ANJO DA GUARDA - O Anjo Surfista
3 Morres-te me! - 11 de Fevereiro
Estou deitado na cama já há algum tempo a tentar dormir. Mas ainda não vai ser agora que o meu pensamento me vai permitir descansar.
O mundo lá fora já dorme e eu não consigo fazer o mesmo. Por dentro não consigo parar.
Ao fechar os olhos só te vejo a ti. Volto a abri-los e ao olhar para o despertador, em cima da mesa de cabeceira, percebo que já se passaram três horas desde que me deitei.
Numa última tentativa volto a fechar os olhos. Apareces-me tu outra vez.
Ao longe acenas-me sorrindo. Tens vestido um fato preto, com uma camisa branca e uma gravata de um vermelho forte que lembra sangue ou aquele vinho que tu tanto gostas.
Já não percebendo se era apenas imaginação, um sonho ou a realidade, grito fazendo eco: "AVÔ! AVÔ!".
Corro na tua direcção. Ao chegar perto o suficiente para sentir o teu cheiro abrando e começo a dar pequenos passos até ti.
Estendes-me a mão ao mesmo tempo que rasgando os lábios formas um sorriso, embora fechado sem mostrar os dentes como te é próprio. Tento agarrar a tua mão. Aqueles segundos até te tocar pareciam eternidades.
Quando finalmente te toquei tudo parecia real, o teu cheiro o teu toque...
Fiz os meus dedos acariciar-te a mão, senti uma certa textura áspera enquanto relembrava todas as vezes que te vi trabalhar, e que agora carregas contigo, na pele das tuas mãos, o preço de quem o faz.
Embora estivesse com um sorriso no rosto, as lágrimas, que estando em mim te pertenciam, deslizavam-me pela pele. Até que tu levas-te a tua mão á minha cara e mas secas-te. Enquanto o fazias eu olhava nos teus olhos e via-os brilhar, da maneira mais linda e pura que só em ti consegui ver isso acontecer.
Depois de secares todas as lágrimas que me encharcavam a cara adisses-te, soltando uma leve gargalhada: "Tens os meus olhos! Castanhos e com um olhar tão simples mas ao mesmo tempo profundo!".
Assim que acabas-te de dizer aquelas palavras sinto que as lágrimas que choro por ti iriam voltar a encharcar a minha cara. Avanço dando um passo na tua direcção ao mesmo tempo que abro os braços para te abraçar, digo-te "Amo-te avô!", deixando-me levar novamente em lágrimas, mas que desta vez seriam mais difíceis de secar. Tu fazes o mesmo, do teu jeito um pouco sem jeito, retribui me o abraço apertado dizendo: "O avô também te ama!"
Quando finalmente nos soltámos dos braços um do outro tu desapareces-te como se fosses fumo a desaparecer por ter levado com o sopro do vento.
Em pânico, sem fazer nada para que para-se de chorar, grito: "NÃOO! AVÔ! NÃOO!". A única coisa que se ouvia eram as minhas lamentações entre os soluços de tanto chorar. "N-NÃO! PORFAVOR NA-NÃO! O-OUTRA VEZ NÃO!"
Já não tendo forças para estar de pé deixo-me cair no chão, aproximando do meu peito os meus joelhos cada vez mais, enquanto fecho os olhos, ficando completamente enrolado.
Sinto algo a tocar-me e quando me sento abrindo os olhos, tentando secar as lágrimas para poder ver algo, vejo o Gabriel. Ajoelhando-se junto a mim ele diz-me: "Eu sei que o amas, mas ele morreu. Tens de deixar ele partir."
O Gabriel tem razão! Eu amo-te mas tu...TU MORRES-TE ME!
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