Quero crescer...

- Pessoal, admitam. — quem falava era Rafael, um garoto alto para sua idade, com olhos azuis herdados de seu pai, e cabelos negros como a noite. Mas sua fama não vinha de seus atributos, sim de seu dom da oratória. Quando falava, todos seus colegas paravam e sucumbiam a sua voz. Felizmente, ele era uma criança de 12 anos, e não tinha noção disso.

Claro que algumas pessoas eram imunes a este dom, como Isabela. Tinha a mesma idade de Rafael, e ambos estudavam no 8 ano C. Ela gostava dele, mas como sempre estava ocupada pensando em outras coisas, só prestava atenção no assunto da conversa, mas não em quem estava falando. Desta vez decidiu envolver-se na conversa, puxou uma mecha de seus cabelos ruivos, que estavam cobrindo seu rosto, para trás de sua orelha, mostrando seus olhos verdes.

- Admitir o que?

- Que todos nós não vemos a hora de crescer, ser independente, e finalmente ser livres disso tudo. Livre para fazer nossas escolhas.

Pedro sentava-se na frente dos dois, e estava pensando nas consequências dessa simples conversa caso o professor aparecesse. O que era típico de Pedro, pensar em tudo com antecedência. Ele era um dos menores garotos da sala, mas um dos mais rápidos de raciocínio. Por sua mania de passar a mão na cabeça quando pensava, seus cabelos castanhos escuro sempre estavam bagunçados, mas por serem lisos, e não muito longos, o “bagunçado” acabava tornando-se um penteado divertido. Pedro era totalmente fissurado por jogos, não os eletrônicos, sim os de raciocínio. Pois na academia não era aceito que os alunos pactuassem com essa realidade dos jogos eletrônicos, já que na visão deles o único propósito dos jogos era tirar a atenção dos jogadores, do essencial.

Mas nos momentos em que estava sozinho, sua mente voltava-se para o mundos dos jogos onlines, ou de qualquer plataforma de video-game. Era um de seus vícios mundanos. Claro que ninguém sabia desse fato sobre ele. Era o segredo mais bem guardado, pois caso alguém soubesse, consequências graves iriam cair sobre ele.

- Rafael, todos nós gostamos dos seus questionamentos sobre a vida, mas agora não é apropriado. Imagina se o sr. Fitz entra na sala e nos vê conversando? Sim! Isso nos colocaria na aula especial dele por um mês... — quando Pedro foi finalizar seu pensamento, Eduardo, seu amigo o interrompeu e acabou completando a critica com praticamente as mesmas palavras que ele diria.

- E você sabe bem que ele procura nossos erros, pois não há praticamente ninguém naquela aula.

Mais a frente deles estava sentado Joshua, tentando se concentrar na leitura de um livro que falava sobre meta física. Mas não conseguia. A sala estava barulhenta, e aquilo o enlouquecia, pois todas as vozes pareciam estar a milímetros de seus ouvidos.

Joshua gostava muito de elementos químicos, e como eles reagiam com o nosso mundo, por isso sempre que podia ia até a biblioteca, pegava alguma livro aleatório sobre o assunto, e o devorava, quando tinha tempo o lia na biblioteca mesmo. A senhora Maria estava acostumada em dar algumas voltas pelos corredores de livros antes de fechar a biblioteca, pois frequentemente encontrava aquela cabeça cheia de cabelos loiros, como ouro, lisos, caídos sobre o rosto de Joshua.

Ele ouviu um som de sapatos. De couro provavelmente. Vindo em direção a sala. Não poderiam ser de nenhum aluno, pois nenhum usava aquele tipo de sapato. E mesmo que usasse, o som do impacto mostrava que era uma pessoa de uns 80kg...

Professor Fitz!

Ele virou-se para seus colegas. E todos pararam a conversa, pois perceberam sua expressão séria.

- O que aconteceu? — perguntou Pedro.

- Professor Fitz! Querem aula especial?

