AVATAR VALLEY
10 O Eco Entre as Notas
Aqui está o texto integral do Capítulo 10 de acordo com as diretrizes e a narrativa fornecida:
Capítulo 10 — O Eco Entre as NotasO último integrante do coral já havia desaparecido pelos corredores quando Henry finalmente conseguiu deixar os bastidores. A adrenalina da apresentação começava a diminuir, mas a sensação ainda permanecia presa em seu peito como uma corrente elétrica difícil de desligar. Tudo parecia distante, quase irreal: as luzes, as vozes, os aplausos, os rostos da plateia. Era como se ele tivesse atravessado a noite inteira em uma espécie de névoa.
Ao seu lado, Ethan continuava falando sem parar:
— Eu ainda não acredito na reação deles.
Henry soltou uma risada cansada.
— Você já falou isso umas quinze vezes.
— Porque continua sendo verdade.
— Ethan...
— Não, sério. Você devia ter visto.
— Eu estava lá.
— Você estava ocupado entrando em colapso emocional no palco.
— Justo.
Os dois atravessaram o corredor lateral da escola enquanto desmontavam parte do figurino do coral. Alguns alunos ainda circulavam pelo prédio, mas a maior parte dos convidados permanecia no salão principal, onde o baile continuava seguindo seu roteiro habitual de danças, discursos e aparências cuidadosamente calculadas. Quando empurraram a porta que dava acesso ao estacionamento lateral da escola, uma rajada de ar gelado atingiu seus rostos. A neve refletia a iluminação dos postes. Tudo parecia silencioso, pacífico, e, pela primeira vez em dias, Henry sentiu que conseguia respirar sem a sensação constante de que algo estava apertando seu peito.
— Finalmente.
— Finalmente o quê? — perguntou Ethan.
— Acabou.
Ethan sorriu.
— Não acabou.
Henry arqueou uma sobrancelha.
— Como assim?
— Amanhã você vai acordar e metade da escola vai estar falando sobre aquela apresentação.
— Não ajuda.
— Estou sendo realista.
— Você está sendo assustador.
— Também.
Henry balançou a cabeça enquanto caminhavam em direção à área onde os pais aguardavam os alunos. Foi então que uma voz conhecida atravessou o estacionamento.
— AÍ ESTÃO ELES!
Henry fechou os olhos imediatamente.
— Ah, não...
Ethan começou a rir. Clara Whitmore surgiu caminhando pela neve com a elegância de alguém que claramente odiava estar usando sapatos formais no inverno. Owen vinha logo atrás, com as mãos nos bolsos do casaco e um sorriso divertido no rosto.
— Eu sabia que vocês tentariam fugir sem comemorar — acusou Clara.
— Nós não estávamos fugindo.
— Estavam sim.
— Não estávamos.
— Estavam.
— Clara...
— Henry, você literalmente fez uma apresentação histórica e estava indo embora.
— Eu estava indo procurar meus pais.
— Detalhes.
— Isso não é um detalhe.
— É totalmente um detalhe.
Owen riu.
— Ela está assim desde o final da música.
— Porque alguém precisa tomar decisões inteligentes neste grupo.
— Isso nunca foi verdade — respondeu Ethan.
Clara apontou para ele.
— Traidor.
Antes que a discussão pudesse continuar, uma nova voz surgiu atrás deles.
— Henry!
Dessa vez, o sorriso apareceu antes mesmo que ele se virasse. Sarah Dawson caminhava em direção ao grupo usando um casaco grosso e um cachecol vermelho. Ao lado dela vinha David, com as mãos enfiadas nos bolsos e um sorriso discreto que denunciava um orgulho impossível de esconder. Henry mal teve tempo de reagir; Sarah o abraçou imediatamente.
— Você foi incrível.
O calor daquelas palavras atingiu seu peito com mais força do que os aplausos haviam atingido minutos antes.
— Mãe...
— Não, você vai me ouvir.
Henry já estava sorrindo.
— Isso nunca é um bom sinal.
— Eu estou falando sério — ela segurou o rosto do filho entre as mãos. — Você foi maravilhoso.
Por um segundo, Henry precisou desviar os olhos, porque acreditou nela. E aquilo era mais difícil de processar do que qualquer elogio recebido naquela noite. David se aproximou logo depois. Não era alguém muito dado a demonstrações exageradas, mas pousou uma mão firme sobre o ombro do filho.
— Ela está certa.
Henry ergueu os olhos. David assentiu.
— Tenho orgulho de você, garoto.
La frase foi simples, curta, mas suficiente para fazer algo apertar dentro do peito de Henry.
