Abracadabra!
2 Aonde o vento levará
Notas iniciais
~11: 00
O intervalo chegou e uma onda de alívio banhou os alunos da sala.
O professor Kakashi podia se atrasar frequentemente, porém quando dava aula era muito exigente, talvez fosse o motivo de não ser demitido.
A garota de olhos perolados continuava lendo o livro, seus dedos longos e finos se abaixavam, conforme terminava de ler cada linha.
Usava o indicador para marcar sua leitura, evitando retornar para o início da mesma linha, por engano.
Fome.
No lugar ao lado direito dela, alguém jogava uma mochila pesada de livros sobre a madeira lisa da mesa.
A Hyuuga interrompeu sua leitura dirigindo um olhar sem expectativa ao dono do material.
— Sai Hino. — Ele se apresentou, certo de que a garota só o conhecia de vista.
— Hinata Hyuuga.
— Estou trocando meu lugar com Deidara Kawamoto, ele pegou um número afastado do grupo social dele. — Conduziu seus ébanos olhos ao canto esquerdo da sala, onde quatro alunos conversavam, enquanto comiam seus lanches.
A sala se esvaziava velozmente.
Pensativo, o Hino permaneceu fitando a garota quem desconhecia o que esperar do silêncio dele.
— Você está entre os primeiros no ranking de aritmética do nosso colégio. — Ele sentou na cadeira, pondo as pernas viradas para a direção da Hyuuga e as mãos encaixadas entre os joelhos. — De acordo com o que estudei sobre convivência humana, seu silêncio significa constrangimento, então eu encerrarei minha intromissão por aqui. Seja bem vinda a nossa turma, 3-K.
— Arigatou.
Ela agradeceu envergonhada, por não conseguir conversar naturalmente.
— Saaai. — Ino correu pra abraçá-lo por trás envolvendo-o pelo pescoço. — Vamos comer!
— Ino, com essa animação toda, não está suprimindo sua infâmia por ter sido pega conversando durante a aula?
Seriamente, ele questionou.
— O que? Lie, eu nem ligo pra isso. Professor Kakashi não me assusta. — A loira respondeu de bochechas rosadas.
O Hino se levantara e a Yamanaka passou a enlaçar seu braço direito.
— Você vem comer com a gente, Hyuuga? É um bom caminho para diminuir seu constrangimento.
Ino se paralisou, ouvindo o convite de Sai, ela observava a expressão neutra de Hinata.
O pequeno sorriso da Hyuuga ainda bailava na cabeça da Yamanaka, todavia rejeitou a vontade de perguntar o que ele significava, só conversaria com a novata da turma, quando tivesse uma concepção de ideias completas sobre a mesma.
— Eu trouxe meu almoço, vou comer na sala enquanto leio meu livro.... — Hinata respondeu, pegando da gaveta da mesa, um recipiente embrulhado.
Sai assentiu e deixou ser puxado pela loira que corria chamando a Uzumaki quem já cruzava a porta da sala.
Dentro do embrulho de Hinata, nada existia.
~11: 05
As folhas sobrevoavam aos montes na vinda das ventanias.
Karin e seu namorado Sasuke Uchiha sentavam a três degraus abaixo de Sai e Ino.
Assim como eles, outros alunos acomodaram-se em outros lugares da arquibancada para comer e conversarem durante o intervalo.
— O que falava pra Hyuuga? — Ino perguntou, colocando um pedaço de onigiri dentro da boca.
— Eu me apresentei. — Sai respondeu, depois bebeu um pouco de suco de latinha. — E segui algumas dicas do livro de boa convivência humana, iniciei um assunto, mas ela não deu continuidade na conversa.
— Sai, você não precisa conhecer todo mundo só porque um livro diz isso. — Ino revirou os olhos.
— Seremos vizinhos de mesas, na sala de aula, é correto elevar um ar de boa convivência durante todo o ano colegial.
— Você tem que parar de ler esses livros. — Ela tomou a latinha da mão dele e experimentou.
Suco de limão.
— Ninguém me ensina as regras para uma boa convivência, os livros são os melhores conselheiros. — Sai os defendeu, e recebeu sua latinha de volta.
— Ao menos que você seja um animal, ou alguém que vive dentro de uma caverna, não é algo que precise ser ensinado, apenas seja você mesmo. — Ela mastigou mais um pedaço do onigiri, com certa revolta, os topázios se detiveram no casal.
Karin sorria abertamente ao Uchiha que conservava a boca em um risco reto, ele abria e fechava a mão nos cabelos vermelhos que caíam no ombro feminino.
— Você age como você mesma? — Sai acompanhou a cena que prendia os topázios esféricos.
— ham? — perdida, Ino volveu a fitá-lo.
— Por que sempre me convida para almoçar? — Sai mudou a pergunta.
— Detesto segurar vela. — Perante a mudez do colega, irritou-se: — Eu lhe expliquei o que é segurar vela?
Ele confirmou em gesto.
O Hino entendia as coisas, em sentido literal.
