Abandono Imprudente
18 Qual é o poder de uma decisão?
Nolan Fall
Verônica mudou. Seus olhos parecem mais azuis, seu corpo está mais bonito, sua boca mais doce. Mas não é só essa a mudança — ela mudou por dentro, eu sinto isso. Suas palavras parecem mais ásperas e talvez ela nunca me perdoe. Lágrimas escorrem do meu rosto ao pensar nisso e o pior é que eu sei que são lágrimas de arrependimento por saber que eu já tive tudo isso.
Eu me deitei ao lado dela e ela nem reparou. Pelo menos é o que eu acho — afinal, a Verônica que eu conheço me empurraria da cama na hora e mandaria eu ir me fuder. Mas não. Ela estava ali, como se fosse um corpo morto. Gelada, não só por fora mas também por dentro. Pareço ter ferido ela mais do que pensei. Talvez eu não a mereça como acho que mereço.
Eu queria que ela virasse nesse exato momento e me dissesse que eu sou tudo que ela quer mas, particularmente acho isso impossível. E realmente é pois ela não o faz. Espero que ela sonhe comigo como sonho com ela. A pior parte de tudo isso é que eu também mudei.
Passei a dar mais valor ao que eu tinha deixado pra trás. Presumo que fiz isso tarde o suficiente para talvez, perdê-la para o Declan. Ele a faz feliz de uma forma ridícula. Ele fala coisas bonitas e parece encantá-la com os olhos. Eu não sei se consigo ser melhor que ele, ainda mais depois do que fiz. Meu corpo paraliza e eu aperto o corpo dela no meu. Não quero que isso acabe.
Sinto que morro um pouco mais quando a vejo com aquele cara. Morro por querer ser ele naquele exato momento, morro por desejá-la mais hoje do que jamais desejei antes. Com esses pensamentos, sem ao menos perceber, adormeço.
***
Acordo e vejo que tenho a cama só pra mim. Onde será que ela se meteu? Fui falar com a Enfermeira Chefe pra ver se ela tinha que fazer algum exame de manhã e ela me respondeu: “Ela está em observação e só fará exames daqui 2 dias”. Agradeci a informação mas o que eu queria fazer era sair gritando por ela pelos corredores. Decidi ligar para Charlotte enquanto vasculhava o hospital a procura dela.
- Charlie?
- Fala Nolan, qual é a boa?
- Não sei onde a Verônica está. Perguntei pra enfermeira se ela tinha algum exame pra fazer e ela disse que não. Tô vasculhando o hospital e nada.
- Ah não! — ela gritou e eu afastei o celular. — Ela não pode ter fugido do hospital! Ela não é nem louca. Ela acabou de acordar do coma!
- S-se acalma. — tentei passar confiança mas minha voz falhou. — Tem ideia de onde ela pode ter ido?
- Ela tá sem carro então ela não pode ter ido tão longe. As pernas dela estavam falhando.
- Tem algum lugar aqui por perto vazio onde ela pode ter ido?
- Tem uma praça aí por perto que ninguém vai porque é perto do hospital e tals. Eu e ela costumávamos ir quando queríamos escapar de casa. Tem um parquinho abandonado. Ela deve estar lá! Noventa por cento de certeza.
- Vou tentar lá primeiro então.
Votei pro quarto e percebi que havia umas gotas de sangue no chão. Provavelmente ela não foi cuidadosa ao tirar a agulha de sangue do braço. Saio pelo corredor como se nada tivesse acontecido e me dirijo até a praça que a Charlie falou. Um parquinho abandonado, um balanço se movimentando, só pode ser ela.
- Verônica? — grito com todas as minhas forças.
- Vai embora! — ela grita fraco. Corro em sua direção. Ela está de camisola, descalça, os cabelos soltos e embaraçados, os olhos abrigam uma olheira profunda e negra. — Seu braço está sangrando! — me desespero. Arranco minha jaqueta e coloco por cima dela, está frio.
- Não me importo. — diz indiferente.
- Claro que se importa. Você não pode perder sangue! Você quase morreu, você entrou em coma, fez uma cirurgia no joelho, o que você está pensando da vida?
- Já disse pra você me deixar em paz. — ela abaixa a cabeça.
- Olha pra mim. — ela não olha. — Olha pra mim porra! — grito.
- Senta aqui. — ela aponta pra um balanço do seu lado. Suas mãos estão tremulas e temo que ela não esteja bem, mas a obedeço e sento. — A gente precisa conversar não é?
- Precisamos. — miro seus olhos e ela desvia o olhar. — Mas precisamos conversar como adultos que somos e não como criancinhas.
- Somos maduros pra isso, não somos?
- Somos.
- Eu tenho que escolher. Você ou o Declan.
- E quem você escolhe? — mirei o Sol que estava em seu auge mas, que não aquecia a cena fria em que me encontrava.
- Escolhas são capazes de destruir toda uma vida Nolan. — ela segura a minha mão e seu sangue escorre entre meus dedos. — Você sabe o poder de uma decisão melhor do que eu.
- Você está calma demais pra quem tem que tomar uma decisão enquanto sangra.
- Só aparentemente. — ela deu um meio sorriso.
- Não sente mais nada por mim, não é mesmo? — soltei sua mão bruscamente.
- Sinto. — ela morde os lábios como se tivesse feito merda ao falar aquilo. — Esse é o problema. Você teria facilitado tudo se não tivesse voltado.
- Isso quer dizer o que?
- Eu não sei.
- Tu sabe sim. — gritei. — Isso quer dizer que a tua escolha é o Declan. Eu não acredito nisso.
- Porque você voltou?
- Eu já disse que foi por você porra! Meu mundo tem girado em torno de você nos últimos meses Verônica. Eu não sei mais o que eu tenho que fazer pra você me perdoar. Eu tenho que me jogar na frente de um carro? Tenho que correr e me jogar da ponte do Brooklyn?
- Eu te amo. — ela disse vagamente.
- Mas...
- Não tem “mas”. Eu simplesmente te amo e eu não sei o porque.
- Se você me ama então... então porque a gente não está junto? — me agachei na sua frente e me aproximei de seu rosto. Senti sua respiração gelada em meu rosto.
- Porque eu não sei se é isso que eu quero. — recebi essa frase como um golpe de faca em meu peito. — Eu não quero me sentir insegura. “Será que ele vai me abandonar de novo?” é o que eu penso toda vez que eu cogito em ficar contigo.
- Você mudou muito. Eu realmente te fiz tanto mal assim?
- Agora eu sou o monstro? Incrível.
- Você é minha e não dele. Eu não vou conseguir seguir em frente.
- Mas deveria. — ela diz com uma frieza que eu não consegui ignorar. — Você me obrigou a seguir em frente, você não me deu opções. Agora é sua vez de sentir. — Repeti as palavras na minha mente e dei dois passos atrás me afastando dela. Senti que iria desabar ali mesmo mas eu tinha que arranjar coragem de onde não tinha. Tinha que ser forte, por mim. "Homens não choram perto de garotas!", penso.
- E então sua escolha é o Declan?
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