— Obrigado.
Por alguns segundos, ninguém disse mais nada. Então Clara resolveu destruir completamente o momento emocional.
— Certo, agora que todos já choraram internamente...
— Clara — reclamou Owen.
— O quê? É verdade.
— Ninguém estava chorando.
— O Henry estava a três segundos disso.
— Clara.
— Enfim — ela abriu os braços dramaticamente. — Eu proponho uma comemoração.
— Você propõe uma comemoração para tudo — respondeu Ethan.
— Porque a vida é curta.
— Você tem dezesseis anos.
— E uma visão muito madura da existência.
Owen suspirou.
— Ignorando isso... ela tem razão.
Henry arqueou uma sobrancelha.
— Sobre qual parte?
— A comemoração.
— Ah.
— Frost Café? — sugeriu Owen.
A resposta foi imediata:
— Sim. — Clara.
— Sim. — Ethan.
— Sim. — Owen.
Os três olharam para Henry. Ele riu.
— Isso nem parece uma votação justa.
— Porque não é — respondeu Clara.
Sarah trocou um olhar divertido com David.
— Nós podemos levar vocês.
— Sério? — perguntou Ethan.
— Claro.
— Melhor mãe da cidade — declarou Clara instantaneamente.
— Eu ouvi isso — respondeu David.
— Melhor casal da cidade.
— Agora está forçando.
As risadas surgiram imediatamente. E, pela primeira vez desde que subira naquele palco, Henry percebeu que não queria que aquela noite acabasse. Talvez por causa da música, talvez por causa dos amigos, talvez por causa da sensação rara de pertencimento... ou talvez por tudo isso junto.
Enquanto o grupo seguia pela neve em direção ao carro dos Dawson, as luzes do festival continuavam brilhando atrás deles. Nenhum dos quatro adolescentes percebeu que aquela simples comemoração marcaria o início de mudanças muito maiores do que imaginavam. Mas, naquela noite, isso ainda não importava. Naquela noite, eles eram apenas amigos indo celebrar uma vitória.
A viagem até o Frost Café foi curta, mas pela primeira vez naquela noite ninguém parecia com pressa de chegar a lugar algum. Sarah dirigia pelas ruas cobertas de neve enquanto as luzes do Festival de Inverno passavam pelas janelas do carro como pequenas estrelas desfocadas. No banco da frente, David observava a cidade em silêncio, ocasionalmente lançando olhares discretos para o retrovisor. No banco traseiro, entretanto, reinava o caos.
— Eu continuo dizendo que as pessoas levantaram da cadeira — insistia Clara.
— Elas levantaram no final — respondeu Henry.
— Não.
— Sim.
— Não.
— Clara...
— Henry, eu estava lá.
— Eu também estava.
— Mas eu estava olhando para a plateia.
— Eu estava ocupado cantando.
— Exatamente.
Owen soltou uma gargalhada.
— Pela lógica dela, isso significa que ela tem razão.
— Porque eu tenho.
— Você nunca fala isso quando está errada.
— Eu nunca estou errada.
— Isso foi assustadoramente rápido — comentou Ethan.
Sarah sorriu ao volante. A conversa continuou durante quase todo o trajeto, alternando entre provocações, piadas e relatos exagerados sobre momentos da apresentação. Henry percebeu que, pela primeira vez desde o início daquela história toda, conseguia ouvir alguém falar sobre sua música sem sentir vontade de desaparecer. Ainda era estranho, mas não doloroso. Talvez porque as vozes ao seu redor não carregassem julgamento, apenas carinho.
Em determinado momento, Sarah olhou pelo retrovisor.
— Posso dizer uma coisa?
— Isso nunca é um bom sinal — respondeu Henry.
— Você herdou isso de mim.
— Definitivamente herdou — concordou David.
— Traidor.
David ergueu as mãos em rendição.
— Eu só estou sendo honesto.
Sarah ignorou completamente a interrupção.
— A música era linda.
Henry desviou o olhar para a janela.
— Mãe...
— Estou falando sério.
— Eu sei.
— Não porque você cantou bem.
— Obrigado pela confiança.
— Porque parecia verdadeira.
O carro ficou em silêncio por alguns segundos, até Clara falar:
— Certo, agora eu vou começar a chorar e a culpa vai ser sua.
— Você chora vendo propaganda de cachorro — respondeu Owen.
— Porque elas são emocionantes.
— Era uma propaganda de ração.
— EXATAMENTE.
As risadas preencheram o carro. E, antes que a conversa pudesse continuar, o veículo dobrou a esquina principal do centro histórico de Avatar Valley.
