AVATAR VALLEY

8 CAPÍTULO 8 - Sexta-feira de Inverno


O amanhecer de sexta-feira trouxe consigo uma nova camada de neve sobre Avatar Valley. Durante a madrugada, flocos leves haviam coberto telhados, jardins, ruas e vitrines, transformando a cidade mais uma vez na imagem perfeita que aparecia nos cartões-postais vendidos durante o inverno. As montanhas que cercavam o vale permaneciam parcialmente escondidas sob nuvens baixas, enquanto fileiras de guirlandas natalinas decoravam postes e fachadas ao longo da avenida principal, com luzes coloridas piscando discretamente em algumas janelas. O lago congelado refletia o sky cinzento da manhã para qualquer visitante, fazendo Avatar Valley parecer saída diretamente de uma história de Natal.

Os moradores adoravam aquela imagem — e, mais do que isso, esforçavam-se para preservá-la. Naquele período do ano, a cidade inteira parecia girar em torno de uma única expectativa coletiva: o Festival de Inverno aproximava-se rapidamente, trazendo consigo apresentações escolares, eventos beneficentes, recepções comunitárias e, acima de tudo, o tradicional Baile de Inverno da Avatar Valley High School. Oficialmente, era apenas uma celebração estudantil, mas na prática todos sabiam que significava muito mais. Os vestidos escolhidos seriam comentados, os casais seriam observados e as fotografias circulariam pela cidade durante semanas, onde cada pequeno detalhe acabaria alimentando conversas muito depois do evento terminar. Avatar Valley funcionava assim e sempre funcionara. Por isso, mesmo aqueles que fingiam não se importar acabavam pensando no baile mais do que gostariam de admitir.

A própria escola parecia diferente naquela manhã, com cartazes decorativos ocupando corredores inteiros, flocos de neve de papel pendendo do teto e alunos carregando caixas com enfeites para o ginásio principal enquanto professores discutiam os últimos preparativos para as apresentações do festival. O clima era impossível de ignorar: durante a primeira aula, grupos cochichavam sobre roupas; na segunda, comentavam possíveis pares; na terceira, especulavam sobre quem apareceria junto no evento. Nem mesmo os professores escapavam completamente daquela atmosfera.

Quando o horário do almoço finalmente chegou, o refeitório transformou-se no reflexo perfeito daquele estado coletivo de ansiedade. Centenas de vozes preenchiam o ambiente, bandejas batiam contra mesas e cadeiras arrastavam-se pelo piso, enquanto as músicas natalinas que saíam discretamente dos alto-falantes quase desapareciam sob o volume das conversas. Em uma das mesas próximas às janelas, Henry Dawson almoçava ao lado de Clara Whitmore, Owen Carter e Ethan Parker — uma cena que teria parecido improvável apenas alguns dias antes. Ethan ainda carregava certa cautela em seus movimentos, continuando a observar o ambiente antes de falar e medindo as palavras com mais cuidado do que a maioria das pessoas da sua idade, mas algo havia mudado. Talvez fosse a presença constante de Clara, talvez a tranquilidade silenciosa de Owen, talvez a gentileza natural de Henry, ou talvez fosse simplesmente o fato de que, pela primeira vez em tempo, ele estava sentado em uma mesa onde ninguém parecia esperar que ele se tornasse a piada do dia.

— Eu ainda acho que vocês estão levando esse baile a sério demais — comentou Henry, mexendo distraidamente no próprio almoço.

Clara ergueu os olhos imediatamente, apontando o garfo na direção dele:

— Isso porque você ainda não entendeu como Avatar Valley funciona. Aqui as pessoas passam meses se preparando para fingir que não se importam com uma festa com a qual se importam absurdamente.

— Infelizmente, ela está certa — acrescentou Owen.

— Eu odeio quando isso acontece — declarou Clara.

