AMOR EM CAMPO
22 Capítulo 21: Campo de São Bento

A luz do sol carioca entrava sem pedir licença pela janela da sala, refletindo nas superfícies e fazendo cada partícula de poeira parecer um insulto aos olhos de Letícia.
O apartamento cheirava a café fresco — um milagre operado por Rafaela — e a um leve resquício de álcool e perfume barato que Letícia trouxera da festa da noite anterior.
Ela surgiu no corredor, parecendo uma figurante de filme de terror. O cabelo, antes impecável, era agora um perfeito ninho de pássaros, e usava uma camiseta três vezes maior que o seu tamanho.
— Se você bater essa colher na xícara mais uma vez, eu juro que te taco pela janela — resmungou Letícia, desabando na cadeira da cozinha e cobrindo os olhos com as mãos.
Rafaela, por outro lado, parecia ter saído de um comercial de shampoo. Ela estava parada perto da bancada, segurando uma caneca com as duas mãos, olhando fixamente para um ponto inexistente na parede com um sorriso bobo que não combinava em nada com sua usual seriedade.
— Bom dia para você também, raio de sol — ela disse, a voz suave e aérea demais.
Letícia afastou os dedos dos olhos, analisando a amiga com uma sobrancelha arqueada. Ela levou alguns segundos para processar a cena: o café já pronto, a cozinha limpa e Rafaela... flutuando.
— Peraí — Letícia forçou a visão, ignorando a pontada de dor na têmpora. — Por que você está com essa cara?
— Que cara? — Rafaela tentou recuperar a compostura, mas o sorriso apenas se alargou.
— Essa cara de quem descobriu a cura para o câncer e ganhou na loteria no mesmo dia. Essa cara de... — Letícia parou, a memória da noite anterior voltando em flashes: o sumiço de Rafaela, depois os dois aparecendo no terraço com expressões suspeitas, o trajeto de carro silencioso. — Não. Pode parar. O que aconteceu depois que eu apaguei no carro? Ou melhor, o que aconteceu quando vocês sumiram da festa?
Rafaela deu um gole lento no café, tentando ganhar tempo, mas Letícia a conhecia bem demais.
— A gente conversou, Lê. Só isso.
— "Conversou"? Rafaela Maria, você não sorri para a parede porque "conversou" com um jogador de futebol de um metro e noventa — Letícia se inclinou para a frente, ignorando a náusea da ressaca. — Meu Deus! Ele te beijou!
Rafaela escondeu o rosto atrás da caneca, deixando escapar uma risadinha abafada que confirmou tudo.
— Beijou... — confessou, finalmente olhando para a amiga.
Letícia esqueceu a dor de cabeça por um segundo, os olhos brilhando com a fofoca.
— E o namorado imaginário? Virou corno o coitado?
— Na verdade, ele morreu. Eu contei a verdade — Rafaela suspirou, sentando-se à mesa. — Bom, ele descobriu; a Micaela ligou e ele atendeu, achando que era o meu namorado. Foi ridículo e maravilhoso ao mesmo tempo. Ele ficou com tanto ciúme que quase teve um treco.
Letícia gargalhou e logo levou a mão à cabeça, gemendo.
— Eu daria minha coleção de retalhos para ter visto a cara do Duarte sendo humilhado por uma adolescente de quinze anos! Mas e aí? Agora vocês estão o quê? Reagindo?
Rafaela olhou para o celular sobre a mesa. Não havia mensagens ainda, mas a expectativa era quase sufocante.
— Eu não sei. Só sei que não foi como eu imaginei, Lê. Não teve nada de "estratégia de vingança" na minha cabeça naquele momento. Foi como se a Rafaela, que gosta de manter tudo sob controle, tivesse tirado folga. É como se eu estivesse entrando em uma zona de alta periculosidade sem equipamento de proteção.
— Esquece a proteção, amiga. Às vezes a gente precisa de uma explosão para as coisas entrarem no lugar — Letícia sorriu, mas logo sua expressão vacilou, lembrando-se do propósito inicial da aproximação. — Mas olha... se ele for real mesmo, a gente precisa falar sobre aquela ideia de vingança. Se você está gostando dele, o plano de quebrar o coração do cara meio que vai por água abaixo, né?
