Abracadabra!
23 O passado de Naruto (parte 2)
Notas iniciais
No segundo ano do colegial, Naruto e eu não caímos na mesma sala.
Concentrei-me tanto nos estudos, gastei todo tempo possível nos livros, me desliguei das atualidades, não acompanhava séries, não assistia filmes, não via ao noticiário, não lia jornais, não passeava.
Cheguei a emagrecer bastante e sofrer de fortes dores de cabeça.
Contudo, no final do ano, meu estado começou a melhorar, aumentei todas as minhas notas, exceto em educação física, porém minha mãe ficou satisfeita, pude relaxar e tentar recuperar a saúde.
Reencontrei Naruto no terceiro ano, eu havia superado a paixonite que senti por ele.
Quando entrei na sala, avistei-o sentado no cantinho da sala, observando através da janela.
Escolhi o lugar ao lado de Naruto e sentei de pernas viradas pra ele.
— Há quanto tempo, como vai? — decidi que deveríamos nos dar bem.
Naruto devagar virou a cabeça para mim, de modo lerdo, fitou-me abobado.
— O que há? Não se lembra de mim, Naruto? — interroguei vendo a confusão embrulhar a cara dele.
Piscou várias vezes tentando me decifrar.
E então ele sorriu um pouquinho e me cumprimentou murmurante:
— Oi...
A seguir voltou a olhar além da janela.
Desentendida, eu não soube o que dizer. O analisei e notei os cabelos bagunçados, vários fios soltos na camisa do uniforme, a calça amarrotada e os sapatos velhos.
Ele aparentava cansaço, parecia desgastado. Assustei-me, não era desse jeito que imaginava revê-lo, imaginei reencontrar um jovem imponente, lindo e bem mais atento.
No primeiro dia de aula, para o espanto de todos que conheciam Naruto ou os que apenas conheciam a fama de bom aluno dele, os professores o repreenderam.
Naruto se distraiu repetidas vezes.
Em cada nova aula, uma ou duas broncas lhe foram dirigidas.
Para o Namikaze estava mais interessante observar além da janela.
No intervalo, me levantei e espiei o caderno dele, não havia uma única palavra escrita, apenas um desenho de uma linha dando várias voltas, uma longa mola que ocupava todos os espaços de escrita da página.
— Você está bem? — perguntei pondo uma mão no ombro do loiro que contemplava a vista que a janela o proporcionava.
Ele lento me observou um pouco.
— Está tudo perfeito. — E suspirou, apaixonado sabe-se lá por quem ou pelo quê.
Olhei para a mesma direção que ele através da janela, só vi a imensidão azul acima da nossa cidade.
*
*
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— Eu soube que Naruto está se tornando um aluno horrível. Ainda bem que vocês não se amigaram.
Escutei de minha mãe em uma noite durante o jantar.
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*
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Antes de o primeiro mês acabar, os pais de Naruto compareceram na diretoria.
Outros professores se fizeram presentes.
Não resistindo, voltei ao meu antigo costume: Escutar atrás da porta.
— É nervosismo por que esse ano serão as últimas provas? — a voz preocupada do professor Minato.
Tive certeza que perguntou ao filho.
— Deve ser... — Naruto respondeu baixo, mas consegui entender.
— Está na hora de tomar mais vitaminas e praticar mais exercícios. Não pode ficar relaxado, viu mocinho? — a voz de Kushina soou carinhosa, porém tive a sensação de que ela tentava esconder o nervosismo. — É só uma pequena fase, logo tudo voltará ao normal.
— Estudei com Minato e lembro que ele passou por essa fase, só precisa de descanso e ficará tudo bem. –Comentou um dos professores.
— É verdade, eu lembro. — O professor Namikaze confirmou.
Escutei comentários mútuos dos outros educadores, dava para perceber que alguns estavam irritados com o que acontecia, estavam cansados de chamar a atenção de Naruto.