Gírias, ironias e sarcasmo, ele dificilmente compreenderia sem ajuda.
— Então não me convida por eu ser uma boa companhia.
— Se não fosse boa companhia eu preferia ficar na sala comendo sozinha, já ouviu “antes só do que mal acompanhado”?
— Ainda não escutei essa música.
— Não é uma música. — Ino mastigou mais rápido e terminou de comer seu primeiro onigiri entre os três pegos no refeitório.
— Você é amiga da Karin? Ela não lhe dá atenção quando o Uchiha está por perto....
— Karin é super-apaixonada.... consigo entendê-la.
— Na escola Godaime você andava muito com Sakura Haruno. Eu sentava atrás de vocês duas, ouvia conversarem sobre o Uchiha todos os dias.
A loira achou a conversa perigosa na presença da ruiva, no entanto, viu que mesmo quando os namorados se silenciavam, não pareciam escutá-los da distância de três degraus.
A Uzumaki pegou o celular e dividiu os fones de ouvidos com o Uchiha.
— Conversa de meninas, ele era o mais bonito ué, o mais belo da escola. Sakura não superou vê-lo namorando. Mas... eu sim por que nunca o amei de verdade.
— Tem certeza?
— Você está muito falatório hoje. — Ela sorriu, tentando ocultar o incômodo que o assunto lhe trazia.
— Eu sempre escuto o que você fala. — Sai sempre a ouviu, não importando as trivialidades que Ino queria dizê-lo no dia a dia. — A melhor forma para se aproximar de alguém é sabendo de fatos pessoais, penso que... já está na hora de estendermos um laço mais profundo.
Alerta vermelho!
Desesperara-se a loira.
Ela queria evitar que se tornassem muito próximos, somente conversar durante o intervalo já estava bom.
Temia que espalhassem que os dois fossem mais que amigos.
Sai era bonito, possuía traços levemente orientais como os do Uchiha, porém era esquisitão demais para a Yamanaka.
Com o jeito “robótico” dele de ser, ela perderia a paciência várias vezes e viveria estressada num relacionamento assim.
— Que fofo Sai, mas não precisamos ir tão afundo pra termos uma amizade. — Beliscou a bochecha dele. — Vamos continuar comendo que é melhor.
O Hino assentiu.
Ino continuou comendo vendo os namorados começarem um beijo, os fones escorregaram pra fora dos ouvidos, mas os dois não se importaram e prolongaram aquele contato de bocas molhadas.
Fugindo de olhá-los, a Yamanaka buscou nova conversa com Sai:
— Reparou na meia-calça da Hyuuga?
~11: 30h
A Yamanaka e a Uzumaki voltaram juntas pra sala de aula.
O Hino foi andando atrás delas, meditativo.
Sai desentendia o que aconteceu com Ino no decorrer do intervalo, ela seguiu falando sobre a condição financeira de Hinata, suspeitando que a Hyuuga fosse pobre, reforçou a ideia que estaria sendo muito desagradável para a aluna frequentar um lugar cujos estudantes pertenciam a um nível superior. A loira demonstrou grande persistência sobre a novata da turma, todavia, ela nem ao menos deu um “oi” pra Hyuuga.
Se Ino demonstrava tanto interesse em Hinata, por que não ir falar com ela? Ele queria perguntar isso para a loira, infelizmente ela sequer deu-o espaço para pronunciar uma sílaba.
“O buraco na meia-calça dela me dá agonia”.
A voz da Yamanaka repetia-se na cabeça de Sai que massageou as têmporas, sentando em seu lugar, ele observou Hinata, pelo cantinho dos olhos.
A quietude da a Hyuuga continuava igual.
Curioso, ele abaixou a vista, e encontrou o famoso buraco na meia-calça.
Tratou de não ligar pra algo tão irrelevante e aguardou a vinda do próximo professor.
~13: 12h
Rooonc.
Ocorria a penúltima aula quando ouviram o som horrível do estômago de alguém.
Veio de Hinata, Sai soube rapidamente.
— Foi você.
— Eu não!
— Foi ele.
Acusações acompanhadas de gargalhadas.
Os alunos riam e caçavam entre eles algum rosto que denunciasse o causador do roncar monstruoso.
O professor de geografia perdeu a ordem sobre a classe e pôs-se a esperar que os alunos se acalmassem.
— Chouji, sua fome aumentou? Hoje você comprou dois almoços, eu vi.
— Não fui eu! Estou bem alimentado com os dois almoços.
O garoto acusado se avermelhou.
Ele era gordinho, cabelos castanhos arrepiados, olhos puxadinhos, conhecido na turma por ser comilão e ter um bom coração.
— O som veio daqui detrás. — Uma aluna se virou sorrindo para a perolada. — Huum, mas você não foi, um barulho grande como aquele não viria de uma garota. — Mudou seu olhar ao Hino. — Ahaaa! Sai você é o homem mais perto de nós duas.
— Claro que não Sasame-san, me alimentei bem hoje. — Ergueu o braço para o mais velho da sala. — Professor Asuma, é adequado que prossiga com a aula.
