AVATAR VALLEY
5 CAPÍTULO 5- A cidade que observa
A neve havia voltado a cair durante a tarde. Não com a intensidade das grandes tempestades que isolavam estradas e obrigavam os moradores a passarem horas retirando gelo das entradas de casa, mas em flocos constantes e silenciosos, daqueles que pareciam transformar a paisagem aos poucos, quase sem que ninguém percebesse. Quando a noite chegou, uma nova camada branca já cobria parte das calçadas, os bancos da praça central e os telhados inclinados das construções que cercavam a avenida principal.
As luzes decorativas refletiam sobre a neve recém-caída, espalhando tons dourados e avermelhados pelas ruas. De longe, Avatar Valley parecia exatamente aquilo que os cartões-postais vendidos nas lojas de lembranças prometiam aos turistas: uma pequena cidade montanhosa e gélida, bonita o suficiente para parecer inventada.
Na praça diante da prefeitura, crianças corriam ao redor da enorme árvore montada no início da semana. Algumas tentavam alcançar os flocos de neve com as mãos; outras arrastavam os pais de uma instalação para outra enquanto apontavam para as centenas de lâmpadas coloridas espalhadas pelos galhos. Do outro lado da rua, os alto-falantes instalados nos postes tocavam canções da temporada em volume discreto, misturando-se ao som distante de conversas, risadas e portas se abrindo conforme os últimos clientes deixavam os estabelecimentos da região.
As vitrines também haviam entrado no espírito festivo. A confeitaria da família Walsh exibia biscoitos decorados em formatos de flocos de neve e renas. A livraria local havia coberto os vidros com desenhos feitos à mão que reproduziam paisagens congeladas das montanhas ao redor. Até mesmo a loja de equipamentos esportivos, normalmente dominada por tacos de hóquei e uniformes escolares, agora dividia espaço com guirlandas, laços vermelhos e pequenas árvores artificiais.
Avatar Valley gostava de acreditar que era especial. Talvez fosse o lago que permanecia congelado durante boa parte do inverno. Talvez fossem as montanhas que cercavam a cidade como muralhas naturais, protegendo-a do restante do mundo. Talvez fossem as tradições que atravessavam gerações inteiras sem jamais parecer perder força. Os moradores possuíam dezenas de explicações diferentes para justificar aquele sentimento. Mas quase todos concordavam em uma coisa: Avatar Valley não era apenas um lugar, era uma comunidade. e comunidades, especialmente as pequenas, costumavam funcionar de maneiras particulares.
As pessoas conheciam os sobrenomes umas das outras. Conheciam as histórias. Sabiam quem havia estudado na escola local décadas antes, quem patrocinava os eventos beneficentes, quem comparecia às reuniões comunitárias e quem preferia permanecer distante delas. Algumas famílias ocupavam posições de destaque havia tanto tempo que seus nomes pareciam fazer parte da própria engrenagem municipal. A reputação possuía valor, talvez mais valor do que muitos moradores estivessem dispostos a admitir.
Em uma caminhada pela avenida principal, era possível observar pequenas demonstrações disso por toda parte. Fotografias de eventos antigos ocupavam murais. Convites para arrecadações beneficentes estavam afixados nas portas de cafés e restaurantes. Cartazes anunciavam apresentações escolares, campanhas organizadas pelas igrejas locais e atividades que reuniriam praticamente toda a população nas semanas seguintes. Entre todos eles, um nome aparecia repetidamente: Festival de Inverno.
Os anúncios surgiam nas vitrines, nos murais da prefeitura e até mesmo nas janelas da escola. Restavam poucas semanas para o evento marcado para o dia 22 de dezembro, que encerraria o período letivo antes do recesso, e a expectativa parecia espalhar-se pela cidade da mesma forma que a neve cobria as ruas: silenciosamente, mas em todos os lugares ao mesmo tempo. Oficialmente, tratava-se de uma celebração comunitária, uma tradição criada para reunir estudantes, famílias e moradores antes das festividades de fim de ano. Na prática, era muito mais do que isso.
