Abracadabra!
5 Não acredito em magia
Notas iniciais
*Diário da Hinata *On*
Se eu acredito em magia? Lie.
Crianças acreditam em magia.
Eu não quero ser criança. Sou uma adulta, enterro os sonhos infantis no passado.
Não serei como o otou-san
*Diário da Hinata*Off*
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A colegial se acostumava com a claridade do ambiente.
Perdeu-se durante pouquíssimo tempo nos azuis arredondados da bela face do homem de cartola, alguém possuidor da beleza do padrão europeu.
Ignorando a pergunta dele, educadamente, o verbalizou:
— Sinto incomodá-lo, não vim assistir alguma apresentação sua. Fiquei sabendo que o senhor faz caridade. Há alguma comida sobrando? — recuou um passo, apertando a bolsa, com os dois braços na frente do corpo.
— Não... acredita em magia? — ele manteve o dedo indicador sobre os lábios, seus azuis penetrantes.
A Hyuuga degostou, pois sentia-se analisada. Controlou sua voz, se esforçando em não ser grosseira:
— Gomenasai. Vim aqui pedir ajuda. Pode ou não me oferecer comida? — era vergonhoso mendigar, odiaria ter que repetir mais de uma vez.
O homem a fitava, como se fosse algo importante.
O silêncio se estendeu, as esperanças da Hyuuga arrancadas a cada minuto sem palavras.
— Se não pode me ajudar... sayounara.
Havia muitas maneiras em japonês de se despedir de alguém, vinte em especial, e a mais famosa mundo afora era "sayounara", porém a menos utilizada entre os japoneses, uma vez que seu uso era dedicado a quem nunca mais voltaria.
Nunca mais.
Hinata se preparava para ir, abaixou um pouco o rosto, fugindo de fitar aqueles azulados que começaram a lhe ser irritantes, ao passar ao lado do mágico, ele moveu o corpo acompanhando-a pelo olhar.
— O meu show começará em breve. Fique para assistir! — entusiasmado, ele a convidou.
A estudante se deu a paciência de observar o interior da tenda: bugigangas em desordem para todos os lados.
Crer que o mágico fosse um homem desocupado e desiludido.
— Eu não costumo me intrometer no assunto dos outros, mas você parece ser uma boa pessoa, então pegue meu conselho, pare de bancar o mágico e faça algo de útil. — Fundiu-se à raiva, pois depositou no estranho a esperança de conseguir ajuda. E ele era apenas um homem fantasiado, vivendo em meio de tralhas. Triste vida. — “A culpa foi minha, dei ouvidos a um velho estranho....”. — Caixa de macarrão, se ganhasse pelo menos uma, valeria a pena ter subido até a tenda. No entanto, duvidava que o homem que se diz mágico tivesse comida. — “Será que o velho me daria outra...?”. — Tempo lhe era precioso, e gastou muito indo ao topo da colina.
— Não estou bancando o mágico, eu sou um de verdade. — O loiro afirmou divertido e confiante.
Ela meneou a cabeça, parando no marco triangular da saída da tenda.
Recebendo beijos de brisa, observou o céu.
Ele perguntou:
— Por que tem tanta raiva de magia?
— Não tenho raiva do que não existe. Meu tempo é muito cheio para me preocupar com algo bobo. A cada dia é uma luta para sobreviver, acha que darei atenção a algo tão besta?
— Então... tem raiva de mim?
A Hyuuga estremeceu os lábios, tristemente, reflexiva.
— Você lembra o otou-san. — Confissão súbita e dolorosa. — Ele era sério, possuía responsabilidades, mas jogou tudo isso fora depois que okaa-san morreu. Ele se tornou tão imaturo. Fugiu da realidade atolado em dívidas e mesmo assim ele parece feliz, sem noção do que as ações dele fizeram para mim e minha irmã!
—….. — O mágico a assistia contemplativo e só conseguia constatar o quanto ela era linda.
— Um adulto incapaz de amadurecer, pessoas assim... eu realmente odeio! — Hinata deixou que suas emoções pesadas escorressem.
— Você acredita em magia?
— Que merda! NÃO! EU NÃO ACREDITO EM MAGIA!
Exclamadora, ela se virou pra ele e foi surpreendida ao ser enlaçada pela cintura.
Coberta pela capa do mágico, seu campo de vista escureceu.
— Eu posso sentir o teu sofrimento. — O homem de cartola falou, apertando-a com força contra seu peito. — Feche os olhos.
A bolsa da colegial havia caído.
— Me solt...
— Feche os olhos e prometo que a deixarei ir.
Insegura, ela agarrou-se ao peito dele, abaixou a cabeça apertando os olhos brutalmente. Empalidecida, o medo a devorava.
— ”Kami-sama! E se me fizer alguma coisa? Alguém me escutará se eu gritar?”
Certificado de que a jovem não abriria os olhos, o mágico a carregou no colo e girou, reforçou em palavras para ela não abrir as pálpebras.
Hinata não soube quanto tempo ficou assim, mas se sentiu zonza.
