Acaso ou destino

18 Capítulo 17- A centelha compartilhada


Jacob levou Sarah para casa quando a noite já havia coberto completamente a estrada.

Não seguiram para a residência dos Black.

Depois da descoberta sobre Benjamin, Sarah pediu para passar algumas horas na casa que alugara. Precisava buscar roupas, documentos e alguns objetos que deixara para trás. Acima de tudo, necessitava permanecer por algum tempo em um lugar escolhido por ela.

Jacob não gostou da ideia.

A casa ficava fora da reserva, longe da proteção natural oferecida pela fronteira. Ainda assim, compreendeu que impedir Sarah de retornar seria transformar segurança em prisão.

Sam organizou uma patrulha ao redor da propriedade. Embry e Quil cobririam a parte norte da floresta; Leah e Seth permaneceriam próximos à estrada. Nenhum deles se aproximaria da casa, salvo se percebesse algum perigo.

Sarah e Jacob teriam privacidade.

Durante o caminho, nenhum dos dois falou muito.

As revelações daquele dia ainda pesavam entre eles.

Benjamin soubera da existência da filha.

Os Volturi provavelmente haviam provocado sua morte.

E o poder de Sarah, alimentado pela raiva, demonstrara ser capaz não apenas de devolver vida, mas também de retirá-la.

Quando chegaram, Jacob percorreu toda a área externa antes de permitir que Sarah saísse da picape.

Ela permaneceu sentada, observando-o verificar portas, janelas e os limites da floresta.

Jacob Black tinha vinte e quatro anos, a mesma idade de Sarah. Ainda assim, em determinados momentos, carregava nos ombros uma responsabilidade que parecia muito mais antiga. Tornara-se líder, protetor e guerreiro antes que tivesse tempo de decidir quem desejava ser.

Naquela noite, porém, Sarah não queria que ele fosse apenas o lobo da lenda.

Queria Jacob.

Quando ele abriu a porta do passageiro, encontrou-a olhando para ele.

— O que foi?

— Nada.

— Está com aquela expressão.

— Que expressão?

— A que surge antes de dizer alguma coisa capaz de mudar todos os meus planos.

Sarah desceu.

— Talvez eu esteja apenas admirando sua capacidade de transformar a entrada de uma casa em operação militar.

— Encontrou algum defeito no método?

— Ainda estou procurando.

Jacob fechou a porta da picape.

— A área está segura. Sam também confirmou.

— Então podemos entrar?

— Primeiro preciso verificar o interior.

Sarah retirou a chave da bolsa.

— Jacob.

— Dois minutos.

— Você esteve aqui ontem.

— Ontem não sabíamos que os Volturi antecipariam a viagem.

Ela lhe entregou a chave.

— Dois minutos.

Jacob entrou.

Sarah contou apenas um antes de segui-lo.

Ele se virou ao ouvir a porta.

— Disse dois minutos.

— E eu decidi que um era suficiente.

— Essa negociação não funciona se apenas você altera as regras.

— Está aprendendo.

Apesar da preocupação, Jacob sorriu.

A casa permanecia exatamente como Sarah a deixara. Algumas caixas continuavam abertas na sala, e a manta usada por ele na primeira noite ainda estava dobrada sobre o sofá.

Ela tocou o tecido.

Parecia ter passado muito mais tempo desde que o encontrara dormindo ali.

— Sente falta daqui? — Jacob perguntou.

— Sinto falta daquilo que imaginei que este lugar seria.

— E o que imaginou?

— Um recomeço.

— Ainda pode ser.

Sarah olhou ao redor.

— Nada aconteceu como planejei.

— Isso não significa que tenha sido destruído.

— Vampiros invadiram o hospital, os Volturi estão vindo me julgar e descobri que meu pai provavelmente foi assassinado.

— São alterações consideráveis.

Ela riu, embora os olhos se enchessem de lágrimas.

— Você é péssimo tentando consolar alguém.

— Não estava tentando diminuir o que aconteceu.

Jacob se aproximou.

— Seu recomeço ainda existe. Apenas não se parece com o que imaginou quando alugou esta casa.

— Com o que se parece?

Ele tocou delicadamente seu rosto.

— Com uma família que esperou vinte e quatro anos para conhecê-la. Com uma tribo disposta a lutar por você. E talvez...

Jacob hesitou.

