AVATAR VALLEY

9 Capítulo 9 — De Um Nome a Ele


Notas iniciais
ENTRE AS NOTAS Música para vocês ouvirem. https://www.youtube.com/watch?v=djSphgW2jNU

O sábado amanheceu envolto por uma névoa fina que parecia flutuar entre os pinheiros que cercavam Avatar Valley. A neve acumulada durante a semana permanecia intacta sobre telhados, cercas de madeira e jardins, transformando a cidade em uma pintura silenciosa de inverno. Faltava apenas um dia para o Festival de Inverno e para o tradicional Baile, o evento que mobilizava praticamente toda a comunidade local. Nas vitrines do centro, cristais artificiais brilhavam sob as luzes natalinas; funcionários carregavam caixas de decoração para o auditório da escola; famílias comentavam sobre roupas, convites e reservas de mesas enquanto caminhavam pelas ruas cobertas de neve.

Na Mansão Klaus, porém, a manhã possuía a mesma atmosfera controlada de sempre. O silêncio dominava os corredores largos, interrompido apenas pelo som distante dos funcionários iniciando a rotina diária. As enormes janelas deixavam entrar a luz pálida do inverno, refletindo-se nos pisos impecavelmente polidos e nos móveis que pareciam ter sido posicionados com precisão milimétrica.

Noah acordou cedo por hábito. Mesmo sem aulas, seu corpo já estava condicionado a uma rotina que dificilmente mudava. Levantou-se pouco depois das sete, vestiu um moletom escuro e desceu as escadas sem pressa. Encontrou a mãe no mesmo lugar de quase todas as manhãs: Melissa Klaus ocupava uma das poltronas próximas à janela da sala de café, um livro aberto repousando sobre o colo e uma xícara de chá fumegante entre as mãos.

— Bom dia — disse Noah.

— Bom dia — respondeu ela.

A troca de palavras terminou ali. No ambiente residencial privado da Mansão Klaus, ele pôde vestir confortavelmente seu casaco casual pesado e focar em suas obrigações esportivas sem a rígida proibição que vigorava nas salas e áreas comuns da escola. Não havia hostilidade, mas também não havia intimidade. Melissa ergueu os olhos do livro apenas o suficiente para observá-lo servir café antes de voltar à leitura. Noah já estava acostumado àquilo; crescera em uma casa onde o silêncio era frequentemente tratado como educação. Sentou-se à mesa e observou a neve além das janelas.

O Baile de Inverno aconteceria no dia seguinte. Para muitos estudantes aquilo representava expectativa; para Noah, representava apenas mais um compromisso. Desde criança participava de jantares beneficentes, inaugurações, recepções formais e eventos sociais organizados pelas famílias mais influentes da região. O baile era apenas uma versão estudantil da mesma dinâmica: vestir a roupa certa, cumprimentar as pessoas certas, dizer as palavras certas e voltar para casa — nada além disso.

— Kate vem amanhã? — perguntou Melissa após alguns minutos.

— Sim — confirmou Noah. — Sua mãe confirmou presença no jantar da fundação também.

Noah assentiu. Mais uma obrigação, mais uma noite cuidadosamente planejada por adultos que pareciam acreditar que cada detalhe possuía importância histórica. Quando terminou o café, levantou-se.

— Vou para o treino.

Melissa apenas assentiu:

— Não varie o horário e não volte tarde.

— Não pretendo — assegurou o capitão.

Ele pegou o casaco e deixou a sala. A conversa havia durado menos de dois minutos, e nenhum dos dois pareceu notar.

Do outro lado da cidade, a manhã possuía um ritmo completamente diferente. A pequena casa dos Dawson estava longe de ser silenciosa. O cheiro de café recém-passado misturava-se ao aroma de panquecas vindas da cozinha. A televisão permanecia ligada em volume baixo na sala, transmitindo previsões meteorológicas que ninguém realmente prestava atenção. Em algum lugar do corredor, uma criança corria produzindo uma sequência irregular de passos e risadas.

Henry Dawson estava sentado diante da escrivaninha de seu quarto desde cedo. A caneca de chocolate quente deixada por Sarah repousava ao lado das partituras, esquecida, já não soltava vapor. Folhas amassadas ocupavam parte da mesa e se acumulavam próximas ao cesto de lixo; algumas continham versos riscados, outras apenas palavras soltas escritas em momentos de inspiração que desapareceram antes de se transformarem em algo maior.

Henry segurava um lápis entre os dedos enquanto observava a página aberta à sua frente — a mesma página, pela décima vez, talvez pela vigésima. Seu olhar percorreu novamente os versos escritos no centro da folha:

Talvez eu esteja quebrado

Talvez e esteja com medo

Talvez eu esteja cansado

De fingir que estou preparado

Aquelas palavras haviam surgido quase sem esforço alguns dias antes. O problema era tudo o que vinha depois. A música existia, a melodia estava pronta, e ele conseguia ouvi-la perfeitamente em sua cabeça, mas concluir a letra parecia muito mais difícil do que deveria. Porque não estava escrevendo sobre algo distante; estava escrevendo sobre si mesmo. Sobre medos que raramente verbalizava, sobre inseguranças que normalmente escondia atrás de sorrisos educados, sobre a sensação constante de ocupar um lugar onde nunca tinha certeza se realmente pertencia.

Henry soltou um suspiro e apoiou a cabeça nas mãos. Faltava menos de um dia para a apresentação — menos de um dia para subir ao palco diante de praticamente toda Avatar Valley. A ideia fez seu estômago se contrair novamente.

Uma batida suave interrompeu seus pensamentos. A porta abriu-se alguns centímetros e Sarah surgiu carregando outra caneca.

— A primeira já esfriou.

Henry olhou para o chocolate abandonado ao lado das partituras:

— Nem percebi.

— Eu imaginei — compreendeu a mãe.

Ela entrou no quarto e pousou a nova caneca sobre a mesa. Seu olhar percorreu rapidamente as folhas espalhadas.

— Ainda trabalhando?

— Tentando — resumiu Henry.

Sarah observou os versos escritos na página.

— Você sabe que ninguém espera perfeição, certo?

Henry soltou uma pequena risada.

— A professora Olivia discorda.

— Não — corrigiu Sarah. — Ela espera honestidade.

Ele não respondeu, porque sabia que a mãe estava certa. E talvez fosse justamente esse o problema: ser honesto era muito mais assustador.

Antes que Sarah pudesse continuar, passos apressados surgiram no corredor. Um segundo depois, uma pequena figura apareceu na porta: Emily, vestindo um pijama de estrelas e segurando um urso de pelúcia quase do tamanho do próprio tronco.

— Heny!

O sorriso surgiu instantaneamente no rosto dele.

— Oi, monstrinha.

A menina correu até a cama e ergueu o brinquedo acima da cabeça.

— Urso!

— Eu vi — constatou o irmão.

— Urso dança — garantiu Emily.

Henry observou enquanto ela balançava o brinquedo de forma totalmente aleatória.

— Uau. Ele dança melhor do que eu.

Emily pareceu extremamente substituída e satisfeita com aquela conclusão. Então escalou a cama com a determinação de quem estava conquistando uma montanha e sentou-se perto dele.

— Cantá?

Henry piscou.

— Quer que eu cante?

Ela assentiu energicamente.