Rafaela ficou em silêncio. A menção ao plano trouxe um peso que ela tinha esquecido completamente enquanto estava naquela varanda. Ela pensou no beijo, no olhar vulnerável dele.
— O plano acabou, Lelê. Eu não consigo mais fazer aquilo.
— Faz bem. Mas escuta aqui, Rafaela Maria — Letícia apontou a colherzinha na direção dela com um olhar seríssimo —, se você vai continuar ficando com o Duarte, por mim tudo bem. Mas mantenha aquele amigo dele bem longe de mim.
Rafaela franziu a testa, achando graça da cara de ódio da amiga.
— Não entendi nada daquela briga de vocês.
— É que aquele brutamontes é o cara mais irritante, prepotente e abusado que eu já vi na minha vida! — Letícia bufou, massageando as têmporas ao lembrar do estrago no terraço. — O sujeito simplesmente quase estragou o resto da minha noite por causa de um tênis! Aquele povo da atlética devia vir com aviso na testa. Se aquele garoto pisar no mesmo metro quadrado que eu de novo, eu não respondo por mim.
Rafaela segurou o riso, lembrando-se do escândalo lá em cima enquanto estava na varanda.
— Tá anotado, raio de sol. Distância de segurança do Daniel. Prometo.
— Acho bom — Letícia resmungou, dando o primeiro gole no café.
Rafaela buscou o celular, desbloqueando a tela apenas para ver que a central de notificações continuava vazia. Ela suspirou, deixando o aparelho virado com a tela para baixo sobre a madeira. "Cadê você, Duarte?", pensou, sentindo o peito apertar em uma ansiedade que nenhuma biologia saberia explicar.
⚽️📖⚽️
A quilômetros dali, o celular de Gabriel estava exatamente na mesma posição: virado de tela para baixo sobre a bancada de granito da cozinha, logo ao lado do fogão. Ele fitava o aparelho como se fosse uma bomba prestes a detonar. Sabia que deveria mandar uma mensagem, que deveria ser o primeiro a dizer "bom dia", mas seus dedos pareciam feitos de chumbo.
O chiado da frigideira preenchia uma casa que ainda cheirava a festa e excessos. Ele estava preparando o café da manhã — uma mistura de ovos mexidos, queijo branco e pão fresco — já que era o único ali com alguma habilidade real com as panelas e uma noção mínima de sobrevivência matinal.
Quando Diego apareceu na porta da cozinha, Gabriel tensionou os ombros. Ele tentou manter a expressão mais neutra e entediada do mundo enquanto mexia na frigideira com uma espátula.
— Bom dia — ele cumprimentou, sem se virar.
— Ah, não vem com essa de bom dia, não! — Diego disse, a voz rouca de quem tinha bebido e gritado a noite toda. — E aí? Descobriu quem é o namorado superocupado da nerd?
Gabriel paralisou o movimento com a espátula e respirou fundo, fechando os olhos por um segundo e tentando não cair na provocação.
— Deixa de ser fofoqueiro, porra.
— Fofoqueiro é o caralho, hermano! Eu sou um homem preocupado com a integridade física do meu capitão — Diego rebateu, avançando na direção do fogão e roubando um pedaço de pão que estava em cima da bancada. — O cara passa a festa inteira igual a um cachorro abandonado olhando para a garota, aí, quando finalmente somem para a varanda, volta com essa cara de paisagem? Você não me engana, Duarte.
O capitão soltou a espátula com um estalo contra o mármore e virou de frente.
— Se você não tirar essa cara de pau da minha frente nos próximos dois segundos, Diego, eu juro que enfio esse pão na sua garganta.
— Vem tentar, seu filho da mãe! — Diego provocou, dando um passo à frente com o peito estufado e o canto da boca se ergueu, insolente, agarrando o ombro do amigo num mata-leão improvisado e meio torto de ressaca.
Gabriel travou o braço do argentino na hora, tentando empurrá-lo para longe, e os dois começaram a se empurrar perto do fogão, trocando cotoveladas brutas.
— Se vocês vão sair no soco como quando a gente tinha treze anos e o Gabriel beijou a menina que você gostava no recreio, por favor, vão lá para fora — Daniel surgiu atrás de Diego, com a cara amassada e esfregando o tênis com uma escova de dentes velha. — Não estou a fim de mancha de sangue no meu piso. Já não basta a marca que aquele pinscher raivoso deixou. O que tinha naquela porra de drink? Tinta de parede?