Uma risada escapou de Ethan antes que ele pudesse impedir — pequena, breve, mas verdadeira. Henry percebeu, e não foi o único; Clara também notou e imediatamente abriu um sorriso satisfeito, como alguém que acabara de vencer uma batalha invisível. Ethan pareceu perceber tarde demais que havia sido flagrado sorrindo.

— Não se acostume — avisou ele.

— Tarde demais — respondeu Clara. — Já estamos adotando você.

— Clara...

— É verdade.

— Você não pode simplesmente adotar pessoas.

— Posso sim.

— Isso parece ilegal.

— Só parece porque você não conhece as regras.

Owen balançou a cabeça:

— Ela inventa as próprias regras desde os onze anos.

— E funciona — defendeu-se Clara.

— Esse é o pior argumento possível.

— E ainda assim funciona.

Dessa vez até Henry começou a rir. Ao redor deles, o refeitório continuava mergulhado na mesma energia frenética que tomava conta da escola inteira. Faltavam poucos dias para o Festival de Inverno e, mesmo sem perceber, todos já estavam sendo arrastados em direção ao evento que dominaria Avatar Valley na semana seguinte.

Do outro lado do refeitório, a dinâmica era completamente diferente. Enquanto algumas mesas se formavam por afinidade e outras por conveniência, a do time de hóquei pareceu existir por direito próprio, ocupando sempre o mesmo espaço, atraindo sempre os mesmos olhares e reunindo algumas das pessoas mais populares da Avatar Valley High School. Os jogadores falavam alto, riam mais do que qualquer outro grupo e pareciam ocupar naturalmente o centro da atenção sem precisar fazer esforço algum.

Noah Klaus permanecia sentado onde costumava ficar todos os dias: no centro. Não porque exigisse aquilo, nem porque precisasse, mas simplesmente porque tudo ao redor parecia se organizar daquela maneira. Ele apoiava um braço sobre a mesa enquanto escutava apenas metade da conversa que acontecia ao seu redor, onde os demais jogadores discutiam o campeonato estadual, comentavam resultados recentes e faziam previsões cada vez mais exageradas para os próximos jogos. Tyler Reed liderava boa parte das provocações, como sempre.

— Estou dizendo que vamos destruir Oakridge.

— Você disse a mesma coisa no último amistoso — comentou um dos atletas.

— E destruímos.

— Ganhamos por um gol.

— Vitória é vitória.

Algumas risadas surgiram, e Tyler Reed apontou um dedo na direção do colega:

— Essa mentalidade derrotista é exatamente o que separa campeões de figurantes.

— Você leu isso em algum pôster motivacional?

— Talvez.

— Eu sabia.

As gargalhadas aumentaram. Ao lado de Noah, Kate Montgomery observava a cena com um sorriso paciente, pois já conhecia aquelas conversas de cor. Depois de tantos anos frequentando os mesmos eventos, os mesmos círculos sociais e os mesmos grupos escolares, poucas coisas realmente a surpreendiam. Mesmo sentada diante de uma bandeja escolar comum, mantinha a postura impecável que parecia acompanhá-la para todos os lugares.

Kate apoiou um cotovelo sobre a mesa:

— Já decidiu?

Noah ergueu os olhos:

— Decidi o quê?

— O baile.

— O baile vai acontecer de qualquer forma.

Kate fechou os olhos por um segundo, fazendo alguns jogadores começarem a rir imediatamente.

— Eu juro que conversar com você às vezes é uma experiência fascinante.

— Obrigado.

— Não foi um elogio.

— Eu sei.

Mais risadas surgiram, e Tyler Reed apontou para os dois:

— Vocês funcionam como um casal casado há quarenta anos.

— Que imagem horrível — comentou Kate.

— Eu estou tentando ajudar.

— Nunca ajuda.

— Isso é injusto.

Kate voltou sua atenção para Noah:

— Estou perguntando se você vai comigo.