— Cantá!

Sarah sorriu.

— Acho que você acabou de ganhar uma espectadora para amanhã.

Henry soltou uma pequena risada, talvez a primeira genuína daquela manhã. Emily não fazia ideia do que era o Festival de Inverno, não sabia o que significava cantar diante de centenas de pessoas, não compreendia ansiedade, nem pressão, nem expectativas. Para ela, Henry simplesmente cantava, e isso parecia suficiente.

Por alguns instantes, olhando para a irmã abraçada ao urso de pelúcia, ele desejou conseguir enxergar a apresentação da mesma forma simples que ela enxergava. Mas assim que seus olhos voltaram para as partituras espalhadas sobre a mesa, o nervosismo retornou. Porque amanhã não seria apenas uma apresentação; pela primeira vez, ele teria a sensação de mostrar para toda a cidade uma parte de si mesmo que normalmente permanecia escondida — e isso era muito mais assustador do que qualquer palco.

A arena de gelo estava quase vazia naquela tarde. Sem arquibancadas lotadas, sem torcida e sem o ruído constante dos jogos oficiais, o espaço parecia ainda maior. As luzes refletiam sobre a superfície branca e impecável do rinque, criando um brilho frio que transformava o ambiente em algo quase impessoal.

Noah gostava disso. Ali não existiam conversas vazias, não existiam eventos sociais, não existiam expectativas sobre como deveria sorrir, vestir-se ou agir. Existiam apenas o gelo, os patins e o jogo — era simples, era previsível, era seguro. As jaquetas oficiais do time de hóquei eram orgulhosamente permitidas naquele ginásio e nos vestiários esportivos, marcando a transição do capitão de aluno comum para a força dominante do esporte local.

O som das lâminas cortando a superfície ecoava pelo ginásio enquanto Noah conduzia uma sequência de exercícios de velocidade. Seus movimentos eram precisos, quase automáticos, resultado de anos repetindo os mesmos padrões até que se tornassem parte dele. Na lateral da pista, o treinador Hayes observava tudo em silêncio: os braços cruzados, o olhar atento, a expressão severa de sempre. Quando Noah concluiu a última volta, desacelerando próximo à barreira de proteção, Hayes consultou rapidamente o cronômetro.

— De novo.

Noah nem sequer questionou. Apenas girou o corpo e voltou para a posição inicial. Mais uma arrancada, mais uma sequência de curvas, mais uma repetição. Quando terminou, o treinador fez uma anotação rápida.

— Melhor.

Mas não parecia satisfeito; Hayes raramente parecia satisfeito. O treino prosseguiu por quase uma hora: velocidade, posicionamento, resistência, repetição, erro, correção, repetição novamente. Quando Noah finalmente retirou o capacete para recuperar o fôlego, o treinador aproximou-se.

— Está pensando demais.

Noah ergueu os olhos.

— Não estou.

— Está — a resposta veio imediata. — Seu tempo caiu nos últimos minutos.

— Estou cansado — justificou o capitão.

— Não — Hayes apontou para a própria cabeça. — É aqui.

O treinador jamais elevava a voz; não precisava, suas palavras sempre carregavam um peso suficiente.

— Um jogador comum pode se permitir distrações — continuou o técnico. — Um capitão não.

Noah permaneceu em silêncio.

— O campeonato está chegando — lembrou Hayes.

— Eu sei.

— A liga estadual está observando.

— Eu sei.

— Então pare de agir como alguém que esqueceu disso.

A frase atingiu o alvo. Hayes percebeu, sempre percebia. O treinador manteve o olhar fixo nele durante alguns segundos.

— Você tem talento.

— Eu sei.

— Tem liderança.

— Eu sei.

— Tem oportunidades que a maioria dos garotos desta cidade jamais terá.

Noah apertou a mandíbula.

— Eu sei.

Hayes assentiu lentamente.

— Então não desperdice nenhuma delas.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado. Porque aquelas palavras não eram exatamente uma crítica; eram uma lembrança, uma cobrança constante, uma responsabilidade que Noah carregava há tanto tempo que já não sabia distinguir onde terminavam as expectativas dos outros e onde começavam as próprias escolhas.

Pouco depois, o treino chegou ao fim. Enquanto os demais jogadores deixavam o gelo conversando sobre o baile e os eventos do fim de semana, Noah permaneceu alguns segundos sozinho no centro da pista, observando a superfície branca, escutando apenas o eco distante do sistema de ventilação. Por um instante, desejou que tudo pudesse ser tão simples quanto aquele lugar. Mas nunca era. Nunca tinha sido.

Naquele mesmo horário, a sala de música reservada para o coral da Avatar Valley High School possuía uma atmosfera completamente diferente. O ambiente estava aquecido, cheio de vozes, partituras, instrumentos e alunos ocupando cada canto disponível. Henry encontrava-se próximo ao piano, segurando as folhas da própria composição enquanto tentava ignorar a tensão que insistia em apertar seu estômago. Faltava apenas um dia, um único dia — a mudança parecia absurda. Durante semanas, cantar diante do festival inteiro parecia um problema distante; agora não era mais, agora era real.

Os integrantes do coral organizavam-se para o ensaio geral quando Olivia Bennett entrou na sala. Como sempre, não precisou elevar a voz para chamar atenção: a presença dela bastava. Pouco a pouco, as conversas diminuíram, os alunos assumiram suas posições e o ensaio começou.

As primeiras músicas transcorreram sem problemas: harmonias, entradas, correções pontuais, tudo dentro do esperado. Até chegar a vez da apresentação principal: a composição de Henry. O garoto sentiu imediatamente o corpo ficar rígido, e Olivia percebeu, naturalmente.

— Henry.

Ele levantou os olhos.

— Respire.

A orientação arrancou algumas risadas suaves dos colegas. Henry tentou sorrir.

— Estou respirando.

— Não parece — rebateu a professora Olivia.

Mais algumas risadas, e a tensão diminuiu apenas um pouco. Olivia caminhou até ele.

— Está nervoso?

Henry demorou um segundo.

— Muito.

— Ótimo — surpreendeu ela.

Ele piscou.

— Ótimo?

— Significa que você se importa — explicou a professora.

A docente apoiou uma das mãos sobre as partituras.

— O problema nunca é sentir medo.

— E qual é? — quis saber Henry.

— Deixar que ele decida por você.

A sala permaneceu silenciosa; todos escutavam. Olivia sorriu de leve.

— Henry, você acha que eu escolhi você porque canta perfeitamente?

— Não?

— Claro que não — assegurou ela.

Alguns alunos riram, e o próprio Henry acabou sorrindo.

— Você foi escolhido porque acredita em cada palavra que escreveu — ela apontou para as folhas. — Isso não pode ser ensinado.

O silêncio tornou-se diferente: mais leve, mais acolhedor.

— Técnica se aprende, afinação se desenvolve, presença de palco melhora com experiência — Olivia então sustentou o olhar dele. — Honestidade não.

Henry sentiu o peito apertar, mas daquela vez não era ansiedade; era algo melhor, algo próximo de confiança.

— Amanhã haverá pessoas importantes naquele auditório — continuou Olivia. — Diretores. Empresários. Políticos. — Ela deu de ombros. — E nenhuma delas importa.

Alguns alunos sorriram.