Tantas voltas! Só podia ter enlouquecido por obedecê-lo!
Os giros pararam e ela sentiu seu carregador andar um pouco.
Abracadabra!
— Pode abrir os olhos agora. — Ele a colocou no chão.
A Hyuuga esperou a tontura passar, agarrada ao mágico, venceu o medo.
Ergueu o queixo e se deparou com o sorriso radiante do loiro a lhe fitar ternamente.
Em volta dos dois não existia mais a tenda e sim um parque de diversões.
— Estamos no parque próximo da colina? Como me trouxe aqui tão rápido?
— Estamos no parque da sua infância, minha magia nos trouxe ao passado.
— …..
Nostalgia, o ar familiar.
Os brinquedos não funcionavam, mas tinha crianças por todas as partes.
Só crianças.
Nenhum adulto além do mágico e a colegial.
Risos e gritos de alegria.
Era lindo, porém um perigo para a Hyuuga.
Nada que a fizesse despertar desejo infantil era bom, a diversão... obrigava-se a resistir a qualquer tipo de diversão que lhe sugasse tempo.
Uma menina de cabelos curtinhos estava de costas para a Hyuuga, a criança assistia o carrossel imóvel.
— "Ela se parece comigo... quando eu era pequenina...".
— Ela é você do passado. Gostaria de dar algum aviso pra ela? — o mágico perguntou, pousando as mãos nos ombros de Hinata, parado atrás dela.
— Não se aproxime de mim! Louco! — Hinata retarda em crer que o permitiu carregá-la. — Ei... esse aqui não é o parque, não tem a roda gigante. — Observando bem aquele lugar, faltava alguns brinquedos. E nos arredores havia mais árvores. Encontrou a parede da colina. — Você não fez mágica alguma, me trouxe para trás da colina e por aquele elevador externo! — enfureceu-se, andando em direção ao transporte.
— Não aproveitará o parque? A magia do tempo não dura muito, precisa pegar essa chance. — O mágico apontou para a menina de cabelos curtinhos.
— Você disse que me deixaria ir! — Hinata entrou no elevador e como o mesmo só tinha um botão, apertou-o.
— Mata aimashou!
O mágico se despediu, sacudindo a cartola no alto com a mão direita.
O elevador foi parar atrás da tenda.
Procurando, Hinata encontrou uma passagem nos fundos da lona e atravessou o mundo de bugigangas do mágico, colheu sua bolsa e alcançou a escada.
Agradeceu em pensamentos por não ser seguida.
No final da escada se deparou com dois alunos do seu colégio, reconheceu os uniformes deles.
— Você é a Hyuuga, estuda na nossa sala. Também veio ver o tal mágico?
— Está assustada! Ele te fez algo? Tentou fazer você desaparecer?
— É só um homem doido! Perderão tempo indo até lá! — Hinata respondeu, correndo, jurando que nunca mais voltaria à colina.
O mágico se despedira com mata aimashou “vamos nos ver novamente” no entanto, a colegial tinha certeza que a despedida entre eles era sayounara.
~18: 36h
Hinata chegou ao condomínio de meia-calça nova comprada e pensando no mágico das tralhas.
Decorrido bastante tempo, acalmara-se da tormenta mental que o homem de cartola lhe causou.
— “Eu devo chamar a policia? Aquelas crianças estão correndo perigo.... lie... o mágico não bate bem da cabeça... ele pensa que faz magia de verdade... é só isso... não é algo que coloque a vida das crianças em risco..." — E elas se mostraram acostumadas com a presença dele, divertiam-se nos brinquedos que nem funcionavam sem temerem a presença do loiro.
"Existe loucos que não sejam perigosos?"
Recordou-se de uma senhora que falava sozinha, há alguns meses ela morava no segundo andar do condomínio, quando saía de seu apartamento, parecia sempre estar brigando com alguém invisível, ameaçando bater nele com uma vassoura... mas nunca fez mal a outro morador.
Ainda sim, as pessoas a evitavam, por precaução.
"Da última vez que a vi... um parente a colocava dentro de um carro e nunca mais voltou."
Cortou seu pensar. Se o mágico era um louco perigoso ou não, de nada importava no presente, era melhor parar de pensar nele.
Confortava o seu coração, acreditando que aquelas crianças jaziam são e salvas.
Caminhando pelo corredor ouviu uma grossa voz masculina vinda do seu lar.
Apressara-se alertada, pensando que fosse seu pai, todavia, após entrar em seu lar, ao ver quem era, moveu-se velozmente para se colocar na frente da irmã.
— Mana! Esse homem.... ele veio cobrar...
Aos prantos Hanabi tentou explicar, abraçando a mais velha por trás. Escondeu sua carinha nas costas de Hinata.
O homem de cabelos lisos e curtos caindo ao pescoço tatuado, olhos castanhos escuros, corpo grande a exibir os músculos por trás da aberta jaqueta de mangas rasgadas, uma calça de muitos bolsos e botas de couro.
— Mizuke..... — Hinata pronunciou receosa.
