Abstenção Lúcida
4 Abuso Lúcido
Notas iniciais
Eu tive um sonho.
Dessa vez não era um pesadelo, eu sonhei que estava dentro de uma casa vazia na porta da sala, uma escada levava até o primeiro andar e eu poderia ver nitidamente a entrada da sala de jantar, eu subi as escadas e sentia que eu havia visto aquela casa antes, tinha que ser, pois não faria sentido eu estar em uma casa no qual eu nunca vi.
A cada passo a escada rangia, como se estivesse prestes a desmoronar a qualquer momento, por um momento eu senti uma respiração ofegante e encarei atrás de mim atento para qualquer surpreso.
Um grito de uma mulher chamou minha atenção, ela chorava e soluçava enquanto podiam-se ouvir tapas e socos.
– Pelo amor de Deus, para Alfredo.
– Vá para o inferno sua vadia!
As vozes para mim era familiar, logo em seguida eu ouvi uma voz de criança, completamente assustada e tentando impedir que o homem batesse na mulher.
– Deixe a mamãe em paz!
– Cale a boca Moleque.
Eu ouvi um soco forte e um grito de dor, corri pelas escadas e quando eu abri a porta, despertei.
Eu não conseguia interpretar aquele sonho como pesadelo ou como sonho comum e também não me lembrava de ter vivenciado aquela cena quando criança, eu imaginei que eu ouvi li ou assistir a história de alguma família desestruturada onde o pai da criança sempre batia na esposa...
Aquele sonho poderia se tornar em uma obra de arte, como se alguém quisesse ver aquele tipo de cena adaptado em um quadro, mas eu acredito que nenhuma ideia poderia ser descartada, assim eu descrevi aquele sonho no meu novo caderno dos sonhos, eu voltei a escrever meus sonhos no momento que eu percebi que essas histórias poderiam um dia se tornar obra de artes.
Por orientação de Mara eu acabei aceitando um empréstimo do banco, quatro mil reais, dinheiro que eu demoraria anos para pagar, mas se minha empreitada no universo da arte fosse um sucesso eu poderia pagar todas as minhas dividas, estranho, um cobrador dever algo, isso diminui a credibilidade.
Mara me ligou.
– Você conseguiu todo o material profissional de arte?
– Sim, apesar de que isso me custou mais de quatro mil reais.
– Quando você conseguir vender sua primeira obra poderá quitar essa dívida.
Eu podia ouvir do ouro lado da linha não só a voz dela, mas sim o som dos carros transitando nas ruas.
– Eu realmente espero que isso dê certo.
– Vai por mim, Jasmim sabe o que está falando.
– É, mas ela disse que meu trabalho é de um amador.
– Ela só supôs isso vendo apenas um rascunho, quando tudo estiver pronto com toda a certeza ela mudará de opinião.
Eu olho para o quadro vazio implorando para ser desenhado.
– Mas nem sei se eu sou tão bom quanto antigamente.
– Não pense dessa forma, essa é a sua chance de mudar de vida e quando você encontrar Douglas daqui a três meses poderá dizer com orgulho que é um artista.
Volto ao ponto zero em meus pensamentos.
– Eu realmente espero que isso dê certo...
– Para ser sincera. Eu também.
Em casa eu iniciei meu trabalho, decidi manter todos os detalhes que eu tinha feito no rascunho, um pesadelo se tornando uma obra de arte e quando percebi, eu havia finalmente terminado, mas o quadro não parecia nada bom, corri até o meu caderno dos sonhos e comecei a desenhar todas as descrições de sonhos que eu tinha escrito.
Percebendo que o trabalho não era satisfatório eu me esforcei para relembrar meus sonhos que eu havia descrito no caderno que queimei tempos atrás.
O tempo passou e eu permanecia em minha casa tentando criar a obra perfeita, mas nada do que eu fazia era satisfatórios, quando finalmente parei de desenhar eu percebi a bagunça em meu quarto, quadros e mais quadros amontoados por todo o quarto.
A porta se abriu e a luz irradiante do sol invadiu meu quarto, ofuscando meus olhos, quando meu sentido começou a se acostumar com a luz eu pude identificar a Mara.
– Nicholas? O que aconteceu?
Ela tropeçou em um dos quadros que eu havia desenhado...
– Eu não consigo, tudo que desenho é extremamente ruim.
Ela se levanta com dificuldade e analisa um dos quadros que estava no chão.