— Porque a música não pertence a eles — Olivia abriu os braços na direção do coral. — Ela pertence a vocês.

O ambiente permaneceu em silêncio durante alguns segundos; não um silêncio desconfortável, um silêncio cheio de significado. Então a professora bateu palmas uma única vez.

— Certo — o sorriso reapareceu. — Vamos mostrar ao Henry por que ele não tem autorização para fugir amanhã.

As risadas preencheram la sala, até Henry riu, e pela primeira vez naquele dia, a ideia de subir naquele palco pareceu um pouco menos impossível.

Quando Henry deixou a escola, o céu já havia começado a escurecer. As luzes do centro de Avatar Valley brilhavam contra a neve recém-caída, transformando as ruas em corredores dourados que pareciam saídos de um cartão-postal. Guirlandas decoravam os postes, cordões luminosos atravessavam parte da avenida principal e, nas vitrines das lojas, árvores de Natal artificiais competiam por espaço com renas, flocos de neve e placas anunciando as atividades do Festival de Inverno.

A cidade inteira parecia respirar expectativa: faltava apenas um dia. Henry caminhava com as mãos escondidas nos bolsos do casaco enquanto observava a movimentação ao redor. Famílias carregavam sacolas, crianças corriam pela neve, comerciantes faziam os últimos ajustes nas decorações. Tudo parecia preparado para celebrar alguma coisa, e, por um instante, ele se perguntou por que se sentia tão distante daquela felicidade coletiva.

Talvez porque sua atenção continuasse presa ao dia seguinte: à apresentação, ao palco, à música. Instintivamente, seus dedos tocaram o pequeno caderno guardado dentro do bolso interno do casaco. A composição, sua composição — a simples ideia ainda parecia estranha. Durante anos, Henry escrevera letras apenas para si mesmo, pensamentos que jamais imaginou compartilhar com outras pessoas; agora, dezenas de pessoas já conheciam aquela música: a professora Olivia, os integrantes do coral e, dentro de poucas horas, praticamente toda Avatar Valley.

A lembrança fez seu estômago apertar, e ele diminuiu o ritmo da caminhada. Do outro lado da rua, uma loja exibia caixas de som tocando músicas natalinas. Algumas crianças dançavam perto da vitrine sob o olhar divertido dos pais. Henry observou a cena por alguns segundos, então uma frase atravessou seus pensamentos: Talvez eu esteja quebrado. Ele franziu levemente a testa, e outra surgiu logo em seguida: Talvez eu esteja com medo.

As palavras não pareciam mais apenas versos; pareciam uma confissão, uma que centenas de pessoas ouviriam na noite seguinte. Henry soltou um suspiro longo. A neve continuava caindo lentamente ao seu redor, mas, pela primeira vez desde o ensaio, a ansiedade não veio sozinha. Havia outra coisa misturada a ela: expectativa, uma pequena e quase imperceptível esperança. Como se parte dele quisesse acreditar que Olivia estivesse certa — que talvez a música fosse suficiente, que talvez sua voz pudesse alcançar alguém, mesmo que fosse apenas uma pessoa.

Na mesma hora, do outro lado da cidade, Noah Klaus atravessava o hall principal da mansão depois de retornar da arena. O silêncio familiar o recebeu imediatamente: nenhum som além do crepitar distante da lareira, nenhuma conversa, nenhuma surpresa, apenas a rotina habitual. Ele subiu para o quarto sem pressa. A sessão de treino ainda ocupava parte de seus pensamentos, assim como as palavras de Hayes: a cobrança, a expectativa, a responsabilidade — tudo aquilo já era tão constante que quase parecia parte da mobília de sua vida.

Depois de trocar de roupa, Noah aproximou-se da janela. A neve cobria os jardins perfeitamente alinhados da propriedade, e as luzes externas refletiam sobre o branco acumulado, criando uma paesagem impecável, bonita, organizada, controlada, exatamente como tudo que cercava o sobrenome Klaus.

Por alguns segundos, ele permaneceu observando o lado de fora. Então, sem qualquer motivo aparente, uma imagem atravessou seus pensamentos: cabelos loiros, olhos claros, a expressão nervosa no corredor, a figura sentada ao lado de Ethan no refeitório. Noah soltou um breve suspiro. Aquilo de novo. Nem sequer sabia o nome do garoto; não fazia parte do seu círculo social, não jogava hóquei, não frequentava os mesmos ambientes, provavelmente não tinham nada em comum. Ainda assim, a lembrança insistia em retornar: incomodamente, silenciosamente, como uma música que alguém ouve apenas uma vez e continua recordando sem entender por quê.

Noah afastou-se da janela, irritado consigo mesmo. Era ridículo. Havia coisas mais importantes para pensar: o campeonato, o baile, as expectativas do treinador, a visita do olheiro estadual — qualquer coisa. Mas, enquanto apagava as luzes do quarto e se preparava para encerrar a noite, uma última constatação atravessou seus pensamentos: pela primeira vez desde que o vira na escola, ele percebeu que já não pensava naquele garoto como "o amigo de Ethan". Agora era apenas o garoto loiro, e, por algum motivo que não conseguia explicar, isso parecia uma diferença importante.

O domingo amanheceu sob um céu limpo. Depois de dias de neve constante, Avatar Valley parecia ter despertado envolta por uma claridade quase cristalina. A luz do sol refletia sobre os telhados brancos e transformava las ruas em caminhos reluzentes que conduziam naturalmente ao centro da cidade, onde os preparativos para o Festival de Inverno já começavam a movimentar moradores, comerciantes e visitantes. Em praticamente todas as casas, a manhã carregava uma sensação de expectativa, mas nem toda expectativa possuía o mesmo sabor.

Na Mansão Klaus, o silêncio continuava sendo o idioma predominante. Noah desceu para o café da manhã encontrando a mesa já posta com a precisão habitual. Tudo parecia cuidadosamente calculado: a disposição dos talheres, a temperatura das bebidas, as flores discretas próximas à janela. Melissa estava sentada em seu lugar de sempre: elegante, impecável, lendo um jornal enquanto tomava chá.

— Bom dia — disse ela sem levantar os olhos imediatamente.

— Bom dia — respondeu Noah.

A conversa poderia ter terminado ali, e muitas vezes terminava. Noah serviu-se de café e ocupou a cadeira à frente da mãe. Por alguns instantes, o único som presente foi o leve tilintar da porcelana.

— Seu terno já foi separado — comentou Melissa.

— Certo.

— A gravata azul-marinho combina melhor com a decoração deste ano.

Noah assentiu.

— Certo.

Melissa finalmente ergueu os olhos do jornal.

— Kate confirmou presença?

— Sim.

— Ótimo.

Ela voltou a folhear as páginas, como se estivesse apenas revisando uma agenda, como se aquela noite fosse mais uma obrigação administrativa. Talvez fosse exatamente assim que ela enxergasse o evento.

— Haverá muita gente importante lá hoje — acrescentou Melissa.

— Eu imaginei.

— Algumas dessas pessoas podem influenciar diretamente seu futuro.

Noah permaneceu em silêncio, não porque discordasse, mas porque já ouvira aquilo inúmeras vezes: de Melissa, de Hayes, de James, de praticamente todos os adultos que faziam parte de sua vida. O futuro, as oportunidades, as expectativas — palavras diferentes para o mesmo peso. Melissa observou o filho durante alguns segundos.

— Você está nervoso?

A pergunta pareceu surpreendê-lo, porque ela raramente fazia perguntas daquele tipo.

— Não.

Ela sustentou o olhar, como se tentasse decidir se acreditava ou não, então apenas assentiu.

— Eu sei.

E foi só isso. Nenhum abraço, nenhuma tentativa de tranquilizá-lo, nenhuma conversa emocional. Não porque Melissa não se importasse, mas porque, em seu world, confiança era demonstrada de outra forma: ela acreditava que Noah seria capaz, e, para ela, isso bastava.

Do outro lado da cidade, a manhã era muito mais barulhenta — e muito mais quente. A cozinha dos Dawson estava tomada pelo aroma de café fresco, pão assando e chocolate quente. Emily ocupava seu lugar habitual de agente do caos; a menina corria pela sala usando meias grossas que escorregavam no piso enquanto narrava alguma aventura incompreensível envolvendo um boneco de neve e um pinguim.

Henry mal conseguia acompanhar a história, estava nervoso demais. Sentado à mesa, girava a colher dentro da caneca sem realmente beber nada. Sarah observava tudo em silêncio. Ela reconhecia os sinais: as mãos inquietas, os ombros tensos, o olhar distante. Depois de alguns minutos, sentou-se ao lado dele.

— Você precisa comer alguma coisa.

— Eu sei.

— Henry.

— Eu estou tentando — desabafou o jovem.

Sarah sorriu de leve. Era uma resposta muito típica dele: tentando, sempre tentando. Ela apoiou uma das mãos sobre a dele.

— Quer saber um segredo?

Henry ergueu os olhos.

— Claro.

— Eu também estou nervosa — confessou Sarah.

Ele piscou.

— Você?

— Muito.

A confissão arrancou um sorriso involuntário do rapaz.

— Isso não ajuda.

— Não era para ajudar — ela apertou suavemente sua mão. — Era para você lembrar que não precisa enfrentar tudo sozinho.

O sorriso de Henry vacilou, porque aquelas palavras atingiram exatamente o centro de sua ansiedade. Sarah continuou:

— Você não precisa ser perfeito hoje.

— A Olivia disse a mesma coisa.

— Porque ela é inteligente.

Henry soltou uma risada breve, la primeira da manhã.

— Eu estou com medo de errar.

— Eu sei.

— E se eu esquecer a letra?

— Você não vai esquecer.

— E se esquecer?

— Então continua cantando.

— E se minha voz falhar?

— Então você respira e continua.

Henry baixou os olhos. Sarah levantou delicadamente seu queixo.

— Filho.

Ele voltou a encará-la.

— Não existe nada que você possa fazer naquele palco que me faça sentir menos orgulho de você.

O silêncio que se seguiu foi pequeno, mas poderoso, porque Henry acreditou nela completamente.

Pouco depois do almoço, uma batida surgiu na porta da frente. Emily correu imediatamente para atender ou, pelo menos, tentou: David a interceptou antes que alcançasse a maçaneta. Quando a porta finalmente se abriu, Ethan apareceu do lado de fora usando um casaco escuro e uma expressão que oscilava entre nervosismo e determinação.

— Oi.

— Oi — respondeu Henry, aproximando-se.

Por um instante, os dois apenas se encararam, como se cada um estivesse tentando avaliar o nível de ansiedade do outro. A conclusão parecia óbvia: nenhum dos dois estava particularmente bem.

— Pronto para hoje? — perguntou Ethan.

Henry soltou uma risada sem humor.

— Nem um pouco.

— Ótimo — comemorou o amigo.

— Ótimo?

— Significa que não sou o único.

Aquilo arrancou uma risada genuína, e Ethan pareceu satisfeito.

— A Olivia mandou uma mensagem no grupo.

— Eu vi.

— Ela escreveu três parágrafos inteiros tentando convencer todo mundo a não entrar em pânico.

— E funcionou? — quis saber Henry.

— Não.

Os dois começaram a rir. Dentro da casa, Sarah observou a cena em silêncio e sorriu, porque, pela primeira vez em muito tempo, Henry não parecia estar carregando tudo sozinho.

Lá fora, a cidade continuava se preparando para o Festival de Inverno, e, sem que qualquer um dos dois soubesse, cada minuto que passava os aproximava do momento que mudaria o rumo daquela história.

— Minha gravata está torta.

— Está aceitável.

— Isso não foi um elogio.

— Foi o melhor que você vai receber.

Owen soltou uma risada.

— Você sabe que metade da escola já acha que estamos juntos, certo?

Clara quase tropeçou.

— Não começa.

— Eu só estou dizendo.

— Você está dizendo para me irritar — acusou ela.

— Também — admitiu o rapaz.

— Owen.

— Clara.

— Eu consigo te empurrar na neve.

— Mas aí você vai ficar sem companhia.

Ela abriu a boca para responder, mas acabou rindo. Os dois atravessaram a entrada principal ainda discutindo enquanto desapareciam entre os convidados.

Poucos minutos depois, outro veículo estacionou diante do salão. Desta vez, a reação foi diferente: mais silenciosa, mais imediata. As pessoas começaram a observar — não de maneira óbvia, mas observavam —, porque Noah Klaus acabara de chegar. Vestindo um terno escuro perfeitamente ajustado, ele desceu do carro com a mesma postura controlada que mantinha em qualquer situação. Não parecia impressionado pela decoração, não parecia animado com o evento; parecia apenas alguém cumprindo uma obrigação.

Ao seu lado, Kate Montgomery surgiu logo em seguida. Diferente de Noah, Kate parecia ter sido feita para ambientes como aquele: elegante, confiante, impecável. Algumas pessoas cumprimentaram os dois antes mesmo de alcançarem a entrada; outras apenas acompanharam sua passagem com olhares discretos. Noah respondeu aos cumprimentos com educação automática. Kate fez o mesmo, mas com muito mais naturalidade, afinal, ela gostava daquele tipo de ambiente, enquanto Noah apenas existia dentro dele.

— Tente parecer feliz pelo menos uma vez esta noite — comentou Kate enquanto atravessavam o saguão principal.

— Estou parecendo.

— Não está.

— Estou.

— Noah.

— Kate.

Ela revirou os olhos.

— Impressionante.

— Obrigado.

— Não foi um elogio.

— Eu sei.

Kate suspirou; algumas coisas jamais mudavam.

Enquanto isso, dentro do salão principal, a elite de Avatar Valley ocupava gradualmente suas mesas: políticos locais, empresários, diretores escolares, membros do conselho da cidade, famílias influentes. Todos estavam reunidos sob os enormes lustres de cristal que transformavam o ambiente em uma versão ainda mais luxuosa da própria cidade. Conversas cuidadosamente educadas aconteciam por toda parte: sorrisos calculados, cumprimentos ensaiados e uma quantidade impressionante de pessoas tentando parecer mais importantes do que realmente eram.

