AVATAR VALLEY

3 CAPÍTULO 3 - OS CORREDORES DA HIERARQUIA


A neve caía de forma calma e cênica sobre Avatar Valley, funcionando como uma moldura silenciosa para o início daquele ano letivo, quando Noah estacionou seu carro na manhã seguinte. O céu permanecia coberto por uma camada leve de nuvens cinzentas, tornando sutil a linha onde terminavam as montanhas e começava o horizonte. O frio característico do final de novembro fazia os alunos atravessarem rapidamente o estacionamento, encolhidos dentro de seus casacos pesados por cima dos uniformes, com as mãos escondidas nos bolsos e a respiração formando pequenas nuvens diante dos rostos. Noah desligou o motor, pegou a mochila e saiu do veículo. Mais um dia, nada parecia diferente — e era exatamente assim que ele gostava.

Ao atravessar as portas principais da Avatar Valley High School, ele despiu o sobretudo protetor, revelando o uniforme oficial obrigatório, e foi imediatamente recebido pelo movimento familiar dos corredores: armários se abrindo, livros sendo carregados, professores atravessando o prédio com canecas de café nas mãos e conversas espalhadas por todos os lados. A escola possuía uma espécie de ritmo próprio, uma rotina que se repetia diariamente naquelas primeiras semanas de aula. Noah conhecia aquele ritmo tão bem quanto conhecia os próprios treinos, talvez melhor.

Tyler Reed já o aguardava próximo ao corredor dos troféus esportivos, como sempre. Ao seu lado estavam Connor Reeves e Mason Walker, ambos jogadores do time de hóquei, vestindo os trajes escolares regulamentares, já que as jaquetas do time eram restritas ao ginásio.

— Finalmente — disse Tyler ao vê-lo se aproximar. — Achei que tivesse decidido faltar.

— Pensei nisso — respondeu Noah.

— E o que te fez mudar de ideia? — perguntou Tyler.

— O medo de você assumir a liderança da equipe — retrucou Noah com um meio sorriso.

Connor soltou uma gargalhada.

— Justo — comentou Connor.

— Eu teria transformado esta escola em um império — defendeu-se Tyler.

— Você não consegue administrar nem seu armário — zombou Noah.

— Isso é difamação — rebateu Tyler.

O grupo começou a caminhar pelo corredor principal, sem pressa, sem preocupação. O simples fato de estarem juntos parecia alterar o fluxo ao redor deles: alunos mais novos afastavam-se naturalmente para abrir passagem, outros os cumprimentavam, alguns apenas os observavam. Era um fenômeno tão comum que raramente alguém comentava sobre ele, mas existia e todos sabiam disso. Noah nunca havia pedido aquele tipo de atenção, nunca precisara; ela simplesmente acontecia como se fosse parte do ambiente, como se sempre tivesse pertencido a ele.

Enquanto avançavam pelo corredor, Tyler avistou alguém alguns metros adiante e seu sorriso mudou imediatamente.

— Olha só — sussurrou Tyler.

Noah acompanhou seu olhar e avistou Ethan Parker. O garoto caminhava sozinho, os livros apertados contra o peito, os ombros ligeiramente curvados, tentando atravessar o corredor sem chamar atenção. O problema era que algumas pessoas pareciam possuir um talento especial para notar justamente aqueles que desejavam passar despercebidos.

— Parker! — chamou Tyler.

Ethan parou apenas por um instante, como alguém que já sabia que ignorar seria pior, então virou-se lentamente.

— Oi — disse Ethan com a voz contida.

Tyler aproximou-se alguns passos.

— Oi? — desdenhou Tyler.

— Bom dia — corrigiu Ethan.

— Melhor — aprovou Tyler.

Connor e Mason trocaram olhares divertidos. A interação ainda parecia inofensiva, mas Ethan já estava tenso; era possível perceber na forma como segurava os livros, na maneira como evitava contato visual e na rigidez dos ombros.

— Para onde vai com tanta pressa? — perguntou Tyler.

— Tenho aula — respondeu Ethan.

— Que coincidência — ironizou Tyler.

— É — limitou-se a dizer Ethan.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável — não para Tyler, não para Connor, não para Mason, mas para Ethan... apenas para Ethan. Porque ele sabia que aquilo ainda não havia terminado. Ao redor deles, alguns alunos diminuíram discretamente o ritmo, outros fingiram procurar algo nos armários próximos. Ninguém interferiu, ninguém se afastou completamente; a escola inteira parecia possuir uma estranha habilidade para reconhecer quando um espetáculo estava prestes a começar.

