AVATAR VALLEY
2 CAPÍTULO 2 – O Rei do Gelo
O restante da manhã transcorreu exatamente da maneira que Noah Klaus esperava, e essa era uma das razões pelas quais raramente se surpreendia com alguma coisa. A Avatar Valley High School mudava pouco de um ano para o outro: os corredores permaneciam os mesmos, os professores continuavam ocupando as mesmas salas e os grupos sociais mantinham seus territórios invisíveis, como países separados por fronteiras que ninguém precisava desenhar. Bastava observar durante alguns minutos para entender como tudo funcionava. Os atletas ocupavam determinados espaços, os integrantes do conselho estudantil ocupavam outros, os artistas, os alunos mais reservados, os que passavam despercebidos, os que faziam questão de serem vistos. Cada grupo parecia seguir regras próprias. Noah nunca precisara aprender essas regras; sempre fizera parte delas.
Quando entrou na sala de História, algumas pessoas o cumprimentaram imediatamente:
— Klaus — disse um colega de classe.
— Bom dia — desejou outro.
— Ei, Noah — acenou um conhecido.
Ele respondeu com acenos rápidos enquanto caminhava até o fundo da sala. Nada daquilo exigia esforço; era tão natural quanto atravessar a própria casa. Sentou-se próximo à janela e apoiou a mochila no chão. Do lado de fora, a neve caía calmamente sobre os jardins da escola. Os flocos desciam de forma lenta e cênica, cobrindo bancos, árvores e parte do estacionamento, servindo apenas como uma bela ambientação para o início das aulas. Por alguns segundos, Noah observou o cenário em silêncio.
A porta da sala se abriu. Tyler Reed entrou carregando um copo de café e uma expressão que sugeria claramente que havia dormido menos do que deveria.
— Estou começando a acreditar que os professores fazem reuniões secretas para decidir como tornar nossas vidas piores — comentou Tyler Reed ao se aproximar.
Noah ergueu os olhos.
— Só começando? — ironizou Noah.
Tyler Reed sentou-se na cadeira ao lado.
— Eu tento dar o benefício da dúvida — justificou o amigo.
— Isso explica suas notas — rebateu Noah com um meio sorriso.
— E isso explica por que ninguém gosta de você quando você está acordado cedo — retrucou Tyler Reed.
Noah riu. Tyler Reed apoiou o café sobre a carteira.
— O treinador mandou mensagem no grupo às seis da manhã — comentou Tyler Reed.
— Eu vi — limitou-se a dizer Noah.
— Quem acorda às seis da manhã durante as férias? — questionou o colega.
— Pessoas problemáticas — definiu Noah.
— Exatamente — concordou Tyler Reed.
Noah pegou o celular e abriu rapidamente o grupo da equipe. Havia mais de cinquenta mensagens, a maioria devidamente ignorada por ele.
— Ele está preocupado com o estadual — avaliou Noah.
— Ele está obcecado — corrigiu Tyler Reed.
— Existe diferença? — perguntou o capitão.
— Para ele, provavelmente não — concluiu Tyler Reed.
O amigo balançou a cabeça.
— Aposto que ele passou as férias assistindo a vídeos dos nossos jogos — supôs Tyler Reed.
— Aposto que ele passou as férias assistindo a vídeos dos nossos erros — emendou Noah.
— Isso é assustadoramente possível — admitiu Tyler Reed.
Os dois trocaram um sorriso. A conversa foi interrompida quando a professora Matthews entrou na sala carregando uma pilha de livros. Instantaneamente o volume das conversas diminuiu — não desapareceu, mas diminuiu o suficiente para que ela não precisasse pedir silêncio. A aula começou: História Moderna, primeiro dia daquele ano letivo de novembro, primeira explicação sobre cronogramas, primeiros avisos sobre provas futuras. Noah ouviu apenas o suficiente para acompanhar o raciocínio. Nunca tivera dificuldades reais com os estudos, mas também nunca sentira paixão por eles. A escola era uma obrigação; o hóquei era outra coisa.
O sinal finalmente tocou quase cinquenta minutos depois. Assim que a professora encerrou a aula, a sala voltou à vida. Cadeiras arrastaram-se, mochilas foram fechadas, conversas recomeçaram. Tyler Reed levantou-se imediatamente.
— Sobrevivi — comemorou Tyler Reed.
— Foi apenas uma aula — minimizou Noah.
— Exatamente — ironizou o amigo.
Saíram juntos para o corredor. O movimento aumentava a cada minuto. Portas se abriam, professores cruzavam os corredores carregando documentos, alunos tentavam chegar às próximas salas antes do segundo sinal. No meio daquele fluxo constante, Noah avançava sem precisar abrir espaço. As pessoas simplesmente se afastavam o suficiente — não de forma consciente, não como um gesto de submissão, era apenas hábito. O tipo de hábito que se formava quando alguém ocupava o mesmo lugar na hierarquia escolar durante tempo suficiente.
