Acaso ou destino
12 Capítulo 11- O preço da luz
Na manhã seguinte, Sarah acordou antes de Jacob.
Ele dormia no sofá da sala, com um dos braços apoiado sobre os olhos e as pernas longas demais para o móvel. Depois do ataque no hospital, recusara-se a deixá-la sozinha, mas também não aceitara ocupar o quarto de hóspedes.
Ateara voltara para a própria casa apenas quando Jacob prometera que permaneceria até o amanhecer.
Sarah desceu as escadas sem fazer barulho.
Durante alguns segundos, ficou parada observando-o.
Jacob parecia diferente quando dormia. A tensão constante desaparecia de seu rosto, e a força que normalmente ocupava todo o ambiente dava lugar a uma tranquilidade quase juvenil.
Era difícil acreditar que aquele homem conseguia se transformar em um lobo gigantesco.
Mais difícil ainda era aceitar que o simples contato com ele havia restabelecido completamente suas forças.
Sarah tocou o pingente.
Desde o beijo, a joia permanecia morna.
Não queimava.
Não pulsava.
Apenas conservava uma temperatura semelhante à pele de Jacob, como se carregasse uma pequena parte da ligação entre os dois.
Ela caminhou até a cozinha e começou a preparar café.
— Está me observando dormir?
Sarah se virou.
Jacob continuava deitado, mas afastara o braço dos olhos.
— Estava verificando se ainda estava vivo.
— Meu coração faz barulho suficiente para você saber.
— Sou cardiologista. Gosto de confirmações.
Ele se sentou.
— Como está se sentindo?
— Bem.
— Bem de verdade ou bem do modo como disse antes de desmaiar?
— Bem de verdade.
Jacob se levantou e se aproximou.
Sem pedir autorização, colocou dois dedos no pulso dela.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— O que está fazendo?
— Confirmando.
— Agora entende de frequência cardíaca?
— Carlisle ensinou.
— Quantos batimentos?
Jacob contou em silêncio.
— Setenta e quatro.
— Está correto.
— Aumentou para oitenta e dois.
Sarah tentou retirar o braço.
Ele sorriu.
— Agora, oitenta e oito.
— Talvez seja irritação.
— Talvez.
Sarah afastou a mão.
— O treinamento será às dez horas.
O sorriso dele desapareceu.
— Ainda acho cedo.
— Os Volturi chegarão em nove dias.
— Isso não significa que deva usar o poder menos de vinte e quatro horas depois do ataque.
— Hoje não tentarei curar ninguém. Apenas aprender a identificar a centelha.
— Foi o que combinamos.
— Exatamente.
Jacob a observou durante alguns segundos.
— E se ficar fraca?
Sarah se aproximou.
— Então você me trará de volta.
A resposta despertou nele uma mistura de orgulho e medo.
— Não quero que se acostume a depender de mim.
— E eu não quero que transforme o fato de eu precisar de você em algo ruim.
— Não é ruim.
— Então qual é o problema?
Jacob demorou a responder.
— O problema é não saber o que acontecerá se eu não estiver perto.
Sarah compreendeu.
O poder criara uma nova vulnerabilidade. Se os Volturi descobrissem que Jacob restaurava sua força, poderiam separá-los para enfraquecê-la.
— Não contaremos a ninguém além daqueles em quem confiamos — decidiu.
— Selene viu o beijo.
— Viu a luz, mas talvez não tenha compreendido.
— Aro compreenderá.
— Então precisamos entender antes dele.
Jacob assentiu, embora relutante.
Sarah serviu duas canecas de café.
— Além disso, não foi o beijo que me curou.
— Não?
— Foi a aceitação do vínculo.
Ele pegou a caneca.
— Isso significa que não precisamos testar novamente?
Sarah escondeu um sorriso.
— Em nome da ciência, talvez sejam necessárias novas observações.
Jacob quase derramou o café.
Ela se afastou antes que ele encontrasse uma resposta.
O treinamento aconteceria em uma clínica veterinária desativada nos limites de Forks.
Carlisle escolhera o local porque ficava distante da cidade e possuía equipamentos básicos para monitoramento. Nenhum animal seria ferido para o experimento. Eles apenas observariam os que já chegassem precisando de atendimento.
Quando Sarah e Jacob entraram, Carlisle organizava aparelhos sobre uma mesa.
Bella estava ao lado dele.