— Ouvi dizer que o coral já voltou aos ensaios para as apresentações do Festival de Inverno — comentou Tyler.

Ethan assentiu.

— Voltou — confirmou Ethan.

— Excelente — disse Tyler com mais um sorriso. — Avatar Valley não seria a mesma sem vocês.

Connor soltou uma risada, Mason também. Ethan permaneceu imóvel.

— Obrigado — respondeu Ethan, incerto.

Tyler arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi sério? — perguntou Tyler.

— Sim — respondeu Ethan.

— Nossa — reagiu Tyler.

— O quê? — questionou Ethan.

— Você realmente não sabe quando alguém está tirando sarro de você — desdenhou Tyler.

Algumas pessoas próximas começaram a rir. Ethan abaixou os olhos e aquela reação pareceu incentivar ainda mais Tyler.

— Vai cantar alguma coisa para a gente? — instigou Tyler.

— Tyler... — chamou Noah.

A voz de Noah surgiu pela primeira vez — não como advertência, nem como defesa, apenas como alguém começando a perder o interesse pela situação. Tyler olhou para ele.

— O quê? — perguntou Tyler.

— Estamos indo para a aula — avisou Noah.

Por um breve instante, Ethan acreditou que aquilo encerraria a conversa. Seu corpo chegou a relaxar, pouco, mas relaxou. Então Noah completou:

— Se ele começar a cantar agora, a gente vai acabar chegando atrasado.

As risadas explodiram ao redor, mais altas desta vez, mais numerosas; até alguns alunos que observavam à distância pareceram achar graça. Ethan recebeu o impacto e sentiu o rosto aquecer imediatamente. A vergonha veio como uma onda: familiar, antiga, difícil de esconder. Mas ele não respondeu, nunca respondia; aprendera há muito tempo que algumas situações terminavam mais rápido quando você não reagia. Então apenas permaneceu parado, esperando, contando os segundos, desejando estar em qualquer outro lugar.

Noah já havia retomado a caminhada, Tyler o acompanhou, e Connor e Mason vieram logo atrás. A conversa mudou de assunto quase instantaneamente: treino, aulas, os preparativos para o Baile de Inverno... como se nada tivesse acontecido, como se os minutos anteriores não possuíssem importância alguma. Talvez realmente não possuíssem, pelo menos para eles. Para Ethan, entretanto, a sensação dependeria do restante da manhã, talvez da semana, talvez por mais tempo. Porque algumas pessoas carregavam certos momentos por muito mais tempo do que aquelas que os provocavam.

Do outro lado do corredor, próximo ao mural de atividades estudantis, Henry Dawson havia assistido a tudo — não desde o início, mas o suficiente. Os livros permaneciam apoiados contra seu peito, imóveis assim como ele. Observou Ethan afastar-se, observou as risadas desaparecerem, observou Noah seguir pelo corredor cercado pelos amigos e sentiu algo desconfortável surgir dentro de si. Não surpresa, não exatamente, talvez reconhecimento. Porque conhecia aquela expressão, conhecia aquele silêncio, conhecia a sensação de desejar desaparecer antes que alguém percebesse o constrangimento estampado em seu rosto. Por um instante, considerou fazer alguma coisa, dizer alguma coisa, mas permaneceu onde estava: novo demais, desconhecido demais, cansado demais. E talvez essa fosse a parte mais difícil de admitir: nem sempre as pessoas ficavam em silêncio porque concordavam; às vezes ficavam em silêncio porque não sabiam como enfrentar aquilo, ou porque simplesmente não possuíam forças suficientes naquele momento.

Henry observou o corredor vazio por alguns segundos, pensativo. Foi nesse instante que Clara apareceu.

— Henry? — chamou Clara.

Ele piscou, como se retornasse ao presente.

— Oi — respondeu Henry.

— Você está olhando para o nada — observou Clara.

— Não estou — mentiu Henry.

— Está sim — insistiu Clara.

Clara aproximou-se e seguiu seu olhar, encontrando apenas o corredor deserto.

— O que aconteceu? — perguntou Clara.

Henry demorou alguns segundos para responder, então desviou os olhos.

— Nada — respondeu Henry.

Era mentira, os dois sabiam disso, mas Clara não insistiu. Apenas ajustou a mochila sobre o ombro.