— Treino depois da aula? — perguntou um jogador do segundo ano ao alcançá-los.
— Como sempre — respondeu Noah com firmeza.
— O Hayes já está surtando — comentou o garoto.
— Como sempre — repetiu Tyler Reed.
O garoto soltou uma risada antes de seguir pelo corredor. Mais adiante, outro atleta ergueu a mão em cumprimento. Uma garota chamou Noah pelo nome. Alguém perguntou sobre uma festa no sábado. Outro aluno quis saber se o time realmente enfrentaria Riverside naquele mês. As perguntas vinham naturalmente, as respostas também. Noah já não pensava nelas; era apenas parte da rotina.
Próximo ao corredor principal, passaram pela vitrine de troféus da escola. Tyler Reed diminuiu o ritmo.
— Eles colocaram mais um estandarte — observou Tyler Reed.
Noah acompanhou seu olhar. Un enorme painel azul e branco ocupava parte da parede: CAMPEÕES ESTADUAIS. A fotografia da equipe do ano anterior estampava o centro da peça. Noah aparecia em destaque segurando o troféu, Tyler Reed aparecia ao lado dele, e outros jogadores ocupavam o restante da imagem.
— Ficou bom — comentou Tyler Reed.
— Ficou grande — avaliou Noah.
— Esse era o objetivo — explicou o colega.
Noah continuou andando. Tyler Reed lançou mais um olhar para o estandarte antes de acompanhá-lo. Por um instante, algo atravessou sua expressão — rápido, breve, difícil de identificar, mas presente. Porque, mesmo aparecendo na fotografia, não era seu nome que os alunos lembravam, não era sua camisa que aparecia nos jornais locais, não era ele que recebia cumprimentos nos corredores. Era Noah, sempre Noah. E talvez isso fosse mais difícil de ignorar do que Tyler Reed gostava de admitir.
O refeitório já estava cheio quando chegaram. O cheiro de café, batatas fritas e refeições rápidas misturava-se ao barulho de centenas de conversas simultâneas. A mesa da equipe ocupava uma posição quase fixa próxima às janelas. Os jogadores se espalhavam por ela naturalmente. Alguns alunos mudaram discretamente de lugar para abrir espaço, outros apenas observaram. Nada era dito, nada precisava ser dito. Noah sentou-se enquanto Tyler Reed ocupava a cadeira ao lado. Poucos segundos depois, mais atletas chegaram. A conversa imediatamente voltou para o mesmo assunto: treinos, jogos, temporada, estadual... sempre o estadual.
— Se o Hayes fizer a gente correr daquele jeito hoje, eu vou morrer — reclamou um dos atacantes.
— Você diz isso todo ano — pontuou o defensor.
— Porque todo ano quase acontece — rebateu o rapaz.
— Dramático — acusou outro jogador.
— Realista — defendeu-se o primeiro.
As risadas espalharam-se pela mesa. Foi nesse momento que Kate Montgomery apareceu. Como sempre, parecia ter atravessos os corredores sem que uma única mecha de cabelo saísse do lugar. O uniforme obrigatório estava impecável, o sorriso também, mas Noah já a conhecia bem o suficiente para perceber que ela estava levemente irritada.
— Finalmente — disse Kate ao parar ao lado dele. — Você ignorou minhas mensagens.
— Eu estava ocupado — justificou Noah.
— Você sempre está ocupado — queixou-se a namorada.
— E você sempre reclama disso — apontou o rapaz.
— Porque alguém precisa reclamar — rebateu Kate.
Tyler Reed imediatamente desviou a atenção para o próprio celular. Outros jogadores esconderam sorrisos; aquilo também fazia parte da rotina. Kate inclinou-se e beijou Noah rapidamente, depois ocupou a cadeira vazia ao seu lado.
— Então? — instigou ela.
— Então o quê? — devolveu Noah.
— Vai me contar por que desapareceu ontem? — quis saber Kate.
— Treino — respondeu o capitão.
— Durante sete horas? — duvidou ela.
— Houve videogame no meio — confessou o atleta.
— Ah — murmurou Kate, cruzando os braços. — Isso realmente melhora sua defesa.
Noah riu. Ela tentou manter a expressão séria por alguns segundos, falhou e acabou sorrindo também. À primeira vista, pareciam exatamente o casal que Avatar Valley esperava ver: bonitos, populares, perfeitos. Mas Noah sabia que as coisas raramente eram tão simples quanto pareciam, e Kate provavelmente sabia também.