Nos bastidores, porém, a realidade era muito diferente. A sala de música reservada temporariamente para os camarins do coral estava tomada por nervosismo. Alunos ajustavam as próprias roupas, conferiam partituras, respiravam fundo, falavam mais rápido do que o normal e tentavam convencer a si mesmos de que estavam preparados. Henry Dawson fazia exatamente o mesmo. Vestido com a túnica oficial da apresentação, ele observava o movimento ao redor enquanto tentava ignorar o próprio coração, mas não estava funcionando. Ao seu lado, Ethan parecia enfrentar uma batalha semelhante.

— Acho que meu estômago desistiu de funcionar — comentou Ethan.

— O meu desapareceu completamente — confessou Henry.

— Ótimo.

— Ótimo.

Os dois trocaram um olhar e acabaram rindo — nervosamente, mas rindo. A porta lateral se abriu poucos minutos depois; Clara apareceu primeiro, com Owen logo atrás.

— Viemos verificar se vocês ainda estão vivos — anunciou Clara.

— Infelizmente estamos — respondeu Henry.

— Excelente — ela aproximou-se imediatamente. — Como está o nível de pânico?

— Sete.

— Mentira — rebateu Clara.

— Nove.

— Agora acredito.

Owen sorriu.

— Para ser justo, o salão está lotado.

— Isso não ajuda — respondeu Ethan.

— Eu sei.

— Então por que falou?

— Porque achei engraçado.

Henry balançou a cabeça. Era impossível não se sentir um pouco melhor quando aqueles dois estavam por perto, mesmo que tentassem ajudar da pior maneira possível. Pouco depois, uma monitora apareceu para informar que os convidados precisavam retornar aos seus lugares. Clara abraçou Henry rapidamente, depois Ethan.

— Vocês vão arrasar — declarou ela.

— Não prometemos nada — respondeu Henry.

— Eu prometo por vocês.

— Clara...

— Boa sorte!

Owen deu um leve toque no ombro dos dois.

— Nos vemos lá fora.

Eles partiram, o silêncio retornou gradualmente e, junto com ele, a ansiedade. Henry observou a porta se fechar, respirou fundo e tentou controlar o coração, os pensamentos, tudo. Foi então que uma voz familiar atravessou o ambiente:

— Coral.

Todos se voltaram imediatamente. A professora Olivia Bennett estava parada próxima à entrada: serena, segura, exatamente como sempre. Seu olhar percorreu cada aluno antes de pousar em Henry por um breve instante. Não havia preocupação em seu rosto, nem dúvida, apenas confiança.

— Está na hora.

O murmúrio cessou, as conversas desapareceram e os integrantes do coral começaram a se mover em direção às posições marcadas, um a um, em silêncio. Henry sentiu o estômago apertar, enquanto Ethan inspirou profundamente ao seu lado. Além da enorme cortina de veludo, o som distante da multidão preenchia o salão. Centenas de pessoas aguardavam, talvez mais. Olivia posicionou-se próxima à entrada do palco, então sorriu — um sorriso pequeno, calmo, tranquilizador.

— Lembrem-se do que ensaiamos.

Ninguém respondeu, mas todos entenderam. Henry ajustou a própria postura, respirou mais uma vez e seguiu os demais. A poucos metros dali, separados apenas pela cortina fechada, estavam os habitantes de Avatar Valley, sem saber que estavam prestes a ouvir uma voz capaz de mudar muito mais do que apenas aquela noite.

O som discreto dos mecanismos movimentando as cortinas ecoou pelos bastidores. Por um instante, Henry teve a impressão de que seu coração acompanhava aquele mesmo movimento: lento, pesado, impossível de ignorar. Então as cortinas começaram a se abrir, a luz do salão invadiu o palco e Avatar Valley surgiu diante dele.

O espaço parecia ainda maior do que durante os ensaios. Centenas de pessoas ocupavam as mesas espalhadas pelo enorme salão decorado para o Festival de Inverno, cuja data marcava o ápice das festividades no dia 22 de dezembro. Lustres de cristal refletiam a iluminação dourada sobre vestidos elegantes, ternos impecáveis e taças erguidas durante conversas que continuavam acontecendo apesar do início da apresentação. Ninguém estava sendo mal-educado, mas também ninguém parecia particularmente interessado. Para boa parte dos convidados, o coral era apenas mais uma etapa do protocolo da noite: uma formalidade, um fundo musical elegante antes do baile realmente começar.

Henry sentiu o estômago afundar, e ao seu lado, Ethan permanecia imóvel, igualmente tenso. Na primeira fileira, membros do conselho escolar conversavam em voz baixa; mais ao fundo, empresários trocavam cumprimentos. Algumas pessoas sequer olhavam para o palco.

A professora Olivia Bennett caminhou até sua posição diante do coral. Seu olhar encontrou o de Henry apenas por um segundo, mas foi suficiente. Respire, era o que aquele olhar dizia, apenas respire. Henry inspirou profundamente, abaixou os ombros e tentou ignorar a multidão, o medo e o fato de que aquela música era mais pessoal do que qualquer coisa que já havia mostrado para alguém.

Então Olivia ergueu as mãos. O primeiro acorde do piano atravessou o salão — suave, melancólico, familiar —, e Henry abriu a boca para cantar.

Eu caminho por corredores lotados como um fantasma que ninguém vê...

A primeira frase saiu mais frágil do que ele gostaria. O nervosismo estava ali, presente em cada músculo, em cada respiração, mas a voz permaneceu firme.

Todos os rostos estão indo pra algum lugar, enquanto eu me perco nos meus sonhos...

Poucas pessoas levantaram os olhos; a maioria continuava ocupada demais com as próprias conversas. Henry tentou não perceber e continuou:

Eles falam do amanhã sorrindo, como se soubessem onde pertencem...

A melodia avançava lentamente, construindo algo, camada por camada.

— Eu venho aprendendo a desaparecer há tanto tempo...

O coral entrou logo depois. As vozes dos demais estudantes preencheram o espaço atrás da melodia principal como uma corrente suave sustentando cada palavra. Foi nesse momento que algumas conversas começaram a diminuir — não completamente, mas o suficiente. Uma mesa próxima ao palco interrompeu uma discussão, outra reduziu o tom de voz e alguns convidados finalmente voltaram a atenção para o garoto loiro parado no centro do coral. Henry não percebeu, ou pelo menos tentou não perceber, e continuou cantando, porque parar seria pior, muito pior.

E toda noite eu construo um mundo atrás dos meus olhos...

A voz ganhou estabilidade, confiança, força.

Um lugar onde não preciso me esconder...

Algo mudou, não de forma brusca, mas mudou: o salão começou a escutar de verdade. As pessoas não estavam reagindo apenas à técnica, nem apenas à melodia; estavam reagindo à honestidade, porque havia algo dolorosamente real naquelas palavras, algo impossível de fingir. Entre as mesas mais próximas, os murmúrios cessaram, os celulares foram abaixados e as taças permaneceram esquecidas sobre as mesas. E então chegou o refrão.

Entre as notas...

O coral sustentou a harmonia.

Entre o som...

Henry sentiu o próprio coração acelerar.

Existe uma versão de mim...

Sua voz ecoou pelo salão, mais forte agora, mais segura.

Que eu nunca encontrei...

O silêncio cresceu.

Em algum lugar o barulho não consegue me despedaçar... Em algum lugar minha voz é mais forte que meu coração...

