AMOR EM CAMPO
21 capítulo 20: A Festa
Notas iniciais

A música podia ser ouvida a dois quarteirões de distância. O condomínio de prédios de luxo em Icaraí exalava uma mistura de luzes neon, cheiro de bebida e a euforia típica de uma noite de vitória. A cobertura, cedida pelos pais de Daniel, parecia uma estrutura imponente projetada especificamente para suportar festas épicas.
Assim que elas desceram do Uber, Rafaela respirou fundo; as mãos levemente suadas apertavam a alça da bolsa com uma força desnecessária.
— Respira, Rafinha. É só uma festa, não uma banca de doutorado — Letícia disse, ajeitando o cabelo na câmera do celular. — E você está incrível. Se o Gabriel não infartar quando te vir nesse vestido, ele realmente não entende nada de estética.
— Eu me sinto como uma cobaia entrando voluntariamente em uma centrífuga — murmurou Rafaela, saindo do carro.
Ela usava o vestido preto que Letícia insistira; os cabelos estavam soltos, caindo pelos ombros, mas mantivera sua identidade com o coturno de couro de sempre.
O capitão já havia deixado a entrada delas liberada na portaria. Ao cruzarem o acesso ao terraço da cobertura, a densidade do ar mudou. O espaço externo estava lotado. Jogadores, estudantes de diversos cursos e o ecossistema que orbitava em torno dos Falcões se misturavam sob luzes azuis e roxas. Rafaela sentiu alguns olhares se virarem para ela; a "nerd do jaleco" tinha acabado de entrar no território dos atletas.
Letícia mal conseguia conter o entusiasmo ao observar o ambiente vibrante.
— Nossa! — apontou, os olhos brilhando. — Está lotado. Tem gente de todo o campus aqui, e ali estão eles. — Ela indicou uma área mais reservada perto da piscina do terraço, onde o núcleo duro do time se reunia.
Gabriel estava no centro, como era de se esperar. Ele já havia tomado banho no vestiário e trocado o uniforme por uma camiseta branca simples que contrastava com a pele bronzeada; segurava uma cerveja e mantinha o braço apoiado no ombro de Diego. Ele ria de algo que um dos amigos dizia, mas sua postura mudou no momento em que seus olhos encontraram os de Rafaela na multidão.
O sorriso dele não sumiu, mas se transformou. Deixou de ser a risada coletiva para se tornar aquele olhar focado, o mesmo que ele usara antes de cobrar o escanteio no jogo.
— Olha só — Diego sibilou no ouvido de Gabriel, dando uma cotovelada de leve nas costelas do capitão. — Ela veio. E está uma gata, hermano. Vai lá.
O jogador entregou sua garrafa para Daniel e começou a avançar pelo terraço, abrindo caminho entre as pessoas sem desviar o olhar de Rafaela por um segundo sequer. O magnetismo entre os dois parecia ignorar o restante da festa.
Ele parou finalmente na frente dela. A voz era baixa, quase abafada pela música, mas ela a ouviu com clareza absoluta.
— Você veio — ele disse, e um alívio autêntico transpareceu em seu rosto. — Achei que ia me dar um perdido.
Rafaela sustentou o olhar, ignorando o frio que percorreu sua espinha quando percebeu que a atração entre eles, agora sem a grade do estádio entre eles, era ainda mais avassaladora.
— A Letícia jamais ia perder a oportunidade de conhecer a moradia da nata dos Falcões por dentro — Rafaela respondeu, recuperando o tom irônico. — Ou seria o ninho?
— Rafaela! — Letícia exclamou ao lado dela, embora estivesse achando graça. — Oi, Gabriel. Jogou muito bem hoje. Agora... se vocês me dão licença, vou buscar uma bebida.
— Valeu! — Gabriel respondeu com um sorriso rápido, vendo-a se afastar com passos apressados.
Antes de sumir na multidão, Letícia deu uma piscadinha muito clara para a amiga.
— E só ela tinha curiosidade, é? — Gabriel se inclinou um pouco mais perto, o cheiro de perfume e sabonete substituindo completamente o odor de suor do estádio. — E aí, o que achou até agora?
— Um ambiente altamente instável — ela rebateu, sentindo o calor da proximidade dele.
Ele abriu um meio-sorriso, os olhos percorrendo o rosto dela com uma curiosidade genuína.