Os comerciantes comentavam quais famílias importantes estariam presentes. Os pais discutiam apresentações e resultados esportivos. Os estudantes especulavam sobre convites para o baile, roupas, casais e fotografias que inevitavelmente acabariam estampando o jornal local. Em Avatar Valley, poucos acontecimentos permaneciam pequenos por muito tempo. Uma apresentação deixava de ser apenas uma apresentação. Uma fotografia deixava de ser apenas uma fotografia. Uma noite de dança deixava de ser apenas uma noite de dança. Tudo parecia adquirir um significado maior assim que passava pelo olhar coletivo da população.
E a cidade observava. Sempre observava. Talvez fosse justamente essa a característica mais curiosa daquele lugar. Por trás das vitrines iluminadas, dos sorrisos educados e das paisagens que pareciam saídas de um filme, existia uma atenção constante circulando entre ruas, casas, escolas e eventos comunitários — nem sempre cruel, nem sempre mal-intencionada, mas permanente. Avatar Valley gostava de enxergar a si mesma como uma grande família. E, como toda grande família, sabia tudo sobre a vida dos próprios membros. Ou pelo menos acreditava saber.
Naquela noite, enquanto as primeiras estrelas surgiam acima das montanhas e os comerciantes encerravam mais um dia de trabalho, a cidade parecia exatamente aquilo que desejava ser: acolhedora, organizada e quase perfeita. Mas a neve possuía uma estranha capacidade de esconder imperfeições. Cobria rachaduras nas calçadas. Disfarçava jardins abandonados. Suavizava marcas que, em outras estações, seriam impossíveis de ignorar. Avatar Valley fazia algo parecido. E ninguém conhecia melhor essa realidade do que os estudantes da Avatar Valley High School.
Na manhã seguinte, a influência do Festival de Inverno parecia ter atravessado os portões da Avatar Valley High School muito antes da chegada dos estudantes. Os corredores já não possuíam a aparência habitual das primeiras semanas daquele ano letivo iniciado em novembro. Faixas decorativas pendiam entre os armários, pequenas guirlandas enfeitavam algumas portas e cartazes coloridos anunciavam horários de apresentações, ensaios e atividades relacionadas ao evento de dezembro.
Do lado de fora, o frio permanecia intenso, emoldurando de forma cênica a rotina escolar. Do lado de dentro, porém, a instituição parecia funcionar movida por uma energia diferente. A cada troca de aula, grupos de estudantes se acumulavam nos corredores. Alguns discutiam possíveis combinações de roupas para o baile. Outros tentavam descobrir quem convidaria quem para a grande noite. Existiam conversas sobre apresentações, sobre a votação informal para rei e rainha do baile e até mesmo sobre quais fotografias acabariam aparecendo na edição especial da imprensa local. Poucos admitiriam em voz alta o quanto se importavam, mas quase todos se importavam. Avatar Valley adorava tradições, e a escola não era diferente.
Enquanto se atravessava um dos corredores principais, era impossível não perceber os preparativos acontecendo em vários pontos simultaneamente. Funcionários carregavam caixas cheias de enfeites em direção ao ginásio. Professores conferiam cronogramas presos a pranchetas. Integrantes do coral passavam carregando pastas de partituras enquanto comentavam detalhes dos ensaios programados pela professora Olivia Bennett para aquela semana. Até mesmo alunos que normalmente ignoravam eventos escolares acabavam sendo arrastados para alguma conversa relacionada ao festival.
— Minha mãe já comprou o vestido há duas semanas.
— Duas semanas? A minha ainda nem decidiu qual loja vai olhar.
— Meu pai disse que este ano vai nevar exatamente durante o baile.
— Seu pai fala isso todo ano.
— E todo ano ele acerta.
As risadas surgiram naturalmente antes que o grupo desaparecesse por outra sala. Mais adiante, dois estudantes discutiam quem provavelmente apareceria acompanhado no evento. Perto da biblioteca, alguém comentava sobre uma apresentação preparada por um grupo de dança. Em frente ao mural principal, uma pequena multidão observava os novos anúncios afixados naquela manhã. A escola inteira parecia construir expectativas coletivamente, algumas delas realistas, outras completamente imaginárias, mas isso pouco importava. Parte da diversão estava justamente na especulação.
