Notas iniciais
Nunca tive um sonho lúcido, acredito que deve ser legal você ter noção que está sonhando, já pensou em controlar tudo que acontece no seu sonho?

Eu tive um sonho aquela noite.

Sonhava que era um incrível arqueólogo prestes a recuperar uma relíquia de uma civilização antiga, com vestimentas parecidas à Indiana Jones eu me aproximei do artefato e rapidamente o troquei por um saco de pedras que mantinham a base com o peso e assim não iria evidenciar a falta do dito cujo, mas eu estava equivocado.

O saco de pedras afundou a parede atrás dela se abriu, uma bola gigante começou a deslizar e eu logo percebi que mesmo com todo o esforço eu havia ativado a armadilha. É interessante notar que a esfera tinha uma aparência de um olho, um olho que julgava meus atos.

A esfera partiu acelerada atrás de mim enquanto corria desesperadamente, o atrito não me ajudou a frear a maldita armadilha que eu acabei ativando e diferente dos filmes de Indiana Jones, eu fui pego pela esfera e o mais estranho era que a esfera era mole, quando abri os olhos para entender o ocorrido eu senti que eu estava afundando dentro dela e de repente eu cair imerso a escuridão e o vazio.

Olhos por toda a parte, me encarando com desdém, bocas risonhas gargalhando do meu fracasso, a cabeça de Mara apareceu diante de mim.

– Você não passa de um mentiroso, você pode enganar a todos, menos a si mesmo – Disse a cabeça de Mara.

Douglas surgiu também em meu sonho, com um olhar de revolta.

– Eu sabia que você não era tudo isso, um fracasso de humano...

Pessoas do trabalho, família, amigos, até mesmo desconhecidos apareciam em meu sonho para me julgar e rir da minha cara, de meus fracassos, de meus medos, eu tapeis os ouvidos e fechei os olhos, roguei para que tudo sumisse, eu tinha perdido o controle de meu próprio sonho...

Eu despertei ofegante, aquele pesadelo havia terminado, visualizei o relógio do celular e noto que ainda é de madrugada, eu acendo as luzes e vejo que a bagunça causada pela minha ira espontânea estava ainda lá, não é como se eles ganhassem vidas e se organizassem individualmente.

Eu encarei a caixa cheia de cadernos, eu o peguei e junto com uma caixa de fósforos a levei para fora do apartamento, no estacionamento eu peguei um balde de ferro, joguei todos os livros dentro dele, acendi um fósforo e arremessei no balde, depois eu utilizei um pouco de álcool para alimentar as chamas, aquele frio da madrugada abafava o calor do balde cheio de cadernos em chamas ou o que restava dele, um odor de plástico queimado e papel impregnou todo o local, por sorte o estacionamento era céu aberto.

Após esse trabalho eu peguei outro balde cheio de água para ajudar o fogo a extinguir, eu a deixei ao meu lado enquanto assistia a dança das chamas avermelhadas a minha frente.

Eu não sabia o que estava me fazendo ter esses pesadelos noturnos, apesar de que imaginava que o stress emocional por manter uma mentira a alguém que eu admire estivesse me causando esses sonhos terríveis.

Não me fugiu a possibilidade de que o ceticismo de Marta provocou em mim um sentimento oriundo das raízes do meu passado, mas não me detive a ponto de jogar todos os cadernos do sonho na fogueira.

“Eu estou fardo disso.”.

Eu sinto como se alguém estivesse me vigiando, algo natural, se você sente um cheiro indescritível de queimada você instintivamente procura o local que esta lhe passando essa sensação e quando você chega a conclusão de que esse odor não está saindo de sua casa, naturalmente você procura por outro local como a rua por exemplo, tudo para se manter alerta em um incêndio.

Esse medo indescritível de incêndio se intensificou porque anos atrás um senhor acabou causando um incêndio quando deixou seu cigarro acesso sobre a mesa de madeira, deste então as pessoas tornaram-se alertas a qualquer sinal de fogo.

Ou talvez seja...

– O que está fazendo?

A voz da Marta me assustou, eu estava tão inerte aos meus devaneios que acabei pulando para trás e atingindo o balde em chamas.

– Você é louca? Acabou de chegar de “fininho” atrás dos outros.

Marta sem entender, respondeu.

– Mas eu ti chamei várias vezes. – Seus olhos esbugalharam e ela logo apontou para meu roupão. – Seu roupão está pegando fogo!