A presença dela surpreendeu Sarah.
Jacob também pareceu desconfortável.
— Por que ela está aqui? — perguntou.
Bella cruzou os braços.
— Bom dia para você também.
Carlisle interferiu:
— Bella veio porque seu escudo pode proteger Sarah se o poder atrair ou despertar alguma habilidade externa.
— E Edward? — Jacob perguntou.
— Está com Alice e os demais, acompanhando a chegada de nossos aliados.
Sarah retirou o casaco.
— Que aliados?
— A família Denali. São nossos parentes mais próximos e seguem a mesma dieta.
— Mais vampiros.
— Cinco — Carlisle informou.
Jacob soltou o ar.
— Ótimo.
Bella olhou para ele.
— Se dependesse de você, enfrentaríamos os Volturi apenas com a matilha.
— Funcionou durante gerações.
— Contra vampiros isolados. Não contra uma guarda inteira.
— Podemos nos concentrar no treinamento? — Sarah pediu.
Os dois se calaram.
Carlisle mostrou os equipamentos.
— Vamos acompanhar sua frequência cardíaca, pressão, temperatura e nível de glicose. Também quero registrar qualquer alteração no sangue antes e depois da manifestação.
Jacob ficou tenso.
— Ninguém vai cortar Sarah.
— Uma coleta comum — ela explicou. — Muito menos sangue do que perdi quando cortei a mão.
— Seu sangue atrai vampiros.
Bella respondeu antes de Carlisle:
— Todos aqui se alimentaram antes de vir. E o frasco será fechado imediatamente.
Jacob olhou para ela.
— Se alguma coisa acontecer...
— Eu protegerei Sarah — Bella garantiu.
Ele pareceu surpreso.
Bella sustentou seu olhar.
— Não sou sua inimiga, Jacob.
A tensão diminuiu, embora não desaparecesse completamente.
Sarah se sentou e permitiu que Carlisle coletasse os primeiros tubos. Jacob permaneceu ao seu lado, observando cada movimento da agulha.
— Você enfrentou três vampiros ontem sem hesitar — ela comentou. — Mas uma coleta de sangue o incomoda?
— Vampiros são mais previsíveis.
— Do que uma agulha?
— Do que você perto de uma agulha.
Carlisle fechou o último tubo.
— Terminamos.
Jacob pareceu aliviado.
O primeiro animal chegou pouco depois.
Era um cão de porte médio encontrado na estrada por uma moradora da região. Tinha uma das patas machucadas e apresentava sinais de desidratação.
A mulher que o levara acreditava que fora atropelado. Como a clínica regular ainda estava fechada, Carlisle se oferecera para examiná-lo.
Sarah permaneceu do outro lado da sala durante o atendimento.
— Consegue sentir alguma coisa? — Carlisle perguntou.
Ela fechou os olhos.
No hospital, a centelha do paciente parecera uma luz distante prestes a desaparecer. Na menina ferida, fora mais forte e estável.
Dentro do cão, Sarah encontrou algo diferente.
Uma presença quente e inquieta.
A vida não estava ameaçada, mas a dor alterava seu brilho.
— Consigo senti-lo.
— Sem tocar?
— Sim.
— Onde?
Sarah se aproximou devagar.
— Não é um lugar físico. Parece preencher todo o corpo, mas existe uma concentração maior perto do coração.
Jacob observava cada mudança em sua expressão.
— Está ficando fraca?
— Ainda não.
Carlisle continuou:
— Tente se aproximar da centelha sem interferir.
Sarah estendeu a mão, mantendo-a alguns centímetros acima do animal.
O cão levantou a cabeça e olhou para ela.
A marca aqueceu.
Uma luz fraca surgiu na palma de Sarah.
O animal relaxou.
— O que sente? — Carlisle perguntou.
— A dor.
— Dele?
— Sim.
Sarah franziu a testa.
A dor não surgia em seu próprio corpo, mas ela sabia exatamente onde estava a lesão.
— Há uma fratura pequena na pata traseira. E uma lesão mais profunda perto do quadril.
Carlisle consultou a radiografia.
— Está correta.
— Como pode saber? — Bella perguntou.
— A centelha muda ao redor da área machucada.
— Consegue curar?
Sarah olhou para Jacob.
Ele balançou a cabeça.
— Hoje era apenas observação.
— Eu sei.
Ela afastou a mão.
A luz desapareceu.