— Ele está certo, damas e cavalheiros, vamos nos concentrar.
O silêncio se reinstaurou.
Sai espiou de lado a Hyuuga que abaixou a cabeça, os cabelos cobriram a face dela, ele adivinhou que ela estivesse vermelha.
“Eu trouxe meu almoço, vou comer na sala enquanto leio meu livro....”
Mentira.
Era mentira dela.
Sai passou a ter curiosidade, Ino estava certa, a condição financeira da Hyuuga devia ser muito desagradável para a mesma passar fome em sala de aula.
~14: 00h
Ela usou o bebedouro curvando-se sobre ele para alcançar a água.
Refrescante, refrescada!
Recuou três passos envolvendo a barriga com os braços.
“O barulho é o meu maior problema....”.
Alguns fios azulados caíam sobre os olhos.
Ergueu o rosto ao céu, as nuvens suavemente acinzentadas a faz temer que começasse a chover.
Coletava dinheiro para comprar uma capa de chuva. Faltava pouco.
Antes de ir embora, tirou uma garrafa de plástico da bolsa e a encheu com a água do bebedouro.
*
*
*
*Diário da Hinata*ON*
02/02/2010
Estou no terceiro ano do colegial, mamãe.
Os colegas e os professores são legais.
Uma garota muito linda esbarrou na minha mesa, ela juntou meu livro e quando me devolveu, nos olhamos e eu me senti arrepiar.
Sem maquiagem a beleza dela é natural.
Depois eu soube que o nome dela é Ino Yamanaka. O professor chamou atenção de Ino e de outra aluna que deve ser amiga dela. Naquele momento eu torci pra que ela se saísse bem quando foi perguntada sobre o assunto da matéria, fechei meus olhos e fiquei desejando que tudo desse certo.
Ino não foi ruim na resposta, os alunos começaram a fazer brincadeiras com ela, mas eu não. Eu queria ter dito algo bom, pena que só consegui sorrir feito uma boba.
Conheci um garoto muito bacana, Sai Hino, é uma boa pessoa. Tentou conversar comigo, mas minha timidez me atrapalhou.
Eu sofri um acidente hoje, meu estômago roncou alto demais e desconfio que Sai soube que fui eu. Ele foi acusado no meu lugar, sorte minha que não contou para ninguém.
Para minha surpresa ele é amigo de Ino, ela se aproximou dele e eu não consegui dizer nem um “oi”.
De qualquer forma o que adianta querer conversar com eles se não posso ter amizades? Na minha situação eu não tenho espaço pra amigos.
*Diário da Hinata*OFF*
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Bairro Fushimi
~14: 35h
— Quero alguém para limpar a loja a partir da semana que vem. Das três da tarde às nove da noite, de segunda a sábado. O valor é 835 yen por hora como exige a lei do salário mínimo.
Explicava o dono do estabelecimento usando quimono branco de faixa cinzenta na cintura.
A parte de cima, meio aberta, mostrava o peito cabeludo.
Os pés calçados em sandálias quadradas de madeira possuíam unhas sujas e nada aparadas.
— Ha-hai. Arigatou Gozaimasu Sr. Danzou. — Curvou-se, contentada. — Eu aceito!
Rooonc.
O estômago dela exclamou.
“O barulho é o meu maior problema.... o maior”.
A Hyuuga fechou os olhos com força e se virou andando apressada, pra longe.
— Semana que vem! — Danzou repetiu sem ligar para o barulho que veio da perolada.
— Hai! — ela confirmou, reanimando-se, ignorando o fato de não encher a barriga naquele dia, entretanto, feliz por conseguir uma vaga de trabalho.
Durante a volta pra casa, retirou a carteira de dinheiro da bolsa, carteira desenhada em forma de sapo.
“Eu.... será que devo comprar uma meia-calça nova ou.... arroz? Se eu compra-la... terei que esperar semana que vem pra comprar arroz...”.
Lembrara-se da capa de chuva que tanto almejava. Fazia-se necessário que o dinheiro durasse. Perigoso gastá-lo tudo de uma vez.
“Bem, consegui um emprego! Posso encarar mais um mês sem capa de chuva...”
Aproximara-se da loja onde vendia a meia-calça em preço acessível.
Separou o dinheiro puxando uma nota verdinha.
Um homem robusto saiu do estabelecimento apressado e sem querer esbarrou na Hyuuga fazendo-a drasticamente largar o dinheiro que o vento em sua força levou-o.
— Olha pra frente. — Dissera, em tom grave, o homem despreocupado em se desculpar e continuou seu caminho.
Hinata fechou a carteira e a enfiou na bolsa, correu olhando para o alto, empurrando as pessoas pelo caminho, gritava inúmeras desculpas, esforçando-se em não perder a nota de vista.
Pesadelo!
Terror!
Ela perseguia a nota como se dependesse de sua vida. Um dinheiro perdido lhe faria grande falta, mesmo umas moedinhas em sua vida miserável fazia a diferença.
Correndo e correndo, distanciou-se do seu caminho de casa.
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