O sinal do próximo período ecoou pelo refeitório. Ao redor deles, cadeiras começaram a ser empurradas para trás, conversas foram interrompidas e mais uma vez a rotina da escola se reorganizava. Mais uma vez tudo parecia seguir exatamente o curso esperado, e Noah não tinha motivo algum para acreditar que aquele seria diferente de qualquer outro dia.
Quando o último sinal do período regular finalmente ecoou pelos corredores da Avatar Valley High School, dezenas de alunos começaram a deixar o prédio principal. Alguns seguiram para os ônibus escolares, outros atravessaram o estacionamento em direção aos próprios carros. Clubes estudantis, reuniões, atividades extracurriculares e compromissos familiares dispersavam lentamente o movimento que havia dominado a escola durante todo o dia. Para Noah, porém, a rotina de verdade estava apenas começando.
O ginásio esportivo localizava-se em uma construção independente, conectada à escola por uma passagem coberta que atravessava parte do campus. Mesmo à distância, a arena se destacava. As paredes externas eram decoradas com enormes estandartes azuis e brancos: fotografias de equipes antigas, datas de campeonatos, nomes que continuavam sendo lembrados anos depois da formatura. Alguns alunos passavam por aquelas imagens sem prestar atenção, outros diminuíam o ritmo para observá-las. Noah raramente fazia qualquer uma das duas coisas. A arena era simplesmente parte da sua vida, talvez até mais do que a própria escola.
Assim que atravessou as portas principais do prédio, foi recebido pelo cheiro característico do lugar: gelo, borracha, metal e equipamentos esportivos. Era um aroma impossível de confundir, familiar e reconfortante. O som distante de lâminas deslizando sobre a pista chegava dos níveis inferiores do complexo. Alguma equipe juvenil ainda utilizava parte da arena, mas não por muito tempo. Dentro de uma hora, aquele espaço pertenceria novamente ao time principal.
Tyler Reed o alcançou próximo aos vestiários.
— Você percebeu que o Hayes ficou nos encarando durante o almoço? — perguntou Tyler Reed.
— Ele sempre nos encara — respondeu Noah sem dar importância.
— Não daquele jeito — insistiu o amigo.
— Qual jeito? — questionou o capitão.
— Como se estivesse imaginando novos métodos de tortura — sussurrou Tyler Reed.
Noah abriu a porta do vestiário.
— Isso continua sendo o jeito normal dele — sentenciou Noah.
Algumas risadas surgiram imediatamente dentro do ambiente. Boa parte da equipe já estava ali: mochilas espalhadas, equipamentos organizados, conversas acontecendo em pequenos grupos. O clima era leve — pelo menos até o treinador aparecer. Então tudo mudaria, como sempre.
Noah caminhou até seu armário. O número nove brilhava discretamente sobre a porta metálica. Guardou os livros, retirou o uniforme escolar e começou a se preparar. Os movimentos aconteciam quase automaticamente; anos de repetição haviam transformado tudo em rotina. Ao seu redor, os demais jogadores faziam o mesmo: proteções, luvas, capacetes, patins. A transformação acontecia aos poucos: adolescentes comuns desapareciam e atletas focados surgiam em seus lugares.
Tyler Reed sentou-se no banco ao lado.
— Aposto cinquenta dólares que alguém vomita hoje — provocou Tyler Reed.
— Você faz essa aposta toda semana — relembrou Noah.
— Porque toda semana alguém quase vomita — defendeu-se o colega.
— Isso não significa que vai acontecer — argumentou o capitão.
— Significa exatamente isso — teimou Tyler Reed.
— Você tem uma definição estranha de probabilidade — comentou Noah.
— Eu sobrevivo através do otimismo — rebateu o amigo.
— Essa palavra não significa o que você acha que significa — encerrou Noah.
Tyler Reed apontou para ele, rindo.
— É por isso que ninguém gosta de você — brincou Tyler Reed.
— Você já usou essa piada hoje — rebateu Noah com desdém.
— Porque continua funcionando — justificou Tyler Reed.
As risadas aumentaram, mas desapareceram imediatamente depois. A porta do vestiário havia se aberto: Richard Hayes entrou. O silêncio foi instantâneo, não imposto, mas instintivo. Hayes possuía aquele efeito sobre as pessoas. Alto, de ombros largos, cabelos grisalhos cortados curtos e com uma expressão permanentemente severa. Mesmo parado, parecia estar avaliando tudo ao redor: cada jogador, cada movimento, cada erro potencial. Nenhuma saudação foi oferecida, nenhuma tentativa de parecer amigável; Hayes nunca desperdiçava energia com isso. Seu olhar percorreu o ambiente, lento e calculado.
— Vocês terminaram de socializar? — perguntou o treinador Hayes com voz firme.
Ninguém respondeu.
— Ótimo — declarou o homem.
O treinador apoiou uma pasta sobre a mesa central.