O cão permaneceu tranquilo.
Carlisle verificou seus sinais vitais.
— A frequência cardíaca diminuiu. Talvez sua proximidade também reduza a dor.
— Sem consumir energia — Sarah observou.
— Está cansada?
— Não.
Carlisle registrou a informação.
— Então existem níveis diferentes de atuação. Perceber a vida e aliviar a dor exigem pouco ou nenhum esforço. Restaurar tecidos consome mais.
— E devolver características vitais a um vampiro consome muito mais — Bella completou.
Sarah assentiu.
O segundo caso chegou uma hora depois.
Um pequeno pássaro fora encontrado com a asa ferida. A lesão era simples e não ameaçava sua vida.
Carlisle colocou o animal sobre uma toalha.
— Não precisamos tentar — Jacob disse.
Sarah sentou-se diante da mesa.
— É a melhor oportunidade que teremos para compreender o limite mínimo.
— Você prometeu apenas observar.
— E observei. Agora sei reconhecer a centelha sem tocá-la.
— Sarah...
Ela segurou a mão de Jacob.
— Se sentir qualquer fraqueza, paro.
Ele olhou para Carlisle.
— Monitore tudo.
— Já estou fazendo isso.
Sarah manteve uma das mãos unida à de Jacob e aproximou a outra do pássaro.
A luz surgiu quase imediatamente.
Não era intensa como no hospital. Parecia uma névoa prateada envolvendo seus dedos.
Ela tocou a asa ferida.
A centelha respondeu.
Sarah sentiu a energia sair de seu corpo, mas, no mesmo instante, outra corrente percorreu a mão ligada a Jacob.
A força não se dispersou.
Circulou.
Passou por Sarah, alcançou o animal e retornou através do vínculo.
O pássaro se agitou.
Sob os dedos dela, o osso voltou à posição correta e o pequeno ferimento se fechou.
A luz desapareceu.
Sarah retirou a mão.
O pássaro abriu as asas.
Voou pela sala e pousou sobre um armário.
Carlisle examinou os monitores.
— Seus sinais não sofreram alteração.
Jacob continuava segurando sua mão.
— Porque eu estava ligado a ela.
— Parece que sim — Carlisle respondeu. — A energia circulou sem provocar perda perceptível.
Sarah olhou para Jacob.
— Você sentiu?
— Como uma corrente quente.
— Ficou mais fraco?
— Não.
Carlisle fez outra coleta de sangue.
— Precisamos comparar os resultados, mas a hipótese está se confirmando. Quando o vínculo permanece ativo durante a cura, Sarah não perde a própria força.
— Então ela só usará o poder comigo — Jacob declarou.
— Não sabemos se a proximidade é suficiente — Carlisle ponderou. — O vínculo precisa ser voluntariamente aceito pelos dois.
— Está aceito — Jacob respondeu.
Todos olharam para Sarah.
Ela apertou os dedos dele.
— Está.
A luz prateada surgiu brevemente entre suas mãos.
Bella observou em silêncio.
Havia beleza naquela ligação, mas também algo que despertava uma antiga dor.
Sarah percebeu.
Depois que Carlisle levou o cão para outra sala, ela se aproximou de Bella.
— Podemos conversar?
Jacob fez menção de segui-la.
— Em particular — Sarah acrescentou.
Ele fechou a expressão.
Bella quase sorriu.
— Ficaremos ali fora.
As duas caminharam até uma pequena varanda nos fundos da clínica.
A chuva havia parado.
Durante alguns segundos, nenhuma delas falou.
— Você não precisa gostar de mim — Sarah começou.
— Não desgosto de você.
— Mas não confia em mim.
Bella apoiou as mãos frias no corrimão.
— Não a conheço.
— E acredita que o imprinting mudou Jacob depressa demais.
Bella olhou para ela.
— Edward contou?
— Não tudo. Algumas coisas não precisam ser ditas.
— Jacob foi importante para mim.
— Eu sei.
— Quando eu era humana, ele representava uma vida que eu poderia ter escolhido. Uma vida normal, com calor, família e envelhecimento.
Sarah se lembrou das palavras de Selene.
— Arrepende-se da transformação?
— Não. Escolhi Edward e escolheria novamente. Mas escolhas verdadeiras também possuem perdas verdadeiras.
— E Jacob foi uma delas.
Bella assentiu.
