Abismo das Memórias
3 Inesperado
— AI! – Anna chutou Asher com força. – Anna, o que houve com você?
— Eu... Eu... Asher, eu morri.
— Você o quê? Anna, fique calma, você está aqui comigo. – Ele a segurou pelos braços para que ela parasse de se mexer.
— Asher, eu morri! Eu morri!
O garoto se assustou. Era o sétimo dia do nome de Anna, como ela poderia dizer algo dessa gravidade logo neste dia?
— Mãe! Mãaaaae! – Asher chamou por Lis. – MÃAAE!
— Asher, Asher, me ajuda, eu estou morta! De verdade! Eu não consigo sentir meu coração!
— Calma, Annie... – Ela o fitou no centro dos olhos quando ele a chamou assim, se acalmando por um breve segundo. – Lembra da lua? Pensa na lua, Annie! Ou então nas rosas que você ama!
— Não, rosas não! Elas me lembram a mamãe... – Ela disse com lágrimas nos olhos. – Asher, o que está acontecendo? Me diz! Por quê eu estou me sentindo assim?
“Droga.”— pensou o garoto. – “Eu não devia ter dito aquilo para ela ontem...”
— Asher, Anna, o que foi? Lilian? Está tudo bem com vocês? – Lis chegou o mais rápido que pôde.
— Mãe, a Anna não para de dizer que morreu. Eu não sei o que fazer! – Asher começava a chorar.
— Anna, meu bem, se acalme. Tia Lis está aqui. – Ela abraçou a menina.
No momento em que Lis a envolveu em seus braços, gritos e barulhos se originavam do jardim da mansão. O mordomo Otto mandava que abrissem espaço para a passagem.
— ELA ESTÁ MUITO FERIDA! ABRAM ESPAÇO, POR FAVOR! PARA O QUARTO DE TRATAMENTO!
Lis não acreditava no que via.
— Asher, fique aqui com Anna e Lilian e JAMAIS saiam deste quarto até eu voltar! Me entendeu bem? Eu tenho que ir lá fora, não consigo... Não consigo.... Acreditar.
Lis saiu correndo do quarto e, ao se aproximar da maca que estava sendo encaminhada para a sala de tratamentos da Mansão Omni, seus joelhos foram de encontro ao chão: era Tiziana. Os serviçais da mansão seguraram-na e não deixaram que ela entrasse na sala. Fausto a levantou e a segurou em seu abraço, deixando-a de costas para a porta e acalentando as lágrimas de sua amada em seu peito.
— Ela não está morta, Lis. Muito machucada, mas não está morta e nem corre risco de vida.
— Como pode ter tanta certeza disso, Fausto? Não viu o jeito que ela estava naquela maca? – Lis estava em prantos.
— Porque Rose e Marko se sacrificaram para defendê-la.
— E você me conta isso na maior calma, Fausto?! O que você está dizendo é um absurdo! Quem poderia...
— Os Royal. – Fausto disse com frieza. – Syra e eu testemunhamos Alef Royal e outros integrantes desta família inferior sumindo entre as árvores próximas ao lago segundos depois do atentado. O alvo nunca foi Tizia, Lis. Eles sabiam que os Skar a defenderiam e a atacaram. Trouxemos Tizia para a mansão porque seria perigoso demais deixá-la no Hospital de Zustand.
— Fausto... O que vamos dizer para a pequena Anna? – Lis estava incrédula. – Ethan? Seth?
— Os dois estão bem. Após fazerem o perímetro da área, nos ajudaram a resgatar Marko, Rose e Tizia dos escombros. Fizemos tudo o que podíamos para salvar os dois, mas...
— A mamãe e o papai morreram? – Anna Skar ouvira tudo, com os olhos arregalados e a boca semiaberta.
Lis e Fausto ficaram sem reação. Asher estava logo atrás e segurou a garota antes que ela caísse desfalecida ao chão. A pequena Lilian não estava entendendo nada que acontecia e sua curiosidade à flor da doce infantilidade a fez entrar no quarto de tratamentos sem que ninguém percebesse.
Chegando lá viu Syra, Ethan e Seth sentados ao lado da irmã, Tiziana, com olhos chorosos e preocupados. Perguntados pela pequena sobre o que se passava, Syra respondeu que Tizia estava apenas descansando um pouco após um dia de treino de combate pesado. A pequenina sorriu em sua inocência e foi de encontro ao rosto da irmã mais velha.
— Tissiaaaaaana... Você vai ficar bem, tá? Só tá um pouquiiiinho cansada, mas fica bem logo pra gente brincar de bolinho de lama de novo? A mamãe vai deixar! – Syra se encantou com a ingenuidade da mocinha e não segurou as lágrimas em seus olhos, deixando a sala e indo em direção a seus pais. Seth e Ethan permaneceram na sala cuidando das duas irmãs enquanto enfermeiros organizavam os equipamentos.