— Daniel, deixa de ser chato. Você tem um milhão de pares de tênis — Diego rebateu, dando um último empurrão no peito de Gabriel antes de soltá-lo e mastigar o pedaço de pão. — Para de enrolar, boludo! Eu vi quando você e a Rafaela saíram de fininho. O que rolou?
Gabriel se ajeitou, ajeitando a gola da camiseta bagunçada pela briga e voltando de frente para o fogão. Ele segurou a espátula de novo, tentando manter uma expressão tranquila.
— Não rolou nada. Fomos lá para a varanda, conversamos um pouco. Fim de papo.
Diego encostou a cintura no balcão e cruzou os braços.
— Qual é, Biel! Você está com aquela cara de idiota de quando acerta chute lá do meio-campo, mas está tentando fingir costume. Vocês ficaram, não foi?
Gabriel voltou a se concentrar na frigideira. Ele tentou sustentar a máscara de desinteresse, mas o simples nome de Rafaela fazia o sangue subir quente para o seu rosto. A tentativa de desconversar falhou miseravelmente diante dos dois caras que conheciam cada microexpressão sua.
— Fala logo, mano! — incentivou Daniel, sentando em uma das banquetas da bancada e rindo da cara de pânico velado do capitão. — Ninguém está te julgando, não. A gente só quer saber se o capitão dos Falcões finalmente foi fisgado.
— Tá bom, cacete! A gente se beijou. Satisfeitos? — Gabriel disparou rápido demais. A risada contida entregava tudo. Ele passou a mão pelo rosto, desistindo da postura de durão e deixando escapar um sorriso que tomou conta do rosto inteiro.
Daniel parou o movimento da escova no tênis enquanto Diego estancou a mastigação por um segundo.
— Calma aí, filhão! — Diego falou, engolindo o pão às pressas antes de passar o braço pesadamente pelos ombros do capitão de novo. — E a fofoca principal? Quem é o tal namorado misterioso? É um daqueles convencidos da Med? Preciso saber se tenho que mandar o time ficar em alerta para o caso de marombado vir te dar uma coça por ter virado talarico!
— Tira a mão, Diego — Gabriel se esquivou do braço do amigo, empurrando-o levemente. — Vocês tinham razão. Não tinha namorado nenhum.
Diego e Daniel se olharam, caindo na gargalhada.
— Ah, não? — Diego riu, batendo palmas. — Então a nerdzinha inventou mesmo um homem só para te fazer de bobo e ver você rolar de ciúmes!
— Não foi bem assim... — Gabriel tentou consertar, desligando o fogo da frigideira, mas já era tarde: Daniel e Diego já estavam aos berros pela cozinha, caçoando da sua cara.
— Vapo! — Diego deu um soco no ar, rindo alto. — O capitão foi dobrado!
— Eu sabia! — Daniel comemorou, balançando a escova de dentes no ar. — O homem tá de quatro!
Gabriel riu fraco, balançando a cabeça diante do escândalo dos dois.
— Em pensar que, se ele não desistisse da aposta, ele ia perder contra um cara que nem existe — Diego zombou.
As palavras de Diego caíram como uma bigorna no peito de Gabriel. A aposta estúpida. Mesmo que estivesse morta e enterrada, a origem de tudo ainda era podre. Ele olhou para os dois amigos, sentindo o peso sufocante de saber que estava construindo algo lindo com a Rafaela em cima de uma base cheia de segredos.
— Chega dessa conversa, beleza? — a voz de Gabriel saiu baixa, mas tão densa e afiada que o riso de Diego morreu na hora. — Não tem graça, não tem história para resenha do time e não tem aposta nenhuma.
— Relaxa, Gabriel... — Diego deu um passo para trás, erguendo as mãos em rendição ao ver o brilho perigoso nos olhos do amigo. — Eu só estava zoando. Tô torcendo por vocês, papo reto.
— Se tá torcendo, então esquece como isso tudo começou — Gabriel fixou os olhos em Diego, a seriedade na voz não deixando espaço para contestação. — Esquece a merda daquela aposta, esquece o nome da Rafaela em qualquer brincadeira e nem pense em tocar nesse assunto de novo. Nem entre a gente, nem com o resto do pessoal. Se a história da aposta chegar aos ouvidos dela sem ser por mim... a gente encerra a amizade aqui. Entenderam?