Para muitos alunos, o Festival de Inverno representava apenas uma noite divertida antes do início das férias. Para outros, significava algo muito maior: era uma oportunidade de aparecer, de ser notado, de confirmar amizades, de fortalecer relacionamentos, de ocupar determinado espaço dentro da complexa hierarquia social que existia entre os corredores da Avatar Valley High School. Nem todos enxergavam dessa forma, mas quase todos eram afetados por ela.
Noah Klaus, por exemplo, mal precisou atravessar metade da escola antes de ouvir alguém mencionar seu nome próximo à entrada.
— Aposto cinquenta dólares que ele vai ser escolhido rei do baile.
— Isso nem é aposta.
— Exatamente.
As risadas ecoaram pelo corredor. Noah apenas balançou a cabeça sem diminuir o passo. Já estava acostumado. Desde o ensino fundamental, parecia existir algum tipo de expectativa coletiva ao seu redor. As pessoas comentavam seus jogos de hóquei. Comentavam suas notas. Comentavam suas amizades. Comentavam até coisas que ele próprio desconhecia. Na maior parte do tempo, simplesmente ignorava.
— Famoso como sempre — comentou Tyler Reed ao alcançá-lo próximo aos armários.
— Você fala como se fosse culpa minha — respondeu Noah.
— E não é? — rebateu Tyler Reed.
— Não — limitou-se a dizer o capitão.
— Concordo — ironizou o amigo.
Tyler Reed sorriu. Os dois seguiram caminhando lado a lado enquanto outros estudantes cruzavam o corredor em direções opostas. Algumas pessoas cumprimentavam Noah. Outras apenas observavam sua passagem. Nada daquilo parecia extraordinário para ele, porque era normal, ou pelo menos sempre tinha sido naquela hierarquia.
Do outro lado da escola, a experiência era completamente diferente. Henry Dawson observava o movimento enquanto organizava alguns livros dentro do próprio armário. Ainda existiam momentos em que se sentia mais um visitante do que um morador daquela cidade. Avatar Valley era acolhedora na superfície. As pessoas sorriam. Cumprimentavam. Faziam perguntas educadas. Mas também parecia existir uma rede invisível conectando praticamente todos os estudantes: histórias compartilhadas, amizades antigas, referências que vinham desde a infância, memórias das quais ele não participara. Não era exatamente exclusão, era algo mais sutil: a sensação constante de estar chegando depois que uma conversa já havia começado.
— Você está pensando demais de novo.
Henry virou-se ao ouvir a voz familiar. Clara aproximava-se pelo corredor segurando uma pasta contra o peito.
— Como você sabe? — perguntou Henry.
— Porque você faz essa cara — apontou ela.
— Que cara? — quis saber o rapaz.
— Essa — Clara gesticulou em direção a ele. — Como se estivesse analisando um documentário sobre comportamento humano.
Henry soltou uma risada baixa.
— Talvez eu esteja — admitiu ele.
— Então sua pesquisa precisa de melhores fontes — brincou Owen, surgindo logo atrás dela. — Porque eu acabei de ouvir alguém dizendo que vai nevar exatamente às oito e quarenta e tres da noite durante o baile.
— Informação importante — ironizou Henry.
— Fundamental para a ciência — completou Owen.
Pela primeira vez naquela manhã, Henry sentiu os ombros relaxarem. Era curioso como a presença de Clara e Owen conseguia produzir aquele efeito de acolhimento. A conversa continuou enquanto os três seguiam pelo corredor, misturando comentários sobre as aulas regulares, os ensaios do coral e os rumores absurdos que circulavam pela escola. Ao redor deles, a movimentação continuava crescendo. O Festival de Inverno aproximava-se, e com ele cresciam também as expectativas, as inseguranças, os planos e as pequenas disputas silenciosas que transformavam aqueles dias em algo diferente do restante do ano. Pouco antes do almoço, a energia da escola parecia ainda mais intensa, como se todos aguardassem alguma coisa, como se a própria Avatar Valley High School estivesse prendendo a respiração. E, em alguns casos, talvez estivesse mesmo.
O horário do almoço transformava a escola em um lugar diferente. Os corredores esvaziavam-se rapidamente, enquanto centenas de estudantes convergiam para o refeitório principal. O ruído de conversas crescia gradualmente conforme novas mesas eram ocupadas e grupos inteiros se espalhavam pelo salão amplo, iluminado pelas grandes janelas voltadas para o pátio coberto de neve. Lá fora, o inverno precoce continuava dominando a paisagem. Lá dentro, porém, o ambiente era quente, movimentado e caótico da forma familiar que apenas escolas conseguem ser.
