Academia Fênix
4 Capítulo 3
Pedro foi encontrado desmaiado no bosque onde Eduardo havia indicado. Ele estava utilizando apenas uma calça quando o encontraram. Seu corpo estava frio, e um pouco molhado, o que complicou sua situação de saúde ainda mais. Isso o deixou na ala de repouso por alguns dias.
Durante o desaparecimento a Academia inteira tinha parado. Aulas foram canceladas, alunos foram trancados no auditório. A explicação posterior foi que era para a segurança de cada um. Mas logo após encontrarem o aluno perdido tudo voltou ao normal. A cantina foi aberta e organizada rapidamente para o jantar antecipado. O horário do jantar oficial era às oito horas da noite, mas decidiram adianta-lo para seis e meia da tarde, alguns minutos após o fim da busca. A refeição normalmente durava uma hora, desta vez diminuíram o tempo para trinta minutos. A comissão de professores tinha organizado o cronograma improvisado do dia. Às sete horas, logo após a janta, os alunos deveriam realizar duas das quatro atividades extracurriculares previamente escolhidas. Eles estavam livres para escolher quais das quatro seriam escolhidas.
O funcionamento da Academia realmente tinha voltado ao seu estado normal, mas isso não tinha feito com que os alunos esquecessem o que tinha acontecido durante a tarde. Muito menos os impedia de criar teorias sobre como um aluno de doze anos foi parar no meio daquela floresta desmaiado. A maioria das especulações criava uma pessoa desconhecida nesse cenário, alguém perigoso. Alguém que talvez ainda estivesse na escola esperando para atacar outro aluno. Essas histórias acabavam disseminando o medo entre os alunos, e os deixando apreensivos. Nem todo os alunos. Alguns simplesmente estavam preocupados com a saúde de Pedro. Esse era o caso de seus amigos, que não tinham tido a chance de visita-lo após o acontecimento.
- A única coisa que importa é estudar nesse lugar?! – Eduardo estava sem paciência com toda a situação. A capacidade dos professores ignorarem o acontecido estava o irritando cada vez mais. E a pior parte era que não podia deixar de cumprir as atividades para vê-lo, pois os mesmos não o deixariam ver seu amigo durante este período.
Eduardo sentiu um braço em seu ombro. Mesmo sem olhar para o lado sabia de quem era aquele braço. Júlia.
Garota mais perfeita que essa não existe. Sempre tentando ajudar seus amigos. Aquele pensamento fez com que esquecesse a raiva por alguns segundos.
- Lembre-se do que os professores disseram, Dú. Ele esta bem. Só esta em repouso na enfermaria para realizarem alguns exames de rotina. Não precisa se preocupar.
A enfermaria da Academia era enorme, podendo ser confundida com um hospital facilmente. Seus funcionários na maioria eram alunos formados na instituição. Uma pequena parte eram médicos de fora, mas com experiências posteriores grandiosas. Uma verdade, na Academia todos os funcionários necessitavam de experiências grandiosas, no mínimo.
A raiva voltava.
O sentimento que tomava conta de Eduardo o ajudou a decidir quais seriam suas duas atividades extracurriculares. Boxe e Jiu-Jitsu. Lutar era a única forma de fazer a raiva ir embora. Quando se levantou para ir embora, Júlia segurou seu pulso.
- Por que não escolhe esgrima, Dú? Eu também tenho essa opção. Assim estaríamos na mesma aula, e nos divertiríamos muito. – Eduardo virou para olha-la e quando seus olhos cruzaram os dela, ficou sem reação. Duas bolas douradas, brilhando, e o encarando. Quando ela ficou linda desse jeito? Para ele, Júlia sempre tinha sido uma das garotas mais bonitas da sala, mas agora ela não parecia mais uma garota, mas sim uma mulher.
Disciplina! Aquela era voz do professor Lucas em sua cabeça. Primeira lição, pequenos. Disciplina. Nunca! Lembrem-se. Nunca esqueçam dessa palavra. Ela diferenciara campeões, de fracotes. Segunda lição. Dediquem seu tempo livre para treinar ao invés de ficar pensando em coisas desnecessárias. Terceira lição. Pessoas do sexo oposto terão seu momento na vida de vocês. Este não é o momento!
Aquilo fez com que o encanto exercido por Júlia sobre ele acabasse.
- Desculpe, Júlia! Mas minha prioridade são as lutas corporais aqui, você sabe disso.
Eduardo não esperou uma resposta, simplesmente se virou e foi em direção ao bloco onde a aula de boxe era ministrada. Olhou em volta quando entrou no ginásio e percebeu que os alunos que ali estavam eram todos do ensino médio. A maior parte do terceiro ano. Aquilo o animou, pois adorava desafios, especialmente aqueles que os outros esperavam que perdesse.
Como já estava vestido com a roupa apropriada para aquela atividade, apenas foi até seu armário e enfaixou suas mãos com a bandagem.
Aproximou-se do saco de pancadas mais próximo, e deu uns socos fracos para medir a distância. Foi aumentando a força a cada soco, até que começou a dar socos utilizando toda sua força. Para sua idade, Eduardo era forte, muito forte. Era o atual campeão em duas modalidades de luta, uma delas era boxe, a outra boxe tailandês. Seu professor Lucas foi o responsável em introduzi-lo ao mundo das lutas, pois de inicio era um de seus menores interesses. Após ver sua primeira atuação com um saco de pancadas percebeu que o garoto teria futuro naquele mundo.
Enquanto continuava a acertar o saco de pancadas, Eduardo lembrou-se de tudo que aconteceu durante o dia.
Como assim?! Não posso ajudar na sua busca! Não posso vê-lo! Não posso fazer nada! Sou só uma criança... Ninguém valoriza uma criança da minha idade. Cansei disso!
A força de seus socos aumentava. O saco de pancadas estava indo cada vez mais alto, entortando a estrutura de ferro em que estava pendurado quando voltava. Até que após um soco de Eduardo o saco rasgou, e a estrutura acompanhou partindo-se.
Todos os olhos estavam voltados para ele, sem exceção. Só que ainda não tinha notado, estava concentrado em seus pensamentos. Apenas percebeu o que tinha acabado de acontecer quando sentiu uma mão em seu ombro. Foi então que olhou para o chão e viu o saco de pancadas no chão, rasgado, e envolto por areia. Torceu seu pescoço para o lado, e viu que o dono da mão era seu professor Lucas.
- E-eu... – suas tentativas de formular frases não passaram de sons impossíveis de entender.
- Sabia que alguém uma hora ou outra ia fazer isso. Estou pedindo a semanas que trocassem esse aparelho. – o professor falava olhando para Eduardo, mas seu tom de voz era alto, ele queria que todos ouvissem aquela conversa. – Não precisa ficar assustado, não é sua culpa Eduardo. Vá ao banheiro lavar o rosto, e reorganizar esses pensamentos. – a última frase tinha sido dita em um tom que apenas ele podia escutar.
Seguiu o conselho do professor e foi até o vestiário. Lavou seu rosto e encarou o espelho por alguns segundos. Aquilo não tinha ajudado em nada, seus pensamentos ainda estavam lá, desorganizados. Diversas vozes revoltadas gritando dentro de sua cabeça. Decidiu tentar acalmar-se usando a técnica de controle respiratório ensinada pelo professor, que provou-se inútil após diversas tentativas frustradas. As vozes aumentavam em sua cabeça. Ele fechava suas mãos com força, pressionando a ponta de seus dedos na palma da mão. A força exercida era tanta que gotas de sangue começaram a pingar. As gotas tornaram-se pequenas linhas deslizando por suas mãos. E as vozes continuavam. Gritando. Provocando-o. Eduardo sabia que elas não parariam até o enlouquecer.
Finalmente as vozes pararam, e ele conseguiu se concentrar. Abriu suas mãos, e olhou novamente para o espelho. No espelho o que refletia não era sua imagem, mas sim a de seu amigo Pedro. Seus olhar era de desgosto. O reflexo abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu. Mesmo sem o som Eduardo entendeu o que ele queria dizer. O sentimento retornou imediatamente. Ele cerrou seu punho direito, fechou os olhos, e deu um soco na parede. O soco mais forte que já tinha dado. Não importava mais se quebraria alguns ossos, só queria descontar sua raiva em algo.
Um barulho chamou sua atenção e o fez abrir os olhos. No chão do banheiro estavam alguns pedaços de azulejos branco, quebrados. E a parede que deveria ter sido responsável por quebrar alguns de seus ossos dos dedos, estava com um buraco. Ele tinha feito aquilo, não havia dúvidas, pois ele era o único lá. E o buraco era no mesmo lugar onde ele tinha socado. Aquilo não era normal, ele estava ciente disso. Mas por outro lado as vozes haviam sumido.
Ouvia passos. Pessoas aproximavam-se do vestiário. Eles ouviram o barulho! Preciso sair daqui. Como vou explicar isso?! Olhou para o lado e viu que a janela estava aberta, e o espaço era suficiente para ele passar. Foi exatamente o que fez, passou pela janela e caiu de pé do lado de fora. Estava escuro, e aquele lado não era um caminho utilizado pelos alunos normalmente, pois ao lado dele estava um dos vários bosques que faziam parte da paisagem da Academia. A diferença desse bosque é que ele era o maior, e os alunos eram aconselhados a não entrar nele, pelo risco de acabarem se perdendo. Eduardo possuía nenhum senso de direção, eliminando o bosque como uma opção. Foi então quando teve a ideia de subir no telhado do ginásio, e ir por ele até a enfermaria onde seu amigo estava. A tarefa de subir nele provou ser muito fácil, e a de pular de um telhado para o outro sem fazer barulhos que chamasse atenção, ou quebrar algo, não foi tão difícil como imaginara. Parou em um telhado e percebeu que seu senso de direção tinha o traído como sempre acontecia. Ele não estava nada próximo da enfermaria. Sentou e analisou os telhados por alguns segundos. Foi então que percebeu a ausência de seus sapatos. Todo esse tempo pulando de telhado em telhado e não tinha notado aquilo. Tentou recordar-se onde os tinha deixado, mas não conseguiu. Encarou seus pés e viu que estavam pertos de sujeira das telhas que tinha pisado, e sorriu, pois aquilo era uma prova de que a Academia Fênix não era perfeita, seus telhados eram imundos. Enquanto olhava seus pés notou mais uma coisa, eles estavam... maiores. Por reflexo estendeu suas mãos e percebeu que elas também estavam maiores. As deslizou pelo seu corpo e sentiu músculos duros e fortes onde antes existia apenas pele e osso.
O que deveria ter assustado, teve o efeito contrário. Ele sorriu de excitação. Levantou-se e correu em direção a ponta do telhado, quando a alcançou deu um salto, girou seu corpo e caiu em pé na grama macia. Não tinha calculado nada daquilo, simplesmente tinha agido por instinto. Antes de saltar ele sentiu que podia fazer aquilo.
Permaneceu no lugar onde tinha aterrissado por alguns minutos, pensando em como aproveitar aquele acontecimento. Infelizmente aquilo poderia ser um sonho, delírio, ou mesmo que fosse real, poderia ser temporário.
Encarou o bosque. Sabia que caso entrasse nele seria muito difícil sair. Normalmente seria difícil. Mas o estado em que se encontrava estava longe de ser classificado como normal, por isso decidiu arriscar. Entrou no bosque e começou a correr, esquivando das árvores quando vinham em sua direção. Foi quando notou que ele não era o único naquele local. Não conseguia ver quem poderia ser, pois era noite, e sua única fonte de iluminação eram as estrelas e a lua, que não eram de grande ajuda, pois as árvores eram enormes, e cheias de galhos, impedindo que a luz chegasse até o chão. O que o alertou foi o barulho de galhos se quebrando. Ele encostou-se a uma árvore e esperou que a pessoa se aproximasse. Já estava preparado para uma luta, se fosse necessário.
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