Abre-te, Sésamo
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Nós fomos até os fundos do grande terreno, onde fica o estacionamento. Levi desativou o alarme e as luzes de uma Mercedes acenderam-se. Então esse é o seu carro? Eu não imaginava que Levi fosse tão rico.
Ele abriu a porta do banco de trás.
— Eu não posso me sentar na frente? – perguntei.
— Se você pretende sair daqui sem ser visto, não. Fique deitado e não emita um único ruído até eu dizer que é seguro, entendeu?
— Sim, senhor.
O carro avançou por toda a estrada que nos levava à entrada da escola. Levi fechou todas as janelas, exceto a sua, que estava aberta até a metade. Já que o carro possui películas muito escuras, não é possível enxergar o lado de dentro. Nós paramos e ouvi uma voz:
— Ah, senhor Levi. Resolveu passar o fim de semana em casa?
— Pois é, essa escola me estressa.
— Bem, já que o senhor é meu amigo, não preciso pedir-lhe a sua documentação nem revistar o carro, não é?
— Claro que não – ele deu uma risadinha. – Até mais.
Depois de estarmos a mais de cem metros da escola, ele disse:
— Já pode vir para o banco da frente. – eu comecei a me levantar, porém Levi me interrompeu. – Você acha que eu vou permitir que você encoste esses tênis imundos no banco do carro? Pode ir esperando eu estacionar. – feito isso, saí do carro e sentei-me ao seu lado.
— Hum... Senhor Levi? Aonde exatamente estamos indo?
— Para a minha casa. E pare de me chamar de senhor. Fora da escola eu não sou o seu professor, pirralho. – ignorei o seu comentário.
— S-Sua casa? Mas pensei que iríamos à minha, para descobrirmos o que a chave abre.
— Já está tarde. Nós partiremos pela manhã.
Nós nos afastamos da área urbana da cidade e entramos na rural. Lá, havia uma grande propriedade a cada duzentos metros. Era uma região calma. Entramos em uma propriedade não tão grande, cercada com um muro de pedras alto, e atravessamos um portão de ferro muito trabalhado e detalhado. Aquele terreno me fazia lembrar da escola, mas era muito menor. Também havia uma estrada de pedras, mas simples. O jardim estava impecável. Havia flores de todos os tipos, cores e tamanhos, em uma harmonia perfeita. Era discreto, de certa forma. Eu não posso negar que Levi tem classe.
A casa dele é perfeita: em estilo colonial, mas não velha; algumas partes em madeira e outras em tijolos; muito bem pintada de branco e as venezianas da janela em um tom verde-escuro, feitas de madeira; possui dois andares e, por ter janelas atravessando o telhado, devia ter um pequeno sótão.
Levi dirigiu até o estacionamento, nos fundos da casa. Avistei uma bela piscina, iluminada por luzes externas que, junto com as plantas no quintal, deixavam o ambiente em estilo tropical. Aquele era, sem dúvida, um lugar muito aconchegante para morar.
Saímos do estacionamento – depois de Levi reclamar por eu ter “batido a porta forte demais” – e retornamos à entrada da casa. Havia uma pequena sacada na frente da casa, com uma bela cadeira de balanço talhada em madeira de lei. Levi retirou do bolso um molho de chaves e abriu a porta decorada em vidro colorido.
Atravessamos o hall de entrada e, após Levi acender as luzes, eu me deparei com uma grande e bem iluminada sala de estar, com piso de carvalho, cortinas de seda – que eu não sei dizer se são creme ou marfim –, um enorme sofá e uma poltrona da mesma cor das cortinas. À frente do sofá havia uma grande lareira. A casa era maior do que parecia. Eu fiquei boquiaberto.
Andei pelo ambiente e observei caríssimas estátuas e esculturas. As pinturas das paredes também eram muito bonitas. Eu nunca tinha estado em uma sala tão bonita. Levi é arquiteto em seu tempo livre?
— Fique à vontade. Eu vou me trocar. — e subiu as escadas.
Sentei-me na poltrona e olhei ao meu redor. Havia tantos detalhes que era quase impossível prestar atenção em tudo. Havia uma porta para a cozinha de um lado, escadas no lado oposto e, no meio, um longo corredor. Eu, uma pessoa nada curiosa, segui pelo último.
Eu me surpreendi com o que vi: porta-retratos nas paredes. O Levi que eu vi nas imagens é totalmente do de agora. Nas fotos, ele estava sorrindo. Não era aquele sorriso “safado”. Eram sorrisos genuínos, de pura felicidade. Ele estava alguns anos mais jovem e muito charmoso. E... Havia uma garota nas fotos. Era linda como um anjo. Tinha curtos cabelos ruivos e olhos castanho-esverdeados. Ela também parecia estar muito feliz nas fotos. Eles se abraçavam e se beijavam nas fotos.
