Abandono Imprudente
10 Drive in ensolarado
Notas iniciais
Eu ainda estava na chuva. Eu não queria sair de lá. Voltei a escutar Charlotte me chamando pra entrar no carro. Mas eu estava relutante. A bebida já tinha afetado meu sistema motor e eu não queria — muito menos conseguia — me mexer. Eu quero ficar aqui na chuva, sentir cada gota molhar meu corpo, meu cabelo, arrancar minha maquiagem, sujar meu coturno ou me fazer pegar um resfriado daqueles. Sabia de cada uma das vantagens e desvantagens de ficar na chuva mas eu arriscaria qualquer possibilidade. Sim, sou realmente muito teimosa. Estava disposta a morrer naquela chuva se fosse necessário. Afogar minhas memórias naquela chuva que, naquele ponto da madrugada, já tinha virado uma tempestade.
Senti novamente algo me segurando, mas me sacudir dessa vez não fez efeito. Comecei a xingar e a espernear jurando por Deus que quem estava tentando me obrigar a levantar fosse Charlie. Foi então que eu escutei uma voz suave e ao mesmo tempo masculina demais pra ser de minha amiga.
– Por favor, não faça isso comigo! — senti algo me sacudir — Levanta! Eu não vou te deixar aqui nessa chuva. Se você ficar aqui vai ficar doente.
Eu finalmente reagi a tudo quando ouvi a voz. Esfreguei os olhos e aos poucos os abri. Era Declan, ele tinha voltado. Eu estava sentada no chão, um pouco afastada da porta de Neverland. Era pra ele que Charlotte tinha ligado aquela hora que eu a vi com o telefone — depois que eu me neguei a entrar no carro durante uma hora inteira.
Ele me levantou e quando viu que eu não estava bem, me pegou no colo. Com ele eu estava me sentindo segura. Seu corpo estava quente então, sem pensar duas vezes eu enfiei meus dois braços dentro da jaqueta dele o envolvendo em meu abraço gelado. Era estranha, aquela sensação. Parecia íntima aquela cena mas não hesitei, pelo contrário, eu apenas apertei mais ainda. Ele continuava a me segurar, firme e forte. Coloquei minha cabeça sobre seu peito. Eu sentia cada músculo enquanto ele andava.
Dec me colocou, com cuidado, no banco da frente do seu Impala 67 e arrancou sua jaqueta, jogando-a por cima de mim. Eu estava congelando. Ele entrou no carro. O silêncio absoluto me permite escutar meu corpo tremendo e nos intervalos, a respiração ofegante de Declan.
– Eu ... eu quero ir pra minha casa.
– E como eu vou fazer pra entrar?
– A chave — solucei. O frio estava me matando aos poucos.
– Fala devagar. A chave ...
– Dentro da minha bolsa ... atrás da chave ... código do portão.
Eu entreguei a bolsa pra ele e acho que ele entendeu o que tinha que fazer. Dec pegou as chaves e deu uma olhada. Arrumou a jaqueta em cima de mim e então deu partida no carro. Ele ligou o aquecedor e aquele calor me lembrou aquele nascer do Sol de 2007. Sim, era inverno mas aquele dia estava diferente, ou seria o abraço de Nolan que me esquentara aquele dia?
Enfim, naquele dia Nolan me chamou pra andar de moto e eu aceitei — afinal já havia passado das cinco horas da manhã e eu estaria encrencada de qualquer forma. Não tinha capacete e nenhum de nós dois nos importavamos com isso. Ele dirigia rápido e meus cabelos voavam.
– Onde nós vamos? — eu gritei no ouvido dele.
– Acho que a gente podia ir pra um drive in abandonado que eu conheço. É um lugar bem alto! — ele virou a moto para a direita e acelerou de novo.
– Pode ser. Se você diz que é um lugar bom, quem sou eu pra discutir!
Eu segurei firme nos ombros de Nolan e deitei minha cabeça nas costas dele. Não foi tão desconfortável quanto pensei. Ele entrou em uma rodovia. Depois de um bom tempo de estrada nós chegamos a uma espécie de morro, que ele subiu cautelosamente fazendo as curvas devagar até chegar no pico onde ele estacionou a moto. Eu dei um pulo e andei até a ponta onde havia um telão gigantesco.
– Qual a história desse drive in? — eu toquei o telão sujando minhas mãos. As limpei no meu short e sentei no chão.
– Não sei ao certo mas ele foi desativado em 86. Meus pais costumavam vir assistir filmes aqui quando namoravam. Se chamava Violett Cocktail. Devia ser foda demais vir aqui assistir filmes de terror.
– É, esse é o tipo de coisa que nunca deveria acabar.
– O Sol já vai nascer. — ele se aproximou, sentou ao meu lado me envolvendo em um abraço aconchegante e apontou para o céu — Percebe como as cores ficam em um incrível degrade do negro da noite, o azul do céu e o laranja de um dia ensolarado?
– Certamente a natureza tem seu truques! — entrelacei seus dedos nos meus
Ficamos ali por um tempo admirando o Sol se erguer no horizonte. Pareciamos dois namorados apaixonados fugindo pra Las Vegas para se casar escondido dos pais. As nuvens estavam cinzas e arredondadas — como eu queria tocá-las agora ou apenas ter a certeza de que o cara com quem estou neste exato momento me ama do mesmo jeito que eu o amo. Perdidamente. Eu olhei para o lado e ele estava me observando com seus olhos amarelados.