Por alguns segundos, ele permaneceu em silêncio — não porque estivesse pensando muito, mas porque a pergunta parecia tão óbvia que exigia algum esforço para ser processada.

— Claro.

Tyler Reed imediatamente levou a mão ao peito:

— Nossa.

— O quê?

— Isso foi emocionante.

— Foi uma pergunta.

— E você respondeu como se ela tivesse perguntado se você queria participar de uma reunião do conselho escolar.

Os jogadores voltaram a rir e Kate também acabou sorrindo porque, apesar de tudo, aquilo era esperado. Para a maioria da escola, Noah Klaus e Kate Montgomery comparecerem juntos ao Baile de Inverno era praticamente uma tradição não oficial. Talvez ninguém conseguisse lembrar exatamente quando começaram a ser vistos daquela forma, mas, em algum momento, a ideia simplesmente se tornara parte da paisagem social de Avatar Valley, assim como a neve, as montanhas e o próprio Festival de Inverno.

A conversa continuou, novos comentários surgiram e algumas piadas foram feitas, mas, em determinado momento, sem qualquer motivo específico, o olhar de Noah atravessou parte do refeitório e encontrou outra mesa. Henry estava sentado entre Clara, Owen e Ethan; Clara falava alguma coisa com gestos exagerados, Owen parecia resignado, Ethan tentava esconder um sorriso e Henry observava os três com uma expressão tranquila. Era uma cena comum, nada extraordinário ou que justificasse atenção, mas, ainda assim, Noah permaneceu olhando naquela direção por alguns segundos antes de voltar para a própria conversa. Ele não pensou muito sobre isso, nem percebeu que havia feito aquilo, mas poucos minutos depois aconteceu novamente: outro olhar breve, quase automático, como se seu cérebro estivesse registrando algo antes mesmo que ele decidisse prestar atenção.

Henry não percebeu e continuava conversando normalmente, mas outra pessoa notou: Tyler Reed. O vice-capitão interrompeu a própria conversa por um instante, observou discretamente a direção do olhar do amigo, depois a mesa próxima às janelas e voltou a encarar Noah. Um sorriso lento surgiu em seu rosto — não porque tivesse entendido alguma coisa, na verdade não havia nada para entender —, mas Tyler Reed possuía uma habilidade irritante para encontrar possibilidades de entretenimento onde ninguém mais enxergava nada. E aquilo, por menor que fosse, parecia uma possibilidade. Ele não comentou, ainda não, limitando-se a continuar observando enquanto Noah já havia voltado sua atenção para la conversa do grupo, sem imaginar que, em Avatar Valley, às vezes bastava um único olhar para que alguém começasse a criar histórias que não existiam. E Tyler Reed adorava criar histórias.

Tyler Reed levantou-se da mesa sem qualquer senso de urgência, pegou o copo descartável que estava à sua frente, tomou o último gole do refrigerante e empurrou a cadeira para trás.

— Já volto.

Um dos jogadores ergueu uma sobrancelha:

— Vai aonde?

— Fazer trabalho comunitário.

As gargalhadas surgiram imediatamente:

— Isso é assustador.

— Eu também fiquei preocupado.

— Se ele começar a ajudar idosos a atravessar a rua, a gente chama um médico.

Tyler Reed apenas sorriu e então começou a atravessar o refeitório. Não havia nada particularmente ameaçador em sua postura; ele não parecia irritado, nem agressivo, nem mesmo sério, e talvez fosse justamente isso que o tornasse tão difícil de enfrentar. Tyler Reed raramente parecia estar procurando conflito, agindo como alguém que apenas queria se divertir, mas o problema era que sua diversão quase sempre acontecia às custas de outra pessoa. Conforme caminhava entre as mesas, algumas conversas diminuíram de volume e outras pararam completamente, não porque os estudantes tivessem medo dele, pelo menos não exatamente, mas porque todos conheciam aquele padrão: quando Tyler Reed caminhava naquela direção específica, normalmente significava que alguém estava prestes a se tornar entretenimento coletivo.

