia ou do medo provocado pelo ataque.

De Sarah.

Quando ela não se afastou, Jacob levou uma das mãos à sua cintura e a outra aos cabelos negros, aprofundando o beijo com uma delicadeza que contrastava com toda a força de seu corpo.

O mundo não desapareceu como acontecera durante o primeiro olhar.

Dessa vez, pareceu finalmente ocupar o lugar correto.

Sarah sentiu o coração de Jacob bater contra seu peito.

Forte.

Quente.

Vivo.

A cada batimento, alguma coisa dentro dela respondia.

A marca em seu ombro começou a pulsar, mas não havia dor. O calor se espalhou pelo corpo de Sarah em ondas suaves, partindo do lugar onde a mão de Jacob repousava em sua cintura.

O cansaço começou a desaparecer.

Primeiro, a tontura diminuiu. Depois, a fraqueza deixou seus braços e pernas. A respiração se tornou mais profunda, e o peso que se instalara em seu corpo desde que usara o poder sobre Thomas pareceu ser retirado pouco a pouco.

Uma luz prateada surgiu sob a roupa de Sarah.

Jacob percebeu o brilho, mas não interrompeu o beijo. A mesma luz percorreu os braços dele como pequenos fios luminosos, envolvendo os dois sem queimá-los.

O pingente aqueceu entre seus corpos.

Sarah sentiu a energia retornar.

Não vinha de Jacob como se ela estivesse retirando algo dele. A pulsação do lobo apenas abria um caminho, permitindo que a força dispersa por seu poder encontrasse o caminho de volta.

Jacob não enfraquecia.

Ao contrário.

A presença de Sarah parecia aumentar sua força ao mesmo tempo que restaurava a dela.

Era uma troca sem perda.

Um ciclo.

A lua tocava o lobo.

E o lobo devolvia à lua a luz que ela havia espalhado.

Quando se separaram, Jacob manteve a testa encostada à dela.

Sarah já não tentava recuperar o fôlego por cansaço. Seu coração batia em um ritmo firme, e a palidez havia desaparecido de seu rosto.

— Isso foi uma escolha? — Jacob perguntou.

— A de hoje.

Um sorriso surgiu nos lábios dele.

— Amanhã tentarei merecer outra.

Sarah sorriu, mas sua expressão logo se tornou surpresa.

A fraqueza havia desaparecido completamente.

Ela afastou um pouco o corpo e movimentou as mãos, como se precisasse confirmar que aquilo era real.

— O que foi? — Jacob perguntou.

— Eu estou bem.

— Você já disse isso antes.

— Não. Estou realmente bem.

Sarah se levantou sem sentir tontura.

Jacob segurou sua cintura por precaução, mas ela permaneceu firme.

— Não faz sentido — murmurou.

Carlisle, que observara a luz do outro lado da sala, aproximou-se.

— Permita que eu verifique sua pulsação.

Jacob não gostou da aproximação, mas Sarah estendeu o pulso.

Carlisle encostou os dedos frios em sua pele.

— Setenta e dois batimentos por minuto — informou. — Fortes e regulares.

— Há poucos minutos, estava fraca — Jacob disse.

— A pulsação estava acelerada e superficial — Carlisle confirmou. — A pressão provavelmente ainda estava baixa.

Sarah encontrou o aparelho próximo ao material de emergência e verificou a própria pressão.

— Doze por oito.

Carlisle examinou seus olhos.

— As pupilas estão normais. A coloração também retornou.

— Foi o beijo — Sarah murmurou.

Emmett, que acabava de entrar na sala, interrompeu o movimento.

— Acho que cheguei na parte mais interessante.

Rosalie surgiu atrás dele.

— Fique calado.

Jacob ignorou os dois.

— O que quer dizer com “foi o beijo”?

Sarah levou a mão à marca.

O desenho não queimava mais.

— Quando usei meu poder, senti alguma coisa sair de mim. Não sabia explicar o que era. Agora senti essa força retornando.

— Através de Jacob — Carlisle concluiu.

Sarah assentiu.

— Mas eu não retirei nada dele. Jacob não ficou mais fraco.

— Estou me sentindo mais forte — ele confirmou.

Carlisle refletiu por alguns segundos.

— Talvez o vínculo não transfira energia de um corpo para outro. Ele pode funcionar como um ponto de equilíbrio. Quando Sarah usa o poder, parte de sua força se dispersa. A conexão com Jacob permite que essa energia encontre o caminho de volta.

Carlisle permaneceu alguns segundos em silêncio, analisando a mudança nos sinais de Sarah.

— Talvez o vínculo não transfira energia de um corpo para outro — concluiu. — Ele pode funcionar como um ponto de equilíbrio. Quando Sarah utiliza o poder, parte de sua força se dispersa. A conexão com Jacob parece permitir que essa energia encontre o caminho de volta.

Sarah olhou para as próprias mãos.

— Então eu não retirei nada dele.

— Não — Carlisle respondeu. — A temperatura, a pulsação e a força de Jacob não diminuíram. Pelo contrário, a frequência cardíaca dele se tornou mais estável no instante em que sua energia retornou.

Jacob ainda mantinha as mãos ao redor das de Sarah.

— Então o vínculo cura os dois?

— Não exatamente. Você não estava ferido ou enfraquecido. Mas a ligação parece ter entrado em equilíbrio quando Sarah aceitou voluntariamente sua proximidade.

— Então ela precisa aceitar o imprinting para sobreviver?

