Acaso ou destino

17 Capítulo 16 - A herança do sangue


Sarah permaneceu em silêncio durante todo o caminho de volta.

A conversa com Marcus deixara marcas que não eram visíveis. A liberdade que devolvera a ele exigira mais de seu poder do que a cura de Leah, e o cansaço começou a surgir antes mesmo que alcançassem a casa dos Black.

Jacob percebeu.

— Está enfraquecendo.

— Um pouco.

— Por que não disse?

— Porque ainda conseguia caminhar.

— Essa não é uma medida confiável.

Ele a tomou nos braços antes que protestasse.

— Jacob, a casa está logo ali.

— Ótimo. Então não precisarei carregar você por muito tempo.

Sarah passou os braços ao redor de seu pescoço.

— Sou perfeitamente capaz de andar.

— Está tremendo.

Ela percebeu que ele tinha razão.

A luz usada para romper o vínculo de Chelsea não havia retornado completamente. Diferentemente das outras manifestações, a energia parecia ter ficado presa em algum lugar distante.

— Talvez o ciclo não consiga recuperar tudo — Sarah murmurou.

Jacob acelerou o passo.

— Não diga isso.

— Precisamos considerar a possibilidade.

— Primeiro vamos restabelecer sua força. Depois você e Carlisle podem analisar quantas possibilidades ruins desejarem.

Ele entrou na casa e a levou diretamente para o quarto.

Billy observou da sala, mas não fez perguntas. Pelo modo como Jacob segurava Sarah, compreendeu que alguma coisa acontecera na fronteira.

Jacob a acomodou sobre a cama.

— O que precisa fazer?

— Não sei.

— No hospital, o beijo funcionou.

Apesar do cansaço, Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Está usando minha recuperação como desculpa?

— Estou oferecendo um tratamento testado cientificamente.

Ela sorriu.

— Carlisle teria várias objeções a essa definição.

Jacob sentou-se ao lado dela.

— Posso?

Sarah tocou seu rosto.

— Pode.

O beijo foi lento.

A luz surgiu quase imediatamente, percorrendo os braços dos dois e envolvendo seus corpos. O ciclo se abriu, mas a força retornou com dificuldade.

Sarah fechou os olhos.

Conseguia sentir Jacob chamando sua energia de volta, mas alguma coisa ainda a prendia às correntes que retirara de Marcus.

Eram séculos de manipulação, dor e desejo de morte.

— Não consigo separar — murmurou contra os lábios dele.

— Separar o quê?

— A dor dele.

Jacob segurou seu rosto.

— Olhe para mim.

Sarah abriu os olhos.

— Marcus não está mais preso. Você o libertou.

— Mas senti tudo. Didyme, Aro, a solidão...

— Essas lembranças pertencem a ele, não a você.

— Estão dentro de mim.

— Então me deixe trazê-la de volta.

Jacob encostou a testa à dela.

— Onde está?

Sarah tentou olhar além das imagens.

Encontrou a praia.

A casa dos Black.

A voz de Sophia chamando-a de Beija-flor.

O rosto de Benjamin na fotografia.

E os olhos negros de Jacob.

— Aqui — respondeu.

— Então volte.

O ciclo se fortaleceu.

A luz arrancou as memórias de Marcus do centro da consciência de Sarah e as colocou onde deveriam permanecer: como algo que ela testemunhara, não como uma dor que precisava carregar.

A força retornou.

O tremor cessou.

Quando a luz desapareceu, Sarah respirava normalmente.

— Melhor? — Jacob perguntou.

— Sim.

— Nunca mais fará algo assim sem me avisar quando começar a enfraquecer.

— Nossa regra diz que você deve explicar o que sente antes de interromper.

— E a sua parte diz que precisa parar quando eu explicar.

— Eu parei.

— Depois de romper três vínculos milenares.

— Tecnicamente, Marcus rompeu o último.

Jacob fechou os olhos.

— Você é impossível.

Sarah sorriu.

— Foi o que eu disse sobre você.

Ele se deitou ao lado dela, ainda sobre o cobertor.

Por alguns minutos, permaneceram em silêncio.

— Marcus dirá a verdade no julgamento? — Jacob perguntou.

— Acredito que sim.

— E depois?

— Não sei.

— Ele ainda quer morrer.

— Agora esse desejo pertence a ele, não a Chelsea ou Aro.

Jacob não pareceu confortável.

— Você realmente permitirá que escolha a morte?