Na mesa próxima às janelas, Henry foi o primeiro a percebê-lo, e o aperto surgiu em seu estômago antes mesmo que pudesse pensar sobre isso, fazendo seus ombros ficarem instintivamente mais tensos. Ao seu lado, Ethan também notou e o efeito foi imediato, fazendo seu sorriso desaparecer. Clara ergueu os olhos logo em seguida e sua expressão tornou-se perigosamente impaciente.

— Ah, não — murmurou ela.

— O quê? — perguntou Owen.

Clara apontou discretamente com o olhar:

— Aquilo.

Owen suspirou:

— Ah.

Tyler Reed chegou à mesa poucos segundos depois, parando ao lado deles como se estivesse prestes a participar normalmente da conversa.

— Olha só. — Seu sorriso aumentou. — Meu grupo favorito.

Ninguém respondeu, e Tyler Reed apoiou uma das mãos no encosto de uma cadeira vazia.

— O coral, o clube dos livros e os órfãos sociais da escola reunidos no mesmo lugar.

Algumas risadas surgiram em mesas próximas. Henry desviou os olhos para a bandeja, Ethan permaneceu imóvel e Owen cruzou os braços, mas Clara não parecia particularmente interessada em ignorá-lo.

— Você não tem nada melhor para fazer?

— Tenho várias coisas melhores para fazer.

— Então vai fazer.

— Eu iria — Tyler Reed abriu um sorriso maior —, mas vocês tornam tudo tão divertido.

As risadas aumentaram ao redor, e Henry percebeu pessoas observando — não apenas estudantes próximos, mas mesas inteiras. Alguns alunos fingiam continuar conversando enquanto acompanhavam tudo discretamente, enquanto outros nem sequer tentavam disfarçar. Avatar Valley adorava espectadores.

— Sabe qual é o seu problema? — perguntou Clara.

— Tenho medo da resposta.

— Você age como se fosse importante.

Por um instante, o sorriso de Tyler Reed diminuiu — foi algo quase imperceptível, mas aconteceu. Ao redor deles, algumas pessoas trocaram olhares e outras prenderam a respiração, pois era raro alguém responder diretamente, ainda mais daquela forma.

— Cuidado, Clara.

— Com o quê?

— Com a sua reputação.

Clara apoiou os dois braços sobre a mesa, com a voz transbordando sarcasmo:

— Ah, não. O Tyler Reed vai me colocar na lista negra dos idiotas.

Desta vez até algumas pessoas que estavam apenas observando deixaram escapar risadas. O sorriso de Tyler Reed voltou, mas seus olhos haviam perdido parte do humor.

— Você fala demais.

— E você acha que isso é um defeito.

— Normalmente é.

— Ainda bem que ninguém pediu sua opinião.

Henry percebeu Ethan abaixando a cabeça para esconder um sorriso, e até Owen parecia lutar contra uma risada. Por alguns segundos, Tyler Reed pareceu avaliar a situação, como alguém tentando decidir se valia a pena continuar, até que uma nova voz surgiu — suave, educada e perfeitamente controlada.

— Clara, honestamente...

O grupo voltou-se na direção da origem da voz e viu Kate Montgomery aproximando-se da mesa. Ela atravessava o refeitório com a mesma tranquilidade elegante que exibia em qualquer evento da cidade, não parecendo irritada, nem envolvida emocionalmente, muito menos interessada em criar uma discussão. Mas todos que a conheciam sabiam que aquilo não significava segurança: na maioria das vezes, Kate era mais perigosa quando falava baixo. Ela parou ao lado de Tyler Reed, observou Clara durante um instante e depois sorriu.

— Você realmente acha que discutir com ele vai melhorar sua posição?

O silêncio espalhou-se rapidamente pela área, e Clara endireitou a postura.

