As notícias que passavam na TV eram devastadoras. Em plena luz do dia houveram cerca de quinze assassinatos na região metropolitana de Vuur Stad, na província de Zustand; Oito mortos e vários feridos em um acidente na pequena cidade de Mestoruzi; Vinte e um gravemente feridos e mais de sessenta com ferimentos leves causados por um desmoronamento na província de Ventistat e, por fim, explosões que levaram a vida de entes queridos dos cidadãos de Loriatt.

Os hospitais de todas as cidades estavam em total alerta e em estado de emergência, visto que o número de mortos não parava de aumentar. A causa era inexplicável e nem mesmo os repórteres sabiam explicar o que estava acontecendo.

— Doutor Marko, qual a situação no pronto socorro? — Perguntou Rose, diretora clínica do Hospital de Zustand, enquanto corriam para a entrada.

— Os números não são nada atraentes. A cada minuto que passa temos um novo caso entrando nos prontuários... Nós estamos ficando sem recursos, Doutora Rose. São muitos feridos.

— Fique calmo, nós vamos conseguir. Nós sempre conseguimos. — Rose olhou para a entrada. — Definitivamente nós temos que conseguir, Marko. Essas pessoas... Somos a última esperança delas.

Enquanto os médicos trabalhavam para salvar as vidas que entravam no pronto socorro, o líder das províncias, Fausto Omni, discutia com o Conselho de Vuur Stad em sua mansão sobre o que poderia estar por trás de todas as mortes e acidentes.

— São ataques, Fausto. Óbvio que foram os Royal. Consigo sentir o cheiro deles daqui. – Uma voz forte e marcante ecoou pela sala de reunião.

— Querido, não podemos acusar ninguém sem provas. Está mais do que óbvio que foram, sim, ataques, mas não temos como saber quem está por trás disso. — A doce voz de Lis Omni preencheu a sala enquanto falava diretamente com Fausto. — E mesmo se soubéssemos ainda assim precisaríamos de provas para acusar quem julgarmos culpados.

— Eu não preciso de mais provas do que as que já vi. — O homem da voz marcante se levantou. — Meu caro Fausto, olhe para as evidências. Alef e Agatha Royal estão por trás disso, não há como negar. Tenho nojo dessas famílias de baixa estirpe que querem se achar superiores a nós.

— Ifritt, sente-se. — Disse Fausto, calmo. — Desta maneira penso que você está querendo incriminá-los de alguma forma, já que nunca entendi seu ódio gratuito pelos Royal. Eles eram aliados aos Odershwannk a alguns anos atrás. Não me obrigue a fazer você recordar o motivo desta aliança ter sido quebrada. Sente-se. — Com um gesto sutil, estendeu a mão para a cadeira do convidado.

Os cabelos negros de Ifritt Odershwannk escorriam sobre a longa capa verde escura de camurça com adornos dourados que vestia. Seus olhos, escuros como o breu, marcavam seu olhar de uma maneira que até mesmo sua esposa temia em segredo. Seu rosto longo e magro era macabro o suficiente para fazê-lo parecer um demônio de forma humana incompleta. Era membro do conselho desde a morte misteriosa de seu pai e melhor amigo de Fausto, Torl Odershwannk. Se vangloriava de cada conquista, mesmo que pequena, para famílias de elos inferiores dizendo que elas nunca teriam e não mereciam o convívio dos eleitos.

— Perdão, Fausto, mas é o que penso. — Ifritt espalhou olhares desconfiados aos convidados. — Inclusive dois representantes dos elos inferiores não estão presentes. Que audácia...

— Ifritt, se você está se referindo a Marko e Rose Skar, devo lhe informar que eles trabalham em um hospital e estão cuidando dos feridos que vieram dos ataques que vocês causaram. — Agatha Royal fitava a expressão esnobe de Ifritt com seu olhar dourado. — Quanto às suas ofensas à minha família eu prefiro me abster, já que nada que eu disser irá me ajudar a provar a verdade por trás disso tudo.

— É claro que os Skar estão com os maltrapilhos de Zustand. É o lugar deles enquanto nós estamos em posições privilegiadas para não ter que lidar com quem não merece viver. Faça-me o favor, tenho assuntos mais importantes. – Ifritt revirou os olhos.

