AMOR EM CAMPO
23 Capítulo 22: Campo Minado

O treino de segunda-feira havia acabado, mas o clima no vestiário ainda estava pesado com o cheiro de suor e a tensão que Gabriel carregava nos ombros. Ele esperou Lucas terminar de guardar as chuteiras e fez um sinal com a cabeça.
— Lucas, chega aí. Preciso trocar uma ideia contigo em particular.
Diego e Daniel, que estavam logo ao lado, nem se mexeram. Daniel continuou fechando a mochila, enquanto Diego cruzou os braços, encostando-se nos armários de metal.
— Vocês podem dar licença? — Gabriel pediu, secamente.
— Ah, qual é? Até parece que a gente não sabe qual é a pauta da reunião — Diego rebateu. — Vamos ficar aqui para te dar um apoio moral. Vai que você infarta.
Lucas olhou de um para o outro, confuso, mas logo um brilho de deboche cruzou o seu rosto. Ele deu um tapinha pesado no ombro de Gabriel.
— Ah, já estou ligado, capitão! O Diego já soltou o fofocão. Mandou bem demais na festa, hein? Pegou a esquisita no terraço. O pai tá on!
O rosto de Diego mudou de cor instantaneamente. Por trás de Gabriel, ele começou a fazer sinais frenéticos para Lucas — passando a mão pelo pescoço num gesto claro de "corta essa" —, mas Lucas estava ocupado demais rindo para perceber.
— O nome dela é Rafaela. Já falei — Gabriel rosnou entre os dentes, os punhos cerrados ao lado do corpo. — E eu não vim aqui para me gabar de nada, muito pelo contrário.
Ele respirou fundo e soltou a verdade de uma vez, explicando que a brincadeira tinha perdido a graça e que a situação com Rafaela era real. Lucas ouviu tudo com os olhos arregalados, a expressão de desdém sumindo aos poucos para dar lugar a uma incredulidade pura.
— Puta que pariu, Gabriel... Então o Daniel estava certo?
Gabriel lançou um olhar mortal para Daniel, que apenas deu de ombros, impassível.
— Ele vivia dizendo que a gente devia mudar o tema da aposta — continuou Lucas, ainda processando. — Que a gente devia apostar quanto tempo você ia levar para ficar de quatro pela esqui... pela Rafaela.
— Pô, que maneiro saber que a minha vida era motivo de chacota entre vocês pelas minhas costas — ironizou o capitão.
Daniel pigarreou, cortando o clima.
— Foco, Biel. O tempo está correndo.
— Certo — ele se voltou para Lucas. — Lucas, o negócio é o seguinte: eu preciso que você guarde segredo sobre essa merda. Por enquanto. Pelo menos até eu achar um jeito de contar para ela sem destruir tudo. Quebra essa, mano. Fica de bico fechado, não comenta com ninguém, beleza?
Lucas olhou para os três amigos, sentindo o peso da responsabilidade — e do perigo — de ser o guardião de uma bomba-relógio.
— Cara, você está pedindo para eu esconder o maior bafafá do semestre — ele disse, coçando a nuca. — Você sabe que eu não seguro um segredo nem sob tortura, Gabe. Mas... por você, eu tento.
— Não é "tentar", Lucas. É fazer — Gabriel deu um passo à frente, a imponência de capitão pesando no ambiente. — Se isso vazar antes de eu falar com ela, eu perco a garota. E se eu a perder por causa da sua incapacidade de manter a boca fechada, a gente vai ter um problema sério que não se resolve no campo.
Diego interveio, colocando a mão no ombro de Lucas com um aperto firme demais para ser apenas amigável.
— O Gