Notas iniciais
Nunca me lembro dos meus sonhos, apenas eles que eu considere "bizarro", lembra mais um pesadelo do que um sonho de fato...

Em um beco escuro ao lado dos latões de lixo, um corpo de um homem morto após ter levado quinze facadas no abdômen estava estendido no chão, às viaturas policiais criaram um cerco esperando a minha entrada enquanto minha parceira analisava o defunto.

O seu nome não importa, mas o meu nome sim, sou Nicolas, o investigador da cidade de São Paulo.

Ela me explicou todos os detalhes dos depoimentos das pessoas que viram o assassinato, a história era o seguinte.

Um homem descobriu que estava sendo traído e quando encontrou a amante dela, ele o matou, esfaqueando quinze vezes, o nome do assassino também não importa, apesar de que é importante frisar de que eu precisava de alguma forma provas contra esse suspeito.

A minha parceira se pronunciou da seguinte forma...

- Alguns sem tetos não conseguiram ver a ação por conta da escuridão, não temos certeza se a história de amante era verídico.

- Mesmo sem poder enxergar o assassinato eles ouviram talvez essa parte possa ser verdade, uma discussão sobre fidelidade, ainda assim não devemos nos adentrar a detalhes.

- Eu não compreendo.

- Minha cara parceira, eu sei quem é o assassino deste o inicio. – Levanto-me e tiro de meu paletó um caderno de notas, seu nome é...

A investigação foi interrompida quando finalmente despertei, eu me levantei e cambaleante peguei um caderno que estava na escrivaninha, eu escrevi com todos os detalhes possíveis o meu sonho, uma das praticas que eu tenho deste que me lembro.

Essa prática começou quando eu tinha sonhos estranhos e por isso sempre anotava quando possível e procurava respostas nos livros de psicologia do doutor Freud, no fim acabou se tornando um hobby, mas logo percebi que isso se tornou sério, quer dizer, nos meus sonhos eu poderia ser qualquer um, um investigador desejado pelas mulheres, um cowboy em busca de vingança, um Jedi de elite prestes a salvar a galáxia, mesmo sabendo que era mentira, eu me contentava com aquelas ilusões.

Ilusão inconveniente.

Foi daí em tão que eu descobri que essa prática era muito comum, era conhecido como sonho lúcido, à capacidade de compreender que estava dentro de um sonho, funcionava da seguinte forma.

Tento a consciência de que tudo era um sonho, você tinha a capacidade de criar regras nesse sonho, tornar-se um diretor, roteirista e personagem principal de seu próprio sonho decidindo assim o caminho de como a história pudessem seguir.

Entre muitas histórias, uma das quais eu me empolguei foi quando sonhei que eu era promotor de justiça e tinha uma família desejada por muitos, o mais estranho era que eu podia descrever minuciosamente minha “esposa”, aquilo realmente me surpreendeu, acredito que aquela moça deveria ser alguém com quem conversei ou que vi no ônibus, no trabalho, e eu acabei pensando nela subconscientemente, mas era realmente estranho você se casar com alguém desconhecido, principalmente quando não sabia seu nome e toda vez que eu tentava dizer algo abafava o som da minha voz, assim eu nunca conseguia ouvir o que eu estava dizendo, acredito que isso realmente não importa.

Com aquele caderno de notas preenchido do meu sonho já era o décimo quinto, me aprontei para o trabalho seguindo a mesma rotina de sempre, a pior coisa que você faz em um trabalho de cobrança é cobrar dividas exorbitantes de seus clientes, você realmente não acredita o quanto de clientes que me ameaçaram de morte pelo simples fato de que eu não conseguia criar planos que coubesse nos bolsos deles, porque eu deveria me importar? Eles que são culpados por gastar dinheiro que não tem.

As ruas eram amontoadas de gente apressadas e apreensivas na avenida, todos eles tinham uma rotina pré-estabelecida parecida com a minha (exceto a parte de anotar os próprios sonhos no instante que desperta) e eu realmente desejava uma vida, mas não como a minha, como dizia um ditado, a grama do vizinho era mais verde.

Eu poderia simplesmente ser qualquer coisa na minha vida, deste um astronauta, até mesmo um crítico de cinema, mas as pessoas em minha volta não acreditavam em mim, não tinham noção da minha capacidade, sempre com aquele olhar clinico em cima de meus ombros, me julgando e desmotivando a alcançar minhas metas, enquanto um primo de uma tia de terceiro grau estava estagiando em um hospital renomado e ter feito com sucesso o primeiro transplante de coração eu estava ainda em meu humilde curso de direção no qual eu não pude concluir, eu tenho a mania de desistir de tudo que eu não sou capaz de alcançar, foi a mesma coisa no curso de advocacia onde após anos sem passar na OAB, acabei largando de antemão.

