AVATAR VALLEY
4 Capítulo 4 — A Rotina dos Invernos
A neve havia caído durante toda a madrugada. Quando Noah abriu os olhos naquela manhã, o mundo além das janelas parecia silencioso demais, como se o inverno tivesse abafado qualquer ruído vindo do restante da cidade. A claridade azulada do amanhecer atravessava parcialmente as cortinas do quarto, iluminando os contornos dos móveis e refletindo nos flocos acumulados do lado de fora. O despertador ainda não havia tocado. Mesmo assim, Noah já estava acordado.
Aquilo acontecia com frequência. Anos de treinos, campeonatos e horários rígidos haviam condicionado seu corpo a despertar antes mesmo dos alarmes. Permaneceu deitado por alguns segundos, observando o teto. Era um hábito antigo, um breve intervalo entre o silêncio da noite e as expectativas que inevitavelmente preenchiam o restante do dia. Logo o despertador começou a tocar. Noah estendeu o braço, desligou o aparelho e se levantou.
A mansão Klaus ainda estava silenciosa quando ele desceu as escadas. Os corredores amplos permaneciam vazios. A iluminação suave das luminárias refletia nos pisos de madeira escura, enquanto o aroma distante de café recém-passado chegava da cozinha. Como quase sempre acontecia, encontrou apenas Melissa na sala de jantar. Ela estava sentada próxima à janela, uma xícara entre as mãos e um tablet apoiado sobre a mesa. A paisagem branca do jardim se estendia além do vidro, transformando tudo em uma sequência de tons suaves e silenciosos. Melissa ergueu os olhos quando ouviu os passos do filho.
— Bom dia — cumprimentou Melissa.
— Bom dia — respondeu Noah.
Ela observou Noah servir café antes de voltar a olhar para a janela.
— Seu pai saiu cedo — comentou ela.
Noah puxou uma cadeira.
— Imaginei — disse ele.
— Reunião fora da cidade — explicou Melissa.
— Hum — murmurou Noah.
Melissa arqueou uma sobrancelha.
— Você sabe que uma conversa normalmente funciona com frases completas — observou ela.
Noah levou a xícara aos lábios.
— Eu respondi — retrucou ele.
— Com uma sílaba — pontuou ela.
— Continua sendo uma resposta — rebateu Noah.
Um sorriso discreto apareceu no rosto dela. Não era uma discussão nova, nem particularmente séria; fazia parte da dinâmica silenciosa que existia entre os dois havia anos. Melissa nunca pressionava demais, Noah raramente oferecia mais do que considerava necessário. Ainda assim, de alguma forma, conseguiam se entender.
Por alguns instantes, o único som presente na sala foi o da neve deslizando suavemente contra os vidros e o ruído distante do sistema de aquecimento da casa. Era curioso. Muitas pessoas da cidade provavelmente imaginavam que a família Klaus compartilhava cafés da manhã perfeitos, jantares elegantes e longas conversas diante da lareira. A realidade era muito mais silenciosa, muito mais distante. James passava grande parte do tempo trabalhando, Melissa aprendera a conviver com isso e Noah crescera dentro desse mesmo silêncio.
— Como está a escola? — perguntou ela depois de algum tempo.
A pergunta era simples, mas Noah percebeu que ela não estava perguntando sobre notas ou professores. Melissa raramente fazia isso.
— Normal — respondeu ele.
— O que significa normal? — questionou Melissa.
— As mesmas pessoas, os mesmos corredores, as mesmas conversas — explicou Noah.
Ela assentiu lentamente, como se entendesse exatamente o que ele queria dizer. Porque entendia. Avatar Valley mudava pouco, especialmente durante o inverno: as mesmas famílias, as mesmas tradições, os mesmos sobrenomes, as mesmas expectativas. Tudo parecia seguir um roteiro conhecido por toda a cidade.
Noah terminou o café e se levantou.
— Vou indo — avisou ele.
Melissa observou o filho colocar o uniforme oficial.
— Tente sobreviver ao treinador Hayes — recomendou ela.
— Não faço promessas — disse Noah.
— Justo — concordou ela.
Ele caminhou em direção à porta.
— Tenha um bom dia, mãe — desejou ele.
— Você também, querido — respondeu Melissa.