— Não sabemos — Carlisle respondeu. — E não devemos transformar uma primeira observação em uma regra absoluta. Tudo o que podemos afirmar é que a aceitação de Sarah produziu uma reação concreta: sua energia retornou e seus sinais vitais se normalizaram.

— Ainda assim, sem Jacob eu continuaria enfraquecida — Sarah disse.

— Provavelmente levaria muito mais tempo para se recuperar — Carlisle ponderou. — O organismo talvez conseguisse repor a energia sozinho através de repouso, alimentação e hidratação. O vínculo apenas tornou a recuperação quase imediata.

Jacob apertou as mãos dela.

— Então você não usará o poder quando eu não estiver perto.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Acabamos de descobrir uma ligação sobrenatural e sua primeira reação é criar uma regra?

— Uma excelente regra.

— Podemos tratar como recomendação médica — Carlisle sugeriu.

— Obrigada — Sarah respondeu. — Dessa forma parece menos autoritário.

Jacob não pareceu satisfeito.

— Recomendação ou regra, você não fará isso sozinha.

Sarah sentiu o calor das mãos dele envolver as suas.

— Não pretendo fazer.

A resposta o surpreendeu.

— Não vai discutir?

— Jacob, acabei de descobrir que sua presença restitui minha força. Posso ser teimosa, mas não sou imprudente a ponto de ignorar isso.

Emmett soltou uma risada.

— Tenho certeza de que o lobo ficará extremamente dedicado ao tratamento.

Jacob mostrou os dentes.

— Emmett.

— Estou apenas apoiando a ciência.

Rosalie o puxou pelo braço.

— Venha antes que Jacob decida apoiar a ciência usando você como objeto de estudo.

Quando os dois se afastaram, Sarah voltou a olhar para Jacob.

— Isso muda alguma coisa?

— Muda tudo.

— De que forma?

Ele tocou delicadamente o rosto dela.

— Antes, eu queria permanecer perto porque precisava proteger você. Agora sei que, quando usar o poder, talvez realmente precise de mim.

Sarah percebeu o medo escondido naquelas palavras.

— Isso o assusta?

— Muito.

— Pensei que ficasse feliz.

— Fico feliz por poder ajudá-la. Mas não quero que se sinta obrigada a me aceitar para sobreviver.

A preocupação dele afastou a última dúvida que restava dentro dela.

Sarah cobriu a mão de Jacob com a sua.

— O imprinting pode ter criado a ligação. A lenda pode dizer que preciso de você. Mas nenhuma dessas coisas me obrigou a beijá-lo.

Jacob sustentou seu olhar.

— Então por que fez isso?

— Porque eu quis.

A resposta foi suficiente.

Ele se inclinou, mas parou antes de tocá-la.

Sarah sorriu.

— Está esperando outra escolha?

— Todos os dias.

Dessa vez, foi ela quem reduziu a distância e o beijou novamente.

A luz prateada surgiu com menor intensidade, envolvendo os dedos unidos.

Não havia fraqueza a ser curada.

Apenas o vínculo reconhecendo que, pela primeira vez, ambos haviam aceitado a existência dele.

Sarah afastou-se apenas o suficiente para olhar para ele.

Carlisle interrompeu:

_ Temos um problema.

— Além do hospital parcialmente destruído?

— Alice teve outra visão.

— O que viu?

— Aro não virá apenas com a guarda.

O sorriso de Jacob desapareceu.

— Quem mais?

— Representantes de vários clãs. Ele pretende transformar o encontro em um julgamento.

— Julgamento de quem? — Sarah perguntou.

Carlisle olhou para as próprias mãos frias.

— Seu.

Naquela noite, Sarah reuniu os Cullen, os anciãos e os líderes da matilha em sua casa.

Não discutiu quando Jacob permaneceu ao seu lado.

Tampouco retirou a mão quando ele segurou a dela.

— Selene entrou em um hospital e feriu pessoas para me obrigar a usar o poder — Sarah começou. — Eles continuarão atacando inocentes enquanto acreditarem que isso me fará obedecer.

— Precisamos retirá-la de Forks — Rosalie insistiu.

— Não. Fugir apenas levaria os ataques para outra cidade.

— Então qual é o plano? — Sam perguntou.

Sarah olhou para Carlisle.

— Quero aprender a controlar o que faço.

Jacob ficou tenso, mas não a interrompeu.

— Sem cortes, sem colocar ninguém próximo da morte e sem repetir o que aconteceu com Carlisle — acrescentou. — Começaremos apenas com observação.

— Observação de quê? — Billy perguntou.

— Da centelha. Hoje consegui senti-la dentro do paciente e depois na criança ferida. Preciso descobrir quando aparece, o que a torna mais forte e se consigo me aproximar sem transferir energia.

Carlisle assentiu.

— Podemos começar com animais feridos. A clínica veterinária de Forks recebe casos que talvez permitam observação sem provocar danos intencionais.

— E se isso voltar a enfraquecê-la? — Jacob perguntou.

— Você estará ao meu lado.

Ele compreendeu o significado da resposta.

Sarah não estava apenas pedindo proteção.

Estava escolhendo confiar nele.

— Estarei — prometeu.

Alice observava os caminhos se alterarem.

Alguns terminavam em escuridão.

Outros, em luz.

Mas, pela primeira vez, um deles permaneceu visível mesmo quando Sarah tocou Jacob.

Era uma imagem breve.

Sarah estava diante de Aro.

Atrás dela, lobos e vampiros permaneciam lado a lado.

E, sob os pés da Filha da Lua, o chão de pedra de Volterra começava a rachar.