— Vamos? A senhora Whitmore já me odeia o suficiente — chamou Clara.

Henry soltou uma pequena risada.

— Ela não odeia você — disse Henry.

— Isso é exatamente o que alguém diria antes de descobrir que eu estava certa — retrucou Clara.

Juntos, começaram a caminhar em direção à primeira aula. Ao redor deles, a vida seguia normalmente: os corredores continuavam cheios, as conversas continuavam acontecendo e os armários continuavam abrindo e fechando, como se nada tivesse acontecido. Talvez porque, para a maior parte da escola, realmente não tivesse. Mas Henry levou aquela cena consigo enquanto desaparecia entre os alunos e, pela primeira vez desde que chegara à Avatar Valley High School, começou a se perguntar se todas as histórias que ouvira sobre Noah Klaus eram realmente verdadeiras.

O restante da manhã transcorreu sem incidentes, pelo menos da forma como a maioria dos alunos definiria a palavra. As aulas começaram, os corredores esvaziaram-se e os professores retomaram os cronogramas planejados para o início do período letivo. Em pouco tempo, o episódio envolvendo Ethan Parker havia desaparecido da rotina da escola... ou pelo menos parecia ter desaparecido. Henry descobriu que algumas coisas funcionavam de maneira diferente dentro da própria cabeça: é fácil fingir que não pensava mais em algo, difícil era realmente parar de pensar.

Durante a aula de Literatura, tentou concentrar-se na análise de um conto que a professora Whitmore projetava no quadro. Fez anotações, respondeu quando foi chamado, acompanhou a discussão, mas, vez ou outra, sua mente retornava ao corredor daquela manhã, ao rosto de Ethan, às risadas, à facilidade com que tudo havia acontecido, como se existisse um roteiro invisível que todos já conheciam. Ao seu lado, Clara percebeu mais de uma vez quando ele ficou olhando para a mesma página por tempo demais, mas não comentou nada. Ela possuía uma qualidade rara: sabia quando insistir e sabia quando recuar.

Quando o sinal do almoço finalmente tocou, uma onda de estudantes inundou novamente os corredores. O refeitório começou a encher quase imediatamente: bandejas, conversas, filas... o ruído constante de centenas de adolescentes ocupando o mesmo espaço. Henry acompanhou Clara até uma das mesas próximas às janelas. Owen já estava sentado quando chegaram.

— Vocês demoraram — comentou Owen.

— Algumas pessoas gostam de frequentar as aulas — respondeu Clara.

— Eu frequentei — defendeu-se Owen.

— Você dormiu em Biologia — rebateu Clara.

— Isso também conta como presença — brincou Owen.

Henry sentou-se enquanto os dois continuavam discutindo. Era curioso observá-los: Clara e Owen passavam metade do tempo discordando um do outro e a outra metade encontrando novos motivos para continuar juntos.

— Você está estranho hoje — comentou Owen após alguns minutos.

Henry ergueu os olhos.

— Estranho como? — perguntou Henry.

— Mais silencioso do que o normal — explicou Owen.

— Isso elimina praticamente todas as diferenças possíveis — brincou Henry.

— Verdade — concordou Owen.

Clara riu.

— Ele tem razão — disse Clara.

— Obrigado pelo apoio — ironizou Henry.

— Sempre — respondeu Clara.

Henry balançou a cabeça e um pequeno sorriso surgiu. Foi então que Owen apontou discretamente para o centro do refeitório.

— Aposto dez dólares que Tyler Reed derruba alguma coisa antes do final do almoço — propôs Owen.

Henry acompanhou seu olhar; não foi difícil encontrar a mesa, na verdade era impossível não notar. O time de hóquei ocupava uma das áreas centrais do refeitório, como sempre. Os jogadores estavam espalhados ao redor de duas mesas unidas, algumas líderes de torcida conversavam próximas dali e outros alunos entravam e saíam daquele círculo social como pequenos satélites orbitando um planeta. Noah estava sentado no centro da movimentação, Kate ao seu lado e Tyler falando alguma coisa que fazia metade da mesa rir. Tudo parecia natural, como se aquele espaço lhes pertencesse.

— Impressionante — comentou Henry sem perceber que havia falado em voz alta.

— O quê? — perguntou Clara.

— Nada — respondeu Henry.

— Não foi nada — insistiu Clara.

— Foi sim — concordou Owen.

Henry suspirou.

— Eu só estava observando — explicou Henry.

