Aquele confinamento era desnecessário na opinião de Pedro. Ele estava completamente recuperado do que quer que tivesse acontecido. Isso era algo que ele estava tentando entender. Os médicos sabiam da sua situação, sabiam que estava bem, e que poderia ser liberado para cumprir seu cronograma de aulas e atividades. Claro que o que ele desejava na realidade, era ir ao seu quarto e jogar um pouco do seu jogo online favorito. Mas o que ele precisava fazer era descobrir o que tinha acontecido mais cedo. A explicação mais sensata seria a de que aquilo foi um sonho vivido. Ele deveria ter esbarrado em alguma árvore, desmaiado e sonhado com tudo aquilo. O único problema é que ele sentia seu corpo diferente. Seus braços e pernas estavam mais fortes. Alias, seu organismo inteiro estava mais forte. Tanto que os médicos desacreditavam da velocidade com que seu corpo recuperou-se da pneumonia que havia adquirido. Deve ser por isso que me trancaram aqui, querem descobrir como me curei tão rápido.

Foi então que decidiu seguir uma de suas ideias tidas mais cedo. Sair pela janela. O que seria simples, pois não havia ninguém dentro do quarto o vigiando, muito menos alguém no lado de fora da janela. E pelos seus cálculos, um professor só viria visita-lo daqui quinze minutos. Visitas de professores eram recebidas a cada trinta minutos.

Pedro levantou-se da cama e foi em direção a janela, quando chegou perto viu que estava trancada com um cadeado. Devia ter previsto isso. Virou suas costas para o cadeado e analisou o quarto em busca de algo que pudesse ajuda-lo a quebrar o cadeado, mas não encontrou nada. Droga! A única coisa que poderia fazer, caso soubesse como fazer, era utilizar algum objeto fino para abrir o cadeado como faziam em filmes, ou em livros. Mas infelizmente, ele não estava em nenhum dos dois. Por aquele ser um momento de desespero, Pedro decidiu utilizar a força. Segurou com ambas as mãos o cadeado e puxou. Puxou com mais força. Estava ficando vermelho do esforço feito. Foi então que desistiu. Soltou o cadeado e sentou-se no chão.

Olhou para suas mãos que estavam vermelhas, e com marcas do cadeado. As virou para olhar do outro lado e viu que suas unhas estavam negras, e afiadas. Ligou aquilo diretamente com o acontecimento de cedo, por isso conseguiu manter sua calma e não pirar, afinal aquilo era algo bom para ele. Sua dúvida era se estava crescido, ou ainda tinha seus doze anos. Mexeu seus dedos dos pés dentro do sapato e percebeu que podiam movimentar-se livremente, só isso já era suficiente para saber que a única mudança era em sua mão.

Pedro sabia qual era a utilidade daquele novo acessório. Ficou de frente para a janela e deslizou suas unhas sobre o vidro, desenhando um quadrado. Quando terminou o desenho o vidro cedeu para dentro do quarto, ele o segurou e colocou devagar no chão. Sua liberdade tinha sido conquistada, finalmente. Olhou para suas mãos, e percebeu que suas unhas estavam de volta ao normal, aquilo o desanimou. Mas não tinha tempo a perder, pulou para fora do quarto e correu em direção ao bosque.

Continuou correndo por alguns minutos. O lugar estava totalmente escuro, pois a luz das estrelas e da lua não chegava até onde estava graças as árvores. Isso não fez com que deixasse de avançar, nem fez com que esbarrasse em alguma árvore, ele conhecia o percurso, e dessa vez sua atenção estava voltado para aquilo.

