Notas iniciais
Olá, queridos leitores!
Peço mil desculpas pela minha demora. Para compensar, tem bastante Levi nesse capítulo. Boa leitura!

Eu acompanhei aquele professor até o terceiro andar. Eu o segui por muitos corredores, até que chegamos à frente de uma porta que dizia: “Levi – Matemática”. Ah, então esse é o professor de matemática. Ele abriu a porta e permitiu que eu entrasse. Era uma sala de aula normal, exceto que estava muito mais limpa do que eu esperava. Levi fechou a porta e fez sinal para que eu sentasse na carteira da primeira fila, encostada à sua mesa. Eu obedeci.

— Não saia daqui. Volto em um minuto.

Enquanto ele não voltava, dei uma observada na sala. Não havia nada de especial nela. Além das classes e cadeiras, havia um armário onde ele provavelmente guardava seu material. Só isso. E, como sou muito curioso, é claro que eu fui bisbilhotar o armário. Dentro dele estava tão organizado que era difícil acreditar que foi um ser humano quem arrumou. Havia lá um caderno com aulas perfeitamente preparadas e nele não havia um só borrão. Era o oposto dos meus cadernos. Folheei algumas páginas, quando senti um tapa em minha nuca.

— Alguém te deu permissão para mexer nas minhas coisas, pirralho? – Eu olhei para trás e encontrei o professor com uma expressão de pura fúria nos olhos. Caramba, ele sabe como intimidar um estudante. – Olhe a bagunça que você fez!

— E-Eu só tirei um caderno do lugar, senhor! – Eu senti que teria as minhas entranhas arrancadas. – Quer dizer, é claro que eu vou arrumar, s-senhor! – Eu coloquei o caderno de volta no lugar, tremendo de medo. Ele se afastou e sentou-se em sua cadeira.

— Você vai ficar aí, parado feito um poste? – Eu não soube o que responder. – Sente-se, garoto. Eu trouxe café.

— Eren. – Eu já estava irritado com aquele homem.

— Como disse? – Ele levantou uma sobrancelha.

— Meu nome é Eren Jaeger. Gostaria que você me chamasse assim.

— Eu não dou a mínima para o seu nome. E eu te chamo como eu bem entender.

Eu sentei-me em uma cadeira perto dele e ele me alcançou uma caneca de café. Ele bebeu um gole da sua. A maneira como ele segurava a caneca era estranha: ao invés de usar a alça, como todo mundo, ele segurava na boca da caneca, mantendo a sua mão curvada. Esse homem é único. Eu bebi um gole do café. Estava tão amargo que eu acabei tossindo. Ele deu um sorriso torto.

— Não é qualquer um que agüenta um café forte. Vejo que você é fraco como todos os pirralhos da sua idade. Mas vamos ao que interessa. Você acha que é importante demais para seguir regras básicas como voltar ao seu maldito dormitório antes das nove horas? Eu poderia te levar à direção agora e você teria que se entender com o diretor Irvin Smith. Mas, como ele está muito ocupado hoje, terei que resolver esse problema eu mesmo. Já que você decidiu desrespeitar as normas da escola e agir como um fora da lei, sua punição será limpar essa sala. — Ele se levantou, pegou um pano e um balde cheio de água. Limpar o quê? Essa sala estava praticamente brilhando. – Você não sairá daqui até que cada centímetro quadrado esteja perfeitamente limpo. Pode começar.

Sem escolha, eu comecei a esfregar o chão. Aquele trabalho ia demorar. Que maldito! E ele ainda fica parado me observando, sem esboçar emoção alguma. Havia uma mancha no chão que eu não conseguia tirar. Vendo o meu sofrimento, ele se levantou e disse:

— Céus, como você é inútil! Nem esfregar o chão você consegue! Será que pelo menos sabe limpar a sua bunda ou terei que chamar a sua mãe aqui para fazer isso por você? – Levi amarrou um lenço branco na cabeça. Ele ficou incrivelmente bonito. Espere. O que eu estou pensando? Ele é um homem, por Deus! Acho que estou delirando. Ele ficou de joelhos à minha frente e tomou o pano de minhas mãos. – Observe como se faz.