— Durante muito tempo, soube que ele ainda me amava. Era egoísta, mas essa certeza preservava uma parte daquela outra vida.
— E então ele me encontrou.
— E aquela porta se fechou.
Sarah esperava sentir raiva.
Sentiu apenas compreensão.
— Não quero apagar o que existiu entre vocês.
— Você não conseguiria. Assim como eu não consigo apagar Sophia ou Benjamin de sua história. O passado permanece, mas não precisa controlar o futuro.
Sarah olhou através da janela. Jacob as observava, embora fingisse prestar atenção em Carlisle.
— Tenho medo de que ele não consiga distinguir o que sente de algo imposto pelo imprinting.
— Jacob passou anos odiando o imprinting — Bella respondeu. — Se estivesse apenas obedecendo ao vínculo, ainda estaria lutando contra você. O fato de ter parado significa que fez uma escolha.
— Foi o que ele disse.
— Então, nesse ponto, acredite nele.
Sarah olhou para Bella.
— Isso foi uma bênção?
— Não exagere.
As duas sorriram.
— E você? — Bella perguntou. — O que sente?
Sarah pensou no primeiro olhar, na segurança que experimentava perto dele e na forma como sua energia retornara durante o beijo.
— Ainda estou descobrindo.
— Só não demore demais. Jacob parece forte, mas sente tudo com uma intensidade assustadora.
— Eu já percebi.
— E é muito teimoso.
— Também percebi.
Quando retornaram à sala, Jacob olhou de uma para outra.
— O que aconteceu?
— Nada — responderam ao mesmo tempo.
Ele estreitou os olhos.
— Não gosto disso.
Bella sorriu.
— Vai sobreviver.
O treinamento terminou pouco depois da cura do pássaro.
Carlisle recolheu os equipamentos e guardou cuidadosamente os tubos com as amostras de sangue. Bella levou o cão para a sala ao lado, onde permaneceria até que a mulher que o encontrara voltasse para buscá-lo.
Na clínica restavam apenas Sarah, Jacob, Carlisle e Bella.
— Por hoje, é suficiente — Carlisle decidiu. — Já confirmamos que Sarah consegue identificar uma centelha sem tocá-la, aliviar a dor sem desgaste e curar uma lesão pequena quando permanece ligada a Jacob.
— E sem perder força — Sarah acrescentou.
Jacob ainda segurava sua mão.
— Porque o ciclo permaneceu ativo.
— Exatamente — Carlisle respondeu. — Mas não devemos presumir que funcionará da mesma forma diante de uma lesão grave.
— Então faremos isso gradualmente — Sarah afirmou.
— Outro dia — Jacob completou.
Ela olhou para ele.
— Concordo.
A resposta pareceu surpreendê-lo.
— Não vai discutir?
— Estou aprendendo a escolher minhas batalhas.
— Isso é preocupante.
Sarah sorriu.
O telefone de Carlisle vibrou sobre a mesa.
Ele consultou a mensagem e sua expressão se tornou séria.
— Alice?
— Não.
— Quem foi? — Bella perguntou.
Carlisle virou a tela para que pudessem ler.
A mensagem fora enviada de um número desconhecido.
“Não separem a lua de seu lobo. Aro deseja receber os dois.”
O silêncio tomou conta da clínica.
Sarah releu as palavras.
— Como ele descobriu tão depressa?
— Selene — Jacob respondeu. — Ela viu a luz no hospital.
— Pode ter compreendido apenas parte do que aconteceu — Carlisle ponderou.
— Aro compreenderá o restante — Bella afirmou. — Ele sempre procura a maneira de transformar um dom em vantagem.
Jacob retirou o telefone das mãos de Carlisle.
— Ele pode desejar o que quiser.
— Agora você também se tornou um alvo — Sarah disse.
— Eu já era seu protetor.
— Não é a mesma coisa. Antes, precisavam afastar você. Agora precisam mantê-lo vivo para me obrigar a usar o poder.
Jacob voltou-se para ela.
— Isso não muda nada.
— Muda tudo.
— Não para mim.
Carlisle guardou o aparelho.
— Precisamos convocar uma reunião.
— Aqui? — Sarah perguntou.
— Não. A clínica não é segura para tantas pessoas e não pertence a nenhum dos territórios protegidos.
Bella assentiu.
— A reunião deve acontecer na divisa.