— Todo mundo observa eles — respondeu Owen. — Isso é meio inevitável. Parece que a escola inteira gira em volta daquela mesa.

Owen apontou o garfo na direção do grupo.

— Bem-vindo a Avatar Valley — disse Owen.

— É sempre assim? — perguntou Henry.

— Desde que aprendemos a andar — respondeu Owen.

Clara concordou.

— Talvez antes — comentou Clara.

— Antes? — questionou Henry.

— Tenho quase certeza de que os moradores da cidade já saem da maternidade sabendo quem são os Klaus — explicou Clara.

Owen soltou uma gargalhada.

— Isso é assustadoramente preciso — afirmou Owen.

Henry voltou a olhar para o centro do refeitório, tentando entender exatamente o que estava vendo. Não era apenas popularidade; ele já havia visto alunos populares antes, em outras escolas, outras cidades. Aquilo parecia diferente: mais profundo, mais antigo, como se aquelas posições existissem antes mesmo de os estudantes ocuparem-nas.

— Eles realmente são tão importantes assim? — perguntou Henry.

Owen apoiou os cotovelos na mesa.

— Quer a resposta oficial ou a verdadeira? — perguntou Owen.

— Existe diferença? — questionou Henry.

— Sempre existe diferença — afirmou Owen.

Clara revirou os olhos.

— Ignore ele — aconselhou Clara.

— Nunca ignore alguém bonito e inteligente — gabou-se Owen.

— Eu consigo ignorar as duas coisas ao mesmo tempo — retrucou Clara.

— Crueldade gratuita — queixou-se Owen.

Henry acabou sorrindo novamente, mas Owen respondeu à pergunta, desta vez sem brincadeiras.

— Noah é bom no que faz. Muito bom — disse Owen.

— No hóquei? — perguntou Henry.

— Em tudo relacionado ao hóquei. A cidade adora isso, os pais adoram isso, a escola adora isso, então a popularidade vem junto — explicou Owen.

Henry observou Noah novamente. O capitão parecia completamente confortável cercado por toda aquela atenção, como alguém que jamais precisou questionar seu lugar, jamais precisou procurar pertencimento, jamais precisou conquistar espaço; aquele espaço já estava esperando por ele. A ideia produziu uma sensação estranha — não exatamente inveja, não exatamente admiração, algo mais complicado. Porque Henry nunca conhecera aquela certeza: a certeza de pertencer, a certeza de ser visto, a certeza de ser escolhido.

— Você está fazendo de novo — disse Clara.

— Fazendo o quê? — perguntou Henry.

— Pensando demais — respondeu Clara.

— Eu não estava pensando demais — defendeu-se Henry.

— Estava sim — insistiu Clara.

— Como sabe? — questionou Henry.

— Porque conheço você — afirmou Clara.

Owen apontou para ela.

— Isso é assustador — comentou Owen.

— Eu sei — concordou Clara.

Henry desviou os olhos da mesa central. Talvez Clara estivesse com a razão e ele estivesse pensando demais, mas, por algum motivo, continuava difícil esquecer o que havia visto naquela manhã... e mais difícil ainda conciliar aquela lembrança com a imagem quase perfeita que todos pareciam ter de Noah Klaus. Do outro lado do refeitório, Noah ria de alguma observação de Tyler sem imaginar que estava sendo observado, sem imaginar que alguém tentava entender quem ele realmente era por trás de toda aquela reputação, e sem imaginar que, naquele momento, a distância entre os dois parecia muito maior do que qualquer corredor da escola seria capaz de medir.

O restante das aulas passou sem grandes acontecimentos. Quando o último sinal do período regular finalmente ecoou pelos corredores, os estudantes começaram a se dispersar mais uma vez. Alguns seguiam para casa, outros caminhavam em direção aos clubes estudantis, outros desapareciam pelos corredores das atividades extracurriculares que transformavam a escola em algo muito maior do que apenas salas de aula e exames.

Henry seguiu pelo corredor das artes. A ficha de inscrição do coral permanecia dobrada dentro do bolso do casaco. À medida que se afastava das áreas centrais da escola, o ambiente começava a mudar: os corredores tornavam-se mais silenciosos, menos movimentados, menos disputados. Os murais esportivos deram lugar a cartazes de peças teatrais, festivais de música e exposições estudantis. Fotografias antigas ocupavam parte das paredes: apresentações, concertos, grupos de alunos sorrindo para câmeras que já nem existiam mais. Henry reduziu o ritmo sem perceber; gostava daquele tipo de lugar porque parecia carregado de histórias. Quando finalmente encontrou a placa indicando a Sala de Música B, sentiu uma leve tensão surgir no estômago. Era estranho, nunca ficava nervoso por causa da música, mas ambientes novos ainda tinham esse efeito. Respirou fundo, empurrou a porta e entrou.

