Notas iniciais
Quero entregar minha gratidão, querido público, a força que estão me dando é enorme! Aproveite mais um capítulo, avante com o espetáculo!

~15: 08

Cansou muito.

Seus cabelos grudaram-se na pele do rosto, por causa do suor.

Perdera a nota de vista, desistiu de correr durante um tempo.

Ao redor descobriu-se no vazio parque de diversões.

Não há ninguém aqui?

Onde o dinheiro parou?

O carrossel de cavalinhos, a xícara giratória, piscina de bolinhas, pescaria, montanha russa, trem fantasma... devagarinho seus perolados averiguaram cada brinquedo.

Seu objetivo de vaguear pelo lugar se esvaía.

O parque de diversões trouxe-lhe nostalgia.

Não era o mesmo parque de sua infância, mas ali existia um ar familiar.

Um meigo encanto tirou seu coração para dançar, entretanto, impediu-se de se apaixonar pelo ritmo das saudades.

Não sucumbiria às lembranças do passado!

A realidade era outra, precisava se manter firme, e retornou a procurar seu dinheiro.

E o encontrou!

Enxergou um ponto verdinho grudado na parede de uma cabine da roda gigante, a porta jazia aberta e o pequeno portão de grades diante dela também.

Alguém se esquecera de fechar ambos.

Hinata se impulsionou, após a corrida, ultrapassou o pequeno portão e entrou na cabine.

As pérolas se reluziram pelo lacrimejar de alívio, alegria.

Pegando a nota verdinha, guardou-a na carteira, beijou-a três vezes e depois enfiou no interior da bolsa.

Virando-se pra sair da roda gigante, o brinquedo começou a funcionar.

Assustada, a Hyuuga recuou e espremeu as costas contra a parede da cabine.

Através da porta aberta percebeu que subia cada vez mais, e o medo a castigava.

Tenho tanto medo de altura.

Do quê não tinha medo? Sua vida se tornou uma constante insegurança.

Colocou a mão no peito, implorando aos pulmões que funcionassem normalmente. Deprecava ao coração que fosse forte!

Quando a cabine cessou, ela teve certeza que quase se urinou de pânico.

Aguardando um tempo, assegurara-se de que a roda gigante se imobilizara.

Arrastou seus pés pela cabine até alcançar a porta a qual empurrou com força e tratou de trancá-la.

Ufa!

Menos assustada, sabia que não cairia.

No entanto, sua situação era preocupante.

Pensava em gritar por ajuda a seja lá quem ligou o brinquedo.

Espere! Por que alguém ligaria o brinquedo? E se eu fui vista entrando e resolveram fazer uma brincadeira comigo?

Então não receberia ajuda.

Será que me deixarão aqui em cima até o parque abrir?

Não podia demorar, estava atrasada e alguém a esperava com muito anseio em seu lar.

Para cada coisa que dá certo pra mim acontece algo muito ruim logo depois...

Seus perolados volveram a reluzir, tristeza em seu lacrimejar.

O vento gelado da estação fria do ano.

A paisagem serenava a alma da Hyuuga, ajudou-a a diminuir o medo, a colegial decidiu que naquele dia as lágrimas não a venceriam, pensaria em seu futuro trabalho e o dinheiro que viria.

Comida na mesa, roupas novas.... a capa de chuva!

Permitiu-se ser conduzida pelos suaves pensamentos, enquanto admirava a bela vista, a tonalidade do branco ao cinzento do céu e o colorido do parque cairia perfeitamente em um quadro.

As cores pareciam escorrer do plano imenso e caído na terra espalhando-se por todos os lados.

Um circo?

Avistou o topo da colina, a forma de uma tenda com algumas manchinhas coloridas tremulando, bandeirinhas, acreditava.

Fixou sua visão na tenda por pouco tempo, pois a roda gigante voltou a funcionar.

Retornando lá pra baixo, a colegial voltou pra sua realidade e esperou ansiosamente sair daquele brinquedo.

— Lamento jovenzinha, estou testando o funcionamento!

Um velho se justificou de modo exclamador, saindo detrás da máquina de controle.

Tossiu de costa curvada e reduziu a distância entre ele e a Hyuuga que ao vê-lo se tranquilizou.

Não foi uma pessoa má que quis prendê-la lá no alto, apenas alguém que trabalhou no parque, um idoso aparentemente muito amável.

— Machucou-se? — ele a verificou de cima a baixo, forçando os olhos, deixando o rosto mais enrugado do que já era.

— Estou bem. Minha nota de dinheiro foi parar na cabine, entrei pra pegá-la, não imaginei que tivesse alguém no parque.

— Oras, é desnecessário explicar-se. Sou responsável em vigiar os brinquedos, a culpa foi toda minha. — O estrondo de um trovão fez a colegial abraçar a bolsa, espantada. O velho levantou seu boné amarelo e coçou a careca, existiam poucos cabelos, nas laterais e atrás do crânio. — Puxa vida, a dona chuva vem jájá. — Colocando seu chapéu de volta no lugar e de aba virada pra trás, avançou na direção de um quiosque. — Venha comigo, preciso me redimir.