E então aconteceu: o salão inteiro ficou em silêncio. Não um silêncio educado, não um silêncio protocolar, mas um silêncio absoluto, daqueles que só surgem quando ninguém quer perder a próxima palavra. Nos bastidores, alguns alunos observavam sem acreditar; na primeira fila, membros da diretoria escolar permaneciam imóveis; mais atrás, famílias inteiras acompanhavam a apresentação sem desviar os olhos. Até mesmo Tyler Reed havia parado de conversar, e aquilo talvez fosse o sinal mais impressionante de todos.

Perto de uma das colunas laterais do salão, Noah Klaus permanecia imóvel. Ele não havia prestado muita atenção no início, não por desinteresse, apenas porque não esperava nada. Corais escolares eram corais escolares, eventos eram eventos, e tudo seguiu roteiros previsíveis. Então a música começou, e algo saiu do roteiro: primeiro foi a voz, depois as palavras, depois a forma como ambas pareciam impossíveis de separar. Noah não sabia exatamente quando passou a prestar atenção; só percebeu que estava ouvindo de verdade. O copo de ponche continuava esquecido em sua mão. Kate Montgomery dizia alguma coisa ao seu lado, mas ele não ouviu. Tyler Reed riu de algum comentário, e ele também não ouviu. Pela primeira vez naquela noite, nada ao redor parecia importante — apenas aquela voz, apenas aquela música, apenas aquele garoto. Não, não exatamente. Porque, pela primeira vez, Noah não estava olhando para "o garoto loiro", não estava olhando para o aluno que ajudara Ethan e não estava olhando para alguém que apareecera por acaso em seus pensamentos durante a semana. Estava olhando para uma pessoa: alguém com medos, sonhos, inseguranças; alguém que tinha coragem suficiente para subir naquele palco e mostrar partes de si que a maioria das pessoas passava a vida inteira escondendo. Algo dentro dele reconheceu isso antes mesmo que sua mente encontrasse palavras.

Henry continuava cantando:

O inverno pinta as janelas...

O salão permanecia completamente imóvel.

E a neve engole as ruas...

Noah não desviava os olhos.

— Todo mundo parece conectado a um ritmo que eu não consigo acompanhar... Então eu carrego todas as minhas perguntas como pedras sob a minha pele...

E pela primeira vez em muito tempo, Noah sentiu algo próximo da identificação. Não porque suas vidas fossem parecidas, porque não eram, mas porque entendia o peso de carregar expectativas, entendia a sensação de interpretar um papel e entendia o cansaço de nunca mostrar determinadas partes de si mesmo.

O refrão retornou mais forte, mais intenso, mais verdadeiro:

Porque quando eu canto...

Henry fechou os olhos por um breve instante.

O peso que eu carrego vai embora...

O salão parecia respirar junto com ele.

E por um momento eu não me sinto sozinho...

Noah sentiu algo estranho apertar seu peito, uma sensação incômoda, desconhecida, dificílima de explicar. Porque, pela primeira vez naquela semana, não estava tentando lembrar quem era aquele garoto; agora ele queria saber, queria entender, queria descobrir por que alguém que nunca havia dirigido uma palavra a ele conseguia ocupar tanto espaço em seus pensamentos. E essa percepção era muito mais perigosa do que qualquer coisa que Noah estava disposto a admitir.

A música continuou avançando. Cada nota parecia conduzir Henry mais para dentro de si mesmo. Em algum momento durante a apresentação, o medo inicial havia desaparecido — não completamente, ainda estava ali, escondido sob a pele, mas já não controlava sua voz como antes. Agora existia apenas a música, as palavras e a história que ele carregara sozinho durante anos. O salão permanecia mergulhado em um silêncio absoluto. Ninguém conversava, ninguém olhava para o celular, ninguém parecia disposto a interromper aquele momento. Até mesmo os funcionários responsáveis pelo serviço haviam parado discretamente próximos às paredes. A atenção de Avatar Valley estava voltada para o palco — e para Henry Dawson. A consciência disso deveria assustá-lo, mas, estranhamente, não assustava. Porque, pela primeira vez in muito tempo, ele não sentia que estava sendo observado; sentia que estava sendo ouvido.

A melodia avançou para a parte final: mais suave, mais íntima, mais perigosa, porque agora não havia mais onde se esconder. Sua voz ecoou pelo auditório:

Talvez eu esteja quebrado...

O piano recuou, e as harmonias do coral tornaram-se mais delicadas, quase imperceptíveis, deixando Henry sozinho diante daquelas palavras. Ele engoliu em seco, porque aquela frase não era apenas um verso; era uma dúvida que carregava havia anos.

Talvez eu esteja com medo...

A voz saiu mais baixa, mais vulnerável, mais verdadeira. O salão parecia prender a respiração.

Talvez eu esteja cansado... De fingir que estou preparado...

Durante um segundo, sua mente foi invadida por lembranças: os corredores da escola, os comentários sussurrados, as vezes em que permaneceu calado para evitar problemas, as vezes em que tentou parecer forte, as vezes em que tentou parecer invisível, as vezes em que acreditou que seria mais fácil desaparecer. A música carregava tudo aquilo. E agora centenas de pessoas estavam ouvindo — sem saber, sem compreender totalmente, mas ouvindo.

O piano iniciou a transição para o trecho final. A melodia começou a crescer novamente, lentamente, como uma chama recuperando força depois de quase apagar. Henry sentiu os olhos arderem, mas continuou:

— Mas existe uma luz escondida lá fundo... Em cada melodia que me conduz...

O coral retornou com mais intensidade, e as harmonias envolveram a melodia principal, sustentando cada palavra, elevando cada emoção.

Entre as notas...

A professora Olivia Bennett continuava à sua frente. Os movimentos das mãos eram precisos, calmos, seguros, exatamente como haviam sido durante todos os ensaios.

Entre o som...

Henry encontrou o olhar dela e viu a mesma coisa de sempre: confiança. Não expectativa, não cobrança; confiança, como se ela já soubesse que ele conseguiria, como se nunca tivesse duvidado.

Eu quase consigo ver quem eu sou agora...

Algo mudou dentro dele naquele instante: uma espécie de coragem silenciosa, pequena, mas real. Pela primeira vez durante toda a apresentação, seus olhos deixaram Olivia. Foi um movimento involuntário, natural, quase instintivo. Seu olhar atravessou o salão, passou pelas primeiras mesas, pelos lustres, pelas fileiras de convidados... e então encontrou alguém observando-o: Noah Klaus.

Henry não sabia exatamente por que seus olhos pararam ali. Talvez porque Noah estivesse imóvel, talvez porque fosse uma das poucas pessoas que não pareciam distraídas, talvez porque existisse alguma coisa naquela expressão que o fez hesitar. Por um breve instante, o mundo pareceu diminuir: o salão desapareceu, o coral desapareceu, a multidão desapareceu. Existiam apenas aqueles olhos escuros, fixos nele — sem deboche, sem julgamento, sem indiferença —, apenas atenção pura, completa. Henry sentiu o ar prender em seus pulmões. Foi apenas um segundo, talvez menos, mas algo aconteceu naquele segundo: algo silencioso, impossível de explicar. Noah também não desviou o olhar; permaneceu imóvel, completamente imóvel, como se tivesse esquecido onde estava, como se tivesse esquecido o treinador, Kate, Tyler, o festival, o baile, tudo. Apenas observando, apenas ouvindo, apenas tentando compreender por que aquele garoto ocupava espaço demais dentro da sua cabeça.