A primeira coisa que percebeu foi o som... ou melhor, a ausência dele. Não existia o ruído constante que dominava o restante da escola, não existiam gritos, nem conversas atravessando o ambiente inteiro, nem a sensação permanente de que alguém precisava provar alguma coisa. A sala parecia respirar em outro ritmo, mais lento, mais tranquilo. Um piano ocupava a região central, estantes repletas de partituras cobriam uma das paredes e instrumentos descansavam em suportes organizados próximos às janelas. A luz cinzenta e branda da tarde atravessava os vidros salpicados por leves flocos de neve cênica. Por alguns segundos, Henry apenas observou, tentando absorver tudo, tentando entender se aquele lugar seria realmente diferente.

Alguns alunos já estavam presentes: conversavam em pequenos grupos, folheavam partituras, organizavam cadeiras. Nenhum deles parecia particularmente preocupado em impressionar os outros; aquilo chamou sua atenção imediatamente. Foi então que reconheceu um rosto: Ethan Parker. O garoto estava sentado próximo a uma das janelas, sozinho, uma partitura aberta diante dele e o olhar fixo em algum ponto além do vidro. Por um instante, Henry hesitou. A lembrança do corredor voltou imediatamente: as risadas, o constrangimento, o silêncio. Ethan parecia carregar parte daquilo ainda, mesmo horas depois. Talvez porque certas coisas não desaparecessem tão rápido. Os olhos dos dois se encontraram por um breve momento — apenas um instante, mas suficiente para que ambos reconhecessem algo. Não amizade, ainda não, talvez apenas familiaridade; a estranha familiaridade de duas pessoas acostumadas a ocupar os cantos de uma sala.

Henry acabou escolhendo uma cadeira próxima ao fundo: nem perto demais, nem longe demais, uma posição segura. Enquanto organizava suas folhas, começou a observar os demais integrantes. Uma garota de cabelos cacheados conversava animadamente sobre uma apresentação do ano anterior, um rapaz alto folheava uma pasta repleta de anotações e duas alunas discutiam alguma música que Henry nunca tinha ouvido. Havia personalidades diferentes, estilos diferentes, mas ninguém parecia competir por atenção. Aquilo era novo, muito novo.

A porta abriu-se novamente e a conversa na sala diminuiu imediatamente — não por obrigação, mas por respeito. A mulher que entrou carregava algumas pastas, uma pilha de partituras e uma expressão que parecia incapaz de não sorrir: Olivia Bennett. Henry a reconheceu da apresentação feita aos novos alunos no primeiro dia, mas agora, dentro daquele ambiente, ela parecia diferente: mais confortável, mais próxima de quem realmente era.

— Boa tarde, pessoal — cumprimentou Olivia.

Algumas vozes responderam imediatamente, outras apenas acenaram. Olivia caminhou pela sala distribuindo materiais enquanto cumprimentava os alunos pelo nome, e aquilo chamou a atenção de Henry: ela realmente lembrava dos nomes, todos eles, e não parecia um esforço, parecia natural.

— Sophie, como foi a recuperação da sua garganta? — perguntou Olivia.

— Melhor. Finalmente — respondeu Sophie.

— Ótimo. Precisamos de você inteira para o Festival de Inverno — disse Olivia.

— Sem pressão nenhuma, professora — brincou Sophie.

Olivia sorriu e continuou andando.

— Benjamin, você terminou aquele arranjo? — perguntou Olivia.

— Quase — respondeu Benjamin.

— Quase significa não — retrucou Olivia.

— Tecnicamente... — tentou explicar Benjamin.

— Benjamin — advertiu Olivia com humor.

— Certo. Não terminei — admitiu Benjamin.

Algumas risadas surgiram, leves, naturais, sem crueldade, sem segundas intenções. Henry percebeu que estava sorrindo também, algo raro, principalmente em um ambiente novo.

Olivia finalmente chegou à frente da sala. Apoiou as partituras sobre o piano e observou todos os presentes — não como uma professora avaliando alunos, mas como alguém genuinamente feliz por vê-los ali.