Eu poderia ter inúmeras vidas e no fim eu escolhi uma que realmente me faria infeliz, não estou desmerecendo meu trabalho de cobrador de dividas, eu entendo que é um trabalho importante, mas não é para mim, no entanto eu sou covarde o suficiente para desistir desse ramo e seguir algo que eu goste, mesmo gostando de alguma coisa eu sempre desisto, eu tenho duvidas de minha capacidade.

A chuva no fim da tarde resume aquele dia, um dia fatídico e triste, um dia infeliz e sem sentido, o céu enegrecido torna o mundo a minha volta em um preto e branco como um filme antigo projetado na parede branca.

“Talvez eu esteja tendo algum tipo de sintoma de depressão”. Penso fervorosamente enquanto abro o guarda-chuva para me abdicar das gotas geladas daquela fraca garoa que permeia toda minha vista.

Enquanto espero no ponto de ônibus, um idiota passa por ele com tudo jogando água para todos os lados, por sorte eu utilizei meu próprio guarda chuva como um escudo, azar daqueles que esperavam no ponto e ficou encharcados, uma senhora fala mal algo italiano esperando que o infeliz sujeito tivesse ouvido seu sermão.

Eu noto a aproximação de uma mulher de cabelos castanhos claros e lisos utilizando um boné surrado e preto, eu me lembrava daquele boné, acredito que eu tinha um parecido, só não me lembrava de onde eu o coloquei, até pensei na possibilidade de que esse boné estivesse nas casas de meus pais...

Ela me encara fixamente e sinto um frio na espinha.

- Com licença. – Ela diz. – Você poderia me acompanhar até em casa? É porque não tenho dinheiro para pagar a passagem de ônibus e como não tenho guarda-chuva...

Meu plano de ir para casa de ônibus (mesmo que eu more uns trinta minutos dali) foi arruinado, eu não podia negar um pedido de ajuda...

- Eu acho que conheço você, mas não me lembro da onde.

- Deve ser porque somos vizinhos.

Eu iria dizer que eu havia sonhado com ela alguns meses atrás, isso explica porque eu conseguia detalhar todas as suas características em meu sonho, o fato de que ela morasse perto de mim acarretou com que eu a tivesse visto um dia desses e meu subconsciente trabalhou com isso em minha mente.

- Eu realmente não entendo porque você pega ônibus, se mora a algumas quadras daqui. – disse ela interrompendo meus pensamentos.

- É que, não faz sentido eu ir a pé sozinho, e também é muito perigoso, deve haver algum assassino em série esperando alguém aparecer sozinho na rua, aliás, eu realmente estou impressionado com o fato de você ter me pedido algo assim, eu poderia ser um assassino.

Ela logo me olha espantada.

- Não me diga que você é um?

- Mas é claro que não! – Eu respondo. – Só estou dizendo que você só deveria tomar cuidado...

- Eu sei cuidar de mim mesma.

Após alguns minutos em silêncio ela me volta a perguntar.

- Você não está pensando em se matar, está?

- Mas que tipo de pergunta é essa? – Eu indago completamente nervoso. – Mas é claro que não, como você chegou a essa conclusão?

- Eu não sei, seus olhos demonstram uma tristeza profunda. – Ela me encara fixamente com uma expressão surdina. – Como se tivesse desistido dessa vida.

- Engano o seu, eu estou muito bem para um jovem de 21 anos.

- Você tem 21 anos? Pensei que era uns 30 ou algo assim...

Ótima conclusão para alguém que tem baixa autoestima...

No meio do caminho novamente ela comenta algo sem lógica.

- Ouvi dizer que quando chove quer dizer que alguém está triste. – Ela comentou.

- Isso talvez fosse dito por alguém egocêntrico, não importa se você está triste, o mundo não vai chorar por você...

- Verdade, eu pelo contrário amo a chuva, é como se ela pudesse acalmar minha alma...

Depois de uma conversa sem sentido finalmente havíamos chegado, era como se a conversa acelerasse nosso caminho, pois não senti o tempo passar, misteriosamente o céu se abriu e eu finalmente pude guardar o guarda-chuva.

- Obrigada, você realmente me salvou, eu ultimamente estou com um resfriado e se eu tivesse seguido sem guarda-chuva, provavelmente ficaria pior do que eu já estou.

- Entendo. Melhoras então.

Ela em vez de assentir apenas me olhou fixamente e sorriu. Os primeiros fachos de luz a atingiram antes de o céu abrir por completo.

- Eu não acho que você tenha medo de ser assassinato enquanto você caminha sozinho, eu acho que você tem medo da solidão...

- Que estupidez, eu sempre vivi sozinho e nem sequer estou triste.

Seu rosto mudou para uma aparência inexpressiva.