— Não cabe a mim permitir. Posso oferecer outra possibilidade, mas não decidir por ele.

— Qual possibilidade?

Sarah olhou para o teto.

— Talvez eu consiga devolver parte de sua humanidade.

— Isso poderia matar você.

— Eu não disse que farei.

— Mas está pensando.

Ela virou o rosto.

— Penso em muitas coisas.

— É uma das características que mais me assustam em você.

Sarah segurou sua mão.

— Não tomarei essa decisão sozinha.

— Promete?

— Prometo.

Foi uma das poucas promessas simples que Jacob recebeu dela.

Por isso acreditou.

Na manhã seguinte, Ateara apareceu carregando uma caixa de madeira.

Era antiga, maior do que aquela encontrada por Sarah no armário da mãe e marcada pelo tempo. No centro da tampa havia o símbolo da família Ateara.

O velho colocou-a sobre a mesa da cozinha.

— Guardei isso desde a morte de Benjamin.

Sarah passou os dedos pela madeira.

— Por que nunca mostrou antes?

— Porque não sabia o que havia dentro. Seu pai pediu que eu só abrisse a caixa quando a filha da lua retornasse.

Jacob, sentado ao lado dela, ficou atento.

— Benjamin sabia que Sarah nasceria com a marca?

— Suspeitava.

Ateara entregou uma pequena chave à neta.

— A caixa pertence a você.

Sarah abriu a fechadura.

O cheiro de papel antigo e madeira tomou a cozinha.

Dentro havia fotografias, pequenos objetos, um colar de couro e vários cadernos. Algumas páginas estavam manchadas, e outras possuíam desenhos da lua, de lobos e de símbolos que Sarah não reconhecia.

Ela pegou o primeiro caderno.

A letra era semelhante à encontrada no verso da fotografia de seus pais.

— É dele.

Ateara assentiu.

— Benjamin escrevia quando precisava organizar os pensamentos.

Sarah abriu em uma página marcada por uma fita.

“A lenda não fala sobre uma criança distante. Fala sobre minha filha.”

As mãos dela começaram a tremer.

Jacob aproximou a cadeira.

Sarah continuou lendo.

“Sophia ainda não sabe, mas tenho certeza de que está grávida. O velho Ateara contou que a marca surge primeiro nos sonhos do pai. Há três noites, vejo uma menina de cabelos negros caminhando sob a lua. Seus olhos são iguais aos de Sophia, mas o lobo a segue como se já soubesse que pertence a ela.”

Sarah tocou o pingente.

O sonho de Benjamin era semelhante ao seu.

Virou a página.

“Hoje encontrei um frio na estrada. Ele não tentou me atacar. Apenas perguntou sobre Sophia e sobre a linhagem Mitena. Disse que sua família esperava havia séculos pelo nascimento de uma criança. Não respondi, mas ele sorriu como se já soubesse.”

Jacob olhou para Ateara.

— Benjamin contou sobre esse encontro?

— Não.

Sarah continuou:

“O nome dele é Andreas. Usa um símbolo vermelho sob o casaco e fala sobre um mestre chamado Aro. Preciso levar Sophia para longe. Se nossa filha nascer com a marca, La Push não será segura enquanto eles souberem onde procurar.”

A sala ficou em silêncio.

Andreas.

O mesmo guarda que ajudara Aro a destruir Didyme.

Sarah virou outras páginas.

As anotações tornavam-se mais urgentes.

“Andreas voltou. Disse que Aro não deseja ferir a criança, mas não falou o mesmo sobre os pais. Ofereceu proteção em troca de nossa ida para a Itália. Recusei.”

Na página seguinte, havia uma mancha escura.

“Se algo acontecer comigo, Sophia deve partir. Meu pai não pode saber para onde. Ninguém pode. A ligação entre as famílias Ateara e Mitena é a única coisa que mantém a profecia viva. Se descobrirem que a criança nasceu, não pararão.”

Sarah precisou interromper a leitura.

— Eles mataram meu pai.

Ateara fechou os olhos.

— Benjamin morreu em um acidente na estrada.

— Um vampiro já o estava seguindo.

— O carro foi encontrado destruído perto de um penhasco. O corpo...

O velho não conseguiu concluir.

— O que aconteceu com o corpo? — Jacob perguntou.

— Estava queimado. Disseram que o tanque de combustível explodiu.

Sarah recordou a forma como os corpos dos vampiros eram destruídos.

Fogo.

— Andreas provocou o acidente — afirmou.