— É a instabilidade que torna as reações interessantes, nerdzinha.
A interação foi interrompida quando Diego se aproximou, trazendo consigo aquela energia barulhenta. O camisa oito vinha com um sorriso torto, claramente pronto para testar as teorias da investigação do Instagram.
— Rafaela! — Diego exclamou, exageradamente cortês, fazendo uma meia reverência. — Que prazer ter a mente mais brilhante da UC na nossa humilde residência. O Duarte aqui jurou que você não vinha. Mas me diz... cadê o namorado? Queríamos conhecer o homem misterioso.
A pergunta de Diego caiu como um balde de água fria na cabeça de Rafaela. Gabriel ficou tenso ao lado dela, estreitando os olhos para o amigo. Ele sabia que Diego estava caçando o blefe.
O sorriso dela vacilou antes de se firmar, a máscara de frieza voltando ao lugar com maestria.
— O namorado continua sendo um homem ocupado com coisas reais, Diego. É Diego, seu nome, não é?
— É Diego, sim — o argentino deu um aceno de cabeça, lançando um olhar cúmplice e divertido para Gabriel, que encarava com uma expressão de: “vaza daqui se não quiser levar uns tapas”. — Guarda bem o meu nome,Você ainda vai ter que me aguentar muito agora que você e o Biel viraram… "amiguinhos".
— Ignora ele — Gabriel disse imediatamente, baixando o tom de voz para que só ela ouvisse assim que o amigo se afastou rindo em direção à pista. — Ele é um idiota quando ganha um jogo. E, quando bebe, enfim, ele é um idiota.
Rafaela soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
— Eu já percebi.
Ele olhou para ela por mais alguns segundos, notando que, apesar de estar de tirar o fôlego naquele vestido, ela cruzava os braços com frequência, parecendo desconfortável no meio daquela aglomeração barulhenta do terraço.
— Quer sair desse meio? — ele indicou a parte interna com a cabeça. — O som lá dentro é um pouco mais baixo e tem menos gente esbarrando na gente.
— Por favor — ela concordou, visivelmente aliviada por sair da linha de frente dos convidados.
Gabriel a conduziu pelas portas até o interior do apartamento, cruzando a sala interna até alcançar a varanda principal da cobertura.
A varanda estava vazia, iluminada apenas pelo brilho distante da lua e pelas luzes da cidade de Niterói refletidas na Baía de Guanabara. O som pesado da festa ali chegava abafado, mas a batida trap forte de L7nnon começou a preencher o espaço com os primeiros acordes de "Perdição". O ritmo envolvente e as rimas ritmadas pareciam flutuar no ar e, ironicamente, traduziam a eletricidade estática que crescia entre o jogador e a bióloga. Gabriel se apoiou no parapeito de vidro, deixando que o vento fresco da praia de Icaraí bagunçasse seus cabelos. Ele olhou para ela, o clima da música servindo como o empurrão definitivo de que precisava — a letra falava de desejo contido e de alguém que sabia bem demais o efeito que causava, e soava quase como uma indireta dolorosa para a garota à sua frente.
— Fiquei feliz de te ver no estádio hoje... — ele começou, quebrando o silêncio. Tentou manter o tom casual. — Para ser bem honesto, achei que você ia ignorar o convite e ficar estudando.
Rafaela se aproximou devagar, apoiando-se ao lado dele, permitindo-se relaxar pela calmaria do lugar.
— Eu cumpro as minhas promessas, Duarte. E admito que fiquei... surpresa. Você joga com muita estratégia. É bem diferente do que eu imaginava de um bando de homens correndo atrás de uma bola.
Ele se virou de lado, fixando o olhar nela.
— É que você só me vê no meu pior cenário, Rafa. Sempre armada, esperando o próximo coice ou a próxima piada idiota — ele disse, e o canto dos lábios esboçou um sorriso incerto. — Mas aquilo ali? Aquele campo é o único lugar onde eu não preciso fingir nada. Onde eu não sou o cara que as pessoas criam expectativas ou rotulam na faculdade. Sou só eu. E eu queria muito que você visse esse lado. Que visse que eu posso ser... mais do que as suas teorias sobre mim.
Rafaela prendeu a respiração por um instante. Olhar para ele ali, sob a luz do luar, com a batida da música ditando o compasso dos seus corações, era perigoso demais para suas defesas.