Senti um aperto no peito. Ele tem alguém? Mas as fotos parecem ser antigas. Então por que ele guardaria fotos de uma ex-namorada? Eu já estava me sentindo mal e, depois de ver outra foto, fiquei ainda pior: ele estava de joelhos, beijando uma enorme barriga. Aquilo perfurou o meu peito. Ele tem uma mulher e um filho. E, mesmo assim, beija garotos adolescentes em seu tempo livre.
Viro-me e dou um encontrão em Levi, que, aparentemente, estava atrás de mim o tempo todo me observando.
— Oy, Eren. O que está fazendo?
— D-Desculpe, senhor! Quer dizer, Levi.
— Está com fome?
— Acho que sim.
— Então lave as suas mãos. Pode me ajudar com o jantar?
— Claro.
— O banheiro fica no fim do corredor, à direita.
Depois que lavei as mãos, percebi que a porta em frente à do banheiro estava aberta. Atravessei-a e me deparei com uma grande sala, também muito bem decorada, repleta de obras de arte e um grande piano no centro. Fiz uma nota mental para me lembrar de pedir a Levi para tocar algo mais tarde.
Retornei à sala e entrei na cozinha.
— Eren, você pode cortar a cebola, por favor? — ele havia separado-a junto com uma tábua ao lado de uma faca.
Para falar a verdade, eu não sei cozinhar, nem cortar. Minha mãe sempre cozinhou para mim, então eu nunca precisei aprender. Mas não quis dizer isso a Levi. Comecei a cortar a cebola do melhor jeito possível. Os pedaços tinham uma grande diferença de tamanho entre um e outro, e eu não pude consertar porque, no momento, eu estava lacrimejando e não enxergava nada.
— Oy, Eren! O que diabos você está fazendo? — ele se aproximou. — Você cortou um pedaço de cada tamanho. Eles têm que ser iguais. Observe.
Levi cortou tudo de novo, igualando todos os pedacinhos, em uma precisão que eu não conseguiria nem com o auxílio de uma régua.
— Agora tente você.
Eu cortei da mesma maneira de antes, e em menos de trinta segundos eu havia cortado o indicador esquerdo com a faca. Eu ia chupar o sangue, porém Levi segurou o meu pulso.
— Você é louco? Não ouse colocar essa ferida na boca. Eu já volto.
Ele retorna com um kit de primeiros socorros e faz um curativo no meu dedo com muito cuidado. Depois de pronto, pergunto:
— Levi, o que vai ser o jantar?
— Nós faremos ravióli. Você pode ir lavando os tomates. — ravióli? Não sei por que, mas esse prato combina com ele.
Enquanto cozinhávamos, Levi concluiu que eu não servia para nada na cozinha. Aliás, eu só atrapalhava. Por esse motivo, as únicas coisas que eu fazia era lavar os alimentos e alcançar recipientes para ele. Quando ele terminou de servir os raviólis em uma travessa, me pediu para arrumar a mesa, e assim eu fiz.
Nós estávamos comendo em silêncio. A comida estava maravilhosa, mas eu ainda estava incomodado com aquelas fotos. Quer dizer, ele conseguiu me fazer ficar totalmente apaixonado por ele, me tortura o tempo todo me beijando e depois rejeitando, e agora descubro uma garota e uma criança. Eu me sinto um intruso naquela família. Falando nisso: onde eles estão?
— O que foi, Eren?
— N-Nada, eu só estava me perguntando onde ela está.
— Ela quem?
— A sua... Hum, ela é sua esposa ou namorada? Sabe, aquela mulher das fotos.
Ele se manteve em silêncio por um tempo e disse, por fim:
— Minha esposa. – fiquei decepcionado. Então era verdade.
— Ela está viajando? E o seu filho? – outro momento de silêncio, esse um pouco mais longo.
— Estão mortos.
Meu Deus, como eu sou burro! Não sei ficar com a boca fechada quando preciso! Agora ele deve estar remoendo o passado novamente por minha culpa! Deve ser por isso que ele é tão frio.
— S-Sinto muito, de verdade! Eu não devia ter perguntado, me desculpe!
Ele pigarreou.
— Não está ficando tarde? Venha comigo, eu vou lhe mostrar o seu quarto.
Eu não disse nada, constrangido e arrependido demais para deixar escapar outra coisa estúpida de minha boca. Segui Levi até o segundo andar, onde ele abriu a segunda porta à esquerda e disse:
— Você pode ficar aqui no quarto de hóspedes. O banheiro é ali ao lado.