Noah deixou a casa poucos segundos depois. O frio o atingiu imediatamente enquanto vestia seu sobretudo por cima do uniforme para cruzar o pátio. A neve acumulava-se sobre os arbustos, os muros e os telhados da propriedade, transformando tudo em uma paisagem quase imóvel. Ao entrar no carro, lançou um último olhar para a mansão. Vista de fora, parecia exatamente aquilo que todos em Avatar Valley imaginavam: imponente, elegante, perfeita. Mas Noah sabia que algumas coisas podiam parecer completas mesmo quando carregavam espaços vazios por dentro. Pouco depois, deixou a propriedade para trás e seguiu em direção à escola enquanto a neve continuava caindo lentamente sobre a cidade.
Quando Noah chegou à Avatar Valley High School, a movimentação já era consideravelmente maior do que nos primeiros dias de aula. A sensação de novidade começava a desaparecer. Os alunos voltavam a ocupar seus lugares habituais vestindo os uniformes obrigatórios da instituição, os grupos retomavam suas rotinas, as mesas do refeitório reassumiam seus antigos donos e a hierarquia invisível que parecia governar a escola voltava a funcionar com a precisão de um relógio.
Avatar Valley sempre fora assim: uma cidade construída sobre tradições, algumas delas tão antigas que poucas pessoas ainda se lembravam exatamente de quando haviam começado. O próprio calendário escolar era um exemplo disso. Enquanto em muitos lugares dezembro representava o encerramento do ano letivo, em Avatar Valley significava o início dele, já que as aulas começavam no final de novembro. Durante semanas, a escola organizara seu funcionamento em torno dos preparativos para o Festival de Inverno, o maior evento da cidade, celebrado todos os anos no dia vinte e dois de dezembro. Professores, estudantes, comerciantes e moradores participavam ativamente. Depois do festival, no dia vinte e três de dezembro, as aulas eram suspensas e a cidade entrava oficialmente em recesso de Natal até o dia dois de janeiro, quando todos retornavam e o inverno alcançava seu período mais intenso.
Para os moradores, aquilo parecia perfeitamente normal; para quem chegava de fora, costumava causar alguma confusão. Mas Avatar Valley raramente se preocupava em explicar suas tradições, esperava apenas que as pessoas aprendessem a conviver com elas.
Noah atravessou as portas principais da escola recebendo os cumprimentos habituais. Alguns alunos acenavam, outros chamavam seu nome, alguns limitavam-se a observá-lo passar. Nada daquilo exigia atenção; fazia parte da rotina. Tyler Reed surgiu poucos minutos depois, acompanhado de dois jogadores do time de hóquei, todos devidamente trajados com os uniformes oficiais da escola, já que as jaquetas do time eram restritas ao ginásio.
— Hayes mandou mensagem às seis da manhã — reclamou Tyler Reed.
Noah nem diminuiu o passo.
— Isso não deveria ser permitido — comentou Noah.
— Concordo — apoiou Tyler Reed.
— O que ele queria? — perguntou Noah.
— Treino extra no sábado — resmungou Tyler Reed.
Noah soltou um suspiro discreto.
— Claro que queria — disse Noah.
— Eu tinha planos — lamentou Tyler Reed.
— Agora não tem mais — ironizou Noah.
— Você é uma pessoa horrível — brincou Tyler Reed.
— Eu sei — concordou Noah.
Os outros jogadores riram. Enquanto caminhavam pelo corredor principal, alunos mais novos desviavam naturalmente do caminho para deixá-los passar. Ninguém parecia perceber o comportamento; era automático, como tantas outras coisas dentro daquela escola.
A alguns corredores dali, Henry fechava o armário enquanto Clara organizava os próprios livros.
— Estou te dizendo, o professor Whitmore tem cara de quem passa trabalhos enormes por diversão — afirmou Clara.
Henry fechou a porta metálica.
— Você diz isso sobre todos os professores — lembrou Henry.
— Porque normalmente estou certa — justificou Clara.
— Essa lógica é preocupante — sorriu Henry.
— Essa lógica é experiência — rebateu Clara.
Henry acabou sorrindo. Os primeiros dias em Avatar Valley continuavam estranhos, mas menos estranhos do que haviam sido no início. Ainda existiam momentos difíceis, ainda existiam olhares que o deixavam desconfortável, ainda existia a sensação constante de estar tentando encontrar um espaço dentro de um lugar que parecia já ter sido ocupado por outras pessoas muito antes de sua chegada. Mas agora havia outras coisas também: as aulas, Clara, Owen, o coral... pequenos pontos de apoio que tornavam os dias mais leves.