Filas se formavam diante dos balcões da cantina. Bandejas deslizavam pelos trilhos metálicos. Funcionárias repetiam as mesmas perguntas dezenas de vezes por dia. Risadas surgiam em diferentes pontos do salão, misturando-se ao som constante de cadeiras sendo arrastadas e mochilas sendo deixadas ao lado das mesas. O Festival de Inverno continuava sendo um dos assuntos favoritos. Em praticamente todas as direções era possível ouvir fragmentos de conversas sobre roupas, convites, apresentações e expectativas para as semanas seguintes.
Noah estava sentado com os colegas do time de hóquei próximo às janelas laterais do refeitório. A mesa era uma das maiores do salão e, como acontecia com frequência, atraía uma circulação constante de pessoas. Alguns alunos paravam para cumprimentar os jogadores. Outros apenas trocavam comentários rápidos antes de seguir caminho. A conversa girava em torno do campeonato estadual, ou pelo menos tentava, porque Tyler Reed parecia muito mais interessado em falar sobre qualquer outra coisa.
— Estou dizendo — insistiu ele enquanto apontava o garfo para um dos colegas. — Se você aparecer naquele baile usando aquela gravata ridícula, eu vou fingir que não te conheço.
— Você já finge isso normalmente — retrucou o jogador.
— Verdade — concordou Tyler Reed.
As risadas surgiram ao redor da mesa. Tyler Reed abriu um sorriso satisfeito. A atenção das pessoas funcionava quase como combustível para ele: quanto mais olhares recebia, mais confortável parecia ficar. Noah conhecia aquele comportamento havia anos; não era exatamente uma novidade. Tyler Reed gostava de fazer os outros rirem, gostava de ser o centro da conversa, gostava de ocupar espaço. Na maior parte do tempo aquilo era inofensivo... na maior parte do tempo.
Enquanto isso, algumas mesas adiante, Ethan Parker almoçava sozinho. Não era algo incomum. O garoto costumava ocupar lugares discretos no refeitório, normalmente próximos às extremidades do salão, onde o fluxo de estudantes era menor. Mantinha poucos amigos visíveis e parecia preferir a companhia dos próprios pensamentos à das multidões que preenchiam o ambiente. Ou talvez simplesmente tivesse aprendido que era mais fácil daquela forma. De vez em quando alguém passava por sua mesa, mas raramente alguém permanecia. Ethan parecia acostumado com isso, acostumado demais.
O sinal que marcava os últimos minutos do almoço ainda não havia tocado quando ele finalmente se levantou. Recolheu a bandeja, ajustou a mochila sobre um dos ombros e começou a atravessar o corredor lateral que separava algumas mesas da área de descarte. Foi então que aconteceu. Ou, pelo menos, foi então que começou.
Tyler Reed caminhava na direção oposta acompanhado por dois jogadores do time de hóquei. Conversava sobre alguma coisa que arrancava gargalhadas dos colegas quando seus ombros se chocaram contra Ethan. A colisão pareceu acidental, à primeira vista. A bandeja inclinou imediatamente. Um copo tombou. O líquido espalhou-se pelo chão. Parte do almoço escorregou para fora do prato. O barulho não foi alto, mas suficiente — suficiente para atrair atenção. Algumas conversas diminuíram de volume, outras cessaram completamente; vários rostos voltaram-se na mesma direção. O refeitório não mergulhou no silêncio, mas observou com atenção.
Ethan permaneceu imóvel por um instante, olhando para a bagunça espalhada aos próprios pés. Tyler Reed não.
— Nossa — comentou Tyler Reed, encarando o chão com um sorriso torto. — Você sempre anda desse jeito ou resolveu inovar hoje?
As primeiras risadas surgiram quase imediatamente, pequenas, contidas, mas presentes. Ethan abaixou-se para pegar o copo caído.
— Foi um acidente — disse Ethan em voz baixa.
— Claro que foi — ironizou Tyler Reed, enfiando as mãos nos bolsos. — Tudo que acontece com você parece ser acidente.