A visita daquele sujeito não era nada amigável.
— Hiashi pegou dinheiro emprestado e sumiu, essa fedelha disse que ele não aparece faz semanas, quer que eu acredite que ele não entra em contato com as próprias filhas? — faltava pouco pra se descontrolar.
Hanabi cabisbaixa chorava silenciosamente, espremendo a cintura da irmã.
— Otou-san ligou ontem, avisou que voltaria logo.... mas até agora nos deixou a mercê da miséria. Se quiser falar com Hayate, ele pode confirmar, ainda não paguei o aluguel desse mês.
— Darei uns papos com ele, se for mentira vocês duas se arrependerão. — Virou-se para sair do quarto, porém cessou um instante e por cima do ombro encarou a bolsa de Hinata. A tomou com sua força brutal, ignorando os protestos da Hyuuga mais velha. Abriu a bolsa e a virou de cabeça pra baixo, jogando tudo o que tinha dentro dela, no chão. — Nessa merda de bolsa não tem porra nenhuma de grana! É o que dá me envolver com gente miserável!
Viu a sacola de compras e a pegou.
— Disse que não tem dinheiro hein. E essa nota fiscal aqui? Você comprou isso hoje.
— Essa é uma meia-calça barata, não dá nem metade da metade do que meu pai lhe deve! — Hinata se justificou, sentindo o quanto os braços de Hanabi tremiam.
— Bem, então vou levá-la comigo, vendê-la por alguns trocados. — Mizuke rumou à porta.
— Onegai, não!
Hinata num impulso tentou recuperar sua meia-calça, só que Mizuke espalmou-lhe o rosto arremessando-a no piso.
Caída, a colegial escutou o grito da caçula.
A porta foi batida forte e as irmãs souberam que o homem partira.
O silêncio predominou poucos segundos os quais se assemelharam a horas.
— Mana... o otou-san nos ama? — ajudou Hinata a se levantar.
— "As vezes acredito que ele esquece que tem filhas....". — Pensou fragilizada. — Quando ele voltar... ele lhe dirá. — Moveu-se para arrumar suas coisas e quando Hanabi fez menção de ajudá-la, impediu-a: — Deixe que eu faço isso. Já tomou banho?
— Já tomei. Se quiser.... eu trouxe um almoço da escola, o meu colega não quis o arroz temperado, então ele me deu…
— Isso é bom... tome. — Juntou sua garrafinha de água. — Coloque-a no congelador, depois que eu sair do banheiro comeremos juntas.
A pequena sorriu, embora seus olhinhos manifestassem tristeza.
— É pra já mana.
A menor se afastou.
Hinata terminou de enfiar suas coisas dentro da bolsa e puxou o zíper. Colocou-a em cima de um banco e se dirigiu ao banheiro onde se trancou e chorou sem fazer barulho para a caçula não ouvi-la.
~23: 53
Hanabi abriu um olho, deitada em em seu futon ao lado do da irmã quem dormia.
Levantou a cabeça e assistiu Hinata por alguns segundos.
Confirmou-se de que a irmã era domada pelo sono.
Concretizando um sorriso espertinho, Hanabi engatinhou para sua pequena cômoda de três gavetas encostada na parede, abriu a primeira e pegou agulha junto da linha de costurar.
Nas pontas dos pés, andou pelo quarto até encontrar a meia-calça de Hinata.
— ”O homem mau levou a meia nova da mana, mas vou deixar a meia que ela tem novinha em folha!”
Pensou contentada, buscando compensar seu comportamento de mais cedo.
Só soube tremer de medo e se esconder atrás da irmã. Dali por diante seria mais útil! Começaria consertando a meia-calça dela.
— ”Hehe ela verá a diferença”
Empós seu término de costura, guardou a meia no lugar de antes, a seguir a agulha e a linha dentro da gaveta, deitou-se no futon muito feliz com seu trabalho.
Na próxima manhã, Hinata sentiu sua meia-calça mais apertada, temia se mover com muita força e acabar rasgando a peça.
Na presença da caçula fingiu felicidade por ver que não havia nenhum buraco na meia.
Destacou seu bom humor como se não tivesse acontecido nada de ruim no dia anterior.
Cantarolando se despediu para ir ao colégio deixando a irmãzinha de bem consigo mesma.
*
*
*
Os dias passaram-se e Hinata nunca mais retornou ao parque, muito menos para a colina.
Até pensou em tentar reencontrar o velho dos brinquedos, no entanto, receou rever o homem de cartola por lá.
Achou melhor se manter distante do parque de diversões.
Principalmente, quando começou a trabalhar na loja de Danzou, não podia perder tempo.
Não buscaria mendigar para o velho e nenhum homem de cartola.
Esperaria receber seu primeiro pagamento.
O mágico de vez em quando aparecia nos sonhos da colegial, porém era lá que ele ficava... nos sonhos.
Enquanto acordada, a Hyuuga se concentrava nos estudos, visando grande profissão no futuro, com os pés na realidade e não vivendo em uma fantasia.
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