Enquanto guardava um dos livros na mochila, ouviu vozes surgirem no corredor principal. Não precisou olhar; reconheceu imediatamente o nome que circulava entre os estudantes: Noah Klaus. De novo. Henry começava a perceber que era praticamente impossível passar um dia inteiro naquela escola sem ouvir alguém mencionar o capitão do time de hóquei. Alguns falavam com admiração, outros com inveja, alguns com evidente ressentimento. Mas todos pareciam conhecê-lo, ou acreditar que conheciam. Henry nunca participava dessas conversas; limitava-se a ouvir, observava, tentava compreender. Porque ainda lhe parecia estranho que uma única pessoa ocupasse tanto espaço dentro da vida de uma escola inteira.
O primeiro sinal ecoou pelos corredores poucos instantes depois. Portas começaram a se fechar, conversas foram interrompidas, professores surgiram nas salas e mais um dia comum teve início em Avatar Valley High School. Lá fora, a neve continuava caindo lentamente. Lá dentro, centenas de alunos retomavam suas rotinas sem imaginar que aquele inverno mudaria muito mais do que apenas o calendário da cidade.
A primeira metade da manhã transcorreu sem acontecimentos dignos de nota. As aulas seguiram seu ritmo habitual, os professores retomaram conteúdos interrompidos pelo início do semestre e os alunos alternavam entre momentos de atenção genuína e longos períodos de distração. Do lado de fora, a neve continuava caindo de forma mansa. Dentro da escola, porém, existia outro fenômeno capaz de competir pela atenção dos estudantes: o Baile de Inverno.
Os cartazes estavam por toda parte: nos murais, nas portas das salas, próximos à biblioteca, ao lado do refeitório. Faltavam pouco mais de duas semanas para o Festival de Inverno, e isso significava que o baile, tradicionalmente realizado em um domingo, três dias antes do dia vinte e cinco, se aproximava na mesma velocidade. Para muitos alunos, aquele era o evento mais aguardado do semestre; para outros, era uma obrigação social da qual seria impossível escapar. Henry ainda não havia decidido em qual grupo se encaixava.
Quando o sinal do almoço finalmente tocou, ele seguiu para o refeitório ao lado de Clara e Owen. Os três ocuparam a mesa próxima às janelas que vinha se tornando seu lugar habitual desde o início das aulas. A neve acumulava-se do lado de fora, cobrindo lentamente os bancos do pátio. Por alguns instantes, a conversa girou em torno de trabalhos, professores e das dificuldades de substituir as primeiras semanas de aula, até que Clara decidiu tocar no assunto que parecia inevitável.
— Minha mãe perguntou sobre o baile de novo — começou Clara.
Owen abriu uma embalagem de suco.
— Faz quanto tempo desde a última vez? — perguntou Owen.
— Aproximadamente quinze horas — respondeu Clara.
— Um novo recorde — ironizou Owen.
— Estou falando sério — queixou-se Clara.
— Eu também — garantiu Owen.
Clara lançou-lhe um olhar irritado.
— Ela já começou a perguntar sobre vestido — acrescentou Clara.
— Ainda faltam semanas — ponderou Owen.
— Fale isso para ela — rebateu Clara.
Henry observava a discussão em silêncio. Aquilo parecia um problema distante demais para lhe dizer respeito.
— E você? — perguntou Clara de repente, voltando-se para ele.
Henry piscou.
— Eu o quê? — quis saber Henry.
— Vai ao baile? — questionou Clara.
A pergunta o pegou desprevenido — não porque fosse difícil de responder, mas porque sequer havia pensado seriamente sobre aquilo.
— Não sei — admitiu Henry.
— Isso não é uma resposta — criticou Clara.
— É a única que eu tenho — justificou Henry.
— Henry — alertou Clara.
— Clara — devolveu Henry.
— Você está me irritando — reclamou Clara.
— Também não é novidade — brincou Henry.
Owen soltou uma risada. Clara cruzou os braços.
— A escola inteira está falando disso — argumentou Clara.
— Exatamente — concordou Henry.
— E? — insistiu Clara.