— Antes de começarmos o semestre oficialmente, quero dizer uma coisa — anunciou Olivia.

A sala ficou em silêncio.

— Alguns de vocês já estão aqui há anos, outros chegaram hoje. Mas existe algo importante que eu gostaria que todos lembrassem — continuou Olivia.

Seu olhar percorreu os alunos, um por um, sem pressa.

— O mundo lá fora vai passar muito tempo tentando dizer quem vocês devem ser — afirmou Olivia.

A frase capturou imediatamente a atenção de Henry.

— Vai dizer o que vestir, o que gostar, como agir, com quem falar, o que sonhar — discursou Olivia.

O silêncio tornou-se absoluto; até Ethan ergueu os olhos.

— Aqui dentro isso não importa — garantiu Olivia, apoiando uma das mãos sobre o piano. — Aqui vocês não precisam ser a versão de vocês que agrada outras pessoas.

Alguns alunos trocaram olhares discretos. Henry sentiu algo estranho apertar seu peito — não era tristeza, nem felicidade, talvez reconhecimento.

— Aqui vocês podem simplesmente ser vocês mesmos — concluiu Olivia.

A frase foi simples, quase comum, mas produziu um efeito inesperado. Porque algumas pessoas passam tanto tempo tentando se encaixar que esquecem como é não precisar fazer isso. E, pela primeira vez desde que chegara a Avatar Valley, Henry teve a sensação de que talvez tivesse encontrado um lugar onde ninguém esperava que ele fosse diferente do que era. Talvez fosse cedo para acreditar nisso, talvez, mas a sensação permaneceu: pequena, silenciosa e, ainda assim, real.

Depois das apresentações iniciais, Olivia começou a distribuir algumas partituras entre os alunos enquanto explicava como funcionaria a dinâmica do coral naquele começo de ano letivo. Henry ouviu atentamente. Parte dele continuava observando o ambiente, a outra parte tentava controlar a ansiedade crescente que surgia à medida que o momento das audições se aproximava. Não porque tivesse medo de cantar; a música era provavelmente a única coisa que nunca o assustava. O problema era todo o resto: as pessoas observando, os olhares, a atenção.

Olivia pareceu perceber o nervosismo de alguns alunos.

— Antes que alguém entre em pânico — disse Olivia, apoiando-se casualmente no piano —, eu prometo que isso não é uma competição.

Algumas risadas surgiram pela sala.

— Ninguém está disputando vaga. Ninguém vai ser eliminado. Eu só preciso conhecer a voz de vocês para organizar os grupos corretamente — explicou Olivia.

A tensão diminuiu um pouco — não completamente, mas o suficiente. As apresentações começaram poucos minutos depois. Um a um, os alunos foram chamados. Alguns demonstravam experiência, outros claramente estavam cantando diante de um grupo pela primeira vez. Ainda assim, Olivia mantinha exatamente a mesma postura com todos: corrigia quando necessário, elogiava quando merecido e incentivava sempre. Henry percebeu rapidamente por que tantos alunos pareciam gostar dela; ela fazia algo raro, fazia as pessoas se sentirem seguras.

Quando Ethan foi chamado, a sala permaneceu em silêncio. O garoto levantou-se da cadeira próxima à janela e caminhou até a frente. Parecia desconfortável, mas não inseguro; havia uma diferença, e Henry percebeu isso imediatamente. Ethan escolheu uma peça simples — nada chamativo, nada que parecesse ter sido escolhido para impressionar alguém. Ainda assim, quando começou a cantar, sua voz revelou uma firmeza inesperada. Não era poderosa, não era extraordinária, mas era bonita, honesta. Ao terminar, recebeu um sorriso satisfeito de Olivia.

— Muito bem, Ethan. Seu controle melhorou bastante desde o período passado — elogiou Olivia.

Uma expressão quase surpresa surgiu no rosto dele, pequena, mas visível, como alguém que ainda não estava acostumado a receber elogios. Quando retornou ao lugar, os olhares dele e de Henry cruzaram-se por um breve instante; desta vez, Ethan foi o primeiro a desviar.

As apresentações continuaram. Mais alguns alunos foram chamados, mais algumas músicas preencheram a sala, até que Olivia consultou a lista em sua prancheta.

— Henry Dawson — chamou Olivia.