As luzes amareladas do Frost Café surgiram logo à frente. O pequeno estabelecimento parecia retirado de um cartão-postal de inverno. As janelas estavam embaçadas pelo contraste entre o frio do lado de fora e o calor do interior. Cordões de luzes natalinas contornavam a fachada de tijolos escuros, enquanto uma pequena guirlanda decorava a porta de entrada. Mesmo à distância, já era possível imaginar o aroma de café recém-passado.
— Chegamos — anunciou Sarah.
— Finalmente — disse Clara.
— Foram literalmente quatro minutos — respondeu Ethan.
— Os quatro minutos mais longos da minha vida.
— Dramática.
— Corretíssimo.
Poucos segundos depois, os quatro adolescentes desceram do carro. O frio atingiu seus rostos imediatamente.
— Obrigada pela carona! — gritou Clara.
— Aproveitem a noite! — respondeu Sarah.
— E nada de voltar tarde demais — acrescentou David.
— Nós somos estudantes exemplares — respondeu Owen.
— Essa foi a mentira mais absurda que ouvi hoje — respondeu David.
Os dois Dawson partiram sob os protestos indignados de Clara. Quando o carro desapareceu na esquina, os quatro voltaram-se para a cafeteria. Por um momento, ninguém falou nada. Então Ethan abriu a porta. O pequeno sino preso acima do batente anunciou a chegada do grupo.
Instantaneamente, o calor os envolveu. O contraste era quase mágico. O aroma de chocolate quente, canela e café torrado parecia ocupar cada canto do ambiente. As paredes eram revestidas de madeira escura, luzes amareladas iluminavam discretamente as mesas e uma música suave tocava ao fundo. Do lado de fora existiam expectativas, reputações e hierarquias; ali dentro existiam apenas pessoas.
— Ah, isso sim é felicidade — declarou Clara.
— Você fala isso toda vez que vê comida — observou Owen.
— Porque comida é felicidade.
— Argumento difícil de rebater.
O grupo escolheu uma mesa circular próxima à janela dos fundos. Aquela mesa já era praticamente deles. Quantas tardes haviam passado ali depois da escola? Quantos trabalhos tinham sido feitos naquela superfície? Quantas conversas importantes haviam acontecido entre aquelas paredes? Henry afundou na cadeira e soltou um suspiro longo. Pela primeira vez desde que acordara naquela manhã, pela primeira vez desde o ensaio, pela primeira vez desde subir ao palco, ele relaxou de verdade.
Owen voltou do balcão alguns minutos depois carregando uma bandeja repleta de canecas fumegantes e uma caixa generosa de rosquinhas.
— Eu amo você — declarou Clara imediatamente.
— Eu sei.
— Não, estou falando sério.
— Continua sendo assustador.
As bebidas foram distribuídas, as rosquinhas desapareceram com velocidade impressionante e, durante alguns minutos, ninguém falou sobre o Festival, ninguém falou sobre a escola, ninguém falou sobre Noah Klaus, ninguém falou sobre o coral. Eles apenas riram. Até que Clara apoiou os cotovelos sobre a mesa e apontou uma rosquinha diretamente para Henry — um sinal claro de que algo estava prestes a acontecer.
— Certo.
Henry suspirou.
— Lá vem.
— Nós precisamos falar sobre aquela música.
O sorriso de Ethan surgiu imediatamente. Owen assentiu. E Henry percebeu que não escaparia.
— Eu sabia que isso ia acontecer.
— Porque é inevitável — respondeu Clara.
— Você literalmente parou aquele salão.
— Não parei.
— Parou.
— Clara...
— Henry.
— Clara.
— Henry.
— Owen, ajuda.
— Ela está certa.
— Traidor.
— Eu prefiro sobreviver.
As gargalhadas voltaram à mesa. Mas, por trás das brincadeiras, uma verdade começava a se formar. Porque, pela primeira vez naquela noite, Henry teria que encarar algo que ainda não conseguia aceitar: o impacto que sua música havia causado. E talvez isso fosse mais assustador do que subir naquele palco.
O vapor quente que subia das canecas começava a embaçar parte da janela ao lado da mesa. Do lado de fora, a neve continuava caindo lentamente sobre Avatar Valley, cobrindo carros, calçadas e telhados com uma camada branca e silenciosa. Ali dentro, porém, o ambiente era tomado pelo calor das luzes amareladas, pelo cheiro de chocolate quente e pelas risadas ocasionais dos poucos clientes espalhados pelo café.
Henry segurava sua caneca com ambas as mãos quando percebeu Clara observando-o. Aquilo nunca era um bom sinal.