— Porque eu certamente não vim aqui para ouvir piadas — sentenciou Hayes.
Tyler Reed desviou o olhar. Noah quase sorriu. Quase.
— Ano novo. Nova temporada. Mesmo objetivo — anunciou Hayes, cruzando os braços. — O campeonato estadual.
O silêncio permaneceu absoluto.
— O ano passado não importa — disparou o treinador, e as palavras ecoaram pelo ambiente. — Os troféus não importam. As fotografias não importam. As manchetes não importam.
Alguns jogadores evitaram o contato visual, enquanto outros permaneceram imóveis.
— O que vocês fizeram ontem não vai ganhar nenhum jogo amanhã — alertou Hayes, começando a caminhar lentamente entre os bancos. — O que tira da cabeça qualquer ideia de que já conquistaram alguma coisa.
Ele parou bem diante de Noah. O treinador não precisava levantar a voz; nunca precisou.
— Você continua sendo o capitão — afirmou o técnico, fixando os olhos no jovem.
Noah sustentou seu olhar com firmeza.
— Sim, senhor — respondeu Noah.
— Ótimo — disse Hayes após mais alguns segundos de silêncio. — Não me faça reconsiderar essa decisão.
Nenhuma emoção atravessou o rosto de Noah, mas ele compreendeu perfeitamente a mensagem. Na verdade, todos compreenderam. Hayes não distribuía privilégios; distribuía responsabilidades e cobrava cada uma delas, sem exceção. É importante destacar que ali no vestiário e no ginásio era o único lugar onde as jaquetas do time de hóquei eram permitidas, contrastando com a rigidez das salas comuns.
O treinador afastou-se em direção à saída.
— No gelo em dois minutos — ordenou Hayes.
A equipe começou a se mover imediatamente. Capacetes foram ajustados, patins apertados e protetores conferidos. O clima descontraído do vestiário desapareceu completamente. Quando as portas que davam acesso à pista se abriram, uma onda de ar gelado atingiu os jogadores. Noah respirou fundo e sorriu pela primeira vez desde o início daquela tarde. Ali, naquele instante, tudo fazia sentido. O gelo estendia-se diante dele como uma superfície infinita de alvura e luz. As arquibancadas estavam vazias, as placas de proteção refletiam os holofotes e o som das lâminas cortando a pista ecoava pelo espaço enorme. Era impossível explicar para alguém que nunca havia sentido aquilo, mas Noah não precisava explicar, porque aquele lugar falava uma linguagem que ele compreendia perfeitamente: sem palavras, sem máscaras, sem expectativas sociais... apenas desempenho, movimento, velocidade e resultado. Pela primeira vez naquele dia, sentiu-se exatamente onde deveria estar.
Hayes apitou. O som agudo atravessou toda a arena.
— Linha de partida! — gritou o treinador.
Instantaneamente os jogadores avançaram para suas posições. O treino havia começado, e ninguém ali tinha a menor intenção de facilitar as coisas. O primeiro exercício parecia simples; Hayes raramente começava por algo complicado. A dificuldade surgia da velocidade, da repetição e da exigência.
— Três voltas completas! — comandou o técnico. — Quero ver quem voltou das férias em forma e quem passou dois meses abraçado a um sofá!
As lâminas cortaram o gelo simultaneamente. O grupo disparou. Durante os primeiros minutos, todos conseguiram acompanhar o ritmo; era fácil parecer preparado quando os músculos ainda estavam descansados. A diferença aparecia depois. Noah manteve-se à frente desde a primeira curva — não porque estivesse tentando impressionar alguém, nem porque desejasse provar alguma coisa, apenas porque era assim que sempre treinava. Acelerava, mantinha o ritmo e ignorava o desconforto. Ao seu lado, Tyler Reed acompanhava o percurso com esforço visível. Atrás deles, alguns jogadores começavam a ficar para trás. Hayes observava tudo sem dizer uma palavra. Aquilo era pior: quando o treinador permanecia em silêncio, significava que estava avaliando, catalogando e memorizando. Os comentários viriam depois, e normalmente não seriam agradáveis.
Após as corridas vieram os exercícios de velocidade, depois os de controle de disco e, por fim, os de posicionamento. Nenhuma pausa, nenhum descanso verdadeiro. O apito de Hayes parecia surgir sempre alguns segundos antes de os jogadores recuperarem o fôlego.
— Mais rápido! — esbravejava o técnico.
— De novo! — ordenava ele.
— Outra vez! — insistia o homem.
O treinador caminhava pela lateral da pista como um general insatisfeito observando seus soldados.
— REED! — berrou Hayes repentinamente.
Tyler Reed quase perdeu o disco ao ouvir seu sobrenome.
— Sim, senhor! — respondeu Tyler Reed de imediato.
— Seus pés estão presos ao gelo? — questionou o treinador de forma irônica.
