Notas iniciais
Eu leio muito, principalmente hq(tipo, muito mesmo) e muitas vezes eu sofro de uma overdose de ideias, é tanta ideia que eu preciso filtrar na minha própria cabeça antes de escrever, por exemplo, eu tive essa ideia depois de ter lido bem vindo N.H.K

O primeiro passo foi dado, eu consegui vender um quadro pelo preço de quatro mil reais e assim eu pude pagar o empréstimo do banco, no entanto ainda faltava um longo caminho para eu me tornar um artista, ou algo que eu poderia me orgulhar ao invés de basear minha vida em mentiras.

Eu passei toda minha vida me enganando, achando que eu poderia ser um advogado de sucesso e no fim eu acabei de esquecer que minha área era realmente a arte, ou pelo menos acredito que seja.

Acredito que o pior momento naqueles três meses foi eu pedir as contas de meu emprego, mesmo que eu não gostasse daquele emprego eu sempre me esforçava ao máximo, algo comum, pois sua “imagem” no mercado de trabalho estava em jogo, no fim das contas minha chefe não aceitou muito bem o pedido de demissão.

Na sala dela um clima depressivo instalou sobre aquele lugar, ela encarava minha carta de demissão relutante.

– Tem certeza que é isso que você quer?

Respirei fundo e assenti.

– Não quer pensar um pouco antes de fazer isso? – A indagou.

– Me desculpe Cintia, mas eu sempre enganei a mim mesmo e logo percebi que realmente não é isso que eu quero na minha vida.

Ela encarou seriamente para a carta e depois em encarou.

– Eu não esperava isso de você Nicholas, você é um dos melhores empregados desse lugar, mas já que é isso que você quer.

Ela assinou a quebra de contrato e me entregou, finalizando meu envolvimento com aquela empresa.

– Boa sorte Nicholas, mas se tiver qualquer coisa, pode me procurar.

Independente de você ser demitido ou você se demitir é triste de certa forma, você abandonar sua rotina para mudar sua vida realmente não é nada fácil, antes de eu tomar essa decisão eu passei horas encarando os quadros que eu havia desenhado e no fim eu acabei aceitando essa ideia absurda.

A volta para casa foi uma depressão total, olhando as ruas tomadas por carros congestionados e pessoas que se apressavam para seus empregos simples, eu acredito que vou ter saudade daquela rotina.

Não é a primeira vez que aceito essa ideia absurda, há tempos atrás que eu acabo seguindo uma legião de pessoas por simplesmente aceitar de que não tem opinião própria na sociedade, uma vez eu passei uma noite no cemitério porque alguns colegas de escola me desafiaram. Normal, afinal de contas quando você está dentro de uma sala de aula o mínimo que você tenta fazer é ser descolado, andar com um grupo popular, mas no fim aqueles sujeitos me assustaram a ponto de eu sair correndo com as calças molhadas, deste então minha vida escolar foi um inferno até eu entrar no ensino médio, mas isso é outra história.

Dois dias se passaram e eu era um legitimo desempregado, eu esperava em casa a visita de Mara após ela concordar que eu deveria ter aulas sobre artes, apesar de que ela não entendia muito bem sobre artes.

Olhei para o relógio e notei que ela estava atrasada uns dez minutos, quando eu desligo a TV acabo ouvindo a campainha.

Abro a porta e vejo Mara carregando vários livros, eram tantos que ia cobria seu rosto.

– Desculpa o atraso, mas tive que assinar uma papelada da biblioteca antes de trazer tantos livros.

– Pensei que a biblioteca da cidade só aceitava que você levasse três livros.

– Sim, deste que você não seja um pesquisador.

Ela derrubou os livros na mesa que desmontou por não suportar o peso, ambos olhamos para o desastre instalado naquele lugar.

– Primeiro vamos consertar a mesa, depois começaremos a aula.

Enquanto eu consertava a mesa, já que ela teve que cuidar em separar os materiais, eu perguntei a ela como ela conseguiu pegar tantos livros.

– Jasmim me emprestou a carteirinha dela.

– A bibliotecária aceitou que você poderia pegar o livro no nome dela.

– Se você passar por ela, aceita sim...

– Isso é falsidade ideológica, você poderia ser presa.

– Eu esqueci que você estudou direito antes de abandonar tudo, mas ninguém precisa saber que eu me passei por ela.

– Eu sei...

– Você é uma exceção.

Eu a encaro e vejo que ela terminou de separar os materiais.

– Vamos começar as aulas? – Ela disse.

Tarsila do Amaral, Impressionismo, modernismo e tantas outras classificações e mesmo que os livros me permitisse enxergar as obras desse período histórico era completamente difícil disseminar ou conseguir aderir algum tipo de inspiração sobre tantas fotos que poderiam ter sido alteradas ou coloridas artificialmente que denegria todo o sentimento da obra, não sei o que explicar, eu acredito que ver uma foto de um monumento não é a mesma coisa de que vê-lo pessoalmente.