- Como você sabe? — Júlia não acreditava totalmente naquilo, pois Joshua poderia estar fazendo aquilo para eles ficarem em silêncio e assim poder ler o livro.

- Eu só sei. De novo. — Joshua parou, e tentou adotar a expressão e voz mais severa que seus doze anos o proporcionavam. — Vocês querem aula especial?

Não foi necessário a conversa continuar, aquelas palavras fizeram todos os cinco viraram-se para frente, e exatamente dez segundos após isso o professor entrou na sala. Ele tinha provavelmente 1,90, mas a idade e o cansaço o faziam andar inclinado para frente, parecendo muito menor do que isso. Quando os alunos paravam e olhavam para ele, arrumando seu material, ou andando pelos corredores, viam um senhor fraco e indefeso. Mas durante a aula, quando ele começava a ensinar todos esses estereótipos eram destruídos. Ele dominava a aula. Aluno nenhum tinha coragem de abrir a boca, inclusive quando ele requisitava. O maior medo dos alunos referente a esta aula era o fato do professor ser muito inteligente, e saber tudo, exatamente tudo sobre suas matérias, história e filosofia. Isso significava que qualquer resposta não seria boa o suficiente, ou não estaria certo o suficiente para ele. Ele era extremamente rígido. E um ótimo professor. Mas a rigidez excessiva não agradava os alunos, por isso sua aula optativa estava praticamente vazia. Só não estava vazia porque um professor, Paulo, a assistia sempre.

Os sons ainda incomodavam Joshua, fazendo sua concentração tornar-se inexistente. E a medida que isso acontecia uma dor dominava sua cabeça. Eram sons vindo de todos os lugares, e sons que normalmente não o incomodariam, pois eram rotineiros. Como sua colega de classe sentada três cadeiras a sua esquerda que raspava sua unha sem parar na calça, ou o outro aluno que sentava na última cadeira de sua fileira, que não parava de apagar a folha de seu caderno com uma borracha, também o garoto a sua frente que movimentava seu pé para cima e para baixo, lentamente, fazendo seu tênis emitir um barulho insuportável. Tudo isso, e mais outras cosias estavam enlouquecendo Joshua. Ele simplesmente não conseguia mais aguentar ficar dentro da sala de aula e prestar atenção naquela aula sem surtar.

Seus amigos perceberam sua inquietação, mas não fizeram nada. Alguns deles por acomodação, outro por medo do professor tomar uma atitude errônea caso eles fossem ver como o colega estava.

Após mais alguns minutos dentro daquela sala de tortura, seu próprio cérebro, ele levantou-se e saiu da sala. Antes disso parou, e falou com o professor que precisava ir a enfermeira. De início ele relutou, mas percebeu que a situação era séria, e o deixou ir.

A aula continuou como se nada tivesse acontecido. Os alunos perceberam realmente que nada tinha mudado com o aluno passando mal, quando um foi conversar com o professor sobre a situação de Joshua, e acabou adquirindo um passe para assistir suas aulas, durante dois meses.

Um outro aluno tinha sido realmente afetado pelo acontecimento. Júlia, que na realidade era uma aluna, estava muito preocupada com Joshua, pois ambos conheciam-se desde criança.

Júlia era a garota perfeita daquele ano, e provavelmente dos próximos quatro. Sua genética a destacava de qualquer outra garota, pois mesmo tendo 12 anos, sua aparência, tanto facial, como corporal, era de uma garota de quase 18 anos. Seus cabelos eram lisos, e loiros acinzentado, herdados de sua falecida mãe. E finalmente seus olhos, dois grandes olhos, bem desenhados, cor de mel. Ela era a garota desejada por professores até, mas existia algo de peculiar nela. A ingenuidade.

O fato de seu amigo ter ido para a enfermaria realmente a incomodava, mas após alguns minutos pensando, percebeu que não havia nada a fazer, a não ser sentar, aguardar a aula acabar, e depois ir ver o que tinha acontecido. Ou talvez nem precisasse esperar tanto, talvez Joshua voltasse antes disso com um sorriso no rosto, como se nada tivesse acontecido.