Levi começou a esfregar o chão, mas eu não prestei atenção em como ele fazia. Eu estava ocupado observando como o seu queixo era fino e delicado, porém másculo. Como os seus olhos claros se destacavam em seu rosto. Como as suas finíssimas sobrancelhas o faziam parecer muito mais jovem do que realmente era. Como o seu cabelo escuro era um contraste com aquela pele pálida. Como a sua franja levemente bagunçada caía sobre os seus olhos. Como esse conjunto de qualidades me impedia de desviar os meus olhos de seu rosto. O que eu acabei de dizer? Eu não estou me reconhecendo!

Ele ergueu a cabeça.

— Entendeu, garoto? – Os nossos rostos estavam tão perto que, por mais alguns centímetros, nossos lábios estariam se tocando. Senti o meu rosto queimar. Ele deu um sorriso malicioso e riu. – O que foi? Eu te intimido? – Eu arregalei os meus olhos e me apressei a dizer:

— N-Não! Q-Quer dizer... Eu... – Nós dois nos levantamos. Levi começou a me olhar de uma maneira estranha e eu dei um passo para trás, porém escorreguei no chão molhado. Ele tentou me segurar, mas eu acabei fazendo-o cair em cima de mim. E... Nossos lábios acabaram se tocando. Ele aprofundou o beijo, me fazendo corar como nunca corei em toda a minha vida. Ele dava leves mordidas no meu lábio inferior. Eu estava com medo de fazer alguma coisa errada, porque eu nunca tinha beijado ninguém. Tentei acompanhá-lo e acho que fui bem, porque ele não disse nada. Nossas línguas estavam lutando debilmente, em perfeita sintonia. Ele ia explorando a minha boca de maneira deliciosa. Eu coloquei timidamente a minha mão direita em seus cabelos. Eles eram tão tentadores que não resisti ao impulso de acariciá-los. Movi levemente a sua cabeça, acompanhando os nossos movimentos. Eu já nem pensava direito no que estava fazendo. Só... Aproveitava o momento. Quando eu estava quase sem ar, ele partiu para o pescoço, me fazendo dar um gemido fraco. Cada toque seu me deixava arrepiado. Meu coração batia aceleradamente e eu sabia que ele podia sentir. Seus lábios eram macios. Foram a melhor coisa que eu já provei. Pare, Eren! Isso não é algo para se dizer! Ambos são homens! Vá procurar uma garota da sua idade!

Ele parou para respirar e, ao olhar para mim, se levantou e saiu de cima de mim. Eu respirei fundo e me levantei logo em seguida. Foi quando eu me dei conta de tudo o que aconteceu. Ele ficou de costas para mim e disse:

— Já pode ir, Eren.

— C-Como assim, “já pode ir”? Você entende o que acabou de fazer? Nós dois somos homens, droga! O meu primeiro beijo foi com um homem! – Eu estava muito confuso. — Não consigo acreditar! Por que diabos você me beijou? Era essa a minha verdadeira punição?

— Esqueça isso. Saia daqui.

— Não! Eu não vou sair!

— Fora daqui agora! – O seu olhar era de congelar os ossos.

Eu saí rapidamente da sua sala, mas não antes de ver a sua face. Era de puro arrependimento. Eu senti muito por ele. Não seria eu quem o faria perder o emprego, apesar de ter sido assédio. Quando eu fechei a porta, saí em disparada em direção ao corredor por onde passei mais cedo e cheguei à minha porta. Meu coração ainda estava batendo muito rápido.

Tentei abri-la, mas estava trancada. Ouvi um ruído de chaves lá dentro e logo depois Armin a abriu para mim, com uma expressão de preocupação, logo substituída por uma de raiva.

— Droga, Eren! Onde você estava? Por um momento pensei que você tivesse sido pego fora da cama, mas vejo que não. O que aconteceu? Já são dez horas, sabia? – Eu entrei e fechei a porta atrás de mim.

— Eu sei. É que eu me atrasei e, de fato, fui pego. O cara era maluco, fascinado por limpeza. Ele me obrigou a esfregar o chão da sala dele. E teve um momento em que eu caí e...

— Calma, Eren. Você está falando muito rápido. Deixe-me ver se eu entendi: um homem louco te achou fora da cama depois das nove horas e te obrigou a limpar a sala dele. E aí você caiu. O que aconteceu depois?