— Minha posição?

— Sim. — Kate inclinou levemente a cabeça. — Porque, olhando de fora, parece apenas desespero por atenção.

A frase atingiu o alvo exatamente como pretendia — sem gritos, sem insultos, sem agressividade. Era isso que tornava Kate tão eficiente, pois ela raramente atacava alguém diretamente; apenas dizia a coisa certa da maneira certa e deixava o restante do trabalho para a insegurança da própria pessoa. O rosto de Clara ficou vermelho imediatamente.

— Eu não estou buscando atenção.

— Claro que não. — Kate manteve o sorriso. — E Tyler Reed certamente não veio aqui porque vocês continuam reagindo exatamente da forma que ele espera.

Ao redor deles, os murmúrios aumentaram, alguns estudantes começaram a se aproximar e outros levantaram-se parcialmente das cadeiras para enxergar melhor. Aquela já não era apenas uma conversa, estava se transformando em espetáculo. E Avatar Valley adorava espetáculos.

Por alguns segundos, ninguém falou. O comentário de Kate permaneceu suspenso sobre a mesa como uma lâmina cuidadosamente posicionada, enquanto ao redor deles o refeitório parecia ter diminuído de volume — não completamente, mas o suficiente para que dezenas de estudantes continuassem prestando atenção. Clara sustentou o olhar de Kate, sendo uma das poucas pessoas da escola dispostas a fazer aquilo, já que a maioria evitava confrontá-la, não por medo, mas porque discutir com Kate Montgomery costumava ser uma batalha perdida antes mesmo de começar. Ela nunca levantava a voz, nunca demonstrava irritação, nunca parecia perder o controle, e isso tornava qualquer reação emocional automaticamente uma derrota.

— Engraçado — respondeu Clara por fim. — Porque, olhando de fora, parece que você está defendendo ele.

Alguns murmúrios surgiram ao redor e Kate arqueou uma sobrancelha.

— Estou apenas sendo racional.

— Claro.

— Você discorda?

— Eu acho curioso como a sua definição de racionalidade sempre favorece as mesmas pessoas.

O sorriso de Kate diminuiu apenas um pouco, enquanto ao lado dela Tyler Reed parecia cada vez mais satisfeito. Aquilo havia deixado de ser apenas uma provocação; agora era um espetáculo, exatamente como ele gostava.

— Você está levando isso para o lado pessoal — observou Kate.

— E você está fingindo que não existe um problema.

— Porque não existe.

— Claro que existe.

Kate cruzou os braços:

— Então me explique.

Clara soltou uma risada breve, sem humor:

— Você realmente quer que eu explique?

— Por favor.

O desafio pairou entre as duas, fazendo o estômago de Henry apertar novamente. Ao seu lado, Ethan observava tudo em silêncio absoluto, e Owen já parecia calcular mentalmente quantas formas diferentes aquela conversa poderia terminar mal.

— Tyler Reed passa a semana inteira implicando com quem ele acha mais vulnerável — disse Clara. — Todo mundo vê.

— Todo mundo?

— Sim.

— Interessante. — Kate inclinou ligeiramente a cabeça. — Porque eu vejo um garoto fazendo piadas estúpidas e várias pessoas escolhendo transformar isso em algo maior.

Alguns estudantes assentiram discretamente, enquanto outros pareceram desconfortáveis. Era exatamente esse o talento de Kate: ela pegava algo desagradável e o transformava em algo aparentemente razoável, fazendo as pessoas questionarem a própria percepção.

— Isso é fácil de dizer quando você nunca é o alvo — respondeu Clara.

Pela primeira vez, algo mudou na expressão de Kate — não muito, apenas o suficiente para demonstrar que a frase havia encontrado algum ponto sensível, mas desapareceu quase imediatamente.

— Eu só acho que algumas pessoas adoram se colocar na posição de vítimas.