– Apenas se acalme. – Ela analisou a bagunça e voltou a dizer. – Você sabe quanto tempo está desenhando?
– Não faço a menor ideia, duas horas?
– Três dias.
Eu a olhei com espanto.
– Três dias?
– Se não acredita, eu peço para que olhe para o espelho do banheiro.
Eu corro até o banheiro e vejo a barba de ancião sobre meu rosto, meus olhos avermelhados e orelhas sobre a cara, eu estava acabado. Eu gritei sem entender o que havia acontecido...
Após tomar um banho e tirar a barba eu me apresentei a ela, notei que ela havia arrumado os quadros em um canto do quarto deixando um espaço vago.
– Você nem sequer atendeu minhas ligações, eu não parei de ligar.
– Então era isso o barulho? Eu pensei que era algo do meu subconsciente.
Ela encarou os quadros e começou a procurar algum satisfatório.
– Não importa o que eu desenhe nada fique bom.
–Faz sentido, mas seu prazo acabou, vamos escolher o melhor quadro entre esses e apresentar para Jasmim.
– E se ela disser que é amadora?
– Não se preocupe, vamos escolher o melhor e acredito o porquê você ter falta de confiança, você não sabe nada sobre arte.
Aquilo foi uma pontada.
– Como é?
– Quer dizer, vamos entregar esse projeto. – Ela me mostrou o quadro estilizado do rascunho que eu havia apresentado para Jasmim. – E depois nós iremos aprender um pouco de arte.
– Você conhece a história das artes?
– Não, mas podemos estudar juntos...
Ela levou o quadro para fora de casa.
– Vou apresentar esse quadro, pois como eu disse, o prazo acabou, vamos torcer para que consigamos vender ele.
Eu a vi descer as escadas do prédio, segurando o quadro desajeitadamente, ela me ajudou tanto e eu nem sequer pude agradecer, mas aquilo não iria me impedir, fechei a porta atrás de mim e corri até as escadas.
– Mara!
Ela me encarou.
– Obrigado!
No começo ela me apresentou um olhar surpreso que logo demonstrou um sorriso gentil.
– Me agradeça quando você se tornar um grande artista.
Os dias se passaram e eu retornei a minha rotina de sempre, nada de desenhar quadros, além do mais, as tintas e os quadros havia acabados e como eu tinha uma divida de quatro mil reais no banco eu não poderia ir até lá para pedir uma nova leva de dinheiro emprestado, assim decidi fazer diversas horas extras para juntar renda e pagar aquele empréstimo o mais rápido possível, e em uma dessas horas extras eu recebo ligação dela.
Ela me explica que aquele quadro acaba sendo exposto em um museu de arte para a venda, fico feliz momentaneamente e decido sair mais cedo do trabalho e ir até o endereço que ela havia me passado.
Eu nunca imaginei que um trabalho que demorei pouco tempo para desenhar estava na exposição, ou melhor, no museu mais famoso daquela região, eu encarava aquele quadro que para mim, não era satisfatório enquanto Mara resolvia algumas questões com Jasmim.
Ela se aproximou de mim e olhou atentamente para o quadro.
– Parabéns, você conseguiu!
– Como assim?
– Parece que um senhor comprou esse quadro por quatro mil e quinhentos reais, com esse dinheiro creio eu que você poderá pagar o empréstimo do banco.
– Eu não sei o que dizer.
– Não precisa dizer nada, apesar de que um “você estava certo” não é tão ruim...
Eu começo a rir.
– Então? O que vai fazer?
– Eu não sei dizer, isso deu certo apesar de que eu ainda achar que esse trabalho não é digno para ser exposto.
– Ninguém nasce sabendo tudo.
– Mas nascemos para darmos o melhor em nossas vidas.
Ela ficou em silêncio como se tivesse aceitado a resposta.
– É. Talvez você tenha razão.
A chuva caiu sobre o museu, o barulho das gotas no teto de vidro reverberava sobre todo o salão abafando a voz da conversa alheia, ela olhou para o teto e sorriu.
– Lembra quando eu disse que quando chove é sinal de que alguém estaria triste?
– E que eu respondi que esse pensamento é de alguém narcisista e egocêntrica?
– Não me lembro de narcisista.
– É porque eu aprendi essa palavra esses dias, eu gostaria de apresentar ela em uma sentença.
– Entendo, pois eu digo que eu acredito estar certa.
– Por quê?
– Porque estou feliz por você...
Aquela frase ecoou dentro de minha mente.
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