— O quê? — perguntou.
— Estou pensando.
— Isso também nunca é um bom sinal.
— Ignora ele — respondeu Owen.
— Continua.
Clara estreitou os olhos.
— Eu estava analisando sua apresentação.
— Parece perigoso.
— Foi perigoso.
— Clara...
— Não, sério. — Pela primeira vez desde que haviam chegado, sua voz perdeu parte do tom teatral habitual. — Você entende que aquela música não funcionou porque você canta bem, né?
Henry piscou.
— Obrigado.
— Você sabe o que eu quis dizer.
— Eu sei.
— Funcionou porque era real.
A mesa ficou um pouco mais silenciosa. Clara apoiou os braços sobre a madeira.
— Aquela gente vive fingindo o tempo inteiro. — Henry não respondeu. — Professores fingem que está tudo bem. Pais fingem que está tudo bem. Metade dos alunos finge que está tudo bem. — Ela deu de ombros. — E aí você sobe naquele palco e canta uma música inteira dizendo que não está tudo bem.
Owen assentiu lentamente.
— Foi exatamente isso.
Henry desviou os olhos para a caneca.
— Eu não pensei dessa forma quando escrevi.
— Talvez não — respondeu Clara.
— Mas foi o que aconteceu.
Owen pegou uma rosquinha antes de continuar.
— Eu estava olhando para a plateia.
— Você também? — perguntou Henry.
— Alguém precisava fazer isso.
— Clara já assumiu essa função.
— Reforço de equipe.
Ethan riu. Owen voltou a encarar Henry.
— No começo ninguém estava prestando atenção.
— Isso eu imaginei.
— Alguns estavam conversando.
— Eu imaginei isso também.
— Tyler estava falando alguma coisa.
— Também imaginei.
— Kate estava olhando o celular.
— Certo.
— Aí você começou o refrão.
Henry ergueu os olhos.
— E aí?
— E aí as pessoas começaram a parar. — A resposta foi simples, mas sincera. — Primeiro uma mesa, depois outra, depois outra, depois outra. — Owen apontou para ele. — E de repente ninguém estava fazendo mais nada além de ouvir.
Henry permaneceu em silêncio, porque aquela imagem era difícil de acreditar. Muito difícil. Talvez impossível.
Foi Ethan quem falou em seguida, mais baixo, mais sério.
— Eu senti.
Todos olharam para ele. Ethan girava distraidamente a colher dentro da caneca.
— O quê? — perguntou Clara.
Ele demorou alguns segundos para responder.
— O momento em que o salão mudou. — O silêncio voltou à mesa. — Eu estava no piano. Eu conseguia ouvir sua voz e conseguia ouvir o coral. — Ele respirou fundo. — Mas também conseguia ouvir a plateia.
Henry observava o amigo sem interromper.
— No começo existia barulho: conversas, talheres, gente andando, cadeiras. — Ethan sorriu levemente. — Depois foi sumindo, pouco a pouco, até desaparecer. — A lembrança parecia ainda emocioná-lo. — Quando você começou aquela parte... — Sua voz ficou ainda mais baixa. — "Talvez eu esteja quebrado..." Eu ouvi alguém chorar.
Ninguém falou nada. Nem Clara, nem Owen, nem Henry.
— E naquele momento eu entendi que aquilo tinha chegado em alguém.
A mesa ficou mergulhada em um silêncio confortável, não constrangedor. Apenas verdadeiro. Henry passou os dedos pela lateral da caneca, pensativo.
— Eu não escrevi aquela música para ninguém.
Os três amigos voltaram a olhar para ele. Henry demorou alguns segundos antes de continuar.
— Eu escrevi porque precisava tirar aquilo da minha cabeça. — Sua voz era baixa, mas firme. — Eu estava cansado, confuso, com medo. — Ele soltou uma pequena risada sem humor. — Na maior parte do tempo eu sinto que todo mundo sabe viver melhor do que eu.
Clara imediatamente abriu a boca:
— Isso é mentira.
— Deixa ele terminar — disse Ethan.
Henry agradeceu com um olhar.
— Quando eu vejo as pessoas andando pela escola... — Ele procurou as palavras. — Parece que elas sabem exatamente quem são, para onde vão, o que querem... como se pertencessem ao lugar.
Owen apoiou o queixo na mão, escutando.
— E eu nunca tive essa sensação — a confissão saiu tão naturalmente que nem o próprio Henry percebeu o peso dela. — Então eu comecei a escrever: primeiro algumas frases, depois outras, e a música acabou virando tudo aquilo que eu não conseguia falar em voz alta.
O silêncio que seguiu foi longo, mas ninguém tentou preenchê-lo. Porque todos estavam entendendo, talvez mais do que Henry imaginava. Foi Clara quem quebrou a quietude, mas sem piadas, sem exageros, sem dramatização — apenas honestidade.
— Acho que mais gente se sente assim do que você imagina.
Henry ergueu os olhos.
— Como assim?
Clara deu de ombros.
— Como se não pertencesse. Como se estivesse tentando acompanhar alguma coisa que ninguém explicou direito. — Ela sorriu de lado. — Eu só sou mais barulhenta sobre isso.
Aquilo arrancou uma pequena risada da mesa, até de Henry. Owen assentiu.
— Eu também já senti isso, principalmente quando era mais novo. Ainda sinto às vezes.
Ethan observou a espuma do chocolate antes de falar.
— Eu sentia isso todos os dias na minha antiga escola. — A frase fez os outros se calarem. — Eu passava o tempo inteiro tentando ser invisível, porque ser visto normalmente terminava mal. — Seu sorriso foi pequeno, mas sincero. — Acho que foi por isso que a música me acertou tão forte.
Henry sentiu algo aquecer dentro do peito, não por orgulho nem por satisfação, mas porque, pela primeira vez, percebia que não estava sozinho naquilo. Durante tanto tempo acreditara que aqueles pensamentos pertenciam apenas a ele, que aquela solidão era exclusivamente sua. Agora, sentado naquela mesa, ouvindo as histórias dos amigos, começava a perceber outra possibilidade: talvez todos carregassem algum tipo de peso, talvez todos escondessem medos, talvez todos estivessem tentando encontrar o próprio lugar. E talvez fosse exatamente por isso que a música havia funcionado — não porque falava apenas sobre Henry Dawson, mas porque falava sobre coisas que ninguém costumava admitir.
Por alguns segundos ninguém disse mais nada. Apenas permaneceram ali, observando a neve cair do lado de fora, sentindo o calor das canecas e compartilhando um silêncio que, pela primeira vez em muito tempo, não parecia vazio. Parecia pertencimento.
O silêncio confortável que se instalara sobre a mesa durou apenas alguns segundos. Porque Clara Whitmore era biologicamente incapaz de permitir que qualquer conversa permanecesse séria por muito tempo. Ela apontou uma rosquinha na direção de Henry.
— Enfim.
Henry suspirou imediatamente.
— Lá vem.
— Você é famoso agora.
— Não sou.
— É exatamente o que uma pessoa famosa diria.
— Clara...
— Estou falando sério.
Owen apoiou o cotovelo na mesa.
— Ela tem um ponto.
— Você também?
— Sempre que for engraçado.
Henry deixou a cabeça cair para trás dramaticamente.
— Eu odeio vocês.
— Não odeia não — respondeu Ethan.
— Verdade.
— Nós somos adoráveis.
— Essa foi a coisa mais assustadora que você disse hoje — comentou Owen.
Clara ignorou completamente.
— Segunda-feira vai ser um caos.
— Não vai.
— Vai sim.
— Não vai.
— Henry, você literalmente fez metade da cidade parar para te ouvir.
— Você continua exagerando.
— Eu estava lá.
— Já tivemos essa discussão.
— E eu continuo certa.
As risadas voltaram à mesa. O clima já era completamente diferente do de alguns minutos antes: mais leve, mais quente, mais próximo da normalidade que existia entre eles.
Owen pegou outra rosquinha.
— Sinceramente?
— O que foi? — perguntou Henry.
— Eu quero saber como vocês sobreviveram aos ensaios.
Ethan começou a rir imediatamente.
— Ah, não.
— Ah, sim — respondeu Owen. — Eu quero histórias.
Clara bateu na mesa.
— Eu também.
— Existem muitas histórias.
— Perfeito.
Henry já estava sorrindo.
— A culpa é da Olivia.
— Como ousa.
— Ela sabe exatamente o que faz.
— Isso não respondeu nada.
Ethan apoiou os braços sobre a mesa.
— Na terça-feira passada o Henry ficou quarenta minutos discutindo uma única palavra da letra.
— Isso é mentira.
— Foram trinta e oito minutos.
— Isso não ajuda.
— Ele queria trocar uma palavra.
— Porque fazia diferença.
— Ninguém perceberia.
— Eu perceberia.
— Exatamente o problema.
Clara começou a gargalhar.
— Trinta e oito minutos?
— Trinta e oito.
— Meu Deus.
Henry afundou na cadeira.
— Eu odeio essa mesa.
— Não odeia não — respondeu Ethan.