O comentário atingiu a mesa inteira, especialmente Ethan. Henry percebeu, vendo o momento exato em que ele desviou os olhos e os dedos apertaram o copo descartável, e por algum motivo aquilo o incomodou mais do que qualquer comentário dirigido a ele próprio, porque Ethan não tinha feito nada — nem naquele dia, nem no anterior, nem na maioria dos dias. Ainda assim, continuava sendo tratado como alguém que precisava justificar a própria existência. Ao redor deles, mais estudantes aproximavam-se, alguns já estavam em pé e outros seguravam celulares discretamente. Avatar Valley adorava assistir, mas gostava ainda mais quando podia assistir de perto.

— Certo — disse Clara. — Então vamos fingir que isso é normal.

— Eu não disse isso.

— Não precisa dizer.

— Clara...

— Não. — Ela apoiou ambas as mãos sobre a mesa. — Você sabe exatamente o que ele faz.

Tyler Reed abriu os braços:

— Nossa.

— E você sabe exatamente por que ele faz — continuou Clara.

— Eu estou literalmente aqui — ironizou Tyler Reed.

— Infelizmente.

Algumas gargalhadas surgiram e outras pessoas engasgaram tentando não rir. O sorriso de Tyler Reed vacilou novamente, e dessa vez de maneira mais evidente, pois a situação começava a escapar do roteiro que ele preferia: o alvo não estava reagindo, quem reagia era Clara, e ela não parecia minimamente intimidada.

— Tá vendo? — comentou Tyler Reed. — É por isso que ninguém leva vocês a sério.

— Ah, não. — Clara levou a mão ao peito. — Minha maior preocupação.

As risadas aumentaram e até alguns alunos que normalmente orbitavam o grupo dos atletas pareciam divertir-se. Tyler Reed abriu a boca para responder, mas outra voz cortou o ambiente antes que pudesse fazê-lo — firme, autoritária e inconfundível.

— Acabou.

O efeito foi imediato, como uma pedra lançada em um lago, e o silêncio espalhou-se pelo refeitório em segundos. O treinador Richard Hayes aproximava-se pelo corredor central — alto, imponente, com a expressão severa que fazia até os atletas mais confiantes corrigirem a postura automaticamente. Ele não parecia irritado, o que era pior, porque quando Richard Hayes ficava irritado, as pessoas pelo menos sabiam onde estavam pisando; quando falava daquele jeito calmo, significava que sua paciência já havia terminado. Seus olhos passaram pela roda de estudantes e depois encontraram Tyler Reed.

— Mesa.

Tyler Reed abriu um sorriso inocente:

— Mas eu só estava—

— Mesa. — A interrupção foi imediata, sem alteração de tom e sem necessidade de repetir.

Tyler Reed suspirou teatralmente:

— Sim, senhor.

O treinador voltou-se para Kate:

— Você também.

Kate assentiu sem discutir:

— Claro.

Então Richard Hayes olhou para o restante do grupo, e seu olhar passou por Clara, por Owen, por Ethan, por Henry e, finalmente, pelo círculo de curiosos ao redor.

— E todos vocês podem voltar a almoçar.

Ninguém precisou ouvir duas vezes. A multidão começou a se dispersar, cadeiras voltaram a ranger, conversas foram retomadas e os celulares desapareceram. Pouco a pouco, o refeitório recuperou a aparência normal, mas apenas a aparência, porque todos sabiam que aquilo se tornaria assunto antes mesmo da última aula começar. Em Avatar Valley, alguns minutos eram suficientes para alimentar conversas durante semanas, e aquela sexta-feira acabara de ganhar um novo assunto favorito.

Henry demorou alguns segundos para perceber que estava prendendo a respiração. O treinador Hayes já havia retornado para sua mesa habitual, Tyler Reed e Kate caminhavam na direção oposta do refeitório e os estudantes voltavam gradualmente aos próprios assuntos, mas, ainda assim, a sensação de estar sendo observado permanecia, como se os olhos da escola demorassem um pouco mais para ir embora. Ao seu redor, o grupo permaneceu em silêncio por alguns instantes, até que Clara quebrou a quietude primeiro.