Quando chegou ao centro da floresta decidiu diminuir o passo. Seus pensamentos foram direcionados novamente para o acontecido de mais cedo. Toda vez que pensava naquilo ficava frustrado. Ele sabia que não era sonho, ou algo parecido. Sabia muito bem o que tinha realmente acontecido. A parte frustrante era o fato de ter voltado a sua idade, a idade que limitava suas ações totalmente. Queria tanto voltar aqueles segundos que estava no seu corpo adulto, e parar o tempo naquele exato momento. Mas sabia que era impossível. Por outro lado tinha esperanças de que pudesse voltar a ter aquela experiência caso estivesse em uma situação parecida com a de mais cedo. Uma situação de perigo.

Subiu em uma arvore de aproximadamente três metros, e pulou dela para outra que estava próxima, aquilo era fácil. A próxima árvore não estava tão próxima, mas não foi um desafio pular da que estava para ela. Quando chegou à décima árvore, olhou em volta e percebeu que todas as outras árvores estavam extremamente longe, aquilo seria o desafio que estava procurando.

Flexionou seus joelhos e pulou. O momento do pulo passou por seus olhos em câmera lenta, e acreditou que conseguiria chegar a outra árvore sem maiores perigos. O único problema foi a gravidade. No meio do pulo ele começou a cair, e não tinha nada para se segurar. É agora. Seu coração bateu mais forte. Quando abriu seus olhos estava no chão, de pé.

Tinha funcionado. A distância entre sua cabeça e seus pés estava maior. Seu sapato estava apertando seus pés. Sua camiseta tinha rasgado no lado esquerdo. Seu experimento tinha sido um sucesso.

Tirou seus sapatos, e sua camiseta, e voltou a andar pelo bosque, dessa vez com a intenção de sair dele para depois ir ao seu dormitório. Quando passou por duas árvores enormes, ouviu um barulho de galho quebrando. Sentiu um chute em seu abdômen, e foi arremessado metros para trás.

Seus olhos já estavam acostumando-se a escuridão, conseguia enxergar a silhueta de uma pessoa saindo de trás da árvore. Estava vindo em sua direção. Apoiou sua mão no chão para se levantar, e sentiu uma pedra solta. A pegou e jogou com força em direção ao vulto. O vulto atingiu a pedra com um soco que a transformou em pedaços. Aquilo deixou Pedro perplexo, e com um único pensamento em sua cabeça. Fugir.

Levantou rapidamente, e começou a correr. O vulto fez o mesmo. Pedro, felizmente, era mais rápido que ele, ou ela, conseguindo manter uma distância grande entre eles durante a corrida.

Já estava próximo a saída do bosque quando sentiu algo acertar suas pernas, o fazendo cair com força na terra. Era um galho enorme que o tinha atingido, mas não sentia dor no local. Onde estava caído já havia iluminação, por isso foi capaz de ver quem o estava atacando. Um homem de aproximadamente vinte cinco anos, cabelos castanhos, olhos verde escuros. Estava utilizando a mesma vestimenta que Pedro, que era uma calça da Academia, que mais parecia uma bermuda em ambos. Foi então que pensou sobre tudo que tinha acontecido, e percebeu que talvez soubesse quem era aquele homem.

- Eduardo!

O homem parou de andar quando ouviu o nome.

- Quem é você?!

- Sou eu. Seu amigo, Pedro.

- Meu amigo Pedro tem doze anos, e estava na enfermaria. – quando percebeu que tinha falado demais, tentou refazer sua frase. – Alias, eu não tenho nenhum amigo com esse nome. Do que esta falando?

- Então o mesmo aconteceu com você? Estava correndo perigo, e seu corpo aumentou de tamanho?

Aquela última pergunta desarmou seu amigo totalmente. Qualquer resposta pronta não seria efetiva contra aquela pergunta. – Não acredito em você.

- Eu posso provar que estou dizendo a verdade.

- Não! Eu não vou cair naquele truque de fazer uma pergunta que só nós dois deveríamos saber.

- Não é assim que irei provar. Irei provar te... – antes que pudesse terminar sua sentença foi interrompido por uma terceira voz.

- Ele esta falando a verdade Eduardo. Olhe bem para ele. Mas quando fizer isso lembre-se de como era o rosto de seu amigo Pedro, nesse momento verá as coisas mais claramente.