— Lis, eu vou provar para você que os Royal são inocentes. Fausto, me perdoe. Não consigo ouvir tanta asneira em tão pouco tempo. Tenho que voltar para Ventistat, Alef está esperando por mim. — Agatha tremia. — E Ifritt... — Ele a olhou com desdém. — Um dia a máscara dos Odershwannk vai cair e eu e Alef estaremos assistindo a sua queda de uma... posição privilegiada. — Os fios prateados caindo sobre seus ombros combinava com o ouro do olhar que fitava Ifritt. Ela se virou e saiu pelo grande corredor vermelho da mansão do Conselho.

— Vai deixar uma Royal falar assim na sua cara, velhote? Francamente. — O jovem encostado na janela olhando para baixo comentou em um leve tom de voz para Ifritt.

— Quieto, Zedekiah. Estamos no meio de uma reunião importantíssima, não ouse nos atrapalhar. — Ironia e sarcasmo descreviam Ifritt perfeitamente. Neste momento, ouviu-se pela sala o tic-tac rápido de um relógio. — Oh, que infortúnio. Precisarei me ausentar, Fausto, espero que me perdoe. Nossa reuniãozinha importante terá que ficar para outro dia. Zed, vá procurar Axel e Leon.

— Eu não sou babá de ninguém. — Zed andou até a porta e sumiu nas sombras.

— Fausto, convenhamos, isto aqui é uma perda de tempo. Todos sabem quem organizou os ataques. Eu tenho nojo de carregar o mesmo sobrenome. — Uma voz feminina soou pela sala.

— Zayla, por favor, é sua própria família! — Lis não acreditava no que ouvia. — O que Ifritt fez com você...

— Ifritt não fez nada. Apenas abriu meus olhos para uma realidade que eu recusava enxergar. Ora, Lis, você não é burra. Bom, pelo menos eu pensava que não. Fausto, eu ainda espero que considere o meu processo abandonado pelo Conselho para a retirada do meu antigo sobrenome. Eu não sou a primeira e também não serei a última a renegar minhas origens. Passar bem. — Zayla Royal Odershwannk era alta, cabelos negros curtos e olhos dourados que iluminavam seu olhar, apesar das sombras do passado que os encobriam. Usava as jóias da família Odershwannk como um presente de Ifritt por ter aceitado a realidade de sua antiga família e jurado lealdade à sua nova posição.

— Bom, eu... Eu... — Lis não tinha palavras. — Me desculpem por isso. — Ela distribuía olhares tristes pela sala como pedido de desculpas aos presentes e, ao olhar para o lado, encontrou um motivo para um sorriso e o esquecimento temporário do que havia acontecido. — Com licença, eu e minha filha vamos tomar um pouco do tempo de Fausto. Já estaremos de volta. — A moça esperava encostada na porta do gabinete do pai enquanto Lis o acompanhava ao local.

— Os Skar tomarão conhecimento do que houve aqui, pai. — Tiziana era a filha mais velha dos Omni, consequentemente e espontaneamente atraindo responsabilidades em torno de sua esfera. Fausto a olhava como se fosse um reflexo de si próprio e se surpreendia ao descobrir diferenças, ainda que ínfimas, entre os dois e ela saberia liderar as províncias como ele após seu falecimento. Tiziana usava uma armadura prateada, contrastando perfeitamente com seu cabelo longo e castanho acobreado. Seus olhos, castanhos e expressivos, demonstravam a imensa vontade de estar em uma guerra lutando pelo bem maior. Ela era considerada a melhor guerreira da Província de Vuur Stad e Fausto se orgulhava imensamente desta conquista. — Syra está cuidando de Anna conforme foi pedido. Devido ao grande número de feridos nos ataques, Rose e Marko ficarão o tempo que for necessário no Hospital de Zustand. – Tiziana acabara de sair de um treino de combate pesado, liberando-se do peso depositando seu elmo na mesa da sala de reunião e sua espada no chão, apoiada na lateral da mesa.

— Ótimo. Tiziana, preciso que faça um circuito de segurança na casa dos Skar urgentemente. Ethan e Seth devem fazer um perímetro pelo local até a certeza que a segurança esteja de volta. Syra não deve deixar a casa e você deve ficar no hospital com eles para que não...

