Abandono Imprudente
8 Chuva de memórias
Notas iniciais
Eu não sabia o que fazer. Toda aquela raiva estava presa dentro de mim. Fui cambaleando até a porta. Podia escutar algumas coisas que acho que era Charlotte falando mas eu não me importava nem um pouco. Então eu mirei a porta e fui. Era como se aquele lugar que estava tão bom antes estivesse me sufocando agora.
Estava chovendo. Aquilo era tudo que eu queria naquele momento! Chuva sempre me fazia lembrar 2007 — o inverno mais chuvoso de Nova York. Lembro de ter chegado em casa e ter visto Charlotte sentada com o telefone na mão me esperando. Ela me parecia impaciente e eu tinha acabado de chegar do grupo de debate — que acontecia depois da aula.
– Senta e me diz por que demônios você está ignorando o Nolan. — eu fiquei parada sem dizer uma palavra e então ela continuou. Merda. — Porra Verônica! Você sabe que eu odeio que me deixem falando sozinha!
– Como você sabe que eu estou ignorando o Fall? — cruzei os braços e ergui uma das sobrancelhas.
– Digamos que ele acabou de ligar te procurando e eu, por estar aqui, atendi.
– E daí? — sentei na poltrona. Não curto dividir sofá com as pessoas.
– E daí? E daí que ele me perguntou se você estava viajando porque faz duas semanas, não uma mas duas, que ele tá tentando conversar com a senhorita e nada.
– Olha, eu não quero me envolver com ninguém agora, tá legal? Estamos no fim do colegial. Eu estou enviando propostas pra faculdades em todos os lugares e não, não venha com essa história de "já está na hora de dar espaço ao seu coração" que não me convence nem um pouco. — dei de ombros, a brecha perfeita pra ela começar a gritar comigo.
Não sei dizer o que ela estava falando porque eu virei e saí antes de ouvir. Bati a porta do meu quarto e gritei: "Você não é a minha mãe. Conviva com isso!". Isso aconteceu de manhã e ela só voltou a conversar comigo no outro dia de tarde.
– Me desculpa por aquele show. — ela abaixou a cabeça — Eu sei que você economizou sua vida inteira pra essa faculdade de direito e ...
Eu pulei e dei um abraço nela interrompendo seu pedido de desculpas.
– Abraço de urso brutal. — lá estava as duas idiotas caidas na calçada da minha casa — Eu te perdoo ó pequena Charlie.
– Só me diz uma coisa?
– Ah. — parei por alguns segundos — Pergunta, pode pergutar! Você não vai me deixar em paz mesmo. Mas vamos pro meu quarto que ...
Ela nem respondeu nada e simplesmente passou por debaixo do meu braço entrando na minha casa gritando "Boa Tarde'' pros meus pais enquanto subia correndo as escadas até o meu quarto que ficava no final do segundo andar. Ela ligou o aquecedor do quarto e se enfiou na minha cama. Ela nem esperou que eu entrasse e fechasse a porta.
– Você tá afim do Fall não tá? — ela cantarolou.
– Sei lá. Algo me atrai nele mas ... nem conheço ele de verdade. — sentei na cadeira do computador.
– Então pesquise tudo da vida dele, uai!
Coloquei o cabelo debaixo do nariz como se fosse um bigode e fiz a voz mais masculina que consegui.
– Você é a stalker aqui Sherlock! Não eu. — ela levantou da cama num salto e fingiu arrumar o paletó.
– Então sai da minha cadeira Watson. — filmes do Sherlock Holmes estavam nos deixando retardadas pra cacete.
Ela ficou digitando por uma hora. Digitava e digitava e digitava mais ainda.
– Eis o que encontrei. Se temos 17 e ele 19, então ele é dois anos mais velho. Ele tem uma moto e gosta de dirigir em interestaduais nos finais de semana que não está no bar com os amigos. — ela parou de falar e rolou a página da internet — E falando dos amigos, o pessoal com quem ele anda são do moto clube que se chama... — ela clicou em um link com o botão direito do mouse e mandou abrir em uma nova aba — se chama "Rock Solid", simples demais até. — ela deu uma risada leve — Bebida favorita é ...
– Whisky. — coloquei a mão na testa — Black Label pra ser mais exata. — disse interrompendo sua concentração.
– Positivo. E ele trabalha em uma revista. MV Magazine.
– Argh! — falei com uma expressão de nojo imenso — Aquela revista ridícula que fala sobre as celebridades de Nova York?
– Sim, mas ele é o desenhista das charges e tirinhas. Sabe aquelas que usam humor pra críticas ao governo e tal.
– Wow! Um revoltado.
– Faz totalmente o seu tipo. Vamos lá! É uma chance em mil.
– Então ... por algum acaso você tem o telefone dele?
– Eu sabia! — ela sorriu — Bom, eu não tenho, mas eu faço o impossível pra conseguir. Você é cabeça dura e quando cede temos que acatar!
Em alguns minutos ela arranjou o telefone do trabalho dele. A secretária estava relutante pra dar o telefone de um funcionário mas, no fim, com jeitinho a Charlie a convenceu. Eu não tinha mais desculpas para não ligar. Peguei o celular e disquei para o número que ela tinha anotado em um pedaço de papel. Sua voz era rouca até no telefone.
– Alô?
– Nolan? É a Verônica, se lembra de mim? — eu disse com a voz mais tímida que eu já tinha ouvido sair de mim.
– Verônica? — ele disse me parecendo surpreso pela ligação — Pensei que você tinha sido sequestrada ou tinha me abandonado, quer dizer, que tinha ido viajar!
– Nada disso. — eu dei uma risada baixa — Eu só ando muito ocupada com esses assuntos de faculdades e cursos e tudo mais. Charlotte disse que você ligou.
– Durante duas semanas inteiras.
– Você devia ter desistido. — Porra, porque eu falei isso?
– Certas coisas valem a pena, sei lá e digamos que eu tenha uma quedinha por garotas desastradas.
– Conheço alguém assim. Verônica Maine se não me engano. — irônia é a minha vocação mesmo!
– Sério? — Parece que ele é tão irônico quanto eu. — Ela estaria disponível hoje as 11:30 da noite?
– Com certeza.
– Fala pra ela então que é as 11:30, óbviu e que é na Rua Arizona. Nem precisa do número da casa, ela vai notar onde é a festa assim que estiver na rua.
– Posso levar a Charlie comigo? — cochichei.
– Pode, claro.
– Então talvez essa Verônica vá!
– Fechou. — ele deu uma risada estranha — Só não se assuste quando chegar, a festa é meio maluca mesmo.
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