— Nada. Eu estou cansado. Boa noite, Armin. – De alguma forma, ele parecia saber que era importante, mas não insistiu no assunto.

Na manhã seguinte, eu me troquei, vesti o uniforme e saí do quarto junto com Armin. Mikasa estava nos esperando ao lado da porta.

— Todos os dias, antes da aula, os estudantes se reúnem no saguão de entrada para ouvir avisos ou simplesmente para prestar respeito à escola. Sigam-me. – Disse Mikasa.

No saguão, havia uma fila para cada ano. Nós três nos juntamos à fila do primeiro ano. O diretor Smith apareceu à nossa frente e disse:

— Bom dia a todos. A única informação de hoje é que haverá quadros de avisos em todos os pisos indicando o número da sala de cada professor. Cada disciplina será dada na sala de aula do seu respectivo professor. Vocês têm cinco minutos para se deslocar de uma sala a outra na troca de períodos. – Ele pôs os braços em punho, com o direito à frente do coração e o esquerdo atrás das costas. Todos os estudantes imitaram o gesto. – Dispensados.

— Para que isso? – Eu perguntei a Mikasa.

— É uma antiga tradição da escola. Esse é o gesto que demonstra respeito à escola. Bem, vamos à aula. Temos apenas cinco minutos.

Oh, não. Eu tinha me esquecido que os dois primeiros períodos seriam matemática. Eu não estou com a mínima vontade de rever aquele homem. Nós chegamos à frente de sua porta e Levi estava esperando os estudantes do lado de fora. Quando ele me viu, ergueu uma sobrancelha, um pouco surpreso, porém não disse uma palavra.

Eu me sentei na carteira mais ao fundo que havia. Armin sentou-se à minha frente e Mikasa ficou na fileira ao lado. Reparei que Jean auxiliou Marco a ficar na carteira à sua frente. Quando o último aluno entrou, Levi fechou a porta.

— Bom dia. Meu nome é Levi e eu serei o seu professor de matemática. A matéria do primeiro ano exige todo o seu conhecimento dos anos anteriores. E, como eu entendo que não são todos os que conseguem dar conta disso, aplicarei um teste hoje para ver em que nível cada um está e para saber quais eu precisarei ajudar com aulas extras. Eu faço isso porque não quero atrasar a classe inteira por causa de quatro ou cinco estudantes. E não se preocupem, não valerá nota. Tirem uma folha de caderno para rascunho e deixem em cima da classe somente lápis, borracha e caneta.

Ele abriu o seu armário e dele retirou uma pasta com as folhas do teste. Levi começou a entregar uma para cada um de nós. Quando terminou, mandou-nos começar e sentou-se em sua cadeira, tomando café.

Eu nunca vi questões tão difíceis na minha vida. Eu não sei qual é o meu problema com matemática, mas ela não entra na minha cabeça. Depois que quarenta e cinco minutos se passaram, Levi anunciou que o tempo se esgotou e recolheu as folhas.

— Eu irei utilizar esse período para corrigir os testes. Vocês estão livres, mas não se atrevam a fazer barulho.

— Como você foi, Eren? – Armin me perguntou.

— Nada bem. Eu já te falei que eu sou péssimo em matemática. – Mikasa colocou a sua cadeira do nosso lado e nós três ficamos conversando em volume baixo até Levi terminar de corrigir as folhas. Ele demorou apenas dez minutos.

— Parabéns, Sr. Arlert, por ter acertado todas as questões. E parabéns a todos que conseguiram acertar mais de oitenta por cento. Sr. Jaeger, você respondeu a essas questões para rir da minha cara, não foi? Não é possível você ter acertado apenas uma. – Aquele desgraçado! Não acredito que ele está me constrangendo na frente da turma inteira. – Vejo que o motivo são os amigos, não é? Você acaba distraído perto deles. Teremos que mudar isso. Sr. Springer, troque de lugar com Jaeger.

Um garoto baixo, de cabelo extremamente curto, que estava sentado na classe mais perto do professor, se levantou com o seu material. Não! Eu não acredito que ele fez isso! O que eu mais queria era distância dele. Mas, como eu não podia argumentar sem receber uma detenção, peguei o meu material e sentei-me em seu lugar. Eu não consegui esconder a minha expressão de desagrado.