— Eu juro que um dia vou acabar sendo suspensa por causa daquele idiota. — Ela empurrou a bandeja alguns centímetros para frente. — E sinceramente? Vai valer a pena.

Owen soltou uma risada curta:

— Não vai.

— Vai sim.

— Não vai.

— Vai.

— Clara...

Ela suspirou dramaticamente:

— Tá bom. Talvez não valha.

— Obrigado.

— Mas que dá vontade, dá.

Henry acabou sorrindo — pequeno, discreto, mas sincero — enquanto a tensão começava a se dissipar pouco a pouco. Ao lado dele, Ethan permanecia mais quieto, com os dedos brincando distraidamente com o copo descartável enquanto observava o movimento do refeitório.

— Eu avisei que isso podia acontecer. — A frase chamou a atenção da mesa inteira, e Henry voltou-se para ele. — O quê?

Ethan hesitou por um instante:

— Tyler Reed. — O nome sozinho já explicava tudo. — Ele faz isso há anos — continuou Ethan. — Quando encontra alguém para implicar, dificilmente perde o interesse rápido.

Henry desviou os olhos para a própria bandeja:

— Eu sobrevivo.

O sorriso que surgiu no rosto de Ethan não carregava humor, apenas experiência.

— Eu também dizia isso.

O comentário não foi dramático, nem amargo, mas continha um peso que ninguém ignorou. Clara imediatamente abandonou parte da irritação:

— Ei.

Ethan ergueu os olhos, e ela continuou:

— Você também sobreviveu.

Ele deu de ombros:

— Mais ou menos.

— Não. — A voz dela saiu firme. — Sobreviveu sim.

Owen assentiu:

— E agora você não está sozinho.

Por alguns segundos, Ethan pareceu não saber o que responder, então um sorriso discreto surgiu — pequeno, mas verdadeiro. Henry percebeu e sentiu uma satisfação estranha ao vê-lo, porque Ethan parecia alguém que havia passado tempo demais acreditando que precisava enfrentar tudo sozinho.

Enquanto isso, do outro lado do refeitório, Tyler Reed já transformava o ocorrido em uma história muito mais impressionante do que realmente havia sido, fazendo os jogadores rirem, comentarem, interromperem-se e criarem versões exageradas da discussão, como sempre. Noah ouvia apenas parte daquilo, enquanto a outra metade desaparecia como ruído de fundo. Em determinado momento, seus olhos percorreram novamente o salão e miraram a mesma mesa, o mesmo grupo: Clara falava, Owen ria, Ethan parecia mais relaxado do que no início do almoço e Henry escutava os três com aquela atenção tranquila que parecia fazer parte dele. Por alguns segundos, Noah observou a cena e depois voltou à própria bandeja, sem perceber que alguém já havia notado: Tyler Reed, outra vez. O vice-capitão acompanhou discretamente a direção daquele olhar — primeiro Noah, depois Henry, depois Noah novamente —, e um sorriso lento surgiu em seu rosto. Dessa vez ele não disse nada, mas guardou a informação, pois Tyler Reed sempre guardava informações que pareciam potencialmente divertidas.

Do outro lado do refeitório, porém, a conversa já havia mudado de assunto e, como acontecia inevitavelmente em Avatar Valley quando dezembro se aproximava, alguém mencionou o baile.

— Falando em tragédias sociais — declarou Clara —, ainda não decidi se vou ao baile.

Owen encarou-a:

— Você está falando disso há uma semana.

— Porque é um assunto importante.

— Você já comprou vestido.

— Isso não significa nada.

— Comprou dois vestidos.

— Isso também não significa nada.

— Você fez uma planilha.

— Aquilo era organização.