Após duas horas seguidas de Filosofia, o sinal tocou. Mas isso era o aviso que outra aula iria começar. Esse era apenas o início do dia, os alunos ainda teriam seis horas de aula, com um pequeno intervalo após a quarta aula. Felizmente, a aula mais difícil tinha passado. O próximo tempo era PC-8, ou simplificando, aula de informática nível 8.

Nas escolas comuns, esta aula serviria para passar o tempo dos alunos, e eles iriam se divertir, pois poderiam entrar em redes sociais, ou jogar diversos jogos. Agora na academia não existia nenhuma das possibilidades acima. Alunos não tinham acesso a redes sociais, ou jogos que não tivessem como propósito o desenvolvimento intelectual. Os alunos só sabiam da existência de redes sociais, pois em alguns cursos era alvo de estudo.

Mesmo com todos esses contras, a aula ainda era agradável, pois o professor que a ministrava era Paulo. O professor mais adorado da academia. Além de ser jovem, ele era extrovertido, e sempre inovava suas aulas. Sempre tentava unir o estudo, com diversão. O Conselho da Academia desconfiava disso, mas como funcionava, não interferiam.

Sua aula durava dois tempos, como a aula do professor Fitz.

Desta vez Paulo decidiu inovar mais a aula com um campeonato. Dividiu os alunos em quatro grupos. A divisão foi simples, mas os amigos foram separados. Em um dos grupos ficou Isabela e Rafael, no outro Pedro, no terceiro grupo Júlia e Eduardo, e no último grupo Breno, que também fazia parte do grupo deles, mas na última aula ficou isolado em seu canto lendo um livro sobre robótica. Joshua ainda não tinha voltado. O desafio consistia em conseguir invadir o sistema de um computador, que para os alunos seria fácil. Mas o computador escolhido tinha sido configurado previamente pelo próprio professor Paulo. E todos sabiam que ele já havia trabalhado para a Microsoft, e ajudado a aperfeiçoar o sistema de segurança do colégio.

Logo de início alguns alunos já perceberam que a tarefa era impossível, pois nenhuma de suas tentativas chegava próximo de ser bem sucedida. O grupo de Isabela e Rafael era o mais perdido de todos, já tinham esgotado todas as suas alternativas. Os dois eram os que menos entendiam dessa área, mas simplesmente porque não eram atraídos por ela. Por isso acabaram dependendo de seus colegas de grupo, que provaram conhecer do assunto, mas não o suficiente para finalizar a tarefa. E assim, o primeiro grupo desistia.

Outro grupo que estava com dificuldade era o de Pedro. Mas estavam longe de desistir. O maior problema deles era o tempo, pois ideias, e capacidade de finalizar aquele desafio eles tinham. Todos dentro do grupo adoravam aquela matéria, principalmente Pedro. Ele estava confiante, pois já tinha conseguido passar pelo sistema de proteção da academia, para fazer download de mangás online. O que significava que isso não seria difícil.

Eduardo, que estava no mesmo grupo de Júlia, começava a se irritar. E a cada segundo que passava percebia que aquele desafio tinha sido projetado para não ser solucionado. O que o irritava mais ainda. Júlia estava calma, e utilizando de toda sua capacidade para invadir o sistema. Seu foco excessivo tornou-se um problema, pois acabou criando um quinto grupo, onde apenas ela participava, e aquela tarefa era impossível de ser completada sozinho. Sua concentração foi abalada quando ouviu algo se partindo a sua esquerda. O teclado de Eduardo estava destruído. Agora estava levantado pedindo desculpas para o professor, e dizendo que não tinha tido intenção de fazer aquilo. Paulo foi até um canto com ele, e disse algumas palavras para acalma-lo.