Lis e Fausto levaram a desfalecida pequena Anna para o quarto das crianças, onde dormira noite passada, e a deitaram na cama superior do beliche que era dos irmãos mais velhos. Observaram-na durante um bom tempo, até o anoitecer, saindo aos poucos do quarto até ficar apenas Asher cuidando da pequena. Ele observava o rosto dela. O rosto que algumas horas atrás estampava um sorriso tímido agora estava esmaecido e sem expressão alguma. O jovem garoto sentia culpa por ter dito a ela que sempre acontecia algo ruim quando ele não conseguia dormir e, então, naquele dia, não podia concordar com o fato de que os pais dela haviam falecido.
Asher observava a lua sentado em sua cama, encostado na janela.
— Asher...
— Annie? – Ela abraçou o garoto. – Annie...
— Por favor... Me diz que isso não está acontecendo... – Ela o abraçava com a cabeça enterrada em seu peito, com os olhos fechados.
— Annie, eu não sei o que te falar agora... – Ele ficou sem jeito com o abraço, mas devolveu o gesto e a abraçou forte.
Em silêncio, a pequena observava a lua junto com o garoto, ainda abraçada nele e a cabeça encostada em seu ombro, ambos em silêncio.
Ao teatro do amanhecer no dia seguinte, Asher se levantou e não encontrou Anna no quarto. Procurou a menina por todos os lugares que passaram brincando no dia anterior, sem imaginar que os pais dela estariam mortos no fatídico dia seguinte. Foi ao jardim, foi à sala de tratamento, foi ao salão principal, à copa, sala de estar, cozinha, quarto de brinquedos e até mesmo na lavanderia para não encontrá-la em nenhum destes locais. O único lugar que não havia procurado foi no salão de arte.
E lá estava ela. Pintava um quadro com quase três vezes o seu tamanho, completamente concentrada em sua obra.
— Anna?
— Oi, Asher! Vem ver o que estou fazendo! – Sua voz estava estranhamente animada. O garoto caminhou até ela e fitou, deslumbrado, para o quadro à sua frente. Uma Lua grande, brilhante e prateada iluminava um canteiro de rosas, levemente azuladas pela luz refletida pelo corpo celeste. Rosas estas cheias de vida, com aparência de que estavam sendo muito bem cuidadas, cultivadas em frente à uma enorme janela de vidro que dava entrada a um quarto aparentemente bem decorado, porém, simples. O quadro ainda não estava terminado, afinal, a pequena Anna ainda tinha muito o que aprender sobre pintura e proporção. Asher se encantou com o esboço que olhara, ainda mais por ter sido feito por uma garotinha de apenas 7 anos recém completados. – E então, o que está achando?
— Está ficando muito bonito, Anna! Você ficou aqui a noite toda desenhando?
— Eu não consigo dormir mais, Asher. – Ela respondeu séria e a expressão vazia que ele viu à noite foi de encontro aos seus olhos. Nesse mesmo instante ele se arrependeu da pergunta que fizera.
— Er, quer ajuda? – Ele queria mudar de assunto.
— Quero sim... Você acha que a mamãe e o papai iriam gostar desse quadro? – Ele afirmou que sim e ficou em silêncio. – Então vamos continuar. Vai, me ajuda a pintar isso aqui, você é mais alto. – Ela apontou para a lua, que estava com rabiscos de cinza e branco representando o prateado de sua cor original, rabiscos estes apenas na parte inferior da lua por ela não conseguir alcançar o topo.
Ficaram até a hora do almoço pintando o quadro. Asher ainda se sentia culpado mas conseguia fazer com que este sentimento não transparecesse quando estava perto de Anna. Já a garota conseguia disfarçar muito bem a enorme tristeza que sentia. Não derramava uma lágrima na frente das pessoas, principalmente na frente de Asher. A mansão estava em clima melancólico, tanto pela preocupação com Tiziana quanto principalmente pela morte de dois amigos da família que eram considerados como membros da mesma.
Os corpos de Rose e Marko Skar deveriam ser sepultados próximos aos de seus antecessores, mas os Omni preferiram que eles fossem sepultados no terreno que antes mantinha a casa deles.
Chegando no litoral de Mestoruzi, nos destroços que antes formavam a casa dos Skar, tudo estava preparado para o sepultamento. Lis quis poupar a pequena Anna desta visão dolorosa porém a garotinha insistia em ficar.
— Por favor... Eu não consegui dar boa noite e nem bom dia para eles. Posso? – Ela olhou para Lis com o mesmo olhar sem expressão que encontrou Asher naquela manhã. Lis, pesarosa, aceitou o pedido da menina e pediu que Asher e Syra ficassem com ela. Fausto e Lis se espantaram com o amadurecimento repentino da pequena e principalmente por ela não ter derramado uma lágrima perto deles.
— Mãe, pode ir para a mansão. Tiziana precisa de você, vá e eu fico aqui com as crianças. – Lis e Syra se abraçaram demoradamente e a matriarca dos Omni seguiu seu caminho.
Ao retornar o olhar para os pequenos, Syra encheu os olhos de lágrimas com a visão de Anna e Asher abraçados olhando para os caixões. Pareciam dois pequenos adultos, crescidos tão repentina e rapidamente por conta das terríveis circunstâncias, consolando um ao outro.
Ao mesmo tempo que Fausto se encontrava em frente a uma visão tocante, se preocupava caso qualquer membro de sua família descobrisse a verdade por trás dos mistérios de Asher.
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