Notas iniciais
Eu nunca tive sonho lúcido, por outro lado já sofri paralisia do sono, duas vezes, foi terrível e espero nunca mais ter, já imaginou você ficar preso no corpo sem poder se mexer? Eu acredito que me senti como os paraplégicos e com certeza é uma sensação horrível.

Meu sonho apenas foi uma lembrança minha no ensino médio, talvez a nostalgia de rever alguém que estudou comigo naquela época me fez ter aquele estalo de memória e foi uma época em que eu procurava algo que realmente eu me destacasse.

Futebol? Uma negação, eu me lembrava de que eu tinha tentado jogar bola, está certo de que ninguém nasce sabendo, mas naquela época eu era desengonçado e não demorou muito para que no meio do jogo eu tropeçasse em minha própria canela e cair de cara no chão...

E em meu sonho era uma época onde eu tinha aprendido a desenhar, sinceramente eu tinha aprendido apenas para ganhar as atenções das meninas na escola, algo natural, você tentar se destacar seja jogando futebol, tocando algum instrumento ou estudando muito, para buscar reconhecimento.

– Caramba! Você leva o jeito para a coisa. – Disse Douglas admirado pela arte, um desenho abstrato com figuras como relógios, casas e esferas...

– Não é tanto assim, apesar de que tenho certa dificuldade em desenhar pessoas.

– Isso é normal, eu ouvi dizer que os desenhistas mais famosos têm dificuldades em desenhar as mãos por exemplo.

Aquela lembrança respondeu a pergunta da Mara, eu era bom em desenhos, mas eu não acredito que seja um trabalho no qual eu deseja seguir, mas eu apenas tinha três meses, não tinha o que fazer.

Quando eu despertei eu corro até o papel que ela havia me entregado e escrevo a única opção que eu tinha...

“artes.”.

Acompanhando a minha rotina naturalmente eu penso seriamente se eu não poderia alimentar aquela mentira que eu havia inventado, mas as palavras dela me atingiram em cheio e se eu estivesse mesmo infeliz com aquele tipo de vida e não quisesse que todo mundo soubesse disso eu deveria procurar outra coisa com o que me orgulhar, apesar de que três meses é muito pouco tempo para se aperfeiçoar naquilo que se sente orgulho.

Em casa quando retorno no trabalho eu decido desenhar algo, para ver se eu tinha as mesmas habilidades de alguns anos atrás, utilizando um caderno surrado (o que sobreviveu ao incêndio) eu começo a desenhar, no entanto nada sai como planejado, arranco a folha e faço uma bolinha de papel, depois de algumas horas desenhando eu percebo que nada daquilo foi produtivo, o que ganho é uma escrivaninha amontoada com bolinhas de papeis de desenhos que não saíram ao meu gosto.

Decido dar um tempo, faço um café e reflito sobre o que eu poderia desenhar, logo relembro daquele pesadelos terríveis onde vários olhos não paravam de me julgar, assim uma ideia vem a minha mente.

“E se eu desenhasse sobre os meus sonhos? Principalmente sobre meus pesadelos!”.

Utilizo um novo papel em branco e começo a desenhar, relembro daquele pesadelo onde olhos, bocas, pessoas, carros, tudo não parava de me encarar, um olhar sádico e humilhante, minha mão parece ganhar vida própria e o desenho começa a sair de uma forma simplista, quando termino eu vejo um rascunho do que poderia ser um tipo de arte perturbadora e ao mesmo tempo curiosa.

É difícil de descrever o que eu havia desenhado naquele momento, eu olho o relógio e percebo que eu estava atrasado, pego o rascunho e mais o papel com a pergunta de Mara e corro alguns metros dali, já que ela era praticamente minha vizinha. Quando eu abro a porta, eu noto ela do outro lado esperando encostado na porta da sua casa.

– Inacreditável, você é meu vizinho e consegue se atrasar! Estava quase indo para sua casa para chamá-lo...

– Eu acho que eu sei no que sou bom.

– Isso é ótimo, o que você é bom?

Do meu bolso eu retiro o papel dela junto com um rascunho de um desenho.

– Artes! Interessante.

Ela encara o desenho e sua expressão tornar-se extasiada, como se estivesse impressionada com a arte feita de maneira improvisada, ela tira o celular do bolso e começa a discar.

– Alô? Jasmim? Sim, sou eu, a Mara. Escuta, ainda há inscrições daquele museu de arte.

Eu percebo sua intenção e logo tomo o celular da mão dela e a desligo.

– Qual é o seu problema?

– Essa fala é minha, quem ti deu a permissão de desligar o celular?

– Eu não quero que essa arte seja publicada.

Ela respira fundo e começa a dizer com toda a calma do mundo.

– Não temos muito tempo, se realmente você é bom em desenhar, então vamos tentar participar...

– Dizer que sou bom não quer dizer que eu quero trabalhar com isso.

– Então me diga Nicholas. – Disse ela com os braços cruzados. – Qual tipo de trabalho ti encheria de orgulho?

– Direito.

– Você desistiu após vários fracassos na prova da OAB, tem que ser outra coisa.

– Pode ser qualquer coisa, menos isso...

– Por quê? Porque tem tanto ódio desse talento?

– Não é ódio, mas acredito que isso não vai impressionar ninguém...

– Eu realmente não estou entendendo!

– Isso não vai impressionar ninguém, arte não irá fazer as pessoas ti admirarem...

– Nicholas, a questão não é ser admirada, a questão é começar a viver sua verdadeira vida ao invés de criar ilusões do que você poderia ser ou não ser...

Em pouco tempo eu levei mais sermões do que convivendo com meus pais...

– Você não precisa provar nada para ninguém, se realmente esse é o seu talento e você gosta de fazer, vai fundo sem pensar duas vezes...

Às vezes você deve levar várias broncas para poder aprender a lição ou esperar que a vida lhe dê uma rasteira para que você aprenda a pular no momento certo que ela ti golpear, toda essa metáfora é um pé no saco para falar a verdade.

No dia seguinte Jasmim, uma mulher ruiva e bem vestida, analisou meu rascunho de um desenho que interpretava mais ou menos aquele pesadelo que eu tive ao mentir sobre minha ascensão na carreira de direito.

– Esse tipo de desenho me desperta emoções perturbadoras impossíveis de descrever, como conseguiu tanta inspiração para desenhar algo dessa profundidade?

– Na verdade isso é uma descrição de um pesadelo que tive tempos atrás. – Expliquei a ela.

– Fascinante, apesar de que com tantas falhas eu acredito que possa ser consertada, talvez se você tivesse um material profissional de desenho você poderia consertar essas falhas...

– Na verdade isso é apenas um rascunho, eu tentei buscar o talento que eu tinha no passado sobre desenhos.

– Interessante.

– Mas me diga Jasmim? – Indagou Mara. – Esse desenho, caso seja concluído, terá chances para entrar no museu de arte?

– Difícil dizer, mesmo com esse toque sombrio e perturbador ainda não passa de um desenho amador, mas só saberei mesmo analisar se o trabalho for concluído.

Jasmim entregou o rascunho a mim e sorriu gentilmente.

– Eu realmente gostaria de ver esse trabalho pronto senhor Nicholas.

Eu assenti, eu nunca me senti daquela forma, acredito que seja realização profissional ou algo parecido, mas eu não esperava que os equipamentos pudesse destruir meu futuro.

“quatro mil e duzentos reais.”.

Os equipamentos eram o olho da cara, eu mal recebia metade daquilo em meu trabalho de cobranças, e para piorar, a república era o lugar que as pessoas afirmavam ser a única região onde encontravam as coisas mais baratas.