Acampamento
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Obrigada! Boa leutira.
Acordei como se tivesse recebido uma pancada na cabeça. Que tipo de pessoa coloca o despertador para às 07:00 da manhã em pleno sábado de férias? "Droga", pensei, não devia ter bebido tanto na noite anterior, a luz do sol entrando pela janela já me deixava com dores de cabeça. Arrastei-me até o banheiro para tomar um banho, a fim de aliviar a ressaca.
Não adiantou.
Vesti um short curto, vermelho com xadrez preto, uma regata cinza simples e um casaquinho mais longo que o short, batia quase nos joelhos. Calcei meu all star preto e desci as escadas, seguindo o delicioso cheiro de café. Mas que raios aquela casa fazia acordada aquela hora da manhã?
Joguei-me na cadeira e me servi de uma xícara de café.
— Bom dia pra você também, querida — disse minha mãe, parecendo estar de ótimo humor.
— Bom dia, dona Olívia. — respondi com desânimo na voz.
— É 'mãe' pra você, ouviu? E espero que esteja tudo pronto, o ônibus sai às 08:30.
— Tudo pronto? Ônibus? Mas o que... Ah droga — respondi, me lembrando que estaria literalmente exilada em "Ballingen" em algumas horas. — Eu estava mesmo me perguntando o porque de meu despertador tocar às 07:00 da madrugada.
Peguei na bolsa de minha mãe, que estava sobre a mesa, um panfleto verde e laranja, onde se lia:
BALLINGEN: ACAMPAMENTO DE FÉRIAS.
Contato com a natureza, atividades físicas e educativas. Cursos, diversão e lazer para o seu filho nessas férias! Jovens de 08 à 18 anos, matriculem-se já!
O panfleto mostrava uma casa imensa, com uma floresta como jardim. Era sim, um lugar muito bonito, eu tinha que admitir, mas passar um mês inteiro ali, sem contato com o resto do mundo, apenas com um bando de desconhecidos?? Não, obrigada.
— Mãe, tem certeza de quer tirar férias de mim? Sério, não precisa me levar pra ver o papai com você, me manda pra São Paulo, pra qualquer lugar, menos pra esse...
— Chega, Emilly. Não se trata de tirar férias de você. Você é muito fechada nesse seu mundinho. Acaba perdendo a vida no seu cubículo, você precisa de...
— "De um tempo pra mim, pra me encontrar, ter novas experiências"... Ja sei mãe, ja ouvi esse discurso tres milhões de vezes. Vou terminar de arrumar minhas coisas. — disse, percebendo e aceitando finalmente que seria impossível fazê-la mudar de ideia. Ela disse algo sobre estar me esperando na casa da vizinha, e eu subi para o quarto. Estava quase tudo pronto pra viagem, minhas roupas, calçados, livros, kit de higiene pessoal, cadernos e acessórios. Estava me arriscando até a levar uns lanches para o caso de lá ser tipo esses acampamentos que protegem os animais e nos obrigam a ser vegetarianos por um mês.
Apenas colquei um jogo de cordas reserva para meu violão e meu notebook escondido, pois ja havia sido alertada sobre não levar eletrônicos na bagagem.
Exatamente às 08:00hrs, desci com minhas malas e meu violão para encontrar minha mãe, que logo vi conversando animadamente com Mauro, Lúcia e Wesley, nossos vizinhos. Me aproximei e cumprimentei a todos com um sorriso amarelo e um "bom dia".
— Emy, se lembra de Wesley? — claro que eu me lembrava, ha dez anos atrás, quando eu era uma criança de sete anos e ele uma de oito, éramos melhores amigos. Na verdade, todas as crianças da vizinhança eram muito amigas. Eu e Wes não trocávamos nem um "olá" há uns três anos, não sei o porquê. — Ele vai para Ballingen também!
— O quê? Sério? Nossa Wes — devia ter saído Wesley, mas não consegui chamá-lo assim — meus pêsames pelas suas férias. — ele sorriu e olhou para baixo.
— Na verdade, lá é um lugar especial pra mim. Acho que você vai gostar, vou pra lá desde os oito anos.
— É, eu me lembro.
Eu sempre quis ir para o tal acampamento que Wes sempre falava, mas meus pais nunca deixaram.
Fomos juntos em silêncio, cada um com seus fones e suas malas, até o ônibus, que já estava cheio. Wesley guardou suas malas e se dirigiu ao fundo, onde começou uma grande bagunça com seus amigos de acampamento. Por um momento havia pensado que seria bom Wes ir, assim eu conheceria alguém. Mas minha timidez não me permitiu esse pensamento por muito tempo, ao ver Wes indo ficar com tanta gente estranha, resolvi que não me aproximaria mais dele.
Ao olhar ao redor do ônibus e ver todas as pessoas rindo e se divertindo, cada uma com seu grupinho já formado e fechado, senti aquela dúvida de "será que vai ser legal?" se dissipar. Que grande porcaria.
Me sentei na quinta poltrona, sozinha, encostada na janela. Na poltrona ao lado, coloquei meu violão, justamente para ninguém pensar em se sentar ali.
Seria, com certeza, uma longa viagem.
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