Acampamento

2 Capítulo 2


"Nova exilada", era isso que tinham escrito na minha cara enquanto peguei no sono dentro ônibus, foi isso que li quando, ao chegar no acampamento, me olhei no espelho do banheiro.

— Droga de trote — pensei em voz alta enquanto lavava o rosto. Naquele momento, uma garota saiu de um box e me olhou pelo espelho.

— Desse jeito você arranca sua pele — disse ela, levando em conta a força com que eu esfregava meu rosto. — Se você me permitir... — ela mexeu em sua bolsa e tirou de lá lenços demaquilantes.

Ah, que alívio. Permito, por favor e obrigada.

— Meu nome é Gabriella, 17. E o seu? — ela perguntou enquanto me esperava limpar o rosto.

— Emilly.

— Emilly...?

— O que? Quer meu sobrenome também? — perguntei, vendo que ela esperava algo mais em minha resposta.

— Hun, calouros — reclamou — Então ta, vou te explicar. Aqui nós somos dividos em três grupos, de acordo com nossa idade. Dos 8 aos 12 anos são os infantis, dos 13 aos 15 são os adolescentes e dos 16 aos 18 são os... Ah, os livres, podem fazer quase tudo o que quiser, sem pedir permissão ou dar qualquer aviso. Então, quando alguém pergunta seu nome, automaticamente pergunta seu grupo.

— Ah, nossa... Desculpa. É Emilly, 17 também.

Gabi (como ela me permitiu chamà-la) era muito bonita, do meu tamanho, pele branca e com sardas, ruiva de cabelo cacheado e longo. Saímos juntas do banheiro, e eu pedi que ela me explicasse como funcionavam as coisas por ali.

— Então, aqui nós temos que participar obrigatoriamente de dois cursos, que eles vão sortear hoje à noite. Depois você tem que se inscrever em pelo menos um que quiser. Hoje à noite terá um jantar, tipo um evento de iniciação, daqui a quinze dias terá uma festa, e no fim do acampamento, normalmente dois dias antes de acabar, tem um sarau. Você escolhe em que quarto quer ficar, sendo que em cada quarto ficam três meninas ou meninos. Pois é, nada de junto e misturado. Hoje você e os outros calouros vão ficar sabendo as regras básicas no jantar, coisa que nós veteranos ja sabemos de cor... E, então... Você ja tem um quarto?

— Não, ainda não.

— Se quiser pode ficar comigo e com minha irmã, Mariana. Ainda temos uma vaga.

— Seria ótimo, obrigada. — Agradeci à ela. Ufa, um problema a menos na minha lista. Gabi me levou até o quarto, e, nossa, que quarto. Não era tão grande, havia uma beliche e uma cama de solteiro normal, havia uma janela imensa com um sofá embaixo e cortinas amarelas. Um guarda roupa divido em quatro partes e um espelho que cobria parte da parede do teto ao rodapé. O papel de parede era nude com flores em tons pastéis, muito feminino pra mim, mas era lindo, eu devo admitir. O banheiro tinha um sanitário, um chuveiro com cortina, e uma pia que cabia cinco de mim escovando os dentes juntas.

— Certo — disse Mariana, depois que fomos apresentadas. Ela era mais velha que Gabi, e esse era seu último ano no acampamento. Também tinha sardas, mas não era tão ruiva como Gabi, seus cabelos eram cor de mel e não eram longos. — Onde estão suas coisas? — Mari continuou.

Droga.

Mil vezes, droga.

Estava tão envergonhada por estar todo mundo olhando e rindo da minha cara rabiscada que saí correndo do ônibus, deixando para trás até o meu violão.

Sai do quarto correndo atrás de Gabi, que dizia saber onde ficava a administração. Era vergonhoso. Todos andando em direção aos quartos, e eu, a única indo na "contramão".

— Com licença, senhor — disse ela ao único representante na administração — minha amiga, Emilly, deixou as malas dela no ônibus, será que você poderia nos...

— Os bagageiros de todos os ônibus foram esvaziados. As malas esquecidas estão por ali — disse o rapaz, apontando para um monte cheio de malas e nem se dando ao trabalho de olhar para nós. Gabi foi na frente, para procurar as malas, mas eu ainda tinha uma preocupação. Uma preocupação maior.

— Desculpe — eu disse, sem jeito, visto que ele parecia estar de saco cheio das pessoas. — Ér... O meu violão, ele não estava no bagageiro, estava na poltrona do ônibus e eu o esqueci.

Aquele lindo par de olhos azuis finalmente olhou para mim, bem no fundo de meus olhos, parecia estar olhando a minha alma.

Quase não consegui formular a pergunta.

— Será que você o viu por aí?
Ele parou o que estava fazendo. Pelo visto eu ia receber atenção dele.

— Sou o Pedro — ele estendeu a mão, e quando eu estendi a minha, ele a beijou sem tirar os olhos dos meus.

— Emilly, 17. — respondi, sorrindo e corando. Ele era a perdição em forma de gente.

— Sinto muito, Emilly. O interior do ônibus não foi revistado, apenas o bagageiro. Mas se eu puder te ajudar em qualquer coisa... — SIM, ele podia me ajudar em muito mais, em tudo o mais.
— Achei! — Gabi me despertou do transe. Ah, obrigada Gabi, pode ser que eu estivesse babando em cima do... Pedro.

Ao sair da presença dele, voltei à mim: eu perdi o amor da minha vida, perdi meu violão!!! Meus olhos se encheram de lágrimas, senti meu rosto queimando e minhas mãos começaram a tremer.

Mal cheguei ao nosso quarto, e já me joguei na cama, de cara no travesseiro e comecei a chorar. As meninas não entendiam o que estava acontecendo, mas claro, nem poderiam. Para elas era só um violão, não sabiam o valor sentimental que ele tinha pra mim.

Alguns minutos depois, alguém bateu na porta, e Mariana abriu. Eu ainda estava enterrada no travesseiro, mas pude ouvir uma voz cansada e entediada que eu conhecia bem dizer:

— Olá, desculpa incomodar mas por acaso tem uma Emilly nesse quarto? Isso não é um flerte. — Mariana riu da situação e da forma como ele falou aquilo, e mesmo com a cara abafada, também ri.

— Bom, eu acho que ela não quer ver ninguém. — Mariana abriu mais a porta para que ele pudesse me ver, e quando viu, suspirou aliviado.

— Ah! É isso ai! — comemorou — Já andei essa mansão inteira e bati em metade dos quartos procurando essa... Está tudo bem, Emy? — ele perguntou, interrompendo sua própria frase. Levantei a cabeça apenas o suficiente para olhar para ele, que me deu um meio sorriso e um olhar questionador. Ele estendeu a mão, não que precisasse fazer isso para eu ver o que ele estava segurando.

— Meu violão! — Saltei da cama e o agarrei (o violão, não Wes), coloquei-o na cama e o abri conferindo se ele estava bem. — Como você conseguiu? Me disseram que ele não foi tirado do ônibus...

— E não teria sido, se eu não tivesse passado pela sua poltrona depois que você saiu e pegado ele pra você. — eu o ouvi e voltei a me distrair com o violão. Escutei a porta se fechando.

— Emilly! Você nem vai agradecer ao delicioso... Digo, bondoso rapaz? — perguntou Mariana com indignação. Eu estava tão feliz, que não me importaria de fazer esse sacrifício. Fui até a porta, e como ele ja estava um pouco longe, gritei:

— Wes! — ele parou e se virou — Obrigada! — ele apenas sorriu e acenou com a mão.

Meu Deus, obrigada. Meu violão estava inteiro.