— Já providenciei tudo antes mesmo de o senhor falar, pai. — Tiziana interrompeu. — Ethan e Seth fizeram o perímetro duas vezes ao longo do dia, visto que descobrimos ordens dos Royal para o começo do ataque exatamente na região próxima aos Skar. Eles se sentirão seguros mesmo não estando totalmente por dentro do que está acontecendo.

— Meu amor, eles devem saber. Afinal estamos lidando com um problema maior do que pensávamos. Rose é minha amiga de infância... Não posso deixar que nada aconteça com ela e sua família, Fausto! Por favor, me deixe avisá-los. — Lis estava desesperada.

— Lis, por mais que seja direito deles e ainda que seja de nossa vontade não podemos deixar que as informações que obtemos caiam em mãos erradas. Não sabemos o que exatamente estamos enfrentando, apesar de eu já ter uma noção, assim como não sabemos quem são os espiões dessas forças espalhados pelas províncias. Posso estar errado, mas penso que não seja possível que os Royal estejam por trás disso tudo. Infelizmente, parece Ifritt está certo neste ponto. Elos inferiores não possuem tantos recursos quanto os que regozijam do convívio dos eleitos, e seria impossível para os Royal sozinhos cometerem tantos ataques em apenas um dia. Isso está ficando fora de controle... — Pela primeira vez Fausto Omni se preocupava com as ameaças.

— “Está ficando”? Está falando sério, Fausto? Agatha não faria mal a nenhuma fonte de vida e Alef compartilha os mesmos sentimentos. Qual o sentido disso? Ifritt não me engana, ele vai matar os Skar assim que conseguir. Não podemos deixar, Fausto... Sabe que não podemos... — Os olhos de Lis estavam cheios d’água.

— Tiziana, finalize a reunião. Eu e Lis vamos ao Hospital de Zustand. Deixo as Províncias em suas mãos. — Fausto foi comovido pelas lembranças que lhe vieram à tona devido às palavras de Lis. Enquanto ela lhe devolvia um olhar de agradecimento, Tiziana devolvia admiração.

No Hospital a situação estava cada vez pior. O número de feridos superava o de recursos e leitos disponíveis. Dra. Rose tomou a decisão, em conjunto ao Dr. Marko e sua equipe, de transferir casos leves para os outros hospitais da cidade, ao mesmo tempo que os mais graves ficavam com eles. Enquanto davam o melhor de si para salvar todas aquelas vidas nem lhes passou pelos pensamentos que houve uma reunião do Conselho naquela noite, muito menos que poderiam estar correndo mais risco de vida que seus pacientes.

— Dra. Rose, por favor, cuide de outros feridos, eu não tenho mais salvação...

— Não diga isso, senhora. Todos merecem uma segunda chance.

— Por favor... Existem casos mais graves, eu não mereço... Seu tempo...

— Dr. Marko, encaminhe esta moça para... — Ela não tinha mais pulso. — Ressuscitação, rápido! Tragam o desfibrilador! RÁPIDO!

— Não estou sentindo pulso. – Disse uma enfermeira.

— Vamos tentar de novo, não podemos perdê-la! Um... Dois... Três... Afasta! — O corpo da moça levantou e suas costas bateram na maca. — Massagem cardíaca! Enfermeira Silehill? — Ela perguntou enquanto massageava o coração da mulher.

— Não estou sentindo pulso, Dra. Rose!

— Mais uma vez! Um... Dois... Três... Afasta! — Mais uma vez o corpo levantou e caiu sem reação na maca. — Dr. Marko, prepare a sala de ressonância. Alguém continue a massagem cardíaca no caminho! Enfermeira Silehill, preciso que aplique 20 mL de dorelazepan e 15 mL de vittanuovan. Ei! — disse ela olhando para o jovem loiro que fazia massagem cardíaca na mulher. — Me traga o raio X portátil e deixa que eu continuo. Vai, vai! — Enquanto Rose continuava a massagem, fitava os olhos da moça e podia jurar que a conhecia de algum lugar, apesar do rosto estar muito machucado, coberto de sangue e pedaços de entulho do desmoronamento.

Sinais vitais voltavam aos poucos ao monitor da paciente. Na ressonância descobriram que ela tinha uma hemorragia subaracnóidea e a enviaram imediatamente para o neurocirurgião.

— Parabéns, Dra. Rose. Você salvou a vida de mais uma pessoa esta noite. — disse o rapaz loiro.