O nome atingiu Henry como um pequeno choque elétrico — não porque não estivesse esperando, mas porque esperar algo e vivê-lo eram coisas completamente diferentes. Ele levantou-se, sentiu dezenas de olhares acompanhando seu movimento, respirou fundo e caminhou até a frente da sala. Durante um instante, tudo pareceu estranhamente familiar: o nervosismo, a expectativa, a vontade de voltar para sua cadeira... mas também outra sensação, mais forte, mais antiga, a mesma sensação que surgia sempre que a música estava prestes a começar.

Olivia percebeu a tensão.

— Sem pressa — disse Olivia gentilmente.

Henry assentiu. Olhou para a partitura, inspirou profundamente e então começou. A primeira nota espalhou-se pela sala e alguma coisa mudou — não de forma dramática, não como um espetáculo, foi algo mais sutil, mais real. Os alunos que ainda organizavam folhas interromperam os movimentos, as conversas desapareceram e alguns rostos ergueram-se. Olivia permaneceu imóvel, observando. Henry continuou cantando e, à medida que a música avançava, o garoto tímido que costumava evitar chamar atenção pareceu desaparecer pouco a pouco. Sua postura não mudou, sua expressão continuou serena, mas sua voz preenchia o ambiente com uma confiança que não existia nos corredores da escola. Era limpa, precisa, controlada; cada nota encontrava a seguinte com naturalidade, sem esforço aparente, sem hesitação.

Henry não percebeu as reações ao redor, nunca percebia. Quando cantava, o restante do mundo costumava perder importância; por alguns minutos existiam apenas a música e ele, nada mais. Mas os outros perceberam. Sophie abaixou lentamente a caneta, Benjamin ergueu os olhos da própria partitura e até Ethan, que passara boa parte do ensaio evitando chamar atenção para si mesmo, observava sem desviar o olhar.

Olivia foi quem mais sentiu o impacto, porque reconheceu imediatamente algo que anos de experiência a haviam ensinado a identificar: talento. Não apenas técnica, não apenas estudo, talento verdadeiro... aquele tipo raro que não podia ser ensinado. Quando a última nota desapareceu, o silêncio permaneceu por alguns segundos — não um silêncio desconfortável, mas um silêncio de absorção, como se todos precisassem de um instante para retornar ao presente.

Henry foi o primeiro a sentir o peso daquilo e imediatamente desejou voltar para sua cadeira. Olivia sorriu, um sorriso diferente dos anteriores, mais amplo, mais sincero.

— Henry — disse Olivia, fechando lentamente a prancheta —, há quanto tempo você estuda canto?

Ele sentiu o rosto aquecer.

— Desde criança — respondeu Henry.

— Eu imaginei — comentou Olivia.

Algumas pessoas sorriram, outras trocaram olhares discretos. Henry desejou que o chão se abrisse sob seus pés, mas, pela primeira vez desde que chegara à Avatar Valley High School, aquela atenção não parecia dolorosa. Não parecia um julgamento, não parecia uma exposição; parecia reconhecimento, e existia uma diferença enorme entre essas duas coisas. Enquanto retornava ao próprio lugar, percebeu algo inesperado: os ombros estavam mais leves, como se uma parte da tensão acumulada desde sua chegada à cidade tivesse desaparecido sem que ele percebesse. Talvez porque, pela primeira vez, não estivesse sendo visto como o garoto novo, nem como o aluno tímido, nem como alguém tentando se encaixar. Naquele momento, tinha sido visto apenas como Henry, e isso significava mais do que conseguiria explicar.

Quando o ensaio do coral terminou, em outra extremidade da escola, o som das lâminas cortando o gelo já ecoava novamente pela arena esportiva. O ginásio permanecia iluminado pelos refletores suspensos acima da pista, que transformavam a superfície congelada em uma extensão quase prateada. O frio era intenso, mas nenhum dos jogadores parecia realmente percevê-lo; depois de anos de treinamento, aquilo havia deixado de ser um obstáculo para se tornar apenas parte da rotina. Noah ajustou as luvas enquanto aguardava o início de mais uma sequência de exercícios. Ao redor dele, os atletas ocupavam suas posições habituais: alguns conversavam, outros recuperavam o fôlego.

Tyler Reed fazia as duas coisas ao mesmo tempo.

— Você já percebeu que o Hayes envelhece dez anos a cada temporada? — comentou Tyler, observando o treinador do outro lado da pista.

Noah acompanhou seu olhar.

— Isso acontece quando você passa a vida inteira gritando — respondeu Noah.