– O que foi? Tem algo no meu cabelo?
– Espera um pouco. — ele foi até a moto e abriu uma bolsa e de lá retirou um caderno e um estojo — Só fique parada aí e ...
– Sério? — eu dei um meio sorriso — Tanta coisa pra desenhar e ...
– E eu quero desenhar você. Algum problema com isso senhorita?
Nolan começou a me olhar e eu não sabia o que fazer ou falar, então eu apenas não me mexi. Ele ficou um bom tempo fazendo o esboço com um lápis preto, depois ele marcou alguns traços com uma caneta tinteiro preta e pegou algo que parecia uma caneta com nanquim aguado de uma cor meio parda para deixar o meu cabelo meio amarelado. Por último ele pegou giz de cera e fez o degrade do céu atrás de mim.
– Acho que eu terminei. — ele não me mostrou, apenas ficou olhando.
– Não vai me mostrar? — eu dei risada e me arrastei até seu lado.
Estava perfeito, cada traço, cada cor em seu devido lugar, a renda da minha meia calça, as ondas do meu cabelo, tudo em seu devido lugar.
– Você gostou?
– Se eu gostei? Você ainda pergunta? — eu ri — Muito, você é um artista nato. Não é brincadeira!
Ele pegou o caderno e procurou um lugar para colocá-lo. Deitei onde eu estava e olhei para o céu que ameaçava uma chuva futura. Como era linda aquela vista. Eu podia morar naquele Drive in ensolarado. Ele entrelaçou os dedos de sua mão na minha e eu corei.
– O que te impede de confiar em mim? — ele encarou o céu como se não quisesse estabeler o mínimo de contato visual comigo
– Não sei. Talvez porque eu te vejo como um cara tão mais maduro que eu, tão independente e ... me sinto desnecessária, como se eu nunca fosse conseguir te alcançar. — suspirei — Eu não consigo ver o que você enxergou em mim e isso confunde qualquer sentimento. Amar é um erro.
– Se amar é um erro — ele soltou a minha mão — isso significa que estar aqui comigo é um erro, que você não curte estar comigo e ...
– Nolan, não foi isso que eu quis di...
– Foi sim. Quer saber? Só preciso que você faça uma coisa. Olhe nos meus olhos e diga que você não sente absolutamente nada e eu juro que eu pego a minha moto e vou embora.
Ele se levantou e ficou parado me encarando enquanto eu me levantava e caminhava na direção dele. O que eu faço agora? Eu digo que o amo e que se ele sair daqui agora eu provavelmente vou me atirar daquele precipício ou eu ignoro meus sentimentos e digo que ele é um erro e que nunca daria certo? Pare de pensar Verônica, apenas ... fale.
– E-eu... eu não... eu ... — encarei meu sapato — No-Nolan, porque e-eu estaria aqui se ... se eu não sentisse nada?
– Eu sabia. — ele me encostou no ferro do telão — Me beija.
Eu entrei em pânico. A gente já tinha se "beijado" naquele beco escuro mas, não foi nada assim, só aconteceu e tal. Foi rápido e agora ele estava pedindo. Nolan Fall estava me pedindo para beijá-lo em um drive in abandonado. Me belisca que eu ainda estou dormindo. Meu celular vibrou.
– Meu celular está vibrando, pode ser importante. — atendi quebrando todo o clima
– Charlie? — onde será que essa menina está?
– Você dormiu aqui em casa hoje e você não ligou para sua mãe antes porque nós chegamos e fomos dormir feito anjos. Você vai ficar aqui mais um dia. Aproveite seu dia com o Nolan! — Charlotte disse
– Como assim? — essa menina está mais louca do que eu pensei — Do que você tá falando? Você está bêbada?
– Não sua idiota, eu to na boa. Sua mãe acabou de ligar aqui em casa desesperada e eu te encobri. Ela nunca vai descobrir a verdade. Ela acha que você está dormindo agora. Fica tranquila e relaxa com seu amorzão. Vai pra casa dele, sei lá, faça loucuras pelo menos uma vez na sua vida, por favor. Eu sei que você está com o Nolan, nem tente negar.
– Eu estou com ele, satisfeita?
– Claro.
– Charlie ... eu acho que eu tô me apaixonando por ele, e agora?
– E agora? Você vai fazer o que eu falei. Vai embora com ele.
– Não seja inconveniente Charlotte Parker, isso não é hora pra me falar essas coisas. Eu mal conheço ele, não vou com ele pra mais lugar nenhum.
– Por favor, vocês são lerdos demais! Não faz mal se entregar. Se renda, você tá caidinha como qualquer menina estaria. Não tente ser mais madura do que você é. Amor é isso, agir com o coração e não com a mente. Vai com ele pra onde quer que seja.
– Cala a boca. — eu desliguei o celular de uma vez pra ninguém mais me incomodar e, quando eu virei, vi Nolan encostado no ferro. Como ele pode ser tão lindo? Eu quero esse cara só pra mim. Vamos lá Verônica, não seja tímida. — Onde paramos? — eu disse o puxando pela nuca e mordendo seu lábio — seguido de um beijo.
Notas finais
Deixem muitos reviews, vou amar cada palavra, seja ela boa ou crítica. Beijooos.
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