Henry voltou a respirar e cantou as últimas linhas:

Em algum lugar o medo finalmente vai embora...

Sua voz elevou-se pelo salão, segura, livre, mais forte do que em qualquer momento da apresentação.

Em algum lugar dentro de mim... Eu estou aprendendo a crescer...

Olivia conduziu a última progressão musical, e o coral sustentou as notas finais. Henry fechou os olhos, sentindo a música atravessá-lo.

E quando eu canto... A escuridão desacelera...

Sua voz tornou-se quase um sussurro, mas um sussurro que alcançou cada canto daquele auditório.

E por um momento...

O piano reduziu-se a poucas notas. O coral desapareceu lentamente, deixando apenas ele, apenas sua voz, apenas sua verdade.

Eu consigo finalmente respirar...

A última nota permaneceu suspensa no ar — vibrando, ecoando, sobrevivendo por mais alguns segundos —, então desapareceu. O piano silenciou, o coral silenciou, o salão silenciou. Tudo silenciou.

Henry abriu os olhos. O coração disparou imediatamente. Ninguém se moveu, ninguém falou, ninguém aplaudiu. Um segundo, dos, três... pareceu uma eternidade. O sangue desapareceu de seu rosto e o pânico voltou com violência. A mente começou a correr, rápida demais: Eu estraguei tudo. A letra ficou ruim. Eu desafinei. Eles odiaram. Meu Deus, eu estraguei tudo. Ao seu lado, Ethan permaneceu imóvel, tão assustado quanto ele. O silêncio continuava pesado, insuportável. Henry voltou a sentir vontade de desaparecer, de sair correndo, de voltar para trás da cortina, de nunca mais subir em um palco.

Então aconteceu: uma palma, sozinha, forte, clara. Logo depois outra: Owen. Então mais uma, e mais outra, e outra, e outra... como uma avalanche, como uma barragem rompendo. O salão inteiro explodiu. O som foi ensurdecedor. Centenas de pessoas levantaram-se ao mesmo tempo. Os aplausos ecoaram pelas paredes: palmas, assobios, gritos, elogios. Uma onda gigantesca de admiração atravessou o auditório. Henry ficou imóvel, sem conseguir acreditar. As pernas pareciam incapazes de se mover. Ao seu lado, Ethan começou a rir de puro alívio. Alguns integrantes do coral choravam, outros se abraçavam. A professora Olivia levou uma das mãos à boca, visivelmente emocionada. E no meio daquela explosão de aplausos, Henry voltou os olhos para o salão uma última vez, encontrando Noah novamente. O capitão do time permanecia parado, imóvel, sem sequer perceber os aplausos ao redor. Os olhos escuros continuavam presos nele, como se o restante do mundo tivesse deixado de existir. E pela primeira vez desde que chegara ao Festival de Inverno, Noah Klaus não parecia alguém que tinha todas as respostas; parecia alguém que acabara de encontrar uma pergunta.

Por alguns segundos após o fim dos aplausos, Henry continuou parado no centro do palco. O som parecia vir de muito longe, como se estivesse acontecendo com outra pessoa, como se aquilo não pudesse estar relacionado a ele. As luzes continuavam incidindo sobre seu rosto e as pessoas permaneciam de pé, aplaudindo, sorrindo, algumas até enxugavam discretamente os olhos, mas Henry simplesmente não conseguia compreender. Seu cérebro pareceu incapaz de acompanhar o que estava acontecendo, porque durante aqueles segundos de silêncio após a última nota, ele realmente acreditara que tinha fracassado — e a sensação ainda não havia desaparecido completamente.

Ao seu lado, Ethan foi o primeiro a recuperar a capacidade de reagir.

— Meu Deus... — murmurou.

Henry virou o rosto. Ethan estava sorrindo um sorriso enorme, tão genuíno que parecia impossível contê-lo.

— Henry... — sua voz falhou, e ele soltou uma risada nervosa, depois outra. — Henry, eles estão de pé.

Só então Henry percebeu de verdade. Não eram apenas alguns aplausos educados: metade do salão havia se levantado, talvez mais. O som das palmas continuava ecoando por todo o auditório. A professora Olivia aproximou-se lentamente. Os olhos brilhavam; havia orgulho ali, mas não surpresa. Aquilo chamou a atenção de Henry, porque Olivia parecia emocionada, porém não parecia surpresa, como se aquele resultado fosse exatamente o que ela esperava desde o início.

— Eu disse que eles precisavam ouvir você — falou suavemente.

Henry sentiu a garganta apertar e não conseguiu responder. Olivia apenas sorriu, então segurou seu ombro por um instante — um gesto simples, mas suficiente para transmitir tudo aquilo que não precisava ser dito: Você conseguiu.

Nos bastidores, os demais integrantes do coral já começavam a se abraçar. Alguns comemoravam, outros falavam ao mesmo tempo, e o nervosismo acumulado durante semanas finalmente se dissipava. Henry foi conduzido para trás da cortina praticamente sem perceber — ainda atordoado, ainda tentando entender, ainda tentando acreditar. Foi apenas quando alcançou os bastidores que duas figuras surgiram quase correndo em sua direção: Clara e Owen.

— VOCÊ ESTÁ BRINCANDO COM A MINHA CARA! — gritou Clara.

Henry mal teve tempo de reagir; ela já estava abraçando-o.

— Clara...

— Não!

— O quê?

— Não fala nada!

— Mas...

— Não fala nada porque eu ainda estou tentando decidir se te abraço de novo ou se te dou um soco por quase me fazer chorar.

Henry finalmente riu, a primeira risada verdadeira desde que saíra ao palco. Owen chegou logo depois, menos dramático, mas apenas um pouco.

— Foi incrível.

Henry balançou a cabeça.

— Eu achei que tinha estragado tudo.

— Você é um idiota.

— Owen.

— Estou sendo sincero.

Ethan começou a rir ao lado deles.

— Eu falei.

— Você também achou que tinha dado errado — respondeu Henry.

— Claro que achei.

— Então por que está me julgando?

— Porque agora eu sei que eu estava errado.

Aquilo arrancou mais algumas risadas. Pela primeira vez naquela noite, Henry sentiu o peso da ansiedade diminuir — talvez não completamente, mas o suficiente.

Do lado de fora, porém, a apresentação continuava criando efeitos. O salão inteiro parecia ter encontrado um novo assunto, e conversas surgiam em praticamente todas as mesas. Algumas pessoas comentavam a composição, outras elogiavam a voz, outras perguntavam quem era o garoto que havia cantado.

— Aquela música era original?

— Acho que sim.

— Foi escrita por ele?

— Impressionante.

— Qual era o nome dele mesmo?

— Não faço ideia.

— Dawson.

— Acho que era Dawson.

A notícia espalhava-se rapidamente, como tudo em Avatar Valley. Perto de uma das colunas laterais, Noah permanecia onde estava, mas algo havia mudado. Kate percebeu quase imediatamente. Ela conhecia Noah havia anos, talvez melhor do que qualquer pessoa fora de sua família. Conhecia seus silêncios, seus hábitos, sua forma de observar o mundo e, principalmente, conhecia sua indiferença. Por isso percebeu quando ela desapareceu.