— Não podemos ter certeza — Ateara respondeu, embora sua voz demonstrasse que também começava a acreditar.

No fundo da caixa havia um envelope fechado.

“Para Sophia.”

Sarah abriu.

A carta nunca fora entregue.

“Meu amor,

“Se estiver lendo isto, significa que não consegui voltar.

“Não permita que a dor a mantenha em La Push. Nossa filha precisa permanecer escondida até que seja capaz de escolher o próprio caminho. Não conte ao meu pai onde estarão. Não porque eu não confie nele, mas porque os frios podem arrancar informações até mesmo daqueles que amamos.

“Diga à nossa menina que eu soube dela antes de partir. Diga que a amei antes de tocar suas pequenas mãos e antes de ouvir sua voz.

“Se ela nascer com a marca, entregue o pingente. A lua mostrará o caminho de volta quando chegar a hora.

“Não deixe que transformem o dom dela em uma arma.

“E diga que sinto muito por não poder permanecer.

“Benjamin.”

As lágrimas caíram sobre o papel.

Durante toda a vida, Sarah acreditara que o pai morrera sem saber de sua existência.

Sophia permitira que acreditasse nisso para preservar o segredo.

— Ele sabia — murmurou. — Meu pai sabia.

Jacob passou o braço ao redor de seus ombros.

Sarah se permitiu chorar.

Ateara também chorava.

A dor pela perda do filho, guardada durante vinte e quatro anos, adquiria uma nova forma. Benjamin não morrera em um acidente aleatório. Fora caçado porque tentou proteger a família.

— Aro tirou meu pai de mim — Sarah disse.

A luz da cozinha oscilou.

Jacob sentiu a temperatura ao redor diminuir.

— Sarah.

Ela continuava olhando para a carta.

— Depois observou minha mãe morrer.

A marca em seu ombro começou a queimar.

— Sarah, olhe para mim.

A luz prateada surgiu ao redor de seu corpo, mas havia alguma coisa diferente nela. Pequenos fios escuros se misturavam ao brilho.

As plantas próximas à janela começaram a murchar.

As folhas perderam a cor e caíram.

Ateara recuou.

— Minha querida...

Sarah não parecia ouvi-lo.

A dor se transformava em raiva.

A raiva encontrava o poder.

A madeira da mesa escureceu sob suas mãos.

Jacob segurou seus pulsos.

Uma dor intensa atravessou os braços dele.

Não era calor.

Era ausência.

Por alguns segundos, sua força começou a desaparecer.

O coração diminuiu o ritmo.

Jacob não a soltou.

— Sarah!

Ela ouviu a voz.

Ergueu os olhos.

O rosto dele estava pálido.

— O que está acontecendo?

— Está retirando minha vida.

A luz escura desapareceu imediatamente.

Sarah soltou os braços dele e se afastou, horrorizada.

— Eu machuquei você.

Jacob respirou fundo. A cor começou a retornar ao rosto.

— Não foi intencional.

— Eu retirei sua força.

— Por alguns segundos.

— Poderia ter matado você.

— Não matou.

Sarah olhou para as plantas mortas e para a madeira manchada.

— Eleazar estava certo.

Ateara tocou seu ombro.

— A lenda sempre falou sobre duas possibilidades.

— Cura ou destruição — ela completou.

Jacob segurou sua mão novamente.

Sarah tentou afastá-la.

— Não toque em mim.

— Não vou deixá-la acreditar que precisa ter medo de si mesma.

— Meu poder atingiu você.

— Porque eu era a pessoa mais próxima e tentei interromper à força.

— Isso deveria tornar melhor?

— Significa que precisamos compreender.

— Afaste-se.

— Não.

Sarah olhou para ele.

— Jacob, por favor.

A dor em sua voz o fez soltar a mão, mas ele não se afastou.

— Não sairei daqui.

Ela fechou os olhos.

— Preciso de Carlisle.

— Iremos à fronteira.

— Agora.

Carlisle examinou Jacob no lado externo da divisa.

Não havia qualquer lesão permanente. A frequência cardíaca, a temperatura e a força já haviam retornado ao normal.

Sarah permaneceu do lado quileute, sem tocar em ninguém.

A carta de Benjamin estava em suas mãos.

Edward leu o diário do outro lado da fronteira, usando luvas para preservar as páginas. Quando terminou, entregou-o a Carlisle.

— Andreas serviu à guarda durante séculos — Carlisle confirmou. — Desapareceu pouco depois da morte de Benjamin.