— E por que a minha opinião sobre você importa tanto, Gabriel? — ela perguntou em um sussurro, os olhos castanhos presos nos dele.
O camisa dez se aproximou um passo, o suficiente para que ela sentisse o calor que emanava dele, colocando uma mecha do cabelo dela, que a brisa insistia em jogar em seu rosto, atrás da orelha.
Rafaela sentiu o estômago dar um nó, mas não de nervosismo, e sim de algo novo.
— Acho que é porque eu estou apai...
Ele começou, disposto a confessar tudo, mas foi brutalmente interrompido pelo toque agudo do celular de Rafaela dentro da bolsa. Gabriel fechou os olhos por um segundo, engolindo o xingamento que subiu por sua garganta.
Com as mãos trêmulas, ela buscou o aparelho e, quando a tela brilhou na penumbra da varanda, o nome "Amor da minha vida ❤️" saltou aos olhos de ambos. Uma onda de pânico a atingiu.
A mentira do namorado estava começando a se tornar um fardo pesado demais, especialmente ali, diante da intensidade dele.
— Atende — ele disse, com uma voz que tentava emular indiferença, mas que saiu rígida, quase cortante. — Eu fico quieto. Não quero atrapalhar o casal.
— Eu retorno depois — Rafaela murmurou, o rosto queimando de embaraço. Ela bloqueou a tela, mas o aparelho insistiu, vibrando e tocando novamente, estraçalhando qualquer chance de retomar o clima de antes.
— Deve ser importante — Gabriel soltou um esgar seco. — Atende! Ou melhor, deixa que eu atendo…
Antes que ela pudesse prever o movimento, ele usou a agilidade de atleta e a vantagem da altura para, num bote rápido, pegar o telefone da mão dela.
— Gabriel! Me devolve isso agora! — Rafaela saltou, tentando alcançar o aparelho, mas ele ergueu o braço, mantendo-o longe de seu alcance enquanto deslizava o dedo pela tela para aceitar a chamada e colocar no viva-voz.
— Vamos ver o que o gênio tem a dizer — ele falou, os olhos faiscando em uma mistura perigosa de raiva e ciúme. Ele estava pronto para peitar o rival, mas permaneceu em silêncio, esperando a voz do outro lado.
Contudo, a voz que saiu pelo alto-falante não era a de um homem. Era um tom feminino, jovem e cheio de drama familiar:
— Oi, amor da minha vida! Esqueceu que tem irmã, é? Alô? Rafa? Tá me ouvindo ou o sinal de Niterói é de 1910?
Gabriel paralisou. O braço esticado caiu lentamente ao lado do corpo. Ele olhou para a tela, depois para Rafaela, que agora estava de braços cruzados, ostentando uma expressão que misturava alívio e uma vontade imensa de assassiná-lo.
— Irmã? — ele perguntou, o rosto mudando do vermelho de cólera para um tom de pura vergonha.
Rafaela avançou e arrancou o celular da mão dele.
— É, Gabriel. Minha irmã — disse ela, tirando o dispositivo do viva-voz e colando-o no ouvido enquanto fuzilava o capitão com o olhar. — Oi, Mica, eu estou aqui... Não, não é ninguém, só um idiota que não sabe o que significa privacidade. Escuta, eu estou um pouco ocupada agora… não, eu juro que amanhã te conto tudo. Se ele é bonito? — Ela mediu Gabriel de cima a baixo. — Nem um pouco. Tchau, te amo!
Ela desligou e guardou o aparelho, encarando o jogador, que parecia implorar mentalmente para que o chão da varanda se abrisse sob seus pés.
— Então o tal "amor da sua vida" é a sua irmã? Sério? — Ele sacudiu a cabeça, dividido entre a irritação e o ridículo da situação.
— Eu chamo a minha irmã assim desde que ela nasceu — Rafaela respondeu, sentindo as bochechas esquentarem, mas sem recuar.
Gabriel passou a mão pela nuca, completamente sem graça. O ciúme que quase o sufocara segundos atrás tinha se transformado em um constrangimento colossal.
— Eu... eu achei que... — ele começou, mas a desculpa morreu na garganta. — Você me deixou acreditar que tinha um namorado.
— Não. Você ouviu dois segundos de uma conversa semanas atrás e concluiu sozinho que eu tinha um namorado — Rafaela corrigiu, permitindo-se um sorrisinho de canto. — Eu só... não vi necessidade de desmentir.