— Parabéns a nós. Eu não teria conseguido sem vocês. — Ela olhou para o adolescente que a ajudara. — Como é o seu nome?

— Dan Ivebon. – Ele a fitou com a esperança que voltara aos seus olhos.

— Estagiário?

— Sim, senhora Dra. Rose.

— Oh, pare com isso, por favor. Me chame de Rose, apenas. Ok, Dan?

— Ok, Dra... Rose.

— Rose Skar! Preciso conversar com você urgentemente. Onde está o Marko? — Tiziana chegou ao hospital o mais rápido que pôde.

— Dan, vá chamar o Dr. Marko, diga para ele ir para a recepção assim que puder. Enquanto isso diga à Enfermeira Silehill que vocês estão responsáveis por cuidar dos meus pacientes enquanto estou resolvendo problemas sérios. — Rose olhou para Tiziana com preocupação. — Não vou demorar.

— Rose, Syra está com Anna. — Disse Tiziana enquanto corriam para a recepção.

— Syra sempre esteve com Anna enquanto nós estávamos em plantão, Tizia, qual o motivo de tanto alarde?

— Eu prometi ao meu pai que não contaria a vocês, mas como minha mãe implorou eu não posso esconder. Vim o mais rápido que pude para conseguir chegar antes deles.

— Mas o que está acontecendo, Tizia, diga!

— São ataques. Assassinatos em massa comandados por alguém que não sabemos. Até mesmo civis estão sendo atacados, Rose. Está fora de controle.

— Ataques? Mas quem poderia fazer isso? – Rose indagou.

— Acredita-se que sejam os Royal, Rose.

— Não acredito que Agatha e Alef tenham algo a ver com esses ataques, Tizia, eles não fariam mal a ninguém, ainda menos a inocentes que nem sabem das histórias.

— Tecnicamente todos os civis sabem as histórias, Rose, apenas são instruídos pela sociedade a não acreditarem nelas. Claro que tem as suas diferenças, mas... Enfim. Eu encontrei um padrão nos ataques. — Marko chegou na recepção no momento em que Tiziana revelava o que havia contado a Fausto. — Uma região próxima à casa de vocês foi a primeira a ser atacada.

— Como assim, atacada? — Marko chegou no meio da conversa. — Anna?

— Fique calmo, meu amor, Anna está sob os cuidados de Syra. Ela está bem. — Disse Rose. — Tizia disse que todos esses feridos são vítimas de ataques previamente planejados e que nossa casa foi o local de início dos ataques.

— Como você quer que eu fique calmo sabendo disso? Rose, você sabe o porquê...

— Eu sei, amor, eu sei... Quando nos casamos eu concordei com todos os riscos, lembra? Um dia alguém iria descobrir de qualquer jeito... — Rose olhou para a porta. — Tiziana, seus pais chegaram. Eu não posso demorar, tenho muita gente para...

— Não se preocupe, Rose, não vamos tomar muito de seu tempo. Creio que Tizia já te disse tudo, não? — Perguntou Lis.

— Sim, disse. Por favor, protejam a Anna... — Os olhos de Rose se encheram de lágrimas. Pela primeira vez ela temia a morte. — Lis... — As duas se abraçaram.

— Marko, não se preocupe. No caminho tomamos as providências necessárias para que Anna esteja protegida. — Fausto estava preocupado.

— Nós confiamos em vocês. – Marko estava agradecido.

— Vamos, deixem eles trabalharem. — Disse Lis. — Se precisarem de qualquer coisa vocês sabem para quem ligar. Rose, levarei Anna comigo e Fausto ficará na sua casa, se estiver tudo bem.

— Claro, a casa é sua, Lis, fique à vontade. — Fausto e Lis saíram do Hospital em direção ao carro. — Tizia... Muito obrigada por nos contar tudo. Somos eternamente gratos. — Era impossível para Rose disfarçar a preocupação.

— Pare com isso, Rose. Vocês são praticamente da nossa família, não posso esconder nada de vocês. Fiquem bem, ok? Estarei cuidando da Anna pttctffxessoalmente na mansão. Se precisarem de algo, é só ligar.

— Não, Tiziana, fique aqui no hospital. Anna estará segura com Lis e eu temo que algo aconteça enquanto estamos aqui. — O pedido de Marko foi atendido por ela.