Eu olhei atentamente ao meu roupão e percebi metade dele sendo consumido pelas chamas, eu rolei no chão com o intuito de apagá-lo, mas Marta apenas utilizou o balde de água que eu usaria para apagar as chamas caso ela não extinguisse e jogou em mim, por sorte ela conseguiu extinguir as chamas de meu roupão o azar era que eu estava molhado e meu roupão chamuscado por conta do acidente.

Ela se sentiu culpada e me providenciou uma estadia em sua casa enquanto ela tentasse consertar o roupão chamuscado...

A casa dela era tão organizada que eu tinha até mesmo vergonha do meu quarto, ela se dirigiu até a cozinha e deixou a água ferver, colocou o bule com o coador e café e depois focou unicamente em meu roupão chamuscado.

– Até que não teve muito estrago, talvez eu consiga remendar com outra coisa, vai ficar novinho em folha, apesar de que não vai sumir a marca...

– Obrigado. – Eu disse.

O silêncio tomou conta da sala, ela normalmente não parava de falar coisas sem sentidos, mas uma curiosidade insana me perturbou.

– Porque eu?

Ela me olhou brevemente e depois focou novamente em arrumar o roupão.

– Porque o que?

– Aquilo que você disse, sobre ter medo de ficar sozinho e mentir para si mesmo, porque eu?

Ela permaneceu em silêncio tentando achar alguma resposta válida para aquela pergunta.

– Quando eu era criança meus pais diziam que eu tinha o dom de ler as emoções das pessoas, normalmente uma pessoa tenta usar uma “mascara” que o permite encarar os problemas cotidianos, mas nenhuma delas conseguiu me enganar, talvez eu esteja enganado sobre você.

– Não esperava essa resposta.

Ela me encarou confusa.

– Então eu realmente não sei o que responder.

– Estou lhe falando porque você se preocupa comigo?

– Porque eu tenho uma dívida com você, e não tem nada haver com seu guarda-chuva...

– Eu iria perguntar que tipo de divida é essa, mas acredito que você não vá responder.

– Um dia você vai saber, mas antes disso, me diga. O que lhe está causando insônia? Porque eu realmente não acredito que você levante às quatro da manhã todo dia.

– É uma longa história...

– Está bem...

O silêncio voltou a reinar e aquilo me perturbava.

– Qual é o seu problema, você não vai insistir na história?

– Você disse que é uma longa historia, eu não gosto de longa história, acho entediante...

– Isso é só uma figura de linguagem, eu tentei dizer que essa historia não vale a pena ser ouvida.

– Pois então, me conte e eu decidirei se ela vale ou não a pena...

Contei toda a história, o hospital e meu encontro com Douglas, no fim ela teve uma reação que eu não esperava.

Ela caiu no chão de tanto rir enquanto segurava a barriga.

– Ai meu Deus, minha barriga tá doendo.

– Isso não tem graça. – Eu protestei.

Ela respirou fundo, enxugou as ultimas lágrimas de riso e começou a dizer.

– O bom é que você tem mais ou menos três meses para fazer algo a respeito.

– Eu acredito que três meses é muito pouco tempo para abrir uma firma de advocacia e conseguir uma namorada.

– Na verdade eu pensei em outra forma, vamos trabalhar juntos em descobrir no que você é bom, no dia do encontro você irá dizer a verdade para ele e também dizer que você trabalha em outra coisa.

– Isso é uma piada?

– Não, é sempre bom ser honesto com as pessoas e se ele for seu amigo de verdade ele vai ti entender.

– Eu preferiria criar uma firma de mentirinha e conseguir alguém que fingisse ser minha namorada.

O rosto dela demonstrou uma expressão preocupada.

– Você não pode basear sua vida em mentiras Nicholas, é por isso que eu criei esse plano.

– Mas enquanto a minha imagem, vai pegar mal se ele souber que eu sou um mentiroso.

– Sua imagem vale mais do que a amizade?

– Mas é claro que não! Enquanto em relação à namorada!

– Diga que foi um mal entendido...

– Eu não posso fazer uma coisa dessas!

– Tudo bem, nós iremos pensar nessa “mentira” durante esses três meses, eu vou lhe dar uma missão, tente escrever no que você é bom e me entregue amanhã a noite, caso não ache nada nós dois iremos trabalhar juntos, posso contar com você?

Minha mentira tornou-se um problema tão grande que eu não conseguia dormir, no fim eu tinha três meses para tentar achar em algo que eu era bom e desmentir tudo para ele, antes de fechar a porta ela me disse...

– Tirando todos esses problemas, foi divertido conversar com você!

É fácil falar, não é você que está prestes a queimar sua imagem...