— Noah.

Ele não respondeu. Continuava olhando na direção do palco.

— Noah.

Desta vez ele piscou, como alguém despertando de um pensamento distante.

— Hm?

Kate estreitou os olhos.

— Você está me ouvindo?

— Estou.

— Mentira.

Noah não respondeu. Kate seguiu seu olhar em direção aos bastidores. A compreensão surgiu lentamente, e ela não gostou dela, nem um pouco.

— É por causa do cantor?

Aquilo finalmente trouxe a atenção dele de volta, por apenas um segundo, mas trouxe. Kate percebeu, e isso foi suficiente, porque Noah nunca reagia tão rapidamente. Nunca.

— Ele canta bem — respondeu.

Uma resposta simples, neutra, controlada. Mas Kate conhecia Noah há tempo suficiente para reconhecer quando ele estava escolhendo cuidadosamente as palavras, e aquilo a incomodou.

Enquanto isso, do outro lado do salão, Tyler Reed observava tudo. Primeiro observou Noah, depois a direção para onde ele olhava, depois Noah novamente. Um sorriso lento surgiu em seu rosto — o mesmo sorriso problemático que costumava aparecer sempre que percebia algo interessante, ou perigoso.

— Ah... — murmurou.

Agora começava a entender. Tyler Reed apoiou um braço sobre o encosto da cadeira mais próxima, sem desviar os olhos: analisando, conectando peças. Ainda não tinha certeza de nada, mas conhecia Noah desde a infância e sabia reconhecer quando alguma coisa chamava sua atenção, o que era raro, muito raro. Foi então que ouviu uma conversa acontecendo na mesa ao lado.

— A professora Bennett estava certa sobre ele.

— Sobre quem?

— Henry Dawson.

— O garoto do coral.

— Sim.

— Aquele loiro?

— Isso.

— Henry Dawson.

O nome circulou naturalmente pela conversa: sem importância, sem destaque, apenas um nome. Mas, alguns metros adiante, Noah ouviu, e algo dentro dele imediatamente registrou a informação: Henry Dawson. O nome repetiu-se em sua mente: Henry. Dawson. De repente, aquele rosto deixou de ser apenas uma lembrança, deixou de ser apenas o garoto que ajudara Ethan, deixou de ser apenas a voz que havia paralisado um salão inteiro. Agora tinha um nome. E, estranhamente, isso tornava tudo mais real, mais próximo, mais difícil de ignorar. Noah voltou os olhos para a área dos bastidores, sem perceber que fazia isso, sem perceber que já procurava novamente pela mesma pessoa: Henry Dawson. Pela primeira vez, o nome parecia encaixar perfeitamente na memória que ele vinha carregando durante dias. E, pela primeira vez desde o início daquela semana, Noah percebeu que talvez o problema não fosse não entender por que continuava pensando naquele garoto; talvez o problema fosse começar a entender.

Os aplausos continuaram ecoando pelo salão mesmo depois que a professora Olivia Bennett sinalizou para que o coral deixasse o palco. Henry mal conseguia processar o que estava acontecendo; tudo parecia distante: as luzes, as pessoas em pé, o som das palmas, as expressões admiradas espalhadas pela plateia. Seu coração ainda batia rápido demais, preso entre o alívio e a incredulidade. Durante alguns segundos ele apenas seguiu os demais integrantes do coral para os bastidores, movendo-se quase no automático. Ao seu lado, Ethan parecia tão abalado quanto ele, ou talvez mais. Assim que atravessaram as cortinas, Ethan soltou uma risada nervosa.

— Meu Deus.

Henry virou o rosto.

— O quê?

— Você ouviu aquilo?

— Ouvi o quê?

Ethan apontou para trás. Os aplausos ainda podiam ser escutados: fortes, constantes, reais.

— Isso.

Henry abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. Porque, pela primeira vez, ele estava começando a acreditar que aquilo realmente tinha acontecido.

A professora Olivia Bennett aproximou-se poucos segundos depois. Os demais alunos do coral já conversavam entre si, ainda eufóricos pela apresentação, mas Olivia caminhou diretamente até Henry. Os olhos dela brilhavam — não de surpresa, de orgulho —, como alguém que havia enxergado aquele momento muito antes de todo mundo.

— Eu avisei.

Henry soltou uma risada fraca.

— Eu quase desmaiei.

— Quase.

— Em vários momentos.

— E mesmo assim você continuou — ela apoiou uma das mãos em seu ombro. — Estou muito orgulhosa de você.

Henry sentiu algo apertar dentro do peito, talvez porque Olivia nunca utilizasse elogios com facilidade, talvez porque ela tivesse acreditado nele desde o início, talvez porque aquelas palavras significassem mais do que qualquer aplauso.

— Obrigado.

A professora sorriu.

— Não agradeça a mim — ela fez um pequeno gesto em direção ao palco. — Agradeça a si mesmo.

Antes que Henry pudesse responder, uma voz conhecida atravessou os bastidores.

— Aí está ele!

Clara, naturalmente. Ela praticamente surgiu correndo, com Owen vindo logo atrás, mais tranquilo, mas sorrindo.

— Você foi um absurdo! — declarou Clara.

— Clara...

— Não. Eu me recuso a ser racional neste momento — ela segurou os dois lados do rosto dele. — Você simplesmente parou o salão inteiro.

Henry ficou vermelho imediatamente.

— Não foi tudo isso.

— Foi exatamente tudo isso.

— Clara...

— Não discuta comigo.

— Ela está certa — disse Owen.

Henry olhou para ele. Owen deu de ombros.

— Eu vi empresários largando o celular.

— Isso é praticamente um milagre — acrescentou Ethan.

As risadas surgiram imediatamente, e a tensão começou a desaparecer pouco a pouco, como neve derretendo sob a luz. Pela primeira vez naquela noite, Henry conseguiu respirar sem sentir o peso da ansiedade esmagando seu peito.

Do outro lado do salão, o baile continuava: as apresentações seguiam, os garçons circulavam entre as mesas e as conversas retornavam gradualmente, mas havia um assunto novo percorrendo Avatar Valley: o garoto que cantou, o garoto da música, o garoto chamado Henry Dawson.

Noah permanecia próximo à mesma coluna. Kate Montgomery conversava com algumas pessoas da diretoria escolar e Tyler Reed falava alto com os outros jogadores, mas Noah já não prestava atenção em nenhum deles. Seu olhar encontrou novamente a movimentação próxima aos bastidores. Mesmo à distância, mesmo sem conseguir ouvir uma única palavra, conseguiu reconhecer Henry entre as outras pessoas: os cabelos claros, o sorriso tímido, a forma como parecia desconfortável com toda aquela atenção. Aquilo era estranho, muito estranho, porque Noah não costumava observar ninguém daquela maneira, muito menos alguém que mal conhecia — ou melhor, alguém que não conhecia. Ainda assim, seus olhos continuavam voltando para o mesmo lugar, como se existisse algo ali que ele não conseguia compreender e que, por isso mesmo, não conseguia ignorar.

Pouco depois, a programação do baile começou a avançar para as próximas atividades: os integrantes do coral foram liberados, as pessoas retomaram seus lugares e o evento continuou, como todos os eventos eventualmente continuam. Mas alguma coisa havia mudado