— Os Cullen permanecerão fora das terras quileutes — Carlisle explicou. — Billy, Ateara, a matilha e Sarah ficarão do lado da reserva. Assim, respeitaremos o tratado e todos poderão participar.
— E os Denali? — Bella perguntou.
— Já estão a caminho. Eleazar poderá nos ajudar a compreender melhor o poder de Sarah.
Jacob ficou tenso.
— Ele precisa tocar nela?
— Não. Apenas permanecer próximo.
— Ainda assim, Sarah ficará do nosso lado da fronteira.
— É exatamente o que proponho — Carlisle respondeu.
Sarah olhou de um para o outro.
— Quando será a reunião?
— Ao anoitecer.
Jacob apertou sua mão.
Aro acabara de transformar o vínculo dos dois em mais uma arma contra eles.
Antes que o sol desaparecesse, precisariam descobrir se aquele mesmo vínculo também poderia se tornar sua maior defesa.
A reunião foi organizada em uma clareira cortada pela linha invisível da fronteira.
De um lado estavam os quileutes.
Billy permanecia em sua cadeira de rodas, acompanhado por Ateara e Sue. Sam, Paul, Jared, Embry, Quil, Seth e Leah formavam uma linha próxima às árvores.
Sarah estava entre o avô e Jacob.
Do outro lado da divisa estavam os Cullen e os Denali.
Carlisle e Esme ocupavam a parte central. Edward permanecia ao lado de Bella; Alice e Jasper estavam alguns passos atrás. Rosalie e Emmett observavam a matilha com atenção.
Tanya, Kate, Carmen, Eleazar e Garrett formavam o segundo grupo.
Nenhum vampiro atravessou a fronteira.
Nenhum lobo se aproximou do território dos Cullen.
A separação era clara, mas todos sabiam que, dentro de poucos dias, talvez precisassem lutar do mesmo lado.
Carlisle foi o primeiro a falar:
— A mensagem enviada por Aro confirma que os Volturi compreenderam a ligação entre Sarah e Jacob.
Billy olhou para o filho.
— Eles sabem que ele restitui a força dela?
— Selene viu a luz durante o ataque ao hospital — Bella respondeu. — Talvez não conheça todo o mecanismo, mas percebeu que o poder se tornou mais forte quando os dois se ligaram.
Ateara contemplou as mãos unidas de Sarah e Jacob.
— A passagem da lenda falava sobre isso.
— Que passagem? — Eleazar perguntou.
Ateara respondeu:
— “Quando a lua entregar sua força à vida, o lobo a chamará de volta. Separados, ela se apagará e ele vagará sem direção. Unidos por escolha, nenhum dos dois se perderá.”
Eleazar manteve os olhos em Sarah.
— Posso examinar o dom dela daqui?
— Sem atravessar a fronteira — Jacob respondeu.
— Não preciso me aproximar mais.
Sarah assentiu.
— Pode tentar.
Eleazar fechou os olhos.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
O vento movimentou as copas das árvores, e o som distante do oceano alcançou a clareira.
Eleazar abriu os olhos e recuou um passo.
Carmen segurou seu braço.
— O que foi?
— Nunca encontrei nada semelhante.
— Ela possui mais de um dom? — Carlisle perguntou.
— Não. Possui uma única força capaz de se manifestar de várias maneiras.
Sarah franziu a testa.
— Que força?
Eleazar olhou diretamente para ela.
— Vida.
A palavra atravessou os dois grupos.
— As habilidades vampíricas costumam ampliar características que existiam quando éramos humanos — explicou. — Edward já era sensível aos pensamentos alheios. Jasper compreendia as emoções. Bella possuía um escudo mental mesmo antes da transformação.
Ele voltou os olhos para Sarah.
— Mas o poder dela não é uma extensão comum. Sarah carrega a própria força vital como habilidade. Por isso consegue reparar corpos, despertar um coração morto e afastar dons que tentam invadir sua mente.
— Ela pode reverter uma transformação? — Esme perguntou.
Eleazar demorou a responder.
— O potencial está presente.
Todos os vampiros ficaram imóveis.
Rosalie olhou para Sarah.
Bella levou uma das mãos ao próprio peito.
Esme procurou a mão de Carlisle.
Jacob se posicionou um pouco mais à frente.
— Qual seria o preço?