Os dois olharam para todos os lados, procurando achar de onde vinha aquela voz. Mas não tiveram êxito. Por algum motivo o que a voz havia sugerido tinha parecido ser algo aceitável. Olhou diretamente para o garoto que dizia ser seu amigo Pedro, e lembrou de seu amigo de doze anos, que deveria estar descansado na enfermaria. Quando juntou as duas imagens em sua mente percebeu a semelhança. Os grandes olhos negros, combinando com seu cabelos despenteados da mesma cor.

- É verdade...

- Não acredito que você tenha precisado que um estranho te desse a dica sobre a aparência. Realmente você tem musculo no lugar do cérebro – ambos riram daquele comentário. – Mas mesmo assim irei revelar meu segredo que ninguém da Academia sabe. Vamos até os dormitórios.

- Mas antes. Não quer descobrir quem é o dono dessa voz – ele perguntou.

- Dú, ele não está mais aqui.

- Como você sabe? – Eduardo perguntou perplexo.

- Eu só sei – Pedro respondeu, rindo.

Entraram no quarto de Pedro sem fazer nenhum barulho para não chamar atenção. Decidiram acender apenas a luz do abajur por precaução. Pedro foi até o armário, torceu o pegador da terceira gaveta para esquerda, depois empurrou o pegador da quarta para dentro, e o da última gaveta ele puxou. O click significava que a madeira tinha se soltado. A removeu, revelando sua caixa. A colocou em cima da cama, e abriu. Quando Eduardo viu o conteúdo começou a rir descontroladamente.

- O que aconteceu?

Eduardo tentou responder a pergunta, mas a risada não deixava que formasse frases compreensíveis. Após alguns minutos rindo, ele se acalmou e começou a falar.

- Desculpa Pedro. Isso é o seu grande segredo?

- Ei! Isso poderia me fazer ser expulso.

- Nossa! E eu um dia me achei ingênuo. Acho que você está no nível da Júlia agora. Histórias em quadrinhos, mangás, séries, um micro computador. Já ouvi relatos de alunos com coisas muito mais perigosas, que acabaram não sofrendo mais do que algumas penalidades por isso. Agora entendo porque do nosso grupo suas notas são as menos surpreendentes. E depois eu que tenho musculo no lugar do cérebro. – Eduardo deu uma risada baixa. Pedro tentou se conter, mas acabou retribuindo a risada.

- Agora o assunto. – Pedro não queria entrar naquele assunto tão cedo, ao contrário de seu amigo Eduardo.

- O-ok!

- O que esta acontecendo com nossos corpos?

- Hum...

- De quem era aquela voz no bosque?

- Não faço ideia.

- Voltaremos a ter doze anos? Aliás, nós temos doze anos. Voltaremos a ter corpos de doze anos?

- Para essa eu tenho uma resposta. Podemos dizer que isso aconteceu comigo já. Hoje de manhã meu corpo cresceu, como agora. E quando acordei estava com o corpo de doze anos novamente. Presumo que isso acontece sempre.

- Entendo. Então a transformação tem um tempo limite.

- Sim.

- Da última vez durou quanto?

- Não me recordo, mas não deve ter passado de cinco minutos. Logo depois que me transformei e percebi o que tinha acontecido eu senti uma dor de cabeça horrível e desmaiei.

Eduardo deitou-se na cama olhando para o teto. Estava tentando decifrar tudo aquilo.

- Não acho que podemos levar sua primeira transformação em consideração, porque esta é minha primeira e está durando praticamente uma hora.

- O essencial agora é compartilharmos nossas experiências e ver se assim podemos encontrar padrões. Por exemplo, eu tenho quase certeza que só cresço quando estou em perigo, ou em risco. É o mesmo com você?

- Não! Eu me transformei quando estava muito irritado. Tanto que quebrei uma parede com um soco. O que é estranho também. Sou forte, mas não a este ponto.