O silêncio tomou conta da cozinha. Daniel e Diego se olharam, chocados com a gravidade da ameaça. Eles nunca tinham visto Gabriel defender uma garota — ou qualquer coisa — com tanta ferocidade.
Sem dizer mais uma palavra, Gabriel deixou a espátula sobre a bancada e caminhou em direção às escadas, desaparecendo no seu quarto. O som dos seus próprios passos parecia contar regressivamente: o problema não era o presente, mas o passado. E ele sabia que era apenas uma questão de tempo até a verdade encontrar um jeito de explodir na sua cara.
⚽️📖⚽️
Rafaela estava enrolada em uma manta, afundada no sofá, enquanto a trilha suave do filme que assistia preenchia a sala. A luz da televisão recortava seu rosto, destacando o olhar atento, ou que deveria estar atento. Na verdade, sua mente vagava bem longe da história que se desenrolava na tela. Volta e meia, um detalhe da produção se perdia quando lembranças recentes vinham à tona: a música, a varanda, o beijo, a forma como Gabriel a olhava pelo retrovisor quando a trouxe para casa…
O toque do celular a tirou de seus devaneios. Ao pegar o aparelho e ver o nome de Gabriel brilhando na tela, arqueou uma sobrancelha, surpresa. Ele nunca ligava; normalmente, era do tipo que mandava mensagens curtas e provocativas.
Rafaela sentiu o coração acelerar. Encarou o celular por alguns segundos, vendo a tela iluminar a penumbra da sala, antes de deslizar o dedo para atender.
— Gabriel? — ela atendeu, tentando manter a voz estável, mas falhando miseravelmente no tom de indiferença.
Houve um silêncio do outro lado. Por um momento, ela achou que a ligação tinha caído.
— Oi, Rafa — a voz dele veio tranquila. — Atrapalhei o seu descanso?
Ela riu, aliviada, relaxando um pouco a tensão nos ombros.
— Considerando que eu estou assistindo a Casablanca pela terceira vez, não. Aconteceu alguma coisa? Você não é muito de ligar.
Ele deu uma risada curta, sem muito humor, do outro lado da linha.
— Uau, Casablanca? Quem diria que você tem bom gosto.
Rafaela ficou em silêncio por um segundo, mordendo o sorriso que insistia em surgir enquanto ele continuou:
— Sei que não sou muito de ligar, mas eu tentei digitar umas dez mensagens, só que nenhuma parecia certa e eu... eu precisava ouvir sua voz. Só para ter certeza de que ontem à noite não foi um surto.
Ela sentiu um calor agradável subir pelo pescoço.
— Bom, eu… ainda sinto o gosto da sua boca na minha e tem uma Letícia reclamando de ressaca no quarto ao lado, então posso confirmar: foi real.
— Ótimo. Porque eu não consigo parar de pensar no que você disse. Sobre eu ser a sua "variável mais ilógica".
— E você é — ela afirmou, sentando-se no sofá e puxando a manta para os joelhos. — Mas, para alguém que vive de exatidão, lidar com uma incógnita como você até que está sendo... interessante.
Gabriel ficou em silêncio. Queria dizer que ele era mais do que uma incógnita; ele era um erro. Ele queria falar sobre a aposta, sobre como ele queria apagar o passado e recomeçar do zero. Mas o medo de ver aquele sorriso que ele imaginava no rosto dela desaparecer era maior.
— Eu quero te ver — ele disse, mudando de assunto antes que perdesse a coragem. — Sem festas, sem música alta, sem amigas dormindo no banco do carona. O que acha?
Rafaela sentiu o frio na barriga.
— Acho que pode ser, Duarte. Mas olha... — ela hesitou, a voz ficando séria. — Eu estava falando sério sobre ir devagar. Minha vida já está uma bagunça por causa dos estudos, trabalho e monitoria; eu não aguento mais nenhuma surpresa desagradável.
Aquelas palavras foram como uma facada no peito de Gabriel. Surpresa desagradável. Era exatamente isso que ele era no momento.
— Eu sei, Rafa. Eu prometo que... eu vou fazer o certo. Te busco aí daqui a uma hora, tá bom?