— Eu tenho que ir pra casa. — A Hyuuga se preparou para ir embora, porém seus pés travaram quando encarou o céu escurecendo e o murmurar de um novo trovão.

Não chegarei em casa antes do cair da chuva....

— Pra que a pressa, jovenzinha? Tem muito tempo pela frente ao contrário de mim! — o velho exclamador entrou no quiosque. — Venha sentar-se. Deixe-me servi-la algo enquanto esperamos a chuva passar!

Os primeiros chuviscos molharam os cabelos azulados.

A estudante se rendeu e correu aonde o vigia do parque se localizava.

De estômago roncando se interessou veemente pelo quê o idoso pretendia servi-la.

Detido atrás de um carrinho de doceiro, ele pegou um pirulito vermelho, uma roda grande e plana de doce maior que a mão pequena e delicada da garota.

Surpresa, ela o perguntou:

— Além de tomar conta dos brinquedos, ainda é vendedor?

— Eu faço muitas coisas, tomo conta do parque sozinho.

— Como é possível? Deve dar muito trabalho, especialmente em sua idade...

— Quando se tem um sonho, tudo é possível. — Ele se sentou, em uma cadeira de balanço ao lado do carrinho de compras. Tirou um cachimbo do bolso de seu macacão azul. — Sente-se você também, jovenzinha.

Hinata observou em volta, escolheu sentar ao lado da entrada, no banco de cimento grudado na parede do quiosque.

Colocou a bolsa de lado e quando tornou suas pérolas ao velho, o cachimbo jazia aceso.

— Deve ser um sonho muito bom que o senhor deseja alcançar, para trabalhar em um parque nessa idade.

— Trabalhar no parque é o meu sonho. Estou realizando-o todos os dias.

— “Que sonho pequeno”.

Não que ela achasse vergonhosos os trabalhos simples, no entanto, esperava-se que as pessoas sonhassem alto. Não se lembrava duma única que vez que alguém desejou ser catador de lixo, vigia de museu, balconista, etc. Quando não havia saída e sobravam esses papéis, as pessoas aprendiam a amar ou a odiar o que faziam, todavia, continuariam trabalhando.

Seu futuro trabalho era pequeno, mas antes mesmo de começar sua função na loja o adorava tanto porque esse cargo seria apenas temporário, até alcançar seu maior objetivo.

— Eu gostei de sua meia-calça com detalhes de bolinhas. — O velho interrompeu o raciocínio da estudante.

Hinata olhou para as próprias pernas.

Que droga! Outro buraco. Deve ter rasgado com toda correria que fiz! Comprarei uma nova amanhã, não passarei em frente da loja quando sair do parque, escolherei um caminho mais curto quando voltar pra casa”

Guardou o pirulito em sua bolsa.

O velho contemplativo à chuva, jazia atento aos movimentos da colegial.

— Não gosta de doces, jovenzinha?

— Lie, mas onde moro tem alguém que gosta, agradeço por me dá-lo.

— Nesse caso... — O velho deu uma esfumaçada longa e um embalo forte na cadeira para se levantar, abriu uma das portas do seu carrinho e retirou um pacote. — Ninguém rejeita essa belezinha.

— I-Isso aí é la... lá-lámen? — a boca pequena salivou, os perolados tiveram o maior brilho do dia e o estômago bailava de contentamento.

— O velho e bom macarrão instantâneo não falha com ninguém hehe... — Ele andou na direção da colegial e a presenteou com comida.

Hinata, apressadamente, abraçou o presente. Abaixou a cabeça, chegando a se emocionar.

Arigatou Gozaimasu!

O velho sorridente retornou ao seu assento, balançando-se e fumando.

— Diga-me, jovenzinha, enquanto esteve na roda gigante, viu o circo?

A Hyuuga pusera o lamén no colo.

Hai... não sabia que havia um circo na cidade.

— Há um mágico habitando a tenda, ele faz apresentações de graça para quem o visita.

— Oh, então não é um circo de verdade.

— Por que diz isso?

— Se não há mais pessoas trabalhando... sem trapezistas, contorcionistas, domadores de leões....

Deixou sua fala incompleta.

O velho deduzindo a resposta, formulou-a em uma pergunta:

— Me diz que um circo de verdade existe somente se tiver uma equipe trabalhando nele?

— É... ou então será só uma tenda de circo.... atração de uma pessoa só me parece artista de rua.

— Sem a rua?

Hinata franziu a testa, pensando em uma resposta convincente.

O velho segurando o cachimbo e o afastando da boca, gargalhou.

— Jovenzinha, visite o mágico para tirar novas conclusões sobre o circo dele. Voltará de lá trazendo um lindo sorriso.