— Enorme — Eleazar respondeu. — Reanimar o coração de Carlisle por alguns segundos quase fez Sarah perder a consciência. Reverter séculos de transformação exigiria reconstruir cada célula e devolver ao corpo todas as funções que desapareceram.
— O vínculo pode manter o ciclo — Sarah disse.
— Talvez — Eleazar reconheceu. — Mas Jacob é o caminho pelo qual sua força retorna, não uma fonte infinita. Se a cura exigir mais energia do que o ciclo consegue recuperar, ambos podem ser consumidos.
Jacob apertou os dedos dela.
— Isso nunca será testado.
— A decisão será de Sarah — Rosalie afirmou.
Jacob lançou-lhe um olhar.
— Não se a decisão puder matá-la.
— Então todos desejam escolher por ela? — Rosalie rebateu.
Sarah ergueu a voz:
— Ninguém vai decidir por mim. E não tentarei reverter uma transformação enquanto não soubermos exatamente o que isso exige.
Jacob olhou para ela.
— Isso significa que considera tentar algum dia.
— Significa que não vou prometer ignorar para sempre uma capacidade que pode devolver a vida a alguém.
— Sarah...
— Não agora.
Ateara tocou o ombro da neta.
— Primeiro sobreviveremos ao encontro com Aro. Depois decidiremos o que fazer com o futuro.
Carlisle assentiu.
— Ateara está certo.
Edward observou Eleazar.
— Se Aro descobrir que o dom pode reverter a transformação, desejará Sarah ainda mais.
— E precisará de Jacob vivo — Eleazar completou. — Separada dele, Sarah se enfraquece. Ao lado dele, consegue ampliar o poder sem perda imediata.
— Então Jacob deixou de ser apenas o guardião — Bella concluiu.
— Tornou-se parte do dom — disse Carlisle.
Sarah sentiu o corpo esfriar.
— Não permitirei que ele seja levado por minha causa.
Jacob voltou-se para ela.
— Não é sua decisão.
— Minha existência colocou você nessa guerra.
— Eu já estava nessa guerra antes de conhecer você.
— Não dessa forma.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos, ignorando todas as pessoas ao redor.
— Pare de tentar decidir se vale a pena protegê-la. Para mim, essa pergunta não existe.
— E se o preço for sua vida?
— Então sobreviveremos juntos.
A marca no ombro de Sarah aqueceu.
A luz prateada surgiu entre os dois, envolvendo seus pulsos como fios luminosos.
Eleazar observou o fenômeno.
— O ciclo está se fortalecendo.
— Isso é bom? — Bella perguntou.
— É poderoso.
Jacob olhou para ele.
— Não foi o que ela perguntou.
Eleazar contemplou a luz.
— Tudo que possui poder suficiente para devolver a vida também possui poder suficiente para retirá-la.
A claridade desapareceu.
Alice ficou imóvel.
Uma visão tomou seus olhos.
Jasper se aproximou, mas não a tocou até que a imagem terminasse.
— O que viu? — Carlisle perguntou.
Alice encarou Jacob.
— Aro diante dos dois. Sarah estava acorrentada. Jacob permanecia na forma de lobo, preso por uma corrente de prata.
Um rosnado atravessou a matilha.
— E o que acontecia depois? — Sarah perguntou.
— Não consegui ver. Você tocou Jacob na visão e tudo desapareceu.
Carlisle retirou do bolso o telefone que recebera a mensagem.
— Aro já sabe o bastante para desejar os dois. Precisamos decidir onde Sarah ficará até a lua cheia.
Billy olhou para a casa distante no interior da reserva.
— Com os Black.
Sarah se voltou para ele.
— Na casa de vocês?
— Sua residência fica fora da fronteira — explicou Billy. — Dentro de La Push, os Volturi terão de atravessar toda a matilha antes de chegar até você.
— E os Cullen não poderão entrar — Sarah observou.
— Permaneceremos na divisa — Carlisle garantiu. — Continuaremos ajudando sem violar o tratado.
Jacob olhou para Sarah.
— É a opção mais segura.
Ela percebeu que todos aguardavam sua decisão.
Não gostava da ideia de abandonar a casa que acabara de escolher. Porém, depois do ataque ao hospital e da mensagem de Aro, já não poderia fingir que a rotina permanecia intacta.
— Até a lua cheia — decidiu. — Depois voltarei para minha casa.
Billy assentiu.
— Até a lua cheia.
Jacob não discutiu.
Por enquanto.
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