Os dois jogadores atrás dele riram novamente. Ethan não respondeu. Aquilo pareceu frustrar Tyler Reed por um segundo, como um comediante que conta uma piada e recebe menos reação do que esperava.
— Sabe o que eu admiro em você? — continuou Tyler Reed. — Essa capacidade impressionante de agir como se ninguém estivesse falando.
Ethan recolheu outro pedaço da bandeja.
— Eu ouvi — limitou-se a dizer.
— Então fala alguma coisa — cobrou o atleta.
— Pra quê? — devolveu Ethan.
Dessa vez algumas pessoas próximas trocaram olhares. A resposta não fora agressiva, nem particularmente engraçada, mas também não fora a reação submissa que Tyler Reed procurava. O sorriso dele vacilou por um breve instante, quase imperceptivelmente.
— Porque talvez eu esteja tentando te ajudar — rebateu Tyler Reed.
— A parecer menos estranho? — completou Ethan.
— Exatamente — confirmou o jogador.
— Boa sorte — encerrou Ethan.
Algumas risadas escaparam de mesas vizinhas — não porque Ethan tivesse vencido alguma disputa, mas porque, por um momento, a situação saíra do roteiro esperado. Tyler Reed deu um passo à frente. O gesto não foi ameaçador, não explicitamente, mas também não carregava qualquer traço de gentileza.
— Você acha que é engraçado? — perguntou Tyler Reed, sério.
— Não — respondeu Ethan.
— Então por que está sorrindo? — questionou o outro.
Ethan piscou, como se nem tivesse percebido que estava. Talvez fosse nervosismo, talvez desconforto, talvez apenas uma reação involuntária. Pouco importava; Tyler Reed já encontrara algo novo para explorar.
— Impressionante — ele balançou a cabeça lentamente. — Você realmente não entende como funciona essa escola.
Agora mais pessoas observavam. Mesas inteiras acompanhavam a cena. Alguns estudantes fingiam continuar conversando enquanto lançavam olhares discretos, outros já nem tentavam disfarçar. Porque aquela era uma das contradições mais curiosas de Avatar Valley: as pessoas diziam valorizar a gentileza, falavam sobre comunidade, falavam sobre respeito, mas raramente conseguiam desviar os olhos quando alguém se tornava espetáculo.
Na mesa dos jogadores, Noah Klaus observava tudo sem pressa. Sentado de maneira relaxada, apoiado contra o encosto da cadeira, ele acompanhava a situação como quem assiste a algo familiar. Porque era familiar — não exatamente aquela cena, mas dinâmicas parecidas: um comentário, uma provocação, algumas risadas, um alvo conveniente. Nada que parecesse sério o bastante para justificar intervenção, nada que, aos olhos de grande parte da escola, fugisse daquilo que acontecia todos os dias nos corredores.
— Vai limpar isso ou pretende decorar o chão? — perguntou Tyler Reed.
Ethan recolheu o restante da bandeja.
— Vou limpar — respondeu.
— Ótimo — Tyler Reed abriu um sorriso satisfeito. — Finalmente uma decisão inteligente.
Dessa vez as risadas vieram de vários pontos do refeitório. Nem todos acharam graça, mas muitos riram mesmo assim. Porque rir era seguro, muito mais seguro do que discordar. E essa também era uma regra silenciosa de Avatar Valley: as pessoas raramente participavam diretamente da hostilidade, mas frequentemente assistiam. E assistir era fácil, muito fácil.
Quando Ethan finalmente se afastou em direção à estação de limpeza próxima à saída lateral, a tensão começou a se dissolver quase tão rapidamente quanto surgira. Tyler Reed voltou para junto dos colegas, os jogadores retomaram a conversa, as cadeiras voltaram a ranger e o barulho do refeitório recuperou gradualmente sua intensidade habitual. Parecia o fim do episódio, parecia apenas mais um instante insignificante perdido entre centenas de outros que aconteciam diariamente naquela instituição. Mas nem sempre as mudanças começam em grandes acontecimentos; às vezes começam quando uma única pessoa decide fazer algo que ninguém mais está disposto a fazer.