— Como podem ver é só um susto, tudo ficará bem, tenhamos paciência. — A voz do diretor finalizou a reunião.
*
*
*
No quarto mês, do terceiro ano, a situação piorou.
Andando por um dos corredores externos, o qual atravessava o jardim do colégio, avistei Naruto ser repreendido por um professor, e escutei disfarçadamente a conversa.
— Pare de andar com a cabeça nas nuvens, você antes era excelente e agora vem decaindo muito. Se distrair durante o ensino é uma falta de respeito com os professores.
— Gomenasai... — Os azuis se desproviam de expressividade.
— Para onde está olhando enquanto falo com você? — o professor se enraiveceu com o Namikaze.
— Estou vendo as borboletas.
— Não tem nenhuma borboleta aqui. — O educador observou para onde o loiro concentrava a visão. — Tsc... sinceramente, mesmo sendo filho do Minato, não dá mais para te defender, seu pai passou por uma fase ruim quando tinha sua idade, mas não passou mais que um mês, está na hora de você despertar. Não seja a vergonha da sua família, não deixe seu futuro brilhante escapar ou se tornará um adulto fracassado. — E findando com essas palavras, o homem foi embora.
Naruto permaneceu parado no corredor olhando para as borboletas que ninguém enxergava além dele mesmo.
Mantive-me parada com metade do meu corpo atrás de um bebedouro, curiosa sobre o sorriso emergindo no rapaz que um dia já foi muito belo.
Do salto de um segundo a outro, o loiro correu ao jardim, tentando alcançar as tais borboletas, no entanto, deu de cara no tronco da cerejeira.
Duas alunas testemunharam a cena e riram alto.
Naruto massageou o rosto, a seguir deu continuidade à perseguição às borboletas invisíveis, acabou tropeçando em um banco pedregoso, caiu de bunda pra cima.
Mais alunos testemunharam.
Mais risos vieram.
Dei-me conta de que o intervalo iniciara.
Logo, vários estudantes estariam circulando por ali.
— Qual o problema dele?
— Você viu?
— Naruto não é mais o mesmo.
As fofocas aconteciam.
Pensei em ir embora, todavia, não consegui tirar os olhos da lamentável imagem do loiro jogado na grama, ele se deitou de costas e estendeu os braços pro alto, tentando alcançar as benditas borboletas.
Senti pena.
Corri até ele, o ajudei a se levantar, no corredor, maior número de alunos se reunia esperando que o Namikaze fizesse algo mais engraçado.
O arrastei ao terraço da escola, ficamos na parte da sombra, respirei aliviada de ter saído de perto da multidão.
Ofereci minha garrafinha de água para Naruto.
— Arigatou. — Segurou o objeto e ficou observando-o como se fosse sua maior preciosidade. — É tão colorido, ele tem as suas cores.
— Cores?
— Comecei a ver as cores das pessoas. É mais comum eu ver colorido em crianças. — Observou-me quase fechando as pálpebras. — E também vejo luzes, mas a sua está quase se apagando... é incrível isso porque mesmo com pouca luz você consegue entregar o seu colorido para mim...
Emudecida eu refleti bastante no que dizer.
— Se quer um conselho, não fale disso para ninguém. É um papo confuso, e as pessoas já estão te achando doido demais.
Ele sorriu, apreciando minha intenção de protegê-lo, creio.
Um vento agradável ocorreu.
Ficamos em silêncio, descansados no terraço até o intervalo acabar.
A partir daquele dia sempre voltamos naquele lugar no mesmo horário para admirar a paisagem.
Engraçado, quando minha mãe queria nossa proximidade, não havia possibilidade de acontecer.
Agora que ela preferia que eu me mantivesse afastada de Naruto, eu sentia a necessidade de estar perto dele.
Ou melhor dizendo, eu sabia que ele precisava de mim, ninguém mais o ajudaria dentro do colégio.
*
*
*
— Nossa cidade é tão bonita. — Disse sentada ao lado do Namikaze, estávamos no nosso lugarzinho do terraço.
— É lindo sim, principalmente, o campo de girassóis.
— É sim, muito bonito. — Concordei mesmo sabendo que o tal campo inexistia.
Eu evitava agir como as pessoas as quais o viam como louco.
Fingia acreditar em várias coisas esquisitas que ele dizia.
Naruto permanecia vendo borboletas no jardim, às vezes realmente tinham, porém ele não queria as de verdade, ele almejava pegar as que só ele enxergava.
Ele me falou de pássaros coloridos que voavam dentro da sala de aula.
Animava-se com o tal arco-íris gigante no pátio do colégio, enfim, coisas que só faziam sentido na mente dele.
O lado bom é que ele parou de realizar ações que chamassem atenção, permaneceu quieto por tempo recorde, fato que devia ser uma vitória aos pais, naquela altura opino que Minato e Kushina nem almejavam mais que o filho retornasse à inteligência de antes.
Naruto se manter longe de problemas já bastava para os pais.
Em um de nossos dias no terraço, eu descansava minha cabeça no ombro de Naruto quem abraçava as pernas dobradas, apreciávamos a vista.
Faltavam quase duas semanas para as férias.
— Como nossa cidade é linda. — Comentei.
— Os girassóis estão dançando. É um mar sem fim.
Lá vinha ele com estranha conversa.
— Uhum.
Concordei afastando minha cabeça dele, abracei minhas próprias pernas não me incomodando que a calcinha aparecesse.
Fiquei um pouco chateada, ao menos uma vez eu queria poder ter uma conversa normal com ele.
Percebi que tinha me enganado, acreditei que havia superado minha atração por ele, todavia, mesmo Naruto estando naquele estado todo estranho, ele sustentava uma doçura que me encantou.
Entretanto... ele não estava bem....
Dizendo aquelas coisas estranhas... será que um dia ele voltaria ao normal?
Levantei-me e espanei minha saia com as mãos.
— Aconteceu algo, Shion?
— Eu só vou pra sala, é melhor você continuar aí até o intervalo acabar, tudo bem? Se comporte. — Comecei a andar.
— Suas palavras não saíram coloridas. — Ele se levantou. — Se eu te desse algumas flores, se sentiria melhor?
Eu cheguei à escada, e sorri um pouco.
Toquei meu peito, meu coração se tornou célere por conta de minha mente que imaginara mil cenários românticos.
Que perfeito seria se Naruto não estivesse com a mente perturbada.
— Seria tão lindo. — Falei observando o céu, sabendo ser impossível o Namikaze me oferecer flores no estado normal dele.
No entanto, estando distraída despercebi a seriedade da situação, não notei o perigo de minhas palavras.
Pois, Naruto correu à beira do terraço para pegar as tais flores para mim.
E quando eu ouvi os passos dele, ao me virar para vê-lo, ele já estava longe.
— NARUTO!!!
— VOU PEGAR MILHARES DE GIRASSOIS PARA VOCÊ!
Naruto saltou de braços abertos.
*
*
*
— Ele caiu do terraço?!
— Hai. Pensaram que Shion o empurrou, ela era a única que ia com ele pra lá.
— Me contaram que ele sofreu um surto e tentou ataca-la, na briga ela conseguiu jogá-lo.
— Tudo isso é mentira. Depois que acordou do desmaio confessou ter se jogado.
— Ele sobreviveu? E tentou se matar, minha nossa.
— É a maldição da Shion?
— Que maldição?
— Você não soube? Aqueles que se tornam amigos dela... sofrem acidentes.
Após as férias o maior assunto era esse.
Minha fama de assombrada fora reforçada com o trágico acontecimento
Naruto apareceu usando muleta.
Conseguia mover o braço direito, o esquerdo continuava quebrado.
Minato Namikaze deixou de ensinar no colégio, sem motivos ditos, restando apenas o óbvio a ser deduzido.
Nunca mais vi Kushina visitando Naruto, somente quando era chamada pela diretoria.
*
*
*
A última temporada de provas chegou sem ninguém aguardar grandes expectativas do jovem Namikaze.
Naruto se tornou totalmente excluído dos círculos sociais, nem os alunos interesseiros quiseram se manter perto dele, ser rico e filho de pais famosos eram motivos insuficientes para capturar o interesse desses alunos, eles rejeitavam a ideia de permanecer próximo da loucura alastrada pelo colega Namikaze.
Durante uma das provas finais, eu sentava atrás de Naruto.
— Por favor, vão embora, a prova começou.
Ele pediu em voz baixa. Ergui a cabeça. Pensei que ele estivesse olhando para o aluno ao lado, mas encarava o vazio, como se alguém estivesse em pé ao lado da mesa dele.
Tentei me concentrar na minha prova.
— Otou-san, okaa-san! Digam para seus amigos professores me deixarem fazer a prova em paz, onegai. —Naruto implorou, em volume um pouco mais alto.
Os alunos vizinhos fitaram o loiro.
O professor observou em volta, escutara a voz do Namikaze, mas não teve a certeza. Manteve-se quieto.
— Assim não dá, vocês me incomodam. Meu braço enfaixado está coçando, fica coçando quando me estressam.
— Senhor Namikaze, com quem fala? – o professor bateu um livro na mesa. Pronto, toda a turma prestava atenção no que ocorria. Vários alunos reviraram os olhos. “Ah lá vem, outra loucura dele” era o que significava.
— Essas pessoas em volta! Peça para saírem da sala. Elas não param de me elogiar, entendi que sou um bom aluno, mas tenho que me concentrar.
— Não tem ninguém perto de você, senhor Namikaze. Só os seus colegas que estão sentados.
O jovem loiro se enraiveceu.
— Está falando sério, professor? Pare de brincar. Assim não conseguirei realizar a prova.
Alguns colegas riam e outros se enraiveciam incomodados.
Naruto era uma atração bizarra para a turma.
— Se retire da sala se não fará a prova. — Seriamente, diz o professor.
Toquei no ombro direito dele.
— Onegai, Naruto.
Pedi, minha voz pareceu acalmá-lo. O Namikaze realizou um exercício de respiração e assentiu. Levantou-se achando melhor sair da sala, contudo, ao pôr seus azuis na direção de uma das janelas....
— Aaaahhhhh
— O que é agora Sr. Namikaze?! — o educador questionou se erguendo da cadeira, espantado pelo grito do loiro.
Naruto levantou a cadeira com o braço não enfaixado. Mancando, jogou a cadeira contra o vidro, a turma toda se alertou, os alunos antes perto do loiro, recuaram.
O Namikaze pegou outra cadeira e arremessou à vidraça de outra janela.
O professor correu contornando a mesa, por trás agarrou o corpo do alterado aluno.
Naruto se assemelhou a uma besta feroz em convulsão nos braços do adulto, em um instante a cabeça do loiro acertou o queixo do educador quem ficou sem força nesse pequeno momento, o qual foi o bastante para o Namikaze sair dos domínios dele.
Naruto pegou um dos cacos de vidro. E prestando atenção nos rostos que o encaravam, mirou o caco de vidro em todos.
Ninguém ousava se aproximar.
No entanto, quando me viu em meio à multidão assustada e perplexa, ele pareceu amenizar-se.
Aos pouquinhos seus orbes lacrimejaram.
Apertou o caco de vidro com força, de sua mão jorrou sangue, colocou o pedaço cortante no próprio pescoço me criando pavor.
— Não faça isso... — Falei quase sem voz.
O professor interviu novamente impedindo que Naruto cometesse suicídio.
O jovem transtornado então começou a chorar escandaloso como uma criança assustada.
De coração espremido assisti o estado infernal que todos ajudaram a criar na vida de Naruto Namikaze.
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