Abismo das Memórias
2 Rosas
— Madrinha, quando papai e mamãe vão voltar para casa?
Os olhos grandes e verdes da pequena Anna eram perfeitamente destacados pelos tons laranjas de seu cabelo. Começou seus estudos aos 3 anos de idade e, agora com 6 anos, conseguia ler pequenos livros inteiros sem titubear. Os traços que fazia em folhas brancas, fossem coloridos ou em tons de cinza, permitiam-na expressar o que queria sem precisar de palavras e a encantavam ao mais simples movimento no papel.
— Anna... — Era difícil pensar em algo para contornar uma situação tão complicada para uma garotinha de 6 anos. — Rose e Marko terão que ficar mais tempo no trabalho, meu amor.
— É pelo motivo que a moça da TV falou, não é?
— Sim. — Mais difícil ainda era mentir para a pequena Anna. — Seus pais salvam vidas, meu anjo. Que tal irmos lá para a mansão? Asher e Lilian estão te esperando para brincar.
— Oba! Mas... — Anna olhou para a porta de sua casa. — A mamãe vai? O papai também?
— Eles vão assim que estiverem livres do trabalho, pequena. — Lis levou Anna até seu quartinho e ajudou-a a fazer a mochila. Descendo as escadas, deu-se com Fausto a esperar encostado no corrimão. — Se cuide, meu amor. Prometa-me que vai ficar bem.
— Ficarei. Vá, não se preocupe. Tiziana ficou com eles e saberá como agir caso algo aconteça. — Ele a beijou, enquanto Anna protestava com um “eeeew”.
— Você tem nojo agora, mas logo logo arruma um gatinho por aí e vai achar a coisa mais normal do mundo. — Disse Lis, rindo, enquanto entravam no carro e ouvia Anna protestar com um “eeeeeeeeeew” mais longo.
Chegando na Mansão Omni, Asher e Lilian receberam Anna com a maior alegria. Enquanto as crianças brincavam, Lis se distraía com a felicidade dos pequenos. Seguiram brincando no jardim imenso da mansão se escondendo, correndo, gritando e rindo até se sentirem cansados. Foram para a cozinha e escolheram os melhores doces que a geladeira podia oferecer naquele momento. Reclamaram quando a preceptora os obrigou a ir tomar banho para dormir e nem notaram que já passava das onze da noite.
Asher e Lilian, com 10 e 4 anos respectivamente, eram primos de Anna. Ela os considerava irmãos e seu passatempo favorito era desperdiçar tempo brincando com eles. Neste dia, apesar de ser comum seus pais demorarem para chegar em casa por conta do trabalho, ela não tinha uma boa sensação e não conseguia dormir, sem saber explicar o motivo. Olhou para a cama que estava sob a janela e viu Asher olhando para a janela.
— Asher? — Ele lhe devolveu um olhar prateado. — Também não está conseguindo dormir?
— Não. Minha mãe diz que se eu não estiver conseguindo pegar no sono é só eu olhar para a Lua e rapidinho já vou estar sonhando. Acontece que... — seu sorriso se esvaiu.
— Que...?
— Que toda vez que eu não consigo dormir, acontece alguma coisa ruim. — Seus olhos azuis, agora prateados pela luz da lua, estavam tristes.
— Asher, não fica assim. Mamãe diz que a gente não pode deixar os sentimentos ruins tomarem conta dos nossos pensamentos. Ela me diz pra pensar em rosas.
— Rosas? Por quê rosas? — Ele se virou para ela.
— O papai sempre dá uma rosa pra ela quando chegam do trabalho. É muito lindo, sabia? A mamãe adora. De tantas rosas que ele deu, ela fez um jardim na janela do meu quarto.
— Sério?
— Sim! Amanhã eu te mostro quando a gente for pra minha casa. Não é tão grande que nem aqui...
— Anna, eu e a Lilian gostamos muito de brincar lá com você. Lembra quando a gente fez bolinho de lama perto do lago? — Asher queria fazê-la rir.
— Lembro sim! O papai ficou furioso quando acertei uma na Tizia sem querer. — Eles estavam rindo sem perceber que a pequena Lilian tinha acordado. — Mas ela começou a brincar com a gente e ele ficou rindo.
— O que que vocês tão falando? — Lilian perguntou, grogue e ainda deitada.
— Estamos lembrando de quando a gente foi brincar no lago perto da casa da Anna, Lilian. Você estava no colo da Tia Rose porque ela achou melhor você não correr perto do lago. Acho que você nem lembra disso. — Asher mostrou a língua para a irmã.
— Eu lembro sim! De sanduíche... E um pano branco e vermelho no chão. E eu tô com sono. Tchau. — Lilian se virou para o outro lado e voltou a dormir.
— Asher, posso ficar olhando a Lua com você? – Anna foi para a cama de Asher, de onde conseguia se apoiar na janela para olhar a grande prateada no céu.
— Claro!
Continuaram conversando sobre brincadeiras, viagens, desenhos, e mais um monte de assuntos de criança até o sono finalmente chegar. Anna se deitou de costas para Asher, ainda acordada e com o pensamento distante. Ele, por sua vez, continuou observando o corpo celeste sem se dar conta de que o tempo passava lentamente.
Na sala de repouso do Hospital de Zustand, às 4 da manhã, Marko e Rose estavam exaustos. Conseguiram salvar a maioria das vidas mas lamentavelmente sempre existem perdas. O coração de Rose pesava com a culpa das vidas perdidas, sentimento compartilhado por Marko e por todos os residentes do pronto-socorro.
— Poderíamos ter feito mais...
— Amor, está tudo bem. Quando escolhemos essa profissão, sabíamos o que iríamos enfrentar. — Rose tentou disfarçar a lágrima ao passar o dedo no canto dos olhos castanhos. — Fizemos tudo o que podíamos mas infelizmente era hora dessas pessoas irem embora.
— É... Você tem razão. Eu não queria que fosse assim mas você tem razão. Bom... Acho que não temos mais nada para hoje. — Marko se levantou e caminhou até o armário para pegar seus pertences.
— Vamos para casa, sim? — Rose olhou para Tiziana. — Venha, seu pai está esperando.
Enquanto o Hospital de Zustand ficava no centro da Província Zustand, a casa dos Skar ficava na cidade de Mestoruzi, próxima à Província Ventistat. Não era uma distância longa pelo motivo de trabalharem no principal hospital da Província: quinze minutos de carro em um trânsito demorado e pouco mais de sete minutos com trânsito tranquilo. Vinte minutos a pé, porém precisavam levar e trazer caixas com equipamentos pequenos do hospital e preferiam o carro por ser mais prático.
O nascer do sol em Mestoruzi era o mais bonito dentre as Províncias por ser a cidade adjacente ao litoral. A iluminação das águas do lago pelo sol ao amanhecer deixava o clima de Mestoruzi tranquilo, muito distante do que realmente estava naquele momento.
— Esse sol... Me traz uma calma inquietante.
— Como assim, calma inquietante, Rose? – Marko indagou.
— Não percebe que há algo estran...
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