O refeitório começava a recuperar seu ritmo habitual. As conversas voltavam gradualmente ao volume anterior, as cadeiras tornavam a deslizar pelo piso e grupos retomavam discussões interrompidas sobre provas, treinamentos e o Festival de Inverno, como se os minutos anteriores já estivessem sendo empurrados para algum canto esquecido da memória coletiva da escola. Era assim que as coisas costumavam funcionar em Avatar Valley: os acontecimentos desapareciam rapidamente quando não envolviam alguém importante o suficiente para mantê-los vivos por mais tempo.
Ethan já havia alcançado a estação de limpeza próxima à saída lateral quando uma segunda bandeja surgiu ao seu lado.
— Precisa de ajuda?
A voz não foi alta, nem chamou atenção imediatamente. Ethan ergueu os olhos. Henry Dawson segurava alguns guardanapos, um pano úmido e uma pequena pilha de toalhas de papel que havia acabado de pegar com uma das funcionárias da cantina. Por alguns segundos, Ethan apenas o encarou; a surpresa em seu rosto parecia genuína.
— Não precisa — respondeu Ethan.
— Eu sei — Henry ajoelhou-se próximo à bagunça espalhada pelo chão. — Mesmo assim vou ajudar.
E começou. Sem cerimônia, sem discursos, sem indignação visível, sem transformar o gesto em algo maior do que realmente era, simplesmente começou a recolher os restos do almoço espalhados pelo piso. Como se aquilo fosse normal, como se ajudar alguém fosse uma atitude tão natural quanto qualquer outra. Talvez fosse justamente isso que tornasse a cena incomum, porque, naquela escola, a maioria das pessoas havia aprendido a observar; participar era outra história.
Ethan permaneceu imóvel por um instante antes de finalmente se agachar ao lado dele.
— Obrigado — murmurou Ethan.
Henry deu de ombros.
— Sem problema — respondeu o novato.
Os dois continuaram limpando em silêncio. O som das conversas ao redor parecia distante agora, misturado ao ruído constante do refeitório e às canções baixas que escapavam dos alto-falantes próximos à cantina. Por alguns segundos, parecia que a situação terminaria ali, mas Tyler Reed raramente ignorava algo que pudesse transformar em entretenimento para o salão.
— Olha só — a voz dele surgiu alta o suficiente para atravessar várias mesas. — O reforço chegou.
Alguns estudantes próximos voltaram os rostos na direção indicada, outros seguiram o movimento logo depois. Tyler Reed apoiou os cotovelos sobre a mesa e observou a cena com evidente satisfação.
— Que bonito — desdenhou.
Um dos jogadores ao lado dele soltou uma risada.
— O quê? — perguntou outro.
— Nada — Tyler Reed abriu um sorriso largo. — Só estou admirando o espírito comunitário. — As primeiras gargalhadas apareceram ao redor. — O Ethan derruba o almoço e, do nada, surge alguém para salvar o dia.
— Talvez ele só esteja ajudando — comentou um garoto do segundo ano sentado próximo.
— Claro — Tyler Reed assentiu teatralmente. — E eu sou o Papai Noel.
As risadas aumentaram. Henry ouviu tudo e continuou limpando. Ethan também. Talvez ambos soubessem que responder apenas prolongaria a situação, talvez já tivessem aprendido isso há muito tempo. Mas Tyler Reed ainda não havia terminado.
— Está parecendo cena de filme de romance clichê — provocou ele alta e claramente. — Lá vem — murmurou alguém entre risos na mesa vizinha. — Sério — ele apontou discretamente na direção dos dois. — Daqui a pouco eles saem andando juntos de mãos dadas ao pôr do sol.
As gargalhadas vieram mais fortes. Alguns alunos bateram na mesa, outros repetiram a observação para colegas que sequer haviam escutado a frase original. Então veio o comentário seguinte, mais previsível, mais fácil, com claras insinuações homofóbicas sobre a orientação sexual de ambos.
— Vai ver ele só está ajudando o namoradinho.
Dessa vez as risadas espalharam-se rapidamente, como uma onda atravessando o refeitório. Nem todos participaram, mas pessoas suficientes participaram para que a provocação alcançasse seu objetivo. Ethan abaixou os olhos imediatamente; os ombros pareceram encolher alguns centímetros sob o peso dos olhares.
Henry permaneceu imóvel por um breve instante, apenas um instante, mas foi o suficiente. Porque aquele tipo de comentário preconceituoso e ofensivo não era novidade, infelizmente. Desde muito cedo aprendera que certas pessoas transformavam qualquer demonstração de gentileza ou vulnerabilidade entre garotos em motivo para piada maldosa — como se a empatia fosse algo constrangedor, como se a bondade exigisse justificativa, como se ajudar outro rapaz automaticamente devesse ser rotulado com segundas intenções. Uma parte dele queria responder, outra queria simplesmente desaparecer dali, mas nenhuma das duas venceu. Henry respirou fundo, conteve o incômodo, voltou a limpar o chão e seguiu em silêncio.
O gesto de resiliência pareceu divertir Tyler Reed ainda mais.
— Viu só? — ele olhou para os colegas de time. — Nem negou.
As gargalhadas recomeçaram, mas, naquela altura, Henry já não estava ouvindo, ou pelo menos fingia não estar. Porque responder não mudaria nada; a plateia queria espetáculo, e ele não tinha a menor intenção de fornecer um.
Na mesa do time de hóquei, Noah Klaus acompanhava a cena sem grande envolvimento emocional, ou pelo menos acreditava que sim... até perceber que continuava olhando. Seu olhar permaneceu alguns segundos a mais sobre o garoto ajoelhado ao lado de Ethan — mais tempo do que pretendia, mais tempo do que normalmente dedicaria a alguém que mal conhecia. Já o tinha visto antes nos corredores, talvez em alguma aula, talvez perto do auditório, talvez em um dos ensaios do coral, não lembrava exatamente. A impressão geral era a mesma que quase todo mundo parecia ter: discreto, quieto, magro, o tipo de aluno que passava despercebido pela maior parte da escola, nada particularmente memorável, nada que justificasse tanta atenção dos atletas.
E, ainda assim, havia algo intrigante naquela situação. Porque Henry não parecia tentar impressionar ninguém: não estava fazendo discurso, não estava buscando reconhecimento, não estava sequer olhando para a plateia. Estava apenas ajudando.
Noah apoiou um braço sobre a mesa e quebrou sua postura distante.
— Você está obcecado por eles agora? — perguntou Noah, encarando o amigo.
Tyler Reed virou-se para ele, surpreso.
— Quem? — perguntou Tyler Reed.
— Os dois — apontou o capitão.
Tyler Reed deu de ombros, minimizando.
— Só estou me divertindo — justificou o colega.
— Com dois caras limpando o chão? — questionou Noah com um tom sutil de ironia.
Algumas pessoas próximas na mesa riram da intervenção de Noah.
— Quando você fala assim, parece estranho — admitiu Tyler Reed, desconfortável.
— Porque é estranho — sentenciou Noah com firmeza.
Dessa vez até Tyler Reed riu para disfarçar, mas lançou mais um olhar na direção de Henry antes de voltar à conversa do time. Foi um olhar breve, pequeno, quase insignificante. Ainda assim, carregava algo diferente. Até poucos dias atrás, Ethan era apenas mais um alvo ocasional dentro da rotina escolar; agora parecia existir um segundo nome entrando lentamente no radar de implicações de Tyler Reed. E aquilo dificilmente era uma boa notícia para Henry.
Pouco depois, Henry e Ethan terminaram de limpar a bagunça. Devolveram os materiais à funcionária da cantina, não comentaram as provocações, não olharam para a mesa dos jogadores e não procuraram explicações. Simplesmente seguiram em frente, como tantas outras pessoas aprendiam a fazer em Avatar Valley.
O sinal da próxima aula ecoou pelo refeitório alguns minutos depois. Mochilas foram recolhidas, cadeiras voltaram para seus lugares e os corredores começaram a encher novamente. Em questão de minutos, a multidão absorveu completamente os vestígios do que havia acontecido. A cena desapareceu, pelo menos na superfície, porque algumas pessoas continuariam pensando nela por mais tempo do que gostariam de admitir.
As aulas da tarde transcorreram sem incidentes, pelo menos era o que qualquer observador externo teria concluído. Os professores continuaram explicando conteúdos, os estudantes continuaram copiando anotações, os corredores continuaram cheios durante as trocas de aula e os preparativos para o Festival de Inverno seguiram avançando em diferentes partes da instituição. A rotina permaneceu intacta... ou quase. Porque algumas situações desapareciam da superfície muito antes de desaparecerem completamente da cabeça das pessoas.
Henry percebeu isso quando deixou a última aula do dia. O céu já começava a escurecer além das janelas do corredor, tingindo a neve acumulada do lado de fora com tons azulados e prateados. Ao redor de si, grupos de estudantes seguiam conversando sobre assuntos variados. O baile continuava dominando boa parte das discussões: quem iria com quem, quem usaria determinada roupa, quem provavelmente seria escolhido rei e rainha da noite. As mesmas conversas repetiam-se em diferentes versões por toda a escola. Henry escutava fragmentos delas enquanto caminhava em direção ao auditório para mais um ensaio do coral, mas sua mente insistia em retornar ao refeitório.
Não exatamente às provocações — estava acostumado demais à existência delas para se surpreender. O que permanecia voltando era outra coisa: a facilidade, a naturalidade com que tudo havia acontecido, como se ninguém na escola tivesse considerado aquilo estranho, como se fosse apenas mais um episódio comum de uma rotina compartilhada por todos. Talvez fosse exatamente isso que o incomodasse: a sensação de que determinadas crueldades se tornavam invisíveis quando aconteciam com frequência suficiente no cotidiano de Avatar Valley.
Ao entrar no auditório, porém, aquele peso pareceu diminuir um pouco. O ambiente possuía uma energia diferente do restante do prédio. Alguns alunos já conversavam próximos ao palco, outros organizavam partituras ou ajustavam cadeiras para o ensaio, e o professor circulava entre os grupos enquanto revisava anotações presas a uma pasta. Não era um lugar perfeito, mas era um lugar onde Henry conseguia respirar e se dedicar à sua música. E, naquele momento, isso bastava.
Enquanto isso, do outro lado do complexo escolar, o último treinamento do dia terminava no ginásio esportivo. O som dos patins riscando o gelo diminuía gradualmente à medida que os jogadores deixavam a pista. Auxiliares recolhiam equipamentos e funcionários organizavam materiais para a manhã seguinte. Noah Klaus retirou o capacete e passou uma das mãos pelos cabelos úmidos de suor. O treino havia sido bom, objetivamente bom sob o olhar rígido do treinador Richard Hayes. Ainda assim, enquanto guardava os equipamentos no armário número nove, uma lembrança inesperada atravessou seus pensamentos: Henry Dawson ajoelhado no chão do refeitório.
A imagem surgiu apenas por um instante, breve, quase aleatória. Noah franziu a testa — não porque estivesse particularmente interessado no garoto novo, mas porque ainda não entendia por que continuava lembrando daquilo. Talvez fosse apenas porque a cena havia sido atípica na dinâmica usual, talvez porque Tyler Reed tivesse exagerado no tom, talvez porque ninguém normalmente escolhesse se envolver quando poderia simplesmente seguir em frente. Ele fechou a porta metálica do armário. O pensamento desapareceu quase tão rápido quanto surgira; a temporada e a obsessão pelo estadual ocupavam espaço demais em sua cabeça para permitir reflexões muito longas sobre qualquer outra coisa. Mesmo assim, a lembrança permaneceu em algum lugar, pequena, silenciosa, esperando.
Naquela mesma noite, as luzes decorativas voltaram a iluminar a avenida principal de Avatar Valley. A neve continuava caindo em flocos suaves, as vitrines permaneciam decoradas e os comerciantes encerravam mais um dia de trabalho. Famílias caminhavam pela praça central enquanto crianças observavam a enorme árvore montada diante da prefeitura. À distância, a cidade parecia exatamente aquilo que sempre gostara de ser: bonita, organizada, acolhedora... perfeita, quase.
Os preparativos para o Festival de Inverno avançavam em todos os cantos para a grande data de dezembro. Cartazes surgiam em novas vitrines, convites eram distribuídos, ensaios aconteciam e conversas multiplicavam-se. Avatar Valley preparava-se para celebrar a si mesma mais uma vez. E ninguém parecia perceber que, sob a superfície tranquila das ruas cobertas de neve, pequenas mudanças já haviam começado — mudanças discretas, quase invisíveis, como os primeiros flocos que anunciam uma tempestade muito antes de ela chegar. A cidade continuava observando.
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