Após horas e horas dela explicando um resumo básico de cada período artístico eu perdi a completa atenção do que acontecia em minha volta.

– Nicholas?

Eu despertei de meu devaneio.

– Sim!

– Você está prestando atenção?

Eu me ajeitei na cadeira.

– Mas é claro que estou? Porque está me perguntando isso?

– Porque você está com uma expressão avoada!

Ela mexeu no livro que estava nas mãos e voltou a dizer.

– Se estava prestando atenção, eu vou lhe perguntar algumas coisas, em que ano surgiu o modernismo?

– Tem certeza de que eu preciso saber que ano começou isso?

– Sim. – Ela escondeu a boca com o livro. – Especialistas dizem que as pessoas aprendem mais rápido quando se lembram da época que aconteceu.

– Você está mentindo. – Eu disse com um olhar inexpressivo.

– A questão é! Você sabe quando surgiu o modernismo?

– hmm, deixe-me ver.

Eu procurei no meu bolso o celular, mas logo percebi que não estava lá, quando encaro novamente eu vejo que ela está com ele nas mãos.

– Não vale colar...

– Eu não faço a menor ideia. – Eu disse me rendendo e puxando meus próprios cabelos.

– Viu só? Você deveria prestar atenção no que está escrito nesses livros, você tem apenas dois meses para o encontro...

– É porque é complicado estudar esse tipo de arte sem presenciar a verdadeira arte, quer dizer, sem eu ver com meus olhos o quadro ao invés de ver em foto.

Mara pensou relutante sobre o meu protesto e logo assentiu.

– Você tem razão.

Ela se levantou, pegou o celular e utilizou a discagem rápida, enquanto esperava a outra linha atender ela começou a andar em volta da sala.

– Alô? Jasmim? Sim, sou eu... Sim. Escuta. Eu preciso de ingressos para visitar o museu da arte... Sim. Vai Ser para Instruir Nicholas a criar novas obras, sim, muito obrigada, beijos...

– Assim? Apenas uma ligação?

Ela colocou as mãos sobre a mesa e me encarou.

– Melhor se arrumar, vamos sair agora...

Mara planejou ir para MASP, um prédio enorme erguido por quatro pilares vermelhos, ou dava impressão disso, artes de vários artistas estavam em exposição, principalmente aquelas que eu vi apenas em fotos e pude comprovar que ver os quadros era bem mais inspirador do que ver apenas por fotos, nós passamos por vários blocos e quando percebemos já passava das nove da noite...

– Então? Isso lhe ajudou? – Indagou Mara, ela segurava uma garrafa de água nas mãos.

– Sim, obrigado pelo convite.

– Tudo pelo sucesso...

Nós andamos por entre o parque, um sentimento misto de euforia percorria minhas veias, eu imaginei em um futuro distante onde eu poderia me tornar realmente um artista famoso, será que apenas isso eu poderia fazer a diferença? Será que meus quadros poderiam chegar a níveis no qual eu iria provocar sensações adversas no público, no subconsciente ele negava essa capacidade, uma forma de me proteger de futuras decepções, mas por outro lado eu queria cair no escuro, isso deixou de ser uma forma de impressionar um amigo de escola de que eu realmente sou importante no mundo, isso realmente era algo que eu queria seguir em toda minha vida.

Eu sempre vivi em uma família que esperava demais de mim, como eu havia dito muitos dos meus primos tinham carreiras de sucesso e eu era a única ovelha negra no bando, era terrível aquele sentimento, aqueles olhares me julgando, querendo que eu seja alguém além de um parasita imundo que sugava o sangue de meus parentes, foi um dos motivos que eu fugi de casa e após uns dois ou três meses de puro sufoco eu consegui uma certa estabilidade.

Agora eu pude lembrar que toda essa estabilidade eu joguei no alto, eu me demiti e agora estou esperando que minha carreira de artista torne-se verdadeira.

– Aliás, você ainda não me disse o porquê você está me ajudando tanto?

Ela se engasgou com a água como se tivesse sido surpreendida com a desculpa.

– Desculpa Nicholas, você pode me esperar no banco? Vou ao banheiro.

Eu assenti e sentei no banco, pude apreciar melhor a paisagem, a calma, o sossego, as árvores, a Luana no outro lado da rua me acenando, as crianças correndo no parque, espera um pouco? O que a Luana está fazendo aqui?

– Não acredito, é você mesmo? Nicholas?

Eu permaneci em silêncio encarando ela se aproximar com um sorriso aberto.

– Luana? O que faz aqui?

– Eu é que ti pergunto...

Ela era realmente muito linda. Cabelo curto e olhos castanhos e vestia uma roupa social.

– Realmente o mundo é pequeno, quando Douglas disse que encontrou você por aqui eu não acreditei.

Qual desculpa eu deveria inventar para ela agora?