— Então você vai envelhecer rápido — provocou Tyler.

— Eu não grito — rebateu Noah.

— Você é capitão de um time de hóquei — argumentou Tyler.

— Continuo não gritando — insistiu Noah.

— Ainda — encerrou Tyler com um sorriso.

Noah balançou a cabeça. Tyler possuía um talento impressionante para continuar conversas que deveriam ter terminado vários minutos antes. O apito de Hayes interrompeu qualquer resposta e os jogadores voltaram ao gelo. A sequência seguinte envolvia transições ofensivas e movimentação sem disco... nada particularmente novo. Noah executava cada exercício com a naturalidade de quem repetira aqueles movimentos milhares de vezes ao longo da vida. Enquanto alguns atletas precisavam pensar antes de reagir, seu corpo simplesmente respondia; era instintivo, automático, parte dele.

O treino avançou por quase uma hora antes que Hayes finalmente autorizasse uma breve pausa. Os jogadores espalharam-se pela lateral da pista: garrafas de água surgiram, capacetes foram removidos e respirações pesadas preencheram o ambiente. Tyler sentou-se ao lado de Noah no banco.

— Você viu aquele garoto novo hoje? — perguntou Tyler.

Noah retirou uma das luvas.

— Qual deles? — questionou Noah.

— O loiro — respondeu Tyler.

— Metade da escola é loira — rebateu Noah.

— O do mural — insistiu Tyler.

Noah franziu levemente a testa.

— Isso ajuda ainda menos — comentou Noah.

Tyler soltou uma risada. Por alguns segundos, pareceu procurar uma forma melhor de explicar.

— O amigo da Clara — tentou Tyler.

Noah tentou lembrar, mas não conseguiu.

— Ainda não faço ideia de quem você está falando — admitiu Noah.

— Exatamente — disse Tyler.

— Então por que estamos tendo essa conversa? — perguntou Noah.

— Porque ele ficou olhando para você no almoço — revelou Tyler.

Noah pegou a garrafa de água.

— Muita gente olha para mim no almoço — deu de ombros Noah.

— Isso soou absurdamente arrogante — comentou Tyler.

— E continua sendo verdade — retrucou Noah.

Tyler não conseguiu evitar uma gargalhada.

— Às vezes eu esqueço o quanto você é irritante — disse Tyler.

— Você continua voltando todos os dias — provocou Noah.

— Porque alguém precisa impedir que a fama suba à sua cabeça — explicou Tyler.

— Já tentou essa missão com você mesmo? — rebateu Noah.

— Constantemente — admitiu Tyler.

A conversa morreu por alguns instantes — não por desconforto, pelo contrário. A amizade deles funcionava justamente assim: sem necessidade de preencher todos os silêncios. Tyler observou alguns jogadores mais jovens treinando do outro lado da pista, depois voltou a falar.

— Sério. O garoto novo parece diferente — comentou Tyler.

— Diferente como? — perguntou Noah.

— Não sei — admitiu Tyler.

Noah arqueou uma sobrancelha.

— Excelente descrição — ironizou Noah.

— Eu estou tentando — defendeu-se Tyler.

— Não tente tanto — aconselhou Noah.

— Você realmente não presta atenção em ninguém, né? — perguntou Tyler.

A pergunta saiu em tom de brincadeira, mas Noah demorou um segundo antes de responder.

— Presto — afirmou Noah.

— Então quem era o garoto? — questionou Tyler.

— Não faço ideia — confessou Noah.

Tyler riu novamente.

— Meu ponto exatamente — concluiu Tyler.

Antes que Noah pudesse responder, Hayes atravessou a pista em direção ao grupo. A simples aproximação do treinador foi suficiente para que metade dos jogadores se endireitasse automaticamente.

— A pausa acabou — anunciou Hayes.

Ninguém reclamou; ninguém era louco o suficiente para reclamar. Os atletas voltaram para suas posições. Noah recolocou o capacete e o visor refletiu brevemente as luzes da arena, então ele retornou ao gelo. Poucos segundos depois, já estava completamente concentrado no treino. O garoto novo, o almoço, os corredores... tudo desapareceu da sua mente. Porque, quando estava ali, quase nada além do hóquei parecia realmente importante, e era justamente essa certeza que fazia Noah Klaus parecer tão inabalável para todos ao seu redor. O problema era que certezas costumavam durar apenas até o momento em que encontravam algo capaz de abalá-las.