— Eu não estou nem aí se você gostou ou não, Jaeger. Eu quero que você se sente nessa carteira e é aí que você vai ficar. – Disse Levi, sem expressão facial alguma. – Agora, começaremos a aula. O primeiro conteúdo é progressão aritmética.

Ele começou a explicar o conteúdo e eu estava quase dormindo. Quando ele terminou, deu à turma alguns exercícios e sentou-se.

— Oy, Eren. – Disse quase sussurrando. – Eu tenho certeza de que você não conseguirá resolver as atividades. No seu nível atual, você só atrasaria a turma inteira. Você terá aulas de reforço comigo à tarde todos os dias.

— Sim, senhor.

— Venha à minha sala hoje às duas horas e traga o seu material. Como eu não posso te deixar sem fazer nada até o período acabar, faça essa folha de exercícios. – Ele me entregou uma folha que ensinava a resolver equações de 2º grau com exercícios logo embaixo. Eu acho que já aprendi isso, mas não consigo me lembrar. – Não se preocupe, eu te ensinarei tudo isso melhor à tarde.

Eu li o papel. Parecia grego para mim. Eu tentei fazer o primeiro e logo depois mostrei a Levi o resultado. Ele suspirou.

— Não, Eren. Você estava indo muito bem até aqui. – Ele apontou para o final da conta. – Se você tem trinta e seis maçãs e dá quatorze para mim, você perde essas quatorze maçãs, Eren. Por que você somou aqui? Tem que subtrair.

— Ah, eu devo ter confundido esse borrão como um sinal positivo.

— Você tem borracha para que, Eren? Use-a. Ele caderno está uma bagunça. Credo! Como você irá se entender aqui? Numere as questões. Apague quando necessário. Use uma folha de rascunho para os cálculos. Aponte o seu lápis quando a ponta começar a engrossar. Eu mal consigo entender o que está escrito aqui. E que tipo de “um” é esse? Parece um “sete”. Melhore a sua caligrafia. – Eu corei, sem saber o motivo.

— S-Sim, senhor. – O sinal tocou e todos saíram da sala.

— O que ele disse para você? – Perguntou Armin.

— Ele vai me dar aulas de reforço. Mas eu não quero. Não estou nem aí se eu for mal em matemática. Eu só quero manter distância dele.

— Por que, Eren? Eu não consigo entender o que tem de tão ruim em ter aula com ele. Ele ensina muito bem, sabia?

— Não é só isso que ele faz bem. – Eu murmurei. Quando me dei conta do que disse, rezei para que Armin não tivesse ouvido. Porém, as minhas preces não foram atendidas.

— O que você quer dizer com isso, Eren? Por acaso tem a ver com o que aconteceu ontem? – Eu não tinha escapatória.

Eu o arrastei para um corredor vazio.

— Eu vou te contar, mas você tem que jurar que não vai contar a ninguém. Eu não quero que ele seja despedido.

— Claro, Eren. Que tipo de pessoa você pensa que eu sou?

Eu contei tudo a ele e senti o meu rosto corar. Eu não entendia como tudo relacionado a ele me fazia ficar assim tão facilmente. Armin assentiu quando eu terminei.

— E como você se sentiu quando ele te beijou? – Eu parei para pensar um pouco.

— Eu estava muito tenso. Meu coração batia acelerado e eu estava tão vermelho quanto um pimentão. Apesar disso, foi como se eu estivesse completo. Como se a parte que faltava fosse ele. Mas isso sempre acontece quando beijamos alguém pela primeira vez, não? – Ele parecia um pouco decepcionado.

— Você já pensou na possibilidade de estar atraído por ele?

— Eu não estou atraído por ele! Eu fui assediado, Armin! Além disso, ambos somos homens! Isso não existe!

— Mas você disse que ficou muito corado e nervoso quando ele ficou perto de você.

— Isso não significa nada. Você fica vermelho sempre que eu me aproximo de você. – Ele ficou corado novamente e desviou os olhos. E aí eu liguei os pontos.

Notas finais
Desculpe se não foi o que esperaram. Eu nem tinha planejado um beijo nesse capítulo, mas, como vi que alguns estavam com muita expectativa, eu tentei não decepcioná-los.
Kissus!!