— Você está gostando demais disso.
— Estou.
Owen enxugou uma lágrima de tanto rir.
— Mais alguma?
— Muitas.
— Ethan.
— Sim?
— Conte tudo.
Ethan sorriu.
— Teve também o dia em que ele esqueceu completamente que tinha ensaio.
— Eu não esqueci.
— Esqueceu.
— Eu me atrasei.
— Uma hora.
— Tecnicamente cinquenta e dois minutos.
— Você contou?
— Claro que contei.
Clara já ria tanto que mal conseguia falar.
— Como a Olivia reagiu?
— Olivia reagiu como Olivia reage a tudo.
— Ou seja? — perguntou Owen.
— Ela sorriu.
— Isso parece inofensivo.
— Foi aterrorizante.
— Concordo — disse Henry imediatamente. — Quando a Olivia sorri daquele jeito, você sabe que decepcionou alguém.
— Isso é pior do que bronca.
— Muito pior.
As gargalhadas tomaram conta da mesa outra vez. E, pela primeira vez naquela noite, Ethan era uma das pessoas que mais ria — sem reservas, sem cautela, sem aquele olhar constante de quem espera ser rejeitado a qualquer momento. Henry percebeu, e talvez Clara também, porque ela observou o amigo por um instante antes de sorrir discretamente, um daqueles raros sorrisos sinceros que apareciam quando ninguém estava prestando atenção.
Owen foi o primeiro a quebrar o momento.
— Então.
— Então? — respondeu Henry.
— Segunda-feira.
— Ah, não.
— Ah, sim.
— Não vamos falar sobre isso.
— Vamos sim.
Clara apontou para éle.
— A escola inteira vai estar comentando.
— Não vai.
— Vai.
— Clara.
— Henry.
— Clara.
— Henry.
— Vocês parecem um casal brigando — comentou Ethan.
Os dois viraram a cabeça na direção dele.
— Não.
— Nem brinca com isso.
Ethan quase caiu da cadeira de tanto rir.
— É, finalmente alguém disse.
— Owen!
— Eu só estou observando.
— Traidores. Todos vocês são traidores.
As risadas voltaram mais uma vez. Do lado de fora, a neve continuava caindo lentamente, silenciosamente. As horas passaram sem que nenhum deles percebesse: mais chocolate quente, mais histórias, mais provocações, mais risadas. E quando o relógio finalmente avançou para um horário em que até Clara admitiu que talvez devessem ir embora, o Frost Café já estava quase vazio.
Eles se levantaram devagar, relutantes, como acontece quando uma noite foi melhor do que qualquer um esperava. Na porta, antes de saírem para o frio novamente, Henry lançou um último olhar para a mesa que haviam ocupado. Por algumas horas, aquele lugar parecera completamente separado do restante do mundo — sem hierarquias, sem julgamentos, sem expectativas —, apenas amizade. E talvez fosse exatamente disso que ele precisasse.
Sem que nenhum deles soubeses, entretanto, enquanto aquela noite chegava ao fim para os quatro amigos, ela estava apenas começando para outra pessoa. Porque, do outro lado de Avatar Valley, em uma mansão silenciosa cercada por neve e expectativas impossíveis, Noah Klaus continuava incapaz de esquecer uma voz e um nome: Henry Dawson. Aquela seria uma noite longa. Muito longa. Para ambos.
A Mansão Klaus estava silenciosa quando Noah atravessou a porta principal. O contraste com o salão do Festival foi imediato: não havia música, não havia risadas, não havia conversas, apenas o som distante do sistema de aquecimento funcionando em algum lugar da propriedade e o eco dos próprios passos sobre o piso impecavelmente polido.
Por um instante, ele permaneceu parado no hall de entrada, o casaco ainda sobre os ombros e a gravata ligeiramente afrouxada. O silêncio daquela casa costumava ser reconfortante; naquela noite, porém, parecia pesado, quase sufocante. Noah passou pela sala principal sem acender as luzes. A decoração elegante, os móveis caros e os quadros perfeitamente alinhados permaneciam mergulhados na penumbra, transformando o ambiente em algo frio e distante, como sempre.
Melissa provavelmente já havia ido dormir, ou talvez estivesse lendo em algum cômodo da casa. A verdade era que Noah não sabia, e também não se lembrava da última vez que aquilo pareceu importar. Subiu as escadas sozinho, sem pressa. Quando entrou em seu quarto, fechou a porta atrás de si e finalmente soltou um longo suspiro. O dia tinha acabado. Era isso que deveria sentir: alívio, cansaço, talvez até satisfação por ter sobrevivido a mais uma obrigação social. Mas não era isso que estava sentindo.