— Obrigado — murmurei baixinho.
— Boa noite, Eren.
— Boa noite.
Depois de escovar os dentes, retornei ao quarto. Pude ouvir Levi lavando a louça na cozinha. Eu queria ajudar, mas ele provavelmente me enxotaria dali. Ele deve estar realmente chateado com as minhas perguntas. É duro perder alguém que amamos. E um filho deve ser pior ainda. Não posso negar que eu quero saber o que aconteceu, mas não é como se eu fosse perguntar a ele. Levi já devia estar sofrendo com a perda todos os dias, e eu relembrá-lo não foi o melhor a se fazer.
Eu não conseguia dormir. Aquelas fotos não saíam da minha cabeça. Eu não parava de pensar em como Levi um dia foi feliz e radiante, como se nada pudesse estragar a sua felicidade. Até que um dia, de algum modo, as únicas pessoas que importavam para ele se vão. E aquele sorriso — o mais belo que eu já vira — nunca mais retornou. E hoje ele se tornou uma pessoa sem emoções, dura, fechada, morta por dentro. Todo o seu sofrimento deve estar reprimido em seu peito. Agora que eu sei o motivo de ele ser assim, eu quero trazer a sua vida de volta. Eu quero vê-lo sorrir como antes. E eu quero ser o motivo de sua alegria.
Desistindo de dormir, olho as horas em meu celular e vejo que são duas da manhã. Estou com sede. Eu saio do quarto e desço até a cozinha. Depois de beber um copo d’água, ouço levemente o som de uma linda melodia. Está vindo da sala com o piano.
Entro no ambiente e vejo Levi de costas, tocando piano. Eu conhecia aquela música. Mas não conseguia me lembrar de seu nome. Levi tocava com delicadeza e destreza. Seus belíssimos dedos, longos e finos, dançavam pelas teclas do piano suavemente. Eu estava ficando deprimido. Aquela melodia era triste, de certa forma. Ela me fazia recordar dos meus momentos de maior tristeza e melancolia, ao mesmo tempo em que era calma e fazia-me ficar com vontade de dormir. Eu nunca fui um expert em música, mas eu percebi por que Levi escolheu essa peça: ele estava sofrendo por dentro.
Ouvindo-o tocar, eu me lembrei de minha mãe. Do quanto eu sinto a sua falta. Do quanto me arrependo de ter saído de casa. Não pude deixar de derramar algumas lágrimas. Sem a presença de um pai em minha vida, eu percebi que, sem ela, Levi é o único que pode me ajudar. Se não fosse por ele, talvez eu estivesse trancafiado em um orfanato até completar dezoito anos, ou talvez eu nunca conseguisse ir atrás do que o meu pai deixou para mim guardado em algum lugar em minha casa, sendo somente possível acessá-lo através da chave que eu agora tenho.
Levi terminou de tocar e permaneceu em silêncio no mesmo lugar. Aproximo-me lentamente, sentando-me ao seu lado e empurrando-o levemente para o lado. Ele não diz nada. Começo a dedilhar as teclas do piano, apenas brincando, já que não sei tocar.
— Que linda música – digo, quase sussurrando. — Qual o nome dela?
— Moonlight Sonata, do Beethoven. — agora eu me recordo. Estudei sobre ele quando eu era criança.
Ficamos novamente em silêncio. Estranhamente, eu não me sentia desconfortável ao seu lado. Eu me sentia seguro. Levi era tudo o que eu tinha. E eu era mais do que grato. Sento-me mais perto e encosto a minha cabeça em seu ombro.
— Obrigado. Por tudo.
Levi’s POV
Eu encosto a minha cabeça na sua e afago os seus cabelos. E assim ficamos. Depois de um tempo, eu percebo que Eren dormiu ali mesmo. Eu não queria que ele ficasse com torcicolo, então o peguei no colo com cuidado para não acordá-lo, com seus braços em meus ombros e suas pernas em minha cintura. Ele não era pesado.
Subo as escadas carregando Eren e paro na porta do quarto de hóspedes. Não. Continuo andando pelo corredor e levo-o até o meu quarto. Deposito-o com cuidado e cubro-o com o cobertor. Parece um anjo dormindo. Deito-me ao seu lado. Tiro a franja dos seus olhos e dou um beijo em sua testa com ternura. Brinco com os seus cabelos macios. Eles têm um cheiro viciante. Aproximo-me mais e abraço-o como se fosse um ursinho de pelúcia. Não posso negar que ele fica fofo dormindo. Eu passo a cheirar o seu pescoço e, sem que eu perceba, eu também adormeço.
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