Henry começou a rir, e até Ethan pareceu divertir-se.

— Então com quem você vai? — perguntou Owen.

— Não sei.

— Vai sozinha?

— Talvez.

— Convide alguém.

— Quem?

Henry apoiou o queixo sobre a mão:

— Você podia simplesmente ir com o Owen.

Owen quase engasgou com a bebida, e Clara arregalou os olhos:

— O quê?

— Vocês são amigos — justificou Henry.

— Nós somos amigos.

— Exatamente.

— Henry, essa é a pior lógica que eu já ouvi.

— Por quê?

— Porque as pessoas vão falar.

— As pessoas de Avatar Valley falam de qualquer jeito.

Owen começou a rir:

— Ele tem um ponto.

— Não ajuda você também! — protestou Clara.

Até Ethan entrou na brincadeira:

— Honestamente? Eu acho que seria engraçado.

— Obrigada pelo apoio.

— Disponha.

As risadas surgiram naturalmente e, por alguns minutos, Tyler Reed, Kate, a discussão e os olhares espalhados pelo refeitório deixaram de importar, fazendo a conversa tornar-se leve novamente, familiar e segura. Então Clara voltou-se para Henry:

— E você?

— Eu o quê?

— Vai com quem?

— Com ninguém.

— Ninguém?

Henry deu de ombros:

— Eu tenho que estar lá de qualquer forma.

— Verdade — comentou Owen.

Antes que Henry pude continuar, Ethan apontou discretamente para ele:

— Ele vai cantar.

Henry imediatamente lançou um olhar na direção dele:

— Ethan.

— O quê? É verdade.

Clara piscou algumas vezes e se inclinou para frente:

— Espera. Você vai cantar no festival?

— Talvez.

— Henry.

— Tá bom. Sim.

— Você nunca me contou isso!

Henry afundou ligeiramente os ombros:

— Não parecia importante.

— Não parecia importante? — Clara levou a mão ao peito. — Você literalmente vai subir num palco na frente da cidade inteira.

— Isso faz parecer pior.

— Porque é pior!

Owen já estava rindo:

— Para a defesa dele, nada nunca parece importante quando envolve ele mesmo.

— Isso é ridículo — declarou Clara.

— Eu concordo — respondeu Ethan.

Henry suspirou, sentindo-se traído pelos próprios amigos.

— O pessoal do coral praticamente obrigou ele a aceitar — acrescentou Ethan.

— Não foi assim.

— Foi quase assim.

— Ethan.

— Estou ajudando.

As risadas aumentaram, e Clara insistiu:

— Espera. O que você vai cantar?

Henry hesitou, e dessa vez foi Owen quem percebeu primeiro.

— Ah, não.

— O quê? — perguntou Clara.

Owen apontou para Henry:

— Esse olhar.

— Que olhar?

— O olhar de quem está escondendo alguma coisa.

— Eu não estou escondendo nada.

— Está sim.

— Não estou.

— Henry.

O garoto suspirou, e Ethan sorriu, claramente satisfeito:

— É uma música dele.

O silêncio durou quase dois segundos.

— O quê?

— Uma composição dele — explicou Ethan.

Agora até Owen pareceu surpreso:

— Você compõe?

— Às vezes.

— Às vezes? — repetiu Clara. — Você escreveu uma música inteira e nunca comentou isso?

— Eu não achei que fosse relevante.

— Você é impossível.

— Essa crítica já foi registrada.

— E ignorada.

— Também.

A mesa explodiu em novas risadas e, pela primeira vez desde que o almoço começara, Henry sentiu o peso da manhã diminuir um pouco. Lá fora, a neve continuava caindo sobre Avatar Valley; dentro do refeitório, o Festival de Inverno aproximava-se cada vez mais e, sem que a maioria dos alunos soubesse, uma das apresentações daquela noite começava lentamente a ocupar seu lugar dentro da história.