Pedro passou a mão em seu abdômen, lembrando-se da força do chute que tinha o acertado no bosque.

- Realmente, sua força esta desumana agora. Seu chute me jogou longe.

- É... desculpa por isso.

- Não tem problema. Não senti nada na hora, nem agora. Meu corpo tornou-se extremamente resistente após a primeira transformação.

- Calma! Acho que entendi uma parte de tudo pelo menos. Antes disso tudo eu já era forte. Agora que... vou dizer “evolui”... agora que evolui minha força evoluiu junto.

- Faz sentido.

- Sim, mas...

- Mas isso só se aplica a você.

Pedro queria contar sobre a transformação de suas unhas, para armas mortais, mas aquilo só traria mais perguntas, e agora precisávamos de respostas.

- Tem um problema nessa situação toda. Nós dois temos lugares em que devemos estar, mas nessa forma não podemos ir até eles. Se essa transformação virar algo frequente, as pessoas irão perceber nossa ausência. É provável que tenham notado a minha já, porque um professor me visita a cada trinta minutos.

- Droga! Isso é verdade. – Eduardo passou a mão em seus cabelos, enquanto pensava no que iria dizer. — Alguma pessoa tem que ter a resposta para nossas perguntas. Talvez o dono daquela voz!

- Não parecia uma voz amigável, Eduardo.

- Relaxa, Pedro. O que o dono daquela voz pode fazer contra nós dois agora? – para acalmar seu colega, colocou a mão em seu ombro, ou pelo menos tentou colocar, pois quando se aproximou, Pedro pegou sua mão e torceu seu braço, deixando Eduardo indefeso.

Ele percebeu o que tinha feito, e largou o braço de seu amigo.

- Ei! Desde quando você sabe lutar?

Desde nunca. Os conhecimentos de luta de Pedro eram zero, mas de alguma forma conseguiu realizar aquilo. Virou seu rosto para um mangá que estava a sua frente, aberto e criou uma ideia de como aquilo teria sido possível.

- Olha aqui. – apontou para o mangá aberto em sua cama, onde um dos personagens fazia o mesmo movimento que ele acabara de realizar, em seu inimigo.

Os dois se olharam, e ficaram em silêncio.

O primeiro a falar foi Pedro. – Agora eu acho que decifrei outra peça desse quebra-cabeças. Quando crescemos somos capazes de copiar o que vemos. E arrisco afirmar que talvez sejamos capaz de aperfeiçoar o que “copiamos”.

- Isso até que faz sentido. Tem uma forma de descobrir se você esta certo.

Um mangá escorregou da cama. Quando caiu no chão fez um barulho que roubou a atenção dos dois amigos. Pedro o pegou e colocou de volta a caixa. Olhou para seu amigo, e o sorriso que estava em seu rosto desapareceu. Junto com o de seu amigo.

- Doze anos de volta?

- Sim.

- Independente disso Pedro. O que tinha a dizer é que pra comprovar essa sua teoria nós poderíamos na próxima vez que... evoluirmos, ir até o bosque treinar nossas habilidades. Você me assiste treinando primeiro, e depois tenta fazer o mesmo. Se der certo iremos para o próximo nível. Você lutara comigo e só descansara quando conseguir evoluir seu nível de luta a ponto de conseguir me acertar.

- Excelente ideia. – ele pensou melhor sobre o assunto e completou. — tirando a parte que vou lutar com você. Já que voltamos ao normal, deveríamos voltar aos nossos lugares. Não quero pessoas me procurando novamente.

- Tudo bem. – Eduardo se levantou e virou suas costas para sair do quarto.

- Ei Eduardo. Acho que você deveria levar alguns livros sobre luta nesse próximo encontro.

- Por que?

- Tive uma ideia, e se der certo. Bem, se der certo não demorará muito para te derrotar, fracote.

Ele sorriu, e saiu do quarto.