- Você pode enganar a todos, mas não pode enganar a si mesmo...

Aqueles olhos de julgamento que eu sempre odiava novamente estavam sobre meus ombros, quem ela pensa que é? Acreditando saber de toda a minha vida, uma mulher misteriosa como vizinha era realmente impertinente.

Passei o resto do dia deitado na cama, encarando a lâmpada e relembrando toda a conversa que eu tive com ela, os olhos de julgamento eram algo que não esperava em relação a ela, seu nome no fim era...

- Meu nome é Mara. – Disse ela me cumprimentando.

- Nicolas...

- Nicolas, certo? Obrigada pela ajuda. – Disse ela com um sorriso gentil.

Eu apenas me lembro de vê-la entrar no portão de sua casa, e isso realmente me incomodava, agora e sempre...

Em um excesso de raiva eu jogo todos os meus cadernos de sonhos no chão, viro a escrivaninha e grito com todas as minhas forças até onde meu pulmão pudesse aguentar, até ser advertido pelo vizinho ao lado...

“Quem ela pensa que é julgando meu modo de vida?”

“Ela se acha a sabe-tudo, uma grande enxerida.”.

“Eu não preciso de ajuda e não estou enganando nem ela, nem ninguém, nem eu mesmo”.

Após eu descontar minha raiva em minhas coisas e tornando meu quarto em uma zona de guerra eu sinto uma forte dor no pulso, o sangue escorre sobre os dedos e eu vejo que havia cortado com uma tesoura, uma dor excruciante seguido de uma tontura me faz sentir mal, e no fim acabo parando no pronto socorro com 25 pontos no pulso...

Ao sair do hospital eu acabo me encontrando com Douglas, um velho amigo do ensino médio, eu tento me dissimular, mas acabo chamando sua atenção.

- Eu não acredito, é você mesmo Nicolas?

Eu finjo que não é comigo e ando por entre as pessoas que saíam do hospital, ele me segue e finalmente coloca a mão no meu ombro.

- Nicolas, é você mesmo?

Até penso em mentir, mas minha expressão de surpresa havia me denunciado.

- Sim, sou eu.

- Caramba Nicolas, eu o chamei incontáveis vezes.

- Desculpa, é porque eu realmente não ouvi.

O mundo realmente é pequeno, ele acabou me convidando para beber e eu não tinha como recusar, uma hora ou outra ele iria me encontrar então eu pensei em resolver isso o mais rápido possível, afinal de contas como eu disse...

- O que anda fazendo depois do ensino médio? Ouvi dizer que você começou a fazer um curso de direito. – Disse Douglas enquanto pegava sua bebida no balcão.

- Bem, eu já terminei, e abri até mesmo uma firma de advocacia.

- Sério mesmo? Que incrível cara, qual o nome..

-eee. – Olhei pela janela do bar e vi escrito hospital Schmillevitch.

- Advocacia Schmillevitch.

- Schmillevitch? Parece nome de hospital.

- Sim, mas também é meu sobrenome...

- Sério? Nunca reparei nisso.

- Sim, meus avós são poloneses da costa central que vieram para o Brasil para fugir dos nazistas.

- Sua família também é judia?

- Sim, mas eu não sou não, não tenho essas práticas religiosas, posso dizer que sou agnóstico, quer dizer, nem acredito em um Deus ou naquele que pode prescindir nosso destino ou algo parecido, e também estou estudando para um cargo de promotor jurídico lá em Brasília.

- Interessante, realmente não esperava isso de você.

Claro que não esperava idiota, isso tudo é mentira, vamos, me desmascare, fale que eu estou mentindo, ande logo.

O telefone toca e Douglas atende, ele resolve alguns contratos e volta a desligar.

- Eu tenho que desligar. Assuntos jurídicos, sabe, minha empresa está procurando por um advogado, se tiver interesse. – Ele pegou um bloco de notas, anotou algo com sua caneta e me entregou. – Você pode mandar seu currículo para o RH...

- Obrigado. – Eu disse após pegar o papel. – Vou pensar no assunto.

Ele se levanta e corre para chamar um taxi.

- Devemos marcar alguma coisa um dia desses, você tem que conhecer minha noiva, ela realmente é uma mulher gente fina, e também eu quero conhecer sua noiva, quer dizer, você está namorando, não é mesmo?

- Ah, sim, sim, talvez nós marcássemos um encontro duplo.

- Ótimo. – Ele me entrega o cartão dele. – Acredito que vou pegar férias daqui a três meses, liga para nós marcarmos alguma coisa.

O táxi finalmente chega, mas ele não para de falar.

- Foi muito bom ver você cara, sucesso em sua empreitada...

O táxi partiu e eu espero alguém aparecer para me acusar de mentiroso...