— Talvez o quê?

— Comigo.

Sarah cobriu a mão dele com a sua.

— Principalmente com você.

A confissão fez o coração de Jacob acelerar.

Sarah ouviu.

Desde o despertar do poder, sua percepção da vida ao redor se tornara mais nítida. O coração dele já não era apenas um som. Era uma presença quente que ela reconheceria em qualquer lugar.

— Ainda está com medo de mim? — perguntou.

Jacob franziu a testa.

— Nunca tive medo de você.

— Hoje retirei sua força.

— Por alguns segundos.

— Poderia ter feito algo pior.

— Mas parou.

— Porque ouvi sua voz.

— Então continuarei chamando.

Sarah desviou os olhos.

— E se algum dia não conseguir me ouvir?

Jacob aproximou-se mais.

— Vou encontrar um modo de chegar até você.

— Não pode prometer isso.

— Posso prometer que tentarei enquanto houver qualquer parte de mim capaz de lutar.

Uma lágrima desceu pelo rosto dela.

Jacob a enxugou com o polegar.

— Não quero que chore.

— Hoje descobri que meu pai morreu tentando me proteger.

— Eu sei.

— Minha mãe viveu todos esses anos com medo e nunca dividiu com ninguém.

— Você não precisa fazer o mesmo.

Sarah encostou a testa no peito dele.

— Não sei como dividir uma coisa assim.

— Comece ficando.

Ele a envolveu em seus braços.

Durante alguns minutos, permaneceram no centro da sala, cercados pelas caixas de uma vida que Sarah ainda não tivera tempo de começar.

O coração de Jacob batia junto ao ouvido dela.

Forte.

Regular.

Vivo.

A centelha dentro de Sarah respondeu.

Não com luz ou calor intenso.

Com reconhecimento.

— Jacob.

— Sim?

— Quando disse que estava me apaixonando, tive medo de que fosse apenas gratidão.

Ele se afastou o suficiente para olhar para ela.

— Gratidão por quê?

— Por me proteger. Por ter permanecido quando tudo começou a desmoronar.

— E agora?

— Agora sei que é diferente.

Jacob esperou.

Sarah levou a mão ao rosto dele.

— Eu amo você.

Por um instante, o homem que enfrentara vampiros e liderara uma matilha pareceu incapaz de qualquer movimento.

— Diga novamente.

Ela sorriu entre as lágrimas.

— Eu amo você.

Jacob a beijou.

Não houve hesitação.

Sarah passou os braços ao redor de seu pescoço, e ele a ergueu, aproximando-a do próprio corpo. O beijo carregava todos os sentimentos que haviam tentado conter desde o primeiro encontro: medo, desejo, alívio e uma necessidade profunda de permanecerem juntos.

A luz prateada surgiu ao redor deles.

Dessa vez, não se limitou às mãos ou aos pulsos.

Espalhou-se pela sala.

O pingente aqueceu entre os dois, e a marca no ombro de Sarah brilhou sob a roupa.

Jacob interrompeu o beijo.

— A luz.

— Não está machucando.

Ele a colocou no chão.

— Tem certeza?

Sarah fechou os olhos.

Sentia a própria centelha pulsando.

Também sentia outra força se aproximando.

Quente.

Selvagem.

Poderosa.

A essência do lobo.

— É você — murmurou.

— O quê?

— Consigo sentir sua força dentro do ciclo.

Jacob segurou os braços dela.

— Está retirando alguma coisa de mim?

— Não.

A energia de Jacob não diminuía.

Multiplicava-se ao tocar a graça de Sarah.

A luz dela reconhecia o lobo. A força dele reconhecia a lua.

Sarah abriu os olhos.

— Não quero ter medo disso.

— Nem eu.

Jacob tocou seu rosto.

— Mas não farei nada se não tiver certeza.

Ela compreendeu que ele não se referia apenas ao poder.

A intensidade do beijo, a forma como seus corpos continuavam próximos e o desejo evidente nos olhos dele tornavam a pergunta desnecessária.

Mesmo assim, Jacob esperaria que ela escolhesse.

Como prometera.

Todos os dias.

Sarah segurou sua mão e o conduziu em direção à escada.

— Tenho certeza.

Ele não se moveu imediatamente.

— Sarah, depois de tudo que aconteceu hoje...