— Não, senhor! — garantiu o rapaz.
— Então por que está se movendo como se estivessem? — cobrou Hayes.
Algumas risadas surgiram no grupo, mas desapareceram imediatamente. Hayes lançou um olhar severo, o suficiente para restaurar o silêncio. Tyler Reed apertou a mandíbula, ajustou a postura e recomeçou, muito mais rápido desta vez. Noah percebeu. Tyler Reed sempre reagia assim: nunca discutia, nunca reclamava, apenas tentava compensar com mais velocidade, mais força e mais esforço. Às vezes funcionava; às vezes não.
O treino prosseguiu minuto após minuto, exercício após exercício. O suor escorria apesar do frio, a respiração tornava-se pesada e as pernas começavam a reclamar, mas Noah continuava avançando. Quando Hayes dividiu a equipe para uma simulação ofensiva, ninguém se surpreendeu ao vê-lo liderando a primeira formação. O treinador lançou um disco para o centro da pista.
— Vamos ver — limitou-se a dizer Hayes.
O jogo começou imediatamente: movimento, velocidade e impacto. Os jogadores avançaram em direção ao gol adversário. Durante alguns segundos, o gelo transformou-se em um caos organizado: corpos cruzando trajetórias, tacos disputando espaço e patins desenhando linhas sobre a superfície branca. Noah recebeu o passe de um dos alas, girou rapidamente e desviou de um marcador, depois de mais um. Por um instante, encontrou uma abertura — pequena, quase inexistente, mas suficiente. O disparo aconteceu antes que qualquer defensor reagisse. O disco atravessou a pista e a rede balançou. Houve um breve silêncio. Então, veio o som do apito. Hayes observou a jogada, imóvel. Os jogadores aguardaram tensos. Alguns segundos se passaram.
— Aceitável — pronunciou o treinador Hayes.
Vários atletas trocaram olhares; aquilo era praticamente um elogio, o maior que Hayes ofereceria durante toda a semana. Tyler Reed soltou uma risada abafada.
— Aceitável — repetiu Tyler Reed em tom de brincadeira.
— Não se acostume — respondeu Noah de volta.
— Eu não sobreviveria emocionalmente — brincou o amigo.
Os exercícios continuaram, e a cada nova atividade ficava mais evidente uma verdade simples: Noah parecia enxergar o jogo alguns segundos antes dos outros. Era difícil explicar; não era apenas habilidade, nem apenas talento, era leitura, instinto e antecipação. Enquanto outros reagiam aos acontecimentos, Noah parecia já saber para onde eles estavam caminhando. Era isso que o tornava diferente, era isso que o tornava capitão, era isso que fazia com que todos, incluindo Hayes, esperassem mais dele. Muito mais.
No final da segunda hora de treino, alguns jogadores já demonstravam sinais claros de exaustão. Tyler Reed era um deles. Tentava esconder, mas Noah percebeu, e Hayes também. O treinador apitou novamente.
— Último exercício — anunciou Hayes.
Uma mistura de alívio e preocupação percorreu a equipe, porque o último exercício costumava ser o pior de todos.
— Partida reduzida. Cinco contra cinco. Sem interrupções. Sem desculpas — determinou o técnico.
O grupo dividiu-se rapidamente. Noah assumiu uma das equipes e Tyler Reed ficou na outra. Os jogadores posicionaram-se, o disco foi lançado e imediatamente o ritmo aumentou. A exaustão desapareceu; a adrenalina assumiu o controle total. Durante os minutos seguintes, a arena foi preenchida apenas pelo som dos patins, dos impactos e das instruções gritadas entre uma jogada e outra. Noah avançava, recuava, distribuía passes, corrigia posicionamentos e tomava decisões, tudo ao mesmo tempo. Era impossível não segui-lo. Até mesmo os jogadores mais experientes acabavam ajustando seus movimentos de acordo com os dele.
Do outro lado da pista, Tyler Reed observava aquilo enquanto tentava acompanhar a jogada, e sentia algo que conhecia muito bem: admiração. Porque Noah realmente era extraordinário. Mas também sentia outra coisa, uma sensação mais difícil de aceitar, mais difícil de nomear. Porque, por mais que treinasse, por mais que se esforçasse, por mais que melhorasse, a comparação sempre existia — e a comparação sempre terminava no mesmo lugar: Noah Klaus. Capitão, artilheiro, líder, favorito dos professores, favorito da escola, favorito do treinador. Tyler Reed odiava pensar dessa forma, mas, às vezes, não conseguia evitar.
O apito final ecoou pela arena. Todos pararam exaustos. Alguns apoiaram as mãos nos joelhos, outros simplesmente permaneceram imóveis tentando recuperar o fôlego. Hayes observou a equipe durante alguns segundos, como se estivesse avaliando cada um deles pela última vez naquele dia. Então assentiu, apenas uma vez — um gesto pequeno, quase imperceptível, mas suficiente.