Ele desligou logo depois, deixando Rafaela olhando para o celular com um misto de felicidade e uma leve confusão. Ela não percebeu que, do outro lado da cidade, Gabriel jogou o celular na cama e afundou o rosto nas mãos. Ele tinha um encontro com ela e uma bomba para desarmar antes que seja tarde demais.
Uma hora depois, ele estava na frente do prédio dela. Quando Rafaela desceu, não usava o vestido fatal da festa, mas um jeans confortável e uma blusa leve, com os cabelos soltos. Para Gabriel, ela parecia ainda mais perigosa assim: real, tátil e de guarda baixa.
Eles dirigiram em um silêncio confortável até Icaraí. Ao estacionarem e caminharem para dentro do Campo de São Bento, o burburinho da cidade parecia ficar para trás, abafado pelas copas das árvores centenárias.
— O Campo? — Rafaela perguntou, olhando ao redor, vendo crianças correndo e casais de idosos caminhando devagar. — Confesso que imaginei que você me levaria para algum quiosque badalado na orla ou algo com mais... volume.
Ele esboçou um sorriso incerto, as mãos enterradas nos bolsos da calça.
— Você vem muito aqui? — ela perguntou.
— Sempre que posso. Principalmente quando quero organizar meus pensamentos — ele respondeu.
Rafaela ficou em silêncio por alguns instantes antes de acrescentar:
— E o que você faz quando nem assim consegue organizar os pensamentos?
Gabriel parou por um momento, refletindo.
— Eu aceito que nem tudo precisa ser resolvido de imediato.
Ela o observou de soslaio. A luz filtrada pelas folhas criava sombras no rosto dele e, por um momento, a "incógnita" pareceu um pouco mais clara.
— Você é um cara cheio de segredos, Duarte.
— Todos nós somos, não? — Ele parou perto do coreto, virando-se para ela. O peso da aposta no passado latejava em sua mente, mas ele se forçou a focar no agora. No brilho dos olhos dela.
Eles caminharam até um banco próximo ao lago. O clima era de uma paz quase dolorosa para Gabriel. Ele a observava rir de um detalhe qualquer, e a cada segundo que passava, a promessa de "fazer o certo" se tornava mais urgente e, ao mesmo tempo, mais assustadora.
Ele sentia que estava roubando aquele momento. Cada sorriso que ela lhe dava era uma nota promissória que ele não sabia se conseguiria pagar.
— No que você está pensando? — Rafaela perguntou, tocando de leve o braço dele. — Você ficou quieto de repente.
Ele olhou para a mão dela sobre sua pele.
— Pensando que o mundo aqui dentro parece muito mais simples do que o mundo lá fora — respondeu, a voz carregada de uma sinceridade que o assustou. — E que eu queria que amanhã não chegasse.
Rafaela franziu a testa, achando que ele se referia à rotina cansativa da faculdade. Ela se inclinou e encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos.
— Quem diria que o Gabriel Duarte faz o tipo filosófico? Deve ser efeito colateral do ar puro — brincou, prendendo o riso enquanto o vento do parque balançava os fios do seu cabelo.
— Ou efeito colateral de você — ele rebateu, segurando o queixo dela com a ponta dos dedos, fazendo-a erguer o rosto devagar. Gabriel se inclinou e tocou os lábios dela num beijo suave, calmo e demorado, uma carícia quase hesitante, como se tivesse medo de que ela se desfizesse sob seu toque. Quando se afastou, ele passou o braço pelos ombros de Rafaela, apertando-a contra o peito. Fechou os olhos, tentando gravar aquele cheiro e a sensação de tê-la em seus braços. No fundo, sabia que estava vivendo o último suspiro de paz antes de lidar com a própria consciência.
O peito de Rafaela se esvaziou em um suspiro contido, ela sentia o calor do corpo de Gabriel contra o seu. O som das folhas balançando e o riso distante de uma criança deveriam deixá-la em paz, mas a ternura daquele beijo era, para ela, um espelho incômodo de sua própria omissão.
Ela pensou em Letícia e no plano que haviam traçado no auge da raiva: "quebrar o coração do capitão". Parecia uma ideia tão lógica no papel. Mas ali, sentindo a batida firme do coração de Gabriel sob a palma de sua mão, a lógica parecia uma língua estrangeira que ela não sabia mais falar.
Como eu ia conseguir machucar alguém que busca refúgio no meio das árvores?, ela se perguntou, sentindo o peso esmagador da hipocrisia.
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