Abandono Imprudente
9 Desafiando o desconhecido
Notas iniciais
Abri um dos meus olhos e uma luz intensa veio em direção as minhas pupilas me obrigando a retrair minhas pálpebras novamente. Tentei mais uma vez e dessa vez a luz parecia menos intensa. Consegui ver Charlotte andando de um lado para o outro falando no telefone. Ela parecia preocupada.
Fechei os olhos novamente e senti as memórias tomando vida bem na minha frente. Eu estava ali de corpo mas não de alma. Meus pensamentos estavam naquela noite.
Charlotte estava pulando no quarto e eu estava com o telefone na mão. Olhei a foto de seu perfil em uma rede social. Seus olhos eram um castanho tão claro que chegava a ser amarelo, os lábios finos e alaranjados, as sardas de Sol, o nariz reto e perfeito e os cabelos ondulados até na altura dos ombros. Na foto ele está usando uma bandana vermelha e um jaquetão de couro com uma águia desenhada no ombro direito — logo imaginei que fosse o símbolo do seu moto clube. Como ele poderia ser tão perfeito pra mim?
Ao fundo eu escutava a voz de Charlie falando sobre como ia se vestir, cabelo, maquiagem, sapato e todas essas coisas mas eu ... eu só conseguia pensar que aquele seria o segundo encontro — isso se aquilo em Neverland for considerado um encontro. Eu não acreditava que Nolan estava falando a verdade. Ele gostaria justo de mim? Bom, eu posso afirmar que da minha parte, bom, eu gostei dele. Que idiota, duas semanas e já é o suficiente pra dizer que está apaixonada.
Ok, eu tinha que escolher uma roupa e Charlie insistiu pra fazer o meu cabelo. Ela pegou uma mecha da minha franja, fez uma trança e com todo o resto do meu cabelo ela foi prendendo em um coque frouxo — ela aproveitou e deixou duas mexas da minha franja soltas uma de cada lado. Enquanto ela mostrava seu dom com cabelos eu escolhi minha roupa. Um short de couro preto, uma blusa soltinha com uma frase na frente, meu jaquetão de couro, uma meia 7/8 de renda e meu coturno preto de cano baixo — que eu sempre deixava todo desamarrado.
Quando eu disse que ia assim quase que a Miss Charlotte caiu de costas mas era assim que eu queria ir. Dei um jeito dela não ir de vestidinho e salto. Ela colocou um short — um short todo colorido mas, ainda assim, melhor do que um vestidinho cheio de babados — e um Converse. No cabelo ela fez sua famosa tiara de tranças dupla que nela ficava perfeito — ela era perfeita com seu cabelo liso de uma cor ruiva bem clara, olhos tão verdes quanto esmeraldas, nariz mais bonito que de Barbie, franjinha fofa e seu corpão — só que dessa vez ela enrolou as pontas.
Ambas tínhamos idade pra dirigir, mas só a Charlotte é que tinha um carro — um Fusca conversível que ela mandou pintar de preto — que estava estacionado na porta da minha casa. Descemos a escada e enquanto a Charlie abria o carro eu fui falar com meus pais.
– Não me esperem pra dormir, entenderam? — os dois assentiram com a cabeça e eu corri pro carro. Ouvi minha mãe gritar "Não chegue muito tarde garotinha" e eu nem respondi, apenas ignorei.
O Fusca ia rápido e as mexas de cabelo que ela tinha deixado soltas do coque dançavam com o vento. Veio uma sensação boa, de liberdade. Chegamos na Rua Arizona como Nolan tinha dito. A casa era enorme e tinha vários quartos, alguns com tema o que me deixou assustada no começo. Fui direto pra cozinha, Nolan não podia estar em um dos quartos, seria estranho, sei lá. Enfim, quando cheguei na cozinha ele estava no balcão. Fui discretamente, parei ao lado dele e estendi a mão.
– Prazer, Verônica Maine.
Ele deu um pulo. Acho que ele não esperava por aquilo, afinal, quem esperaria por algo do tipo? Ele me deu um abraço apertado e um beijo tão bom que nem reparei que foi quase um selinho. Ouvi uma voz que eu não conhecia.
– Graças a Deus que você veio!
– Como?
– Ele não para de falar de você faz semanas! Verônica isso, Verônica aquilo.
Nessa hora Nolan deu uma cotovelada no copo do cara derramando o liquido vermelho do copo dele — que levou um belo de um susto.
– Não liga pro Sammy. — Fall estava ficando vermelho feito pimenta — Ele é um idiota! Você trouxe a Charlie?
– Sim, mas ela entrou no primeiro quarto que viu!
– Tomara que ela sobreviva... — ele olhou para a bebida no copo dele com ar de desprezo — Vamos dar um giro por essa festa, aqui tá muito parado!
Passamos na frente de várias salas e olhamos as frases que estavam nas portas. A primeira: "Palhaços usam calças" e não fazia sentido até eu ver que só tinha gente pelada lá dentro — isso mesmo, perturbador. A segunda tinha escrito: "Couro é luxo" e logo pensei que só teria gente usando couro lá dentro — graças a Deus eu estava certa e não foi tão bizarro. "Elvis não morreu" era a terceira e mais estranha também porque foi estranho ver duas pessoas vestidas de Elvis Presley se pegando. Entramos na quarta porta que podia se ler em letras de neon "Foda-se o sistema" e isso era exatamente o que procurávamos.