— Não gosto de mágica. — E de bebidas alcoólicas e fumos, mas não protestou contra o cachimbo do idoso temendo que ele pegasse de volta o lamen e o pirulito.

— A mágica dele é de verdade.

— Não existe mágica de verdade. — Ela dissera, com extrema certeza.

O som da chuva dissolvia o silêncio originado e distendido entre os dois.

— O mágico ajuda pessoas carentes, ele faz boas ações.

O interesse brotou em Hinata.

— Ele faz doações como a sua?

O velho parou a visão sobre o pacote de macarrão segurado de modo especial pela jovem.

— Se for até o mágico, receberá muito mais que lamen, garanto.

A Hyuuga considerou.

Se ganhasse mais alimentos, poderia comprar a capa de chuva e a meia-calça sem ter que esperar receber o seu primeiro pagamento.

Não lhe viria à dúvida do que comprar primeiro.

— Que hora posso visitá-lo?

— A hora que desejar, o mágico está a sua disposição. — A chuva enfraqueceu, terminando de fumar seu cachimbo, ergueu-se de seu assento e abriu uma porta de seu carrinho, pegou um chapéu de guarda-chuva. — Tenho que terminar de testar o funcionamento dos outros brinquedos antes da hora de abrir o parque.

"Ele confia em mim? Ou é muito descuidado?"

Ela se encontrou sozinha dentro do quiosque com o carrinho de doces.

Não roubou nada.

Quando a chuva se transformou em chuviscos, ela resolveu ir pra casa e escolheu um atalho.

Durante a volta para casa, ela percebeu que nem ela ou o velho disseram seus nomes.

~18: 11h

A Hyuuga morava em condomínio cuja construção antiga não era a melhor do bairro, porém sendo o mais barato que conseguiu para sobreviver, seguiria em frente chamando-o de lar.

Antes de abrir a porta, preparou o sorriso para quem a esperava.

Yōkoso! — recebeu um grande abraço da pequena garota que se parecia muito com ela em genética. — Por que demorou tanto mana?

— Precisei esperar a chuva passar. — Sorriu acariciando a cabeça da irmã mais nova. — Gomenasai, Hanabi-chan.

Rooonc

O estômago lembrou a dona que a fome se transformara em um buraco negro dentro de si.

— Mana! — a menina saltou pra trás, fazendo cara feia.

— E-estive fazendo dieta. — Mentiu envergonhada. — Mas hoje comerei junto com você. — Caminhou para a pequena mesa redonda da cozinha, retirou da bolsa o pacote de macarrão.

Lamen! — Hanabi pegou o pacote e o cheirou, seus olhinhos reviraram-se. — Carne de porco, o meu preferido!

Rindo, Hinata tirou o pacote das mãos pequeninas e colocou nelas a garrafa de água que esquentara.

— Coloque-a no congelador.

— É pra já mana!

A colegial puxou uma cadeira e sentou, colocou a bolsa na mesa, depois retirou seus calçados, massageou o pé direito por cima da meia.

— Mana, sua meia tá rasgada, por que não comprou outra? Eu posso me virar com os lanches da escola. — Hanabi cruzou os braços.

— Os lanches de sua escola são preparados de forma ruim. Você passa pela fase de crescimento, quero evitar que tenha problemas por má alimentação.

— Dói saber que passa fome, mana! Fique com todo o macarrão pra você, apenas hoje. Se a mana faz sacrifícios, eu também farei, humpf.

— Nada disso, comeremos juntas, e você comerá mais. — Agravou sua voz, esclarecendo que não aceitaria teimosia da caçula.

—Tá bom... — Aceitou Hanabi, sabendo que quando sua irmã assumia a forma severa, nunca ganhava uma batalha contra ela.

Hinata se levantou e abraçou a pequena, acariciando os cabelos pretinhos e lisinhos. Mansa de novo, avisou-a:

— Não precisa se preocupar, eu comprarei uma nova meia-calça amanhã. O lamen eu ganhei no colégio.

— Ganhou de quem? Um amigo? Namorado? — animada, Hanabi içou a cabeça, fitando os perolados de sua irmã.

— Fiz uma prova especial hoje, aquele com a melhor nota ganharia um cupom para adquirir um alimento de graça.

Melhor mentir do que dizer que aceitou presentes de um estranho, ponderou Hinata. Não queria ser uma influência ruim à caçula.

Mesmo o velho sendo uma boa pessoa, Hanabi poderia considerar qualquer desconhecido como alguém bonzinho.

— Que demais! Minha mana é muito inteligente! — esfregou o rostinho contra o corpo da irmã.

Hinata se sentiu no paraíso vendo a felicidade que trouxe àquela menina magrinha de oito anos de idade, sua preciosidade, seu motivo para suportar uma vida empobrecida e não desistir de sobreviver.

Que o velho estivesse certo sobre o mágico, se conseguisse doações de caridade dele, traria muito mais conforto para seu lar e veria muito mais sorriso de sua querida irmã.