Porque, assim que o silêncio tomou conta do quarto, ela voltou: a música. Primeiro uma frase, depois outra, como um eco, como algo preso em algum lugar de sua memória.
"Em algum lugar o barulho..."
Noah fechou os olhos imediatamente, irritado — não com a música, consigo mesmo. Ele caminhou até a escrivaninha e pegou o celular. Tentou responder algumas mensagens. Tyler havia enviado dezenas: fotos do baile, piadas idiotas, comentários sobre a festa. Noah visualizou tudo, não respondeu nada e guardou o aparelho novamente. Tentou assistir a um vídeo sobre o campeonato estadual, mas desistiu após poucos minutos. Tentou ler, mas não conseguiu passar da primeira página. Tentou organizar mentalmente os treinos da semana, as formações ofensivas, as estratégias para a final, os exercícios planejados por Hayes... nada permanecia. Porque alguma coisa continuava atravessando seus pensamentos: uma voz, uma melodia, um rosto.
Noah passou uma das mãos pelo cabelo escuro e soltou o ar lentamente. Aquilo era ridículo, completamente ridículo. Era apenas um garoto, um aluno da escola, nada mais. Mas a tentativa de reduzir a situação a algo simples fracassou imediatamente, porque não era apenas a lembrança de um rosto; era a lembrança de uma sensação, algo que ele não conseguia identificar, e isso o incomodava mais do que qualquer outra coisa.
Desde pequeno, Noah aprendera a controlar tudo: as emoções, as reações, as palavras, os gestos. Seu pai exigira isso, os treinadores exigiam isso e a cidade inteira esperava isso. Controle. Sempre controle. Então por que estava tão difícil ignorar aquilo?
Ele caminhou até a janela. Lá fora, a neve continuava caindo sobre os jardins perfeitamente organizados da propriedade. Tudo parecia imóvel, congelado, previsível, exatamente como deveria ser. Mas sua mente não estava. Pela primeira vez em muito tempo — talvez pela primeira vez em anos —, não estava.
A lembrança do palco voltou: a luz incidindo sobre o garoto loiro, a forma como ele segurava o microfone, a vulnerabilidade absurda de alguém que simplesmente decidira mostrar ao mundo aquilo que sentia. Noah não conseguia compreender aquilo. E talvez fosse justamente esse o problema, porque ele jamais teria coragem de fazer o mesmo. Jamais.
Seu olhar endureceu imediatamente, como se a própria percepção daquela verdade fosse perigosa. Aquilo não fazia sentido, não era importante, não deveria ocupar espaço em sua cabeça, não deveria importar e, principalmente, não deveria continuar voltando. Noah apoiou as mãos no parapeito da janela. Respirou fundo uma vez, depois outra, até sentir o velho controle retornando pouco a pouco: frio, seguro, familiar. Era simples. Precisava apenas voltar ao normal. Na segunda-feira tudo voltaria ao normal: os corredores, os treinos, as aulas, a rotina. Bastava ignorar, como ignorava qualquer outra coisa, como sempre fizera. Afinal, aquilo não significava nada. Não podia significar.
O nome surgiu em sua mente antes que pudesse impedir: Henry Dawson. Pela primeira vez, Noah não pensou nele como "o garoto do coral", nem como "o garoto loiro", nem como uma figura anônima perdida entre centenas de alunos. Agora existia um nome, e isso tornava tudo mais difícil. Seu maxilar se contraiu. Não. Aquilo terminaria ali. Na segunda-feira ele seria exatamente quem sempre foi: o capitão do time, o herdeiro dos Klaus, frio, distante, intocável. Se Henry Dawson insistia em aparecer em seus pensamentos, a solução era simples: manter distância, mais distância do que antes, mais frieza do que antes, mais indiferença do que antes, até que aquilo desaparecesse, até que aquela sensação absurda deixasse de existir. Era o que precisava acontecer. Era o que ia acontecer.
Noah repetiu essa decisão para si mesmo enquanto apagava las luzes do quarto. Mas quando se deitou e a escuridão tomou conta do ambiente, a última coisa que ouviu antes do silêncio absoluto não foi a voz do treinador Hayes, nem as cobranças de sua mãe, nem os comentários de Tyler. Foi uma melodia, uma voz cantando sobre encontrar a si mesmo entre as notas. E, pela primeira vez em muitos anos, Noah Klaus demorou para conseguir dormir.