Gabriel sentiu o sangue subir para as orelhas. Tinha sido driblado por um contato de agenda e uma irmã mais nova.
— Você se divertiu às minhas custas? — ele concluiu, entre o choque e uma risada incrédula. — Rafaela, eu quase tive um aneurisma tentando imaginar que tipo de cara era esse maldito amor da sua vida. E você sustentou essa palhaçada esse tempo todo?
A mentira tinha caído, mas de um jeito que deixava Gabriel totalmente suscetível e exposto diante dela. Rafaela deu um passo à frente, saboreando a posição de superioridade.
— Foi uma variável interessante, não acha? Ver como o grande Gabriel Duarte lida com a ideia de não ser a primeira opção de alguém.
Ele soltou o ar em uma risada derrotada, encostando-se novamente no parapeito, mas agora com um sorriso aberto e aliviado.
— Eu lido mal. Muito mal, caso você não tenha notado pelo meu sequestro de celular — confessou, encarando-a com uma intensidade renovada. — Mas, para ser sincero? Foi a melhor bola fora que eu já dei na vida. Saber que não existe nenhum gênio da ciência no meu caminho me deixa bem mais tranquilo. Então... não tem namorado? Nenhum ficante? Só você.
Rafaela sentiu o coração acelerar violentamente. A barreira da mentira tinha sumido, e agora não havia mais nada entre eles além daquela eletricidade absurda novamente.
— Só eu — ela confirmou, a voz sumindo no vento.
— Ótimo.
Ele estendeu a mão devagar. Sem a provocação de costume, sem a urgência de quem quer provar um ponto. Os dedos quentes tocaram levemente o braço de Rafaela, descendo num roçar suave até encontrar sua mão, entrelaçando-se à dela em um pedido mudo para que ela não se afastasse.
— Já que as cartas estão na mesa agora... será que podemos falar a verdade sobre o que está rolando entre a gente? E nem adianta vir com aquele papo de que somos só amigos, Rafa...
Ela sorriu, mas lá no fundo, uma última linha de defesa lembrava do plano de Letícia. A verdade era uma faca de dois gumes. Mas, olhando para ele ali, ela simplesmente soltou o ar pelos dentes, exausta de lutar contra o óbvio.
— A verdade? — ela deu um passo definitivo, encurtando a distância. — É que eu não consigo tirar você da minha cabeça, Gabriel. Eu vim nessa festa, que eu nem queria, só porque eu precisava ver você de novo… sentir essa química estranha que me deixa sem chão. E agora... — ela engoliu em seco — agora eu estou aqui pensando em como seria te beijar e se isso detonaria tudo ou colocaria finalmente as coisas no lugar.
Gabriel parou de respirar por um milésimo de segundo.
Não consigo tirar você da minha cabeça.
Sentir essa química estranha.
Pensando em como seria te beijar.
O coração dele pulsava de um jeito tão violento que parecia prestes a rasgar o tecido da camiseta branca. A experiência do cara que sempre soube exatamente o que fazer no jogo da sedução não serviu para nada ali.
Um riso soprado escapou de seus lábios — um gesto de alívio real. Ele meneou a cabeça devagar, encarando-a com as pupilas dilatadas, tomado pela percepção quase inacreditável de que não estava sozinho naquela obsessão. Não era uma ilusão da cabeça dele.
Exatamente nesse momento, a transição da música na festa mudou a atmosfera da cobertura. A batida do trap deu lugar a um ritmo mais suave de pagode romântico, uma melodia doce, e o timbre potente da Glória Groove esgueirou-se pela fresta da porta de vidro, invadindo a varanda justamente com os versos de "Nosso Primeiro Beijo":
Eu aposto um beijo que você vai gostar do gosto do meu beijo...
Lentamente, a mão que segurava a dela se soltou, subindo num trajeto lento e consciente pelo braço arrepiado de Rafaela, seguindo pelo ombro até alcançar sua nuca. Os dedos dele se enredaram nos cabelos soltos da garota com uma firmeza cuidadosa, segurando-a ali, como se quisesse se certificar de que ela não sumiria no vento de Niterói.
— Você não faz ideia de como eu queria te ouvir dizendo isso... — ele sussurrou.
Gabriel se inclinou um pouco mais, completamente entregue.
— E sobre detonar ou arrumar tudo... eu sou péssimo em teoria, Rafa — murmurou, com o hálito quente roçando os lábios dela. — Acho que a gente vai ter que descobrir na prática.
Ele a beijou.
O beijo começou lento, como se ele estivesse testando se ela era real ou apenas fruto de sua imaginação. Mas, quando a língua dele pediu passagem, a tensão acumulada de semanas — as provocações no corredor, as brigas na monitoria, as trocas de olhares — explodiu. Rafaela sentiu a cobertura desaparecer; as luzes de Icaraí, os planos de vingança... tudo virou plano de fundo.
As mãos dela subiram para o peito dele, agarrando o tecido da camiseta branca, sentindo o coração de Gabriel bater tão descompassado quanto o seu. Era uma reação em cadeia impossível de frear.
Quando se separaram apenas o suficiente para recuperar o oxigênio, ele manteve os olhos fechados e um sorriso que não conseguia disfarçar.
— E aí? — ele sussurrou, a respiração errática. — Detonou ou arrumou?
Rafaela abriu os olhos, sentindo os lábios formigarem.
— Eu... eu ainda estou processando os dados. Então acho que a gente vai precisar de mais alguns testes. Muitos. Só por garantia.
Gabriel sorriu e selou os lábios dela com mais um beijo longo, completamente rendido ao ritmo da música e da mulher em seus braços. Ele esqueceu-se, por um breve instante, de que existiu uma aposta real de mil reais feita com os garotos, e que o preço por ter ganho aquele beijo seria muito mais alto do que ele imaginava.
Quando Rafaela ficou na ponta dos pés para tentar equilibrar a diferença de tamanho entre eles e aprofundar ainda mais o beijo, a música sumiu de repente. No segundo seguinte, o barulho surdo de algo de vidro se espatifando no chão, seguido pela voz alterada de Letícia, cortou o silêncio da varanda como uma lâmina:
— Olha o que você fez!
Rafaela interrompeu o beijo abruptamente.
— Espera! — pediu Rafaela, espalmando as mãos no peito de Gabriel para afastá-lo. — Você ouviu isso?
— Não ouvi nada... — ele murmurou com a voz grave de desejo, roçando os lábios no pescoço dela e pressionando a mão na cintura dela para diminuir o espaço entre os dois de novo. — Deixa de caçar desculpa, nerdzinha. Vem cá.
Mas o tom irritado de Daniel reverberou através do vidro da varanda, tornando a briga impossível de ignorar.
— É o Daniel — Gabriel disse, abrindo os olhos e piscando, voltando subitamente à realidade.
Eles se afastaram, quebrando o casulo que tinham criado ali fora.
— Melhor a gente entrar — Rafaela disse, a curiosidade e a preocupação com Letícia falando mais alto.
Ele concordou, meio a contragosto. Mas, antes que ela pudesse abrir a porta de vidro para adentrar o ar abafado e tenso da sala, o jogador segurou seu pulso com delicadeza, puxando-a de volta para si.
— Calma aí — ele pediu, com um sorriso travesso brincando nos lábios. — Não sei o que vamos encontrar lá em cima. É melhor garantir mais um beijinho de boa sorte.
Rafaela nem teve tempo de protestar. Gabriel a puxou para um beijo rápido, mas demorado o suficiente para fazer suas pernas vacilarem por um segundo.
Quando finalmente atravessaram a sala e pisaram no terraço, o clima de romance evaporou no mesmo instante.
Letícia estava de pé no centro do espaço, o dedo em riste na direção do rosto de Daniel, que parecia prestes a explodir de raiva.
— Eu já pedi desculpas, seu idiota! — Letícia esbravejava, totalmente fora de si. — Para de chorar igual a um bebezinho!
— Desculpas? Você acha que um pedido de desculpas vai limpar o meu Air Jordan Retro? — Daniel retrucou, apontando para os próprios pés. — Você deveria olhar por onde anda, garota.
Um círculo de convidados começava a se formar ao redor deles, atraídos pelo espetáculo.
— Letícia? — Rafaela chamou, abrindo caminho até a amiga. — O que está acontecendo aqui?
— Ah, oi, Rafa. Eu estava indo te procurar e acabei esbarrando nesse brucutu e derrubando meu drink direto nos sapatos dele. Agora ele está dando um piti digno de uma diva pop.
— Você faz ideia de quanto custa esse par? É item de colecionador — Daniel rosnou, genuinamente ofendido.
— Então por que você está usando eles em uma festa, gênio? Quem usa tênis branco de colecionador em uma cobertura cheia de gente bêbada? Seu esquisito!
— Ah, eu sou esquisito? — Daniel deu um passo à frente. — E você parece um Pinscher: pequena, raivosa e pronta para morder qualquer um.
Letícia abriu a boca em um "O" ultrajado, enquanto Rafaela precisou morder o lábio inferior para abafar a risada. Nesse momento, Gabriel terminou de se aproximar, observando o caos no meio da festa.
— Se eu pareço um Pinscher, você parece um poodle de madame com esse cabelo todo enroladinho — Letícia disparou contra os cachos de Daniel.
Ele soltou uma gargalhada alta, sendo acompanhado por Diego e outros veteranos. Daniel lançou um olhar mortal para o capitão, que dizia claramente: "Se você quiser continuar morando aqui, é melhor parar de rir agora". Gabriel disfarçou o riso com uma tosse forçada, tentando recuperar a pose.
— Anda, Letícia, chega. Acho que já deu de drink para você hoje — Rafaela interveio, puxando a amiga firmemente pelo braço. — Vamos embora. Gabriel, obrigada pelo convite. Daniel... sinto muito pelos tênis.
— Espera, eu levo vocês — Gabriel ofereceu-se prontamente, ignorando o olhar curioso de Diego.
— Tem certeza? Você bebeu — Rafaela questionou, avaliando-o com os olhos estreitados.
— Meia cerveja no começo da noite, já passou o efeito faz tempo. Estou limpo, eu juro.
Rafaela assentiu e os três saíram da cobertura, abandonando o som da festa e o par de Jordans manchado de Daniel.
⚽️📖⚽️
Gabriel destravou o carro e puxou a porta do carona, esperando que Rafaela entrasse, mas, para seu completo desgosto, foi Letícia quem invadiu o espaço, batendo a porta com uma força que fez o veículo inteiro balançar. Ele arregalou os olhos, sentindo a pancada direto no peito.
— Letícia! — Rafaela a repreendeu no mesmo segundo, já abrindo a porta traseira. Ela sabia muito bem da história e do cuidado quase obsessivo que Gabriel tinha com aquele carro.
— Ai, desculpa, Gabriel! Mas aquele seu amigo... — Letícia se jogou no banco sem cerimônia, brigando com o cinto de segurança e bufando de raiva. — Aquele Daniel é um grandíssimo filho da...
— Letícia, pelo amor de Deus! — pediu Rafaela, acomodando-se no banco de trás, posicionada bem atrás do motorista.
Gabriel respirou fundo, tentando reorganizar a própria paciência. Ele ajustou levemente o espelho central e encontrou o olhar de Rafaela. O enquadramento dos olhos castanhos dela no topo do vidro era a única coisa em que ele queria se concentrar, mas a voz de Letícia continuava disparando no banco ao lado, feito uma britadeira.
— Aí, Rafa, tá bom! Não falo mais nada também! — Letícia cruzou os braços e afundou no couro, ostentando um bico dramático.
— O Daniel é meio bruto às vezes, mas é um cara maneiro — Gabriel tentou amenizar para o amigo, pressionando o botão de start/stop do painel e engatando a marcha automática.
O motor roncou baixo e a iluminação em LED do painel ganhou vida. O som suave que costumava acalmá-lo agora apenas preenchia o espaço de tudo o que ele queria dizer para a garota no banco de trás e não podia. Gabriel aproveitou um movimento falso para roubar mais dois segundos encarando o reflexo de Rafaela.
Ele queria aquele beijo de novo. Queria sentir o calor e o ritmo dos lábios dela sem plateia. No entanto, por mais que Diego tivesse passado a festa inteira dando força para que eles finalmente se ajeitassem, o fantasma daquela aposta idiota e o medo de estragar tudo falavam mais alto. Gabriel estava acostumado a jogos fáceis e conversas rasas; encarar uma garota que o fazia perder o chão era um território perigosamente novo.
— Maneiro? Olha, vai me desculpar, mas, para mim, ele não passa de um brucutu — Letícia retrucou, completamente alheia à tensão no ar. — Me chamou de pinscher e deu um chilique por causa de um tênis muito do feio, diga-se de passagem.
Gabriel deu uma risada curta, mantendo o foco do olhar preso no pequeno retângulo de vidro à sua frente.
— Posso colocar uma música? — Letícia perguntou, já esticando a mão na direção da tela multimídia.
— Deixa que eu escolho, Lê — interveio Rafaela do banco de trás, inclinando o corpo para a frente.
Ao fazer isso, o rosto dela ficou a poucos centímetros do ombro dele. O perfume sutil de shampoo e pele quente o atingiu em cheio. Gabriel apertou o couro do volante com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. A vontade era de encostar o carro ali mesmo na calçada, pedir para Letícia pegar um Uber e terminar o que tinham começado na varanda. Mas ele apenas manteve o pé suave no acelerador, cortando as ruas em direção ao bairro delas.
O trajeto nunca pareceu tão longo. Letícia, exausta do próprio surto e do efeito do álcool, acabou encostando a cabeça na janela e apagando. O interior do veículo caiu em um silêncio cortante, quebrado apenas pela batida baixa que saía dos alto-falantes.
Gabriel mantinha a atenção na pista, mas sua mente não saía do banco traseiro. Pela transparência do vidro, ele via Rafaela observando o contorno de Niterói passar rápido. Ela parecia pensativa, tocando a própria boca de forma distraída com a ponta dos dedos — um gesto sutil, mas que quase o fez perder a entrada da avenida principal.
— Ela apagou — ele murmurou, mantendo o tom no limite da audição.
Rafaela piscou, deixando a paisagem de lado para encontrar os olhos dele no reflexo. O contato visual se estendeu muito além do que a legislação de trânsito considerava prudente.
— O drink fez efeito rápido — ela respondeu no mesmo sussurro. — Desculpa pela porta do carro e pelo escândalo com o Daniel.
— O Daniel mereceu — ele admitiu, deixando escapar um meio sorriso. — Ninguém usa tênis branco em uma festa e sai ileso. Aliás, quem coloca item de colecionador em um evento do time?
Rafaela soltou um riso contido, e aquele pequeno som pareceu incendiar algo no peito dele.
Gabriel queria dizer mais. Queria perguntar se a cabeça dela estava tão confusa quanto a dele, se aquele beijo tinha virado tudo do avesso para ela da mesma forma. Mas o medo de avançar rápido demais e assustá-la funcionava como uma trava invisível.
— Rafaela? — ele chamou, quando a luz vermelha do semáforo cortou a rua.
— Oi?
Ele não usou o espelhinho. Girou o tronco sobre o banco e a encarou de frente, a luz rubra do sinal banhando os dois em um tom dramático.
— Sobre o que aconteceu lá na varanda... eu não quero que você ache que foi por conta daquela palhaçada do namorado inventado. Eu queria aquele beijo desde o primeiro fora que você me deu quando fui te procurar na Páginas & Prosa.
Rafaela sustentou o olhar sem piscar. O coração dava aquele salto inevitável que ela já estava começando a associar à voz dele.
— Eu sei. Eu também queria. Só... vamos devagar, tá? A minha vida inteira é baseada em lógica, ordem e fatos. E você é a constante mais ilógica que já apareceu na minha frente.
O sinal abriu. Gabriel voltou a olhar para a pista e pisou no acelerador, tomado por um misto sufocante de alívio e pavor. Ele estava conquistando a confiança dela justo quando mais merecia perdê-la.
Quando finalmente encostou na guia em frente ao prédio delas, ele desligou o motor. O silêncio da noite abraçou o carro. No banco do carona, Letícia deu um resmungo arrastado sobre um poodle chiliquento e mudou de posição, mas continuou num sono profundo.
— Entregues — ele avisou, virando-se para trás para olhá-la cara a cara.
Rafaela segurou a maçaneta da porta, mas pausou o movimento por um segundo.
— Obrigada pela carona, Duarte. E pelo... beijo.
Ela abriu a porta e o ar frio da noite invadiu o interior do veículo, dissipando o calor que os dois tinham construído ali dentro. Gabriel observou enquanto ela ajudava Letícia a sair, zonza e ainda resmungando algo incompreensível, até as duas atravessarem o portão de ferro.
Ele ficou ali parado por um longo tempo, com as mãos repousadas no volante, encarando a fachada desgastada do prédio. Não havia mais joguinhos ou atalhos. Ele queria aquela garota para valer, e sabia que, dessa vez, não podia errar nenhuma jogada.
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