— Melhor do que eu esperava — declarou o treinador Hayes.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Então, um dos defensores murmurou:
— Isso definitivamente foi um elogio — cochichou o rapaz.
As risadas espalharam-se pelo gelo. Até Hayes pareceu considerar a possibilidade de sorrir por aproximadamente meio segundo. Depois, a rigidez habitual retornou à sua expressão.
— Fora da pista. Agora — ordenou o técnico.
A equipe começou a se mover em direção aos vestiários, mas Noah permaneceu onde estava por mais alguns instantes. No centro da arena, respirando o ar gelado, observando as arquibancadas vazias. Ali não existiam corredores escolares, não existiam expectativas sociais, não existiam sobrenomes de peso; existia apenas o jogo. E, naquele momento, aquilo era suficiente.
A neve continuava caindo de forma mansa quando Henry Dawson deixou a Avatar Valley High School naquele fim de tarde do final de novembro. Os corredores estavam mais silenciosos do que durante a manhã. A maior parte dos alunos já havia ido embora. Alguns permaneciam no campus participando de atividades extracurriculares, outros caminhavam em direção aos ônibus escolares espalhados pelo estacionamento. Henry atravessou os portões da escola vestindo seu casaco por cima do uniforme obrigatório. O frio parecia um pouco mais intenso agora, ou talvez ele apenas estivesse mais cansado. O primeiro dia em um lugar novo sempre exigia mais energia do que gostava de admitir: novos professores, novos rostos, novos corredores, novas regras. Nada era particularmente difícil, mas tudo exigia atenção, e atenção constante tinha um preço elevado.
Enquanto caminhava pelas ruas cobertas pela neve tranquila daquela ambientação de fim de outono e início de inverno, sua mente voltou diversas vezes para o anúncio do coral, para a sala de música, para as partituras e para a professora Olivia Bennett. A lembrança produziu algo raro: uma sensação de tranquilidade, pequena, mas suficiente. Quando finalmente virou a esquina de sua rua, o peso acumulado ao longo do dia começou a diminuir. As casas daquele bairro eram diferentes das construções imponentes espalhadas pelas regiões mais centrais de Avatar Valley: menores, mais simples e mais próximas umas das outras. As luzes acesas atrás das janelas criavam manchas douradas sobre a branquice do cenário. Algumas pessoas limpavam de forma calma as entradas das garagens, outras organizavam os primeiros enfeites para o Festival de Inverno da cidade. Era impossível caminhar por ali sem sentir que a vida acontecia em um ritmo diferente, mais lento e mais humano.
A casa dos Dawson apareceu alguns metros adiante. Nada nela chamava atenção: nenhuma fachada impressionante, nenhum portão elaborado, nenhuma tentativa de parecer maior do que realmente era. Henry sempre gostou disso. Empurrou a porta de entrada e imediatamente foi recebido por uma onda de calor e pelo cheiro familiar do jantar. Durante um instante, apenas permaneceu parado, respirando e sentindo o ambiente. Algumas pessoas encontravam conforto em lugares específicos, outras em pessoas. Henry nunca havia conseguido explicar exatamente por quê, mas bastava atravessar aquela porta para sentir o mundo se tornar um pouco menos pesado.
— Henry! — gritou uma voz infantil que atravessou o corredor como um pequeno projétil.
Segundos depois, Emily apareceu correndo — ou pelo menos correndo da maneira como uma criança de dois anos acreditava correr. Henry mal teve tempo de reagir e a menina já estava firmemente agarrada à sua perna.
— Ei, monstrinha — cumprimentou Henry, agachando-se.
Emily respondeu com uma sequência incompreensível de sílabas que provavelmente faziam sentido apenas para ela. Henry sorriu.
— Como foi o seu dia? — perguntou o irmão mais velho.
A resposta veio imediatamente, tão rápida quanto indecifrável. Ele assentiu com extrema seriedade.
— Entendi — brincou Henry.
Emily sorriu, como se tivesse acabado de compartilhar informações extremamente importantes. Sarah, a mãe de Henry, apareceu na porta da cozinha alguns segundos depois.
— Não incentive isso — pediu Sarah com um sorriso.
— Incentivar o quê? — perguntou Henry de volta.
— Fingir que você entende o que ela fala — explicou a mãe.
— Eu entendo perfeitamente — garantiu o rapaz.
— Claro que entende — ironizou Sarah.
Henry levantou-se. Emily continuava alegremente agarrada ao seu braço. Sarah observou a cena com um sorriso cansado, mas genuíno.
— Ela ficou perguntando por você a tarde inteira — comentou a mãe.
— Isso parece preocupante — brincou Henry.