Breno estava sentado de pernas cruzadas, lendo seu livro de robótica, era a última página do livro. Isso incomodava seus amigos de grupo, pois todos estavam dedicando-se o máximo naquela tarefa. Mas ele estava determinado a terminar o livro.

Ao terminar de ler a última linha da página, fechou o livro, e o colocou de lado. Olhou para o computador, e começou a digitar com uma velocidade surpreendente. O barulho, e a velocidade que suas mãos se movimentavam chamou a atenção de todos de seu grupo, e a aglomeração formada em volta de Breno fez com que os outros grupos se aproximassem da mesa. Cinco minutos depois Breno tinha conseguido invadir o computador do professor. Mas ele não parou por ai. Quebrou a proteção de sites da academia e entrou em um site de vídeos, onde colocou a música “We are the campions” para reproduzir no volume máximo.

O professor que ainda conversava com Eduardo virou a cabeça para o lado, e sorriu.

Os companheiros de grupo de Breno iniciaram um salvar de palmas, que foi acompanhado pelo resto da sala, e finalmente por Paulo.

- Meus parabéns! – sua voz soou calma, mas por dentro estava ansioso, e surpreso com o acontecimento.

Como ele conseguiu fazer isso?, pensou Paulo.

- Parece que o grupo 4 foi o grande vencedor desse desafio – ele disse.

- O grupo não professor. O Breno. – disse Carlos, um dos integrantes do grupo quatro.

- Isso mesmo. Ele conseguiu sozinho, e em menos de cinco minutos.

- Foi surpreendente.

Após o terceiro comentário, todos decidiram dar seu parecer sobre o que acabara de acontecer, e ficou impossível de identificar o que cada um dizia. Tanto Paulo, quanto Breno divertiam-se com a situação.

- Pessoal. – essa simples palavra fazia com que todos parassem o que estavam fazendo e voltassem a atenção para o professor. Dessa vez teve o mesmo efeito, e acabou com a bagunça. – Então Breno foi capaz de invadir o sistema do meu computador, que eu fiquei mais de duas horas protegendo todas as falhas possíveis para criar uma proteção perfeita contra invasões, em menos de cinco minutos?

O sorriso de Breno foi substituído por uma expressão mais séria, pois sabia que aquele sorriso demostraria um desdém desnecessário com o desafio do professor. O que ele não conseguia entender era como um professor tão qualificado teria deixado tantas falhas no sistema, pois realmente tinha sido fácil a tarefa.

- Professor Paulo, foi sorte. Só pode ter sido isso. Como um aluno de doze anos como eu poderia superar um professor qualificado como o senhor? – aquilo soava mais como uma afirmativa do que como uma pergunta. E Breno sabia que resposta para aquilo não seria fácil de dar.

Paulo forçou um sorriso e foi até o meio da sala. – Como o desafio durou menos do que calculei, deixarei esse tempo livre para vocês. Todos os alunos sorriram, e imediatamente tiraram livros e cadernos de suas mochilas e bolsas para começar a estudar. Apenas alguns se juntaram para conversar. – Grande vencedor Breno, venha até a minha mesa, por gentileza.

Levantou-se de sua cadeira e foi até a mesa do professor, os outros alunos só olharam, mas não deram importância aquilo, pois imaginavam que ele iria receber o prêmio, já que aquilo tinha sido uma competição.

- Sim professor.

- Só queria te parabenizar novamente pelo seu feito. Tenho que admitir, apenas entre nós, não achei que teríamos um vencedor. Eu me dediquei bastante na tarefa. Você definitivamente acabou com a minha aula. – aquilo era de longe uma bronca, fácil de notar pelo sorriso brincalhão estampado em seu rosto. – Mas fico feliz por ter feito isso. Um dia gostaria de saber como conseguiu. – ele olhou para seu aluno, que estava pronto para responder aquela pergunta, e continuou antes disso – Um dia, Breno. Não hoje.

- T-tudo bem, professor.

- Como isso era uma competição você irá ganhar um prêmio.