— Justamente por tudo que aconteceu.

Ela voltou e parou diante dele.

— Passei a vida inteira acreditando que precisava estar pronta para perder as pessoas. Não quero permitir que o medo decida também aquilo que posso viver.

Jacob tocou sua cintura.

— Não quero que faça isso porque acredita que podemos morrer.

— Não estou escolhendo você por medo da morte.

Sarah encostou os lábios nos dele.

— Estou escolhendo porque amo você.

A resistência de Jacob se desfez.

Ele a tomou nos braços novamente e subiu as escadas.

No quarto, a luz da lua atravessava as janelas ainda sem cortinas. O brilho se espalhava sobre a cama e transformava o ambiente em um lugar separado do restante do mundo.

Jacob colocou Sarah no chão.

Durante alguns segundos, apenas a observou.

— Ainda pode mudar de ideia.

— Você também.

— Isso não vai acontecer.

Sarah sorriu.

— Então estamos de acordo.

O beijo seguinte foi mais lento.

Não havia pressa.

Cada toque era uma pergunta e uma resposta. Jacob conteve a própria força, atento a qualquer mudança no corpo ou na expressão de Sarah. Ela o aproximava sempre que percebia uma nova hesitação.

A intimidade não nasceu apenas do desejo.

Nasceu da confiança.

Sarah permitiu que Jacob visse as marcas deixadas pelo medo e pelo luto. Jacob permitiu que ela encontrasse, por baixo da força do lobo, o homem que passara anos acreditando que jamais seria escolhido.

Quando fizeram amor, a magia despertou completamente.

A luz prateada envolveu os dois, mas não permaneceu apenas ao redor de seus corpos. Penetrou a pele, alcançou o sangue e encontrou as duas centelhas.

A graça de Sarah passou para Jacob.

A força do lobo passou para Sarah.

Nenhum dos dois perdeu coisa alguma.

A magia se repetiu.

Multiplicou-se.

O coração de Jacob bateu contra o dela, e os dois ritmos começaram a se aproximar até parecerem parte de uma única pulsação.

A marca no ombro de Sarah se modificou.

O lobo no centro da lua adquiriu um brilho avermelhado, da mesma cor da forma lupina de Jacob.

No peito dele, sobre o coração, surgiu por alguns segundos o desenho prateado de uma lua crescente.

O imprinting deixava de ser apenas um vínculo que partia do lobo em direção a Sarah.

Tornava-se recíproco.

Consolidado pela escolha.

Naquele instante, a centelha de Jacob passou a viver dentro dela.

Não como uma presença invasora, mas como uma chama quente acomodada junto à própria essência de Sarah.

Ao mesmo tempo, parte da graça dela encontrou lugar no coração do lobo.

A magia que existia em Sarah agora também existia em Jacob.

A força que vivia em Jacob agora também vivia em Sarah.

Quando a luz desapareceu, nenhum dos dois era exatamente o mesmo.

Permaneceram abraçados sob o luar.

Sarah repousava a cabeça sobre o peito dele, ouvindo o coração retornar lentamente ao ritmo normal.

Jacob acariciava seus cabelos.

— Está bem? — perguntou.

— Estou.

— Alguma dor?

— Não.

— Fraqueza?

Sarah examinou a própria centelha.

Sentia-se mais forte do que antes.

— Nenhuma.

Jacob fechou os olhos, aliviado.

— O vínculo mudou.

— Também senti.

— Consigo perceber você de outra forma.

— Como?

Ele tentou explicar.

— Antes eu sabia onde estava porque o imprinting me puxava em sua direção. Agora...

— Agora?

— Parece que uma parte de você está dentro de mim.

Sarah tocou o centro do peito dele.

Uma luz suave respondeu sob sua mão.

— Está.

Jacob abriu os olhos.

— Isso deveria me preocupar?

— Talvez amanhã.

Ele riu e a abraçou com mais força.

— Gosto dessa versão da ciência.

Sarah sorriu contra sua pele.

— Durma.

— Preciso permanecer acordado.

— A matilha está ao redor da casa.

— E se...

— Jacob.

Ele se calou.

— Esta noite, fique apenas comigo.

O pedido venceu todos os instintos de vigilância.

— Está bem.

Sarah fechou os olhos.

Pela primeira vez desde a morte da mãe, dormiu sem sonhar com despedidas.