Ele me puxou pra entrar e fomos para o meio da pista. Não estávamos dançando agarrados um ao outro, mantemos uma certa distância — mas os olhos de Nolan permaneciam cravados em cada um de meus movimentos. Em uma música mais rápida eu estava dançando feito uma maluca e ele aproveitou para se aproximar de mim. Eu me pendurei no pescoço dele e suas mãos passaram pelo meu quadril me guiando pelas batidas da música.
Várias luzes de cores diferentes iluminavam a pista e a fumaça reinava no final do palco — fazendo com que tudo ficasse mais misterioso. Começou uma nova música, eu me soltei de Fall e comecei a pular horrores — quando olhei pro lado ele estava pulando tanto quanto eu. Depois de tantas músicas e batidas o DJ soltou uma música lenta e logo eu senti uma respiração em meu pescoço.
– Eu amo essa música. — Nolan encostou seu peito em minhas costas, colocou as mãos em cima das minhas mãos e as entrelaçou em um abraço pelas costas, que é ideal para surpreender alguém e se esse era o plano, ele conseguiu.
– Eu também. Amo November Rain, o solo do Slash é ... perfeito!
Ele continuava a me abraçar e juro que ele ficou assim até o último segundo da música. Aquilo não estava me incomodando, óbvio que eu estava amando estar tão conectada a ele.
– Que tal a gente dar um rolê por essa festa e descolar algo bom pra beber. — ele cochichou no meu ouvido.
Eu o segui até outro quarto que ficava no final do corredor. Era um quarto quase vazio que tinha apenas um armário gigante, uma geladeira e um sofá de três lugares.
– Senta aí! — ele abriu a geladeira — Temos vodka com kiwi e com pêssego.
– Kiwi com duas pedras de gelo.
Ele sentou ao meu lado e me entregou o copo — que segurei firme, não queria fazer nenhuma besteira. Desviei meus olhos e mirei o chão.
– Você me falou que está procurando uma faculdade. — eu balancei a cabeça em concordância — No que você está pensando?
– Direito. Você fez faculdade de quê?
– Publicidade. Mas, quando eu era bem mais novo eu fiz vários curso de desenho e tal, uma paixão minha.
– Eu adoro seus desenhos.
Silêncio.
– Vou direto ao ponto.
– O que? — eu olhei rapidamente pra ele. Nolan segurou minha mão que conseguia estar mais gelada que a dele,
– Eu gostei muito mesmo de você. E eu queria saber se você, sei lá — ele coçou a cabeça — sente o mesmo.
– Ah e-eu ... eu realmente não sei o que dizer. Sério.
– Eu mexo com você, não é mesmo? — ele percorreu com suas mãos do meu braço até o meu pescoço. Eu fechei meus olhos e senti seu nariz tocar o meu.
– Não, eu não posso. — levantei do sofá e arrumei meu short — Pare de ser tão...
– Eu não...
– Isso mesmo, você não.
Eu trombei no batente da porta e saí da casa o mais rápido que consegui só parando na frente de um edifício que ficava do lado da casa. Encostei no muro todo pixado e ouvi.
– "Garotos me assustam". Eu amei a frase da blusa. Muito bom pra quem quer atrair o sexo oposto.
– Para. Se quer usar alguma menina, pegue qualquer vadia na festa.
– Isso tudo é porque ... — eu não sabia o que responder — continue a frase Verônica.
– Porque eu duvido que você goste de mim.
– Então me desafie.
– Você tá louco? Como assim?
– Eu gosto de você, você não acredita, eu dou um jeito de provar, simples. Agora me diga o que fazer e eu faço.
Eu peguei um pedra do tamanho do meu pé na rua e coloquei na mão dele.
– Mira em uma janela e arremessa.
Isso era loucura! O que deu em mim? Ok, ele não vai ser doido de fazer isso Verônica, ele nem gosta de você! Ele vai jogar a pedra na rua e você vai embora pra casa, sozinha, de novo e ... Ouvi um estrondo.
– Agora corre.
Minhas pernas nunca seguiam meus comandos quando eu estava com medo mas naquele dia, elas corresponderam aos estímulos do meu cérebro e correram o mais rápido que puderam. Nolan estava logo atrás de mim e eu olhei pra trás. Ele apontou pra uma rua super estreita que mal cabia eu e ele lado a lado. Estava escuro e ficamos por lá um bom tempo esperando pra sair como se nada tivesse acontecido. Estávamos frente a frente, nossos rostos quase se tocavam de tão estreita que a rua conseguia ser, cada um encostado em sua parede.
– Você é idiota? Como você me faz uma coisa dessas?
– Eu fiz o que você pediu!
– Eu sei, mas eu duvidei que você faria e por isso eu falei aquilo.
Ele segurou meus dois braços contra a parede e chegou mais perto do que já estávamos sendo obrigados a aguentar.
– Você duvida de mim agora?
– Um pouco menos eu posso dizer. — Mordi os lábios e ele me beijou.
– Deveríamos ver o nascer do Sol. Imagino como você ficaria linda no crepúsculo.
– Eu sou linda no escuro, isso sim.
Rimos por alguns segundos.
– Quer andar de moto?
– Agora? Mas que horas são?
Ele olhou no celular.
– Agora são 5:30. Se eu correr ainda dá pra gente ver o Sol nascer de algum lugar alto.
– Vamos então.
Eu montei na moto. Eu tinha que me aventurar e no fundo eu já estava perdida de qualquer jeito quando eu chegasse em casa. Entre chegar as seis e as dez, eu prefiro as dez, vamos adiar o inevitável. Minha mãe vai me matar. Foda-se.
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