— Marcus disse que ele foi destruído por Caius — Sarah recordou.

— Talvez não apenas por participar da morte de Didyme — Edward concluiu. — Andreas sabia demais sobre as ordens de Aro.

— O diário é prova — Billy afirmou.

Carlisle assentiu.

— Demonstra que os Volturi perseguiam a família de Sarah antes que houvesse qualquer violação das leis.

— E liga Aro à morte de Benjamin — Jacob acrescentou.

Sarah continuava olhando para as próprias mãos.

— Também demonstra que sou exatamente a ameaça descrita por eles.

— Não — Carlisle respondeu. — Demonstra que possui capacidade de escolha.

— Matei aquelas plantas sem sequer tocá-las.

— Estava em estado de sofrimento extremo.

— E retirei a força de Jacob.

Ele se aproximou da linha da fronteira.

— Sarah, olhe para mim.

Ela ergueu os olhos.

— Todo poder pode curar ou destruir — Carlisle disse. — A medicina salva vidas, mas os mesmos conhecimentos podem ser utilizados para ferir. A diferença não está na capacidade. Está na decisão de quem a utiliza.

— Eu não decidi.

— Ainda assim, parou no instante em que percebeu o que acontecia.

Jacob se aproximou.

— Porque você me ouviu.

Sarah olhou para ele.

— Poderia ter sido tarde demais.

— Não foi.

— Da próxima vez...

— Na próxima vez, reconheceremos o início.

Carlisle concordou.

— Precisamos identificar o que desencadeia a inversão. Aparentemente, a cura responde à compaixão e ao desejo de preservar. A retirada da centelha respondeu à raiva e à vontade de destruir.

— Eu queria destruir Aro — Sarah admitiu.

— Mas atingiu aquilo que estava perto — Edward observou.

Jacob ficou ao lado dela.

— Então, quando a raiva surgir, eu a trarei de volta antes que o poder encontre outro alvo.

— Você foi o primeiro alvo.

— E sobrevivi.

— Não quero que aconteça novamente.

— Não acontecerá.

Sarah fechou os olhos.

— Como pode prometer?

— Porque agora sabemos que existe.

A resposta não eliminou o medo.

Mas ofereceu um ponto de apoio.

Carlisle indicou as mãos dos dois.

— Precisamos verificar se o ciclo continua funcionando.

Sarah hesitou.

Jacob estendeu a mão.

— Confie em mim.

— Depois do que aconteceu?

— Principalmente depois.

Ela tocou seus dedos.

A luz surgiu.

Prateada.

Sem qualquer fio escuro.

A força circulou entre os dois de maneira tranquila.

Sarah respirou aliviada.

— Continua puro — Ateara disse.

Ele permanecia alguns passos atrás, carregando a caixa de Benjamin.

— Não é o poder que está corrompido, minha querida. Foi a dor que o conduziu por um caminho diferente.

Sarah apertou a mão de Jacob.

— Aro sabe que posso retirar a vida?

Eleazar respondeu do lado externo:

— Se Selene observou outras manifestações, talvez suspeite. Mas não deve conhecer o alcance.

— Então não podemos demonstrar antes do julgamento — Carlisle afirmou.

Jacob olhou para a carta.

— Também não contaremos sobre o diário de Benjamin até Marcus testemunhar.

— Por quê? — Sarah perguntou.

Edward compreendeu.

— Se Aro souber que possuímos a carta, preparará uma explicação ou tentará destruí-la.

Billy guardou o documento dentro da caixa.

— Permanecerá protegida na reserva.

Alice ficou imóvel.

Uma visão atravessou seus olhos.

— Os aliados estão chegando.

— Quantos? — Carlisle perguntou.

— Os irlandeses e os egípcios. Também vejo alguns nômades.

— E os Volturi?

A expressão dela se tornou tensa.

— Já deixaram Volterra.

Sarah sentiu Jacob apertar sua mão.

— Mas ainda faltam cinco dias para a lua cheia.

Alice olhou para o céu.

— Eles não pretendem esperar.

— Quando chegarão? — Sam perguntou.

— Em três dias.

O tempo acabara de ser reduzido.

Aro não lhes concederia a lua cheia.

Chegaria antes que a defesa estivesse completa.

E agora Sarah sabia que ele não encontraria apenas uma curadora esperando por ele.

Encontraria a filha de Benjamin.

Uma mulher capaz de devolver a vida.

E, se permitisse que a raiva decidisse por ela, capaz de retirá-la.