— Eu também achei — concordou Sarah.
— Talvez devêssemos procurar ajuda profissional — sugeriu o jovem.
— Talvez — riu a mãe.
Emily apontou para os dois, indignada, o que apenas fez Sarah rir mais. O som espalhou-se pela casa de maneira natural, sem esforço. Henry percebeu o quanto sentira falta disso durante o dia: a simplicidade, a leveza e as pequenas conversas que não exigiam nada além de presença.
Enquanto Sarah terminava de organizar o jantar, Henry ajudou a colocar alguns pratos sobre a mesa. Era uma rotina antiga, quase automática. Os dois trabalharam em silêncio durante alguns minutos — não porque faltassem assuntos, mas porque aquele era um silêncio confortável, um silêncio que não precisava ser preenchido por obrigação.
— Então? — perguntou Sarah, quebrando a calmaria.
Henry ergueu os olhos.
— Então o quê? — devolveu ele.
— Primeiro dia — especificou a mãe.
Ele pensou por um instante antes de responder.
— Foi melhor do que eu esperava — admitiu Henry.
Sarah pareceu genuinamente satisfeita com a resposta.
— Melhor é bom — comentou ela.
— É — concordou ele.
— Fez amigos? — quis saber a mãe.
Henry soltou uma pequena risada.
— Faz apenas algumas horas que cheguei, mãe — pontuou o rapaz.
— Eu precisava perguntar — justificou Sarah.
— A Clara conta? — indagou ele.
— A Clara sempre conta — garantiu ela.
— Então sim — concluiu Henry.
— Ótimo — comemorou Sarah.
Ela voltou a organizar os pratos, mas Henry percebeu o alívio discreto em sua expressão. Os pais tentavam não demonstrar preocupação, mas nem sempre conseguiam, e ele sabia disso. Sabia que a mudança para Avatar Valley também tinha sido difícil para eles — talvez de formas diferentes, mas difícil mesmo assim.
Pouco depois, a porta da frente se abriu novamente. David Dawson, o pai de Henry, entrou carregando consigo o frio da rua e o cansaço de um dia inteiro de trabalho. Antes mesmo de tirar o casaco pesado, Emily correu em sua direção. O resultado foi previsível: menos de trinta segundos depois, ela estava confortavelmente no colo de David, apontando para alguma descoberta revolucionária que havia feito durante a tarde. David ouviu tudo com absoluta atenção, como se estivesse recebendo um relatório oficial de Estado. Henry observou a cena em silêncio. Um sorriso discreto surgiu em seu rosto. Aqueles momentos pareciam tão comuns que às vezes passavam despercebidos, mas eram exatamente o tipo de memória que permanecia para sempre.
A família reuniu-se para jantar alguns minutos depois. O vapor subia dos pratos, a neve continuava caindo de forma calma do lado de fora e, por algum tempo, o restante do mundo deixou de existir. A conversa seguiu caminhos simples: o trabalho de David, a escola, os vizinhos novos e as travessuras de Emily com sua nova obsessão por desenhar em qualquer superfície disponível. Nada extraordinário, nada dramático, mas Henry gostava exatamente disso. Nem toda conversa precisava mudar uma vida; algumas apenas faziam parte dela.
— E a escola? — perguntou David em determinado momento da refeição.
Henry terminou de mastigar antes de responder.
— Foi tranquila — resumiu Henry.
— Professores bons? — quis saber o pai.
— Pelo que vi hoje, sim — avaliou o jovem.
— E os alunos? — questionou David.
Henry hesitou apenas por um segundo. David percebeu, e Sarah também. Os dois pais trocaram um olhar rápido, quase imperceptível.
— Ainda estou conhecendo as pessoas — respondeu Henry de maneira cautelosa.
Era verdade. Não toda a verdade, mas ainda assim era a verdade. David assentiu com a cabeça sem pressionar, sem insistir, como sempre fazia de forma compreensiva. E Henry foi grato por isso, porque algumas coisas eram mais fáceis de organizar sozinho — ou pelo menos ele gostava de acreditar que eram.
Mais tarde, quando o jantar terminou e Emily finalmente foi convencida de que precisava dormir, a casa começou a mergulhar em um silêncio gradual. Não era um silêncio absoluto, nunca era: existia o som distante da televisão na sala, o ranger ocasional dos canos antigos durante o inverno e o vento tocando as janelas de forma mansa... pequenos ruídos que faziam parte da identidade acolhedora daquele lugar. Mas, ainda assim, era silêncio, o tipo de silêncio que permitia aos pensamentos ocuparem mais espaço na mente.