Jacob despertou antes do amanhecer.

Sarah continuava dormindo, envolvida pelo braço dele.

Durante alguns minutos, permaneceu observando-a.

A luz da lua desaparecia lentamente com a chegada do dia, mas a marca no ombro dela ainda conservava um brilho suave.

O lobo no centro do desenho agora possuía a cor de sua pelagem.

Jacob tocou a marca.

Sarah abriu os olhos.

— Bom dia.

— Bom dia.

— Está arrependida?

Ela se virou e beijou seu peito, exatamente sobre o lugar onde a lua surgira.

— Não.

Jacob sorriu.

— Preciso falar com Sam. A patrulha muda ao amanhecer.

— Vá.

— Voltarei em poucos minutos.

— Eu sei.

Ele se vestiu e saiu.

Sarah permaneceu deitada, ouvindo seus passos se afastarem. Depois percebeu algo estranho.

Continuava sentindo Jacob.

Não apenas a direção em que seguia.

Sentia a pulsação dele.

A força.

O calor.

Mesmo quando Jacob alcançou a floresta e se transformou, a centelha permaneceu dentro dela.

Sarah se levantou.

Sobre a cômoda havia uma pequena planta que começara a murchar durante os dias em que a casa permaneceu vazia.

Ela aproximou a mão.

A centelha da planta era fraca, mas ainda existia.

Sarah a tocou.

A luz percorreu seus dedos.

As folhas recuperaram lentamente a cor. O caule tornou-se firme, e um pequeno botão surgiu entre os galhos.

Sarah aguardou a fraqueza.

Nada aconteceu.

Não estava tocando Jacob.

Ele já se encontrava longe, correndo pela floresta.

Ainda assim, a energia retornou.

A centelha do lobo agora vivia dentro dela.

Sarah fechou os olhos e encontrou a chama de Jacob junto à própria essência. A força dele mantinha o ciclo mesmo à distância.

Na floresta, o lobo avermelhado interrompeu a corrida.

Sentiu um calor prateado atravessar seu corpo.

Não precisou perguntar o que acontecera.

A visão da planta restaurada surgiu brevemente em sua mente, como se os olhos de Sarah também fossem os seus.

Sam, correndo ao lado dele, percebeu a alteração.

O que foi?

Jacob voltou a correr.

Ela usou o poder.

Sozinha?

Sim.

E não enfraqueceu?

Jacob sentiu novamente a centelha dela.

Forte.

Inteira.

Não.

Como?

A resposta surgiu dentro dele com a certeza de algo que não precisava ser explicado.

Porque agora estou com ela.

Mesmo quando estou longe.

Quando Jacob retornou, encontrou Sarah na varanda segurando o vaso com a planta restaurada.

— Você sentiu — ela afirmou.

— Tudo.

— Não precisei tocar você.

Ele se aproximou.

— Minha força está dentro de você.

Sarah colocou a mão sobre o coração dele.

— E minha luz está dentro de você.

A lua prateada apareceu novamente sobre a pele de Jacob.

A marca de Sarah respondeu.

— O vínculo não depende mais do contato físico — ela concluiu. — O ciclo permanece aberto porque cada um carrega a centelha do outro.

Jacob olhou para a planta.

— Então consegue se restaurar mesmo quando estou longe.

— Sim.

Ele deveria ter se sentido aliviado.

Em parte, sentiu.

Mas também compreendeu que aquilo aumentava ainda mais o poder de Sarah.

E Aro perceberia.

— Ninguém pode saber — disse.

— Carlisle precisa saber.

— Carlisle, Billy e seu avô. Apenas eles.

Sarah assentiu.

Jacob a abraçou.

O contato não era mais necessário para completar o ciclo.

Ainda assim, ambos o desejaram.

Dentro da casa, a planta que estivera quase morta abriu sua primeira flor.

Na floresta, os lobos sentiram uma nova força percorrer a mente coletiva.

E, muito longe dali, Marcus observou um laço prateado surgir no vazio.

Não havia mais uma lua e um lobo unidos por dois fios.

As duas centelhas haviam se tornado parte uma da outra.

Aro desejava capturar o poder de Sarah.

Mas não compreendia que, depois daquela noite, já não seria possível separar a Filha da Lua de seu guardião.

Para arrancar um do outro, seria necessário destruir os dois.