— Isso já me deixa cansado — confessou Henry.
— Você tem oitenta anos — zombou Owen.
— Às vezes eu sinto que sim — riu Henry.
Os três acabaram rindo. A conversa continuou por mais alguns minutos, mas Henry percebeu algo curioso: mesmo ouvindo os amigos falarem sobre convites, roupas e expectativas, não conseguia compartilhar do mesmo entusiasmo. Talvez porque tivesse chegado recentemente, talvez porque ainda estivesse tentando compreender a cidade, ou talvez porque boa parte daqueles rituais sociais parecesse pertencer a uma realidade diferente da sua.
Seu olhar percorreu o refeitório por alguns instantes. Era fácil identificar quem estava animado com o baile: os grupos comentavam planos, comparavam ideias, faziam especulações. Alguns estudantes pareciam tratar o evento como a coisa mais importante do mundo. No centro daquele movimento estava, como quase sempre, a mesa do time de hóquei. Tyler Reed gesticulava exageradamente enquanto contava alguma história, os demais jogadores riam, Kate conversava com algumas líderes de torcida próximas dali e Noah permanecia no centro daquele pequeno universo com a mesma naturalidade de alguém que jamais precisara questionar o próprio lugar.
Henry desviou os olhos antes mesmo de perceber que estava observando; não existia motivo para continuar olhando. Afinal, os mundos dos dois permaneciam tão distantes quanto no primeiro dia de aula, e, naquele momento, Henry acreditava que continuariam assim para sempre.
Pouco depois, o sinal anunciou o retorno às aulas da tarde. Cadeiras foram empurradas, mochilas recolhidas e centenas de estudantes começaram a deixar o refeitório ao mesmo tempo. A movimentação rapidamente voltou a ocupar os corredores. Mais uma vez, Avatar Valley High School parecia funcionar como um organismo perfeitamente sincronizado. E, enquanto os preparativos para o baile e para o Festival de Inverno avançavam silenciosamente a cada dia, poucos alunos percebiam que o semestre mal havia começado.
A tarde avançou lentamente depois do almoço. Conforme as horas passavam, tornava-se cada vez mais difícil para muitos alunos manter a atenção completamente voltada para as aulas. Os preparativos para o Baile de Inverno ocupavam boa parte das conversas nos corredores, e a proximidade do Festival de Inverno parecia crescer dentro da escola a cada novo cartaz afixado nos murais.
Henry, porém, conseguia se concentrar... ou pelo menos tentava. Durante a aula de Literatura, acompanhou atentamente a análise de um romance proposta pela professora Eleanor Hughes. Gostava da maneira como ela conduzia as discussões; não parecia interessada em respostas decoradas, gostava de ouvir interpretações, dúvidas e opiniões. Aquilo tornava as aulas mais vivas, mais humanas.
Quando o sinal finalmente anunciou o encerramento do período regular, os corredores voltaram a se encher. Alguns alunos seguiram para casa, outros para clubes acadêmicos, outros para reuniões e atividades extracurriculares. E, como acontecia quase todos os dias, a escola pareceu dividir-se em pequenos mundos independentes: no ginásio, os atletas vestiam suas jaquetas e o time de hóquei se preparava para mais um treino; na ala das artes, o coral iniciava mais um ensaio. Dois grupos, dois ambientes, duas formas completamente diferentes de existir dentro da mesma escola.
Richard Hayes já aguardava os jogadores quando Noah entrou no vestiário. Isso nunca era um bom sinal. Quando o treinador chegava antes de todos, normalmente significava que alguém teria uma tarde desagradável... ou todos. Tyler Reed percebeu a expressão de Hayes no mesmo instante.
— Ele está pior do que ontem — sussurrou Tyler Reed.
— Isso é possível? — perguntou um dos jogadores.
— Com ele, sempre é — respondeu Tyler Reed.
Noah não comentou nada; limitou-se a organizar os equipamentos. Poucos minutos depois, a equipe já estava alinhada sobre o gelo da arena. Hayes caminhava lentamente diante dos atletas, os braços cruzados, a expressão severa, o silêncio absoluto.
— Vocês estão confortáveis demais — criticou Hayes. Ninguém respondeu; ninguém era estúpido o suficiente para responder. — E jogadores confortáveis perdem campeonatos.
O treinador continuou caminhando.
— O Festival de Inverno está chegando — lembrou Hayes, dando mais alguns passos. — Depois dele, o campeonato regional será a única coisa que importa. — Seu olhar percorreu o grupo. — E, pelo que vi esta semana, alguns de vocês parecem acreditar que talento substitui esforço.
O silêncio permaneceu.
— Não substitui — sentenciou Hayes.
O treino começou imediatamente: velocidade, resistência, posicionamento, transições ofensivas, repetição, correção, mais repetição. O gelo parecia não ter fim. O som das lâminas cortando a superfície congelada ecoava pela arena enquanto Hayes interrompia exercícios constantemente para apontar erros. Para Noah, entretanto, aquilo fazia sentido. Talvez não gostasse dos métodos do treinador, mas compreendia a lógica: sobre o gelo existiam poucas ambiguidades, poucas interpretações, poucas dúvidas... ou você conseguia executar o movimento, ou não conseguia; ou vencia, ou perdia. Era simples, direto, quase reconfortante.
Quando um dos jogadores errou um passe relativamente simples durante uma simulação ofensiva, Noah imediatamente balançou a cabeça.
— Você viu o espaço livre — cobrou Noah.
O garoto assentiu.
— Vi — respondeu ele.
— Então por que não passou? — questionou Noah.
— Eu achei que... — tentou explicar o garoto.
— Não deveria ter achado nada — cortou Noah.
O jogador desviou os olhos. A jogada recomeçou. Tyler Reed observou a cena de longe; aquilo acontecia com frequência. Noah exigia dos outros praticamente o mesmo nível de perfeição que exigia de si próprio. Era uma das razões pelas quais havia se tornado capitão, e uma das razões pelas quais algumas pessoas tinham dificuldade em suportá-lo.
Enquanto isso, em outra extremidade da escola, o ambiente era completamente diferente. A Sala de Música B estava aquecida. O aroma suave de papel, madeira e instrumentos antigos preenchia o espaço. As cadeiras haviam sido organizadas em semicírculo, as partituras repousavam sobre os suportes e Olivia Bennett caminhava entre os alunos distribuindo algumas folhas.
— Hoje vamos começar a trabalhar o repertório do festival — anunciou a professora Olivia Bennett.
A notícia foi recebida com entusiasmo imediato. Alguns alunos trocaram olhares animados, outros começaram a folhear as partituras antes mesmo que ela terminasse de falar. Henry observou as páginas que recebeu; os arranjos pareciam mais complexos do que os exercícios das últimas semanas, o que o agradou imediatamente.
— Lembrem-se — continuou Olivia Bennett —, o objetivo não é que uma voz se destaque. — Ela apoiou algumas partituras sobre o piano. — O objetivo é que todas funcionem juntas.
Henry gostava daquela ideia, talvez porque estivesse acostumado a ambientes onde as pessoas pareciam competir constantemente por atenção. Ali era diferente: ninguém precisava ser o melhor, precisavam apenas construir algo juntos.
O ensaio começou poucos minutos depois. As vozes surgiram gradualmente: primeiro inseguras, depois mais firmes. As harmonias começaram a tomar forma. Olivia Bennett corrigia detalhes, ajustava entradas e repetia trechos quando necessário, mas fazia tudo sem elevar a voz, sem humilhar, sem transformar erros em motivo de constrangimento. Quando alguém errava, simplesmente tentavam novamente. Era uma filosofia completamente diferente da que dominava o ginásio, e Henry começava a perceber o quanto aquilo lhe fazia bem. Durante alguns minutos, esqueceu os corredores, esqueceu os olhares, esqueceu a sensação constante de não pertencer completamente àquela cidade. Existiam apenas as notas, as vozes, a música... e a estranha sensação de que, naquele lugar, não precisava fingir ser outra pessoa.
Enquanto o sol desaparecia lentamente atrás das montanhas cobertas de neve, dois grupos encerravam suas atividades em lados opostos da mesma escola. No ginásio, jogadores exaustos deixavam o gelo sob o olhar crítico de Richard Hayes. Na Sala de Música B, partituras eram recolhidas enquanto conversas tranquilas preenchiam o ambiente. Noah encontrava propósito na competição; Henry encontrava conforto na música.
Quando o ensaio terminou, a noite já começava a cair sobre Avatar Valley. As janelas da Sala de Música B refletiam os últimos vestígios da luz do dia enquanto os alunos guardavam partituras, recolhiam mochilas e se preparavam para enfrentar o frio do lado de fora. Henry organizava cuidadosamente suas folhas quando ouviu Clara surgir atrás dele.
— Você leva isso muito a sério — comentou Clara.
Ele ergueu os olhos.
— O quê? — perguntou Henry.
— As partituras — apontou Clara.
— Eu só estou guardando — justificou Henry.
— Exatamente — sorriu Clara.
Henry observou o próprio trabalho por alguns segundos. Talvez ela tivesse razão. Nunca conseguira tratar a música como algo casual; desde criança, existia uma parte dele que encontrava sentido naquelas páginas cheias de símbolos que muitas pessoas sequer conseguiam interpretar.
— Acho que é força do hábito — explicou Henry.
— Ou obsessão — provocou Clara.
— Você tem uma definição muito ampla para obsessão — retrucou Henry.
— E você tem uma definição muito limitada — rebateu Clara.
Henry decidiu não responder por experiência própria; discutir com Clara raramente produzia resultados.
Os dois deixaram a sala poucos minutos depois. Os corredores já estavam quase vazios. A maior parte dos estudantes havia ido embora. Alguns funcionários começavam a apagar luzes e fechar salas enquanto o silêncio voltava gradualmente a ocupar a escola. Era um contraste curioso: durante o dia, Avatar Valley High School parecia viva, barulhenta, agitada, cheia de vozes... mas, ao anoitecer, transformava-se em algo completamente diferente, quase tranquila, quase silenciosa, como se também precisasse descansar.
Ao atravessar as portas principais, o frio imediatamente envolveu Henry, que se agasalhou bem por cima do uniforme. A neve continuava caindo — de forma mansa e suave, cobrindo lentamente ruas, calçadas e telhados. Ele observou a cidade por alguns instantes: as luzes dos postes começavam a se acender, pequenos comércios permaneciam abertos, algumas vitrines já exibiam decorações para o Festival de Inverno. A cidade inteira parecia preparar-se para o evento, era impossível não perceber. Faltavam apenas algumas semanas, e, em Avatar Valley, isso significava alguma coisa... talvez mais do que em qualquer outro lugar.
Do outro lado da cidade, Noah estacionava o carro diante dos portões da propriedade Klaus. Os refletores iluminavam parcialmente o caminho coberto de neve que levava até a mansão. O treino havia sido cansativo, mas não de uma forma que o incomodasse; cansaço físico era simples, previsível, muito mais fácil de lidar do que várias outras coisas. Ao entrar em casa, encontrou o ambiente tão silencioso quanto naquela manhã. As luzes estavam acesas, a lareira queimava suavemente na sala principal, mas James ainda não havia retornado, permanecendo distante em seus compromissos profissionais. Melissa aparecia sentada em uma poltrona próxima à janela, lendo. Ela ergueu os olhos quando Noah entrou.
— Sobreviveu? — perguntou Melissa.
— Por pouco — respondeu Noah.
— Hayes? — quis saber ela.
— Sempre — suspirou Noah.
Melissa sorriu.
— Então foi um dia normal — concluiu ela.
— Infelizmente — brincou Noah.
A resposta arrancou uma breve risada dela. Noah seguiu para as escadas logo depois. A conversa terminou ali, como tantas outras naquela casa: sem conflito, sem proximidade excessiva, apenas o silêncio confortável que aprenderam a compartilhar ao longo dos anos.
Naquela noite, a neve continuou caindo mansamente sobre Avatar Valley. Cobriu os telhados do centro da cidade, as ruas residenciais, os jardins, as montanhas que cercavam o vale. Dentro das casas, famílias encerravam mais um dia comum: alunos terminavam deveres, professores preparavam aulas, comerciantes faziam planos para o Festival de Inverno. E, pouco a pouco, toda a cidade parecia avançar na direção de uma mesma data: vinte e dois de dezembro... o dia do festival, o encerramento das aulas e o início do recesso. Uma tradição que atravessava gerações e moldava a vida de Avatar Valley há muito tempo. Para a maioria dos moradores, aquele inverno parecia seguir exatamente como todos os outros: as mesmas ruas, as mesmas pessoas, as mesmas rotinas, as mesmas certezas
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