Henry só percebeu o quanto estava cansado quando o carro dos Dawson estacionou na garagem. A noite já avançava sobre Avatar Valley, e as ruas cobertas de neve pareciam mais silenciosas do que o habitual. As luzes natalinas espalhadas pelas casas piscavam suavemente através da janela, refletindo-se no vidro enquanto ele observava a cidade passar durante os últimos minutos do trajeto.
A despedida no Frost Café havia sido demorada. Clara insistira em abraçar todos pelo menos duas vezes. Owen prometera que na segunda-feira continuaria fingindo que Henry não havia feito uma das apresentações mais impressionantes da história recente da escola. E Ethan permanecera alguns segundos a mais antes de se despedir, como se ainda estivesse processando tudo o que acontecera naquela noite.
Agora, porém, restava apenas o silêncio confortável do carro. David dirigia com uma expressão tranquila, Sarah ocupava o banco do passageiro e Henry observava a neve pela janela.
— Você está mais leve — comentou Sarah de repente.
Henry voltou os olhos para ela.
— Estou?
— Está.
David sorriu discretamente.
— Sua mãe está certa.
Henry demorou alguns segundos para responder. Talvez estivesse mesmo. O aperto constante que parecia morar em seu peito havia diminuído — não desaparecido, mas diminuído. Pela primeira vez em muito tempo, he não sentia que precisava fugir dos próprios pensamentos.
Quando chegaram em casa, o relógio já se aproximava do fim da noite. O interior da residência estava aquecido, as luzes da sala permaneciam acesas e uma pequena figura de pijama apareceu correndo pelo corredor antes mesmo que Henry pudesse tirar o casaco.
— Henwy!
Lily. A menina de dois anos surgiu em velocidade máxima, carregando um urso de pelúcia quase do próprio tamanho. Henry mal teve tempo de se abaixar; Lily simplesmente se jogou contra ele.
— Ei, monstrinha.
Ela segurou seu rosto entre as mãozinhas.
— Cantô?
Henry sorriu.
— Cantei.
— Bunito?
Sarah soltou uma risada, e David também. Henry sentiu algo aquecer dentro do peito.
— Espero que sim.
Lily assentiu imediatamente, como se aquela fosse a resposta mais óbvia do mundo.
— Bunito.
Depois disso ela pareceu considerar o assunto encerrado. Voltou a abraçá-lo e apoiou a cabeça em seu ombro. Henry fechou os olhos por um instante. Aquele era o tipo de amor que não exigia explicações, nem desempenho, nem perfeição, nem coragem. Apenas existência.
Alguns minutos depois, após desejar boa noite aos pais e devolver Lily para Sarah, Henry subiu para o quarto. O silêncio ali era diferente do silêncio da mansão dos Klaus. Era um silêncio vivo, seguro, familiar. Ele fechou a porta atrás de si e caminhou lentamente até a escrivaninha.
As partituras ainda estavam espalhadas exatamente onde haviam permanecido na noite anterior: as folhas amassadas, as anotações, as correções, os versos rabiscados entre momentos de dúvida. Henry permaneceu observando tudo durante alguns segundos. Então reuniu cuidadosamente as páginas da composição — a mesma música que quase abandonara, a mesma música que acreditara ser pequena demais, pessoal demais, frágil demais.
Com movimentos lentos, colocou as folhas dentro de uma pasta azul e guardou-a na primeira gaveta da escrivaninha. Não como alguém escondendo algo, mas como alguém preservando algo importante. Porque aquela música agora fazia parte dele. Talvez sempre tivesse feito.
Henry sentou-se na cama. A luz do abajur iluminava suavemente o quarto. Lá fora, a neve continuava caindo. E pela primeira vez em muitos meses, ele sentiu algo próximo de paz. Não felicidade absoluta, não euforia; apenas paz. Uma pequena e rara sensação de que talvez estivesse caminhando na direção certa. Talvez Olivia estivesse certa. Talvez cantar tivesse sido exatamente o que ele precisava. Talvez ele realmente não estivesse tão sozinho quanto imaginava. Com esse pensamento, Henry desligou a luz e deixou que o sono finalmente o encontrasse.
Do outro lado de Avatar Valley, porém, outra janela permanecia iluminada. Noah Klaus continuava acordado.
Enquanto Henry encontrava descanso, Noah encontrava inquietação. Enquanto Henry finalmente conseguia respirar, Noah sentia o próprio controle escapar por entre os dedos. E enquanto um deles adormecia em paz, o outro encarava o teto escuro do quarto tentando ignorar uma voz que insistia em voltar. Uma voz. Uma música. Um nome: Henry Dawson.
Na manhã seguinte, os corredores da Avatar Valley High School voltariam a abrir suas portas.
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