Henry subiu para o quarto levando consigo uma caneca de chá quente que Sarah insistira para que ele tomasse. A porta fechou-se atrás dele e, pela primeira vez desde que acordara naquela manhã de novembro, estava completamente sozinho. Seu quarto era simples: uma cama, uma escrivaninha, uma estante abarrotada de livros, algumas fotografias antigas, pilhas organizadas de cadernos e partituras cuidadosamente guardadas em pastas transparentes. Nada ali parecia especialmente importante para quem observasse de fora, mas cada objeto ocupava exatamente o lugar que deveria ocupar. Henry gostava disso. Gostava de saber onde as coisas estavam, gostava da previsibilidade e gostava da ordem.
A janela estava parcialmente embaçada por causa da diferença de temperatura. Ele aproximou-se dela com passos lentos. Lá fora, a neve continuava caindo de forma pacífica. Os flocos desciam lentamente sob a iluminação amarelada dos postes da rua, emoldurando as primeiras semanas de aula e os preparativos discretos para o Festival de Inverno que agitaria a comunidade no dia 22 de dezembro. Algumas pegadas ainda eram visíveis sobre as calçadas, enquanto outras já haviam desaparecido sob a nova e fina camada branca. Por alguns minutos, Henry apenas observou. Sem pensar em provas, sem pensar em colegas novos, sem pensar na escola... apenas observou.
Mas os pensamentos sempre encontravam um caminho de volta, mais cedo ou mais tarde. Sentou-se na cama. A sensação familiar de cansaço começou a surgir — não um cansaço físico, mas outro tipo, mais difícil de explicar e mais difícil de medir. Abriu a gaveta da mesa de cabeceira. O pequeno frasco permanecia exatamente onde sempre ficava. O gesto tornara-se automático há muito tempo: sem drama, sem cerimônia e sem negação; era apenas parte da rotina, parte do tratamento de sua saúde mental, parte da sua própria vida. Muitas pessoas tratavam esses cuidados como um assunto desconfortável, algo que deveria permanecer escondido ou ser ignorado até desaparecer, mas Henry aprendera cedo que certas coisas não sumiam simplesmente porque alguém decidia não falar sobre elas. Existiam dias bons, existiam dias ruins e existiam dias comuns. Hoje havia sido um dia comum, o que, considerando as circunstâncias de recomeço, já era uma grande vitória.
Guardou o frasco novamente na gaveta, levantou-se e caminhou até a escrivaninha. Sobre ela repousava uma pasta azul-escura com as bordas ligeiramente desgastadas pelo uso. Henry abriu-a com extremo cuidado: partituras manuscritas, anotações de próprio punho, arranjos inacabados e pequenas ideias melódicas registradas em momentos aleatórios. Seu olhar percorreu as páginas lentamente. Ali existiam sentimentos e pensamentos que ele nunca conseguira colocar em palavras — e, em alguns casos, nem mesmo tentara. A música sempre parecera mais honesta, mais direta e mais compreensiva para ele. Enquanto outras pessoas procuravam respostas em longas conversas, Henry frequentemente as buscava em melodias... ou pelo menos tentava. Passou os dedos sobre uma das folhas e reconheceu imediatamente a sequência de notas. Lembrava-se do dia em que a escrevera, lembrava-se do motivo exato e lembrava-se da sensação. Era estranho como a música conseguia preservar memórias de uma forma que nada mais no mundo conseguia.
Seu olhar acabou retornando ao pensamento que o acompanhara durante toda a tarde: o coral de Avatar Valley, a sala de música, a professora Olivia Bennett, os ensaios semanais e a real possibilidade de finalmente pertencer a algum lugar. A ideia ainda parecia um pouco distante, pequena e incerta, mas existia de verdade. E isso já era muito mais do que ele tinha naquela manhã de outono. Um sorriso discreto surgiu em seu rosto — pequeno, quase invisível, mas inteiramente verdadeiro. Henry fechou a pasta, apoiou-se na cadeira e deixou os olhos percorrerem novamente o quarto. Pela primeira vez desde que chegara à cidade com David e Emily, Avatar Valley não parecia apenas um lugar inteiramente desconhecido e hostil cercado por neve. Ainda era nova, ainda era estranha e ainda carregava inúmeras perguntas sem resposta, mas agora existia pelo menos um caminho claro: a música. E, naquele momento, isso bastava.
Lá fora, a neve continuava caindo silenciosamente sobre Avatar Valley. Sobre as ruas iluminadas, sobre os telhados adormecidos da vizinhança, sobre a arena vazia onde o gelo aguardava o próximo treino rigoroso de Noah Klaus e sobre a escola que voltaria a ganhar vida na manhã seguinte. A cidade inteira parecia suspensa sob aquele manto branco e calmo: tranquila, silenciosa, como se nada pudesse mudar, como se tudo devesse permanecer exatamente igual. Mas as cidades raramente conhecem os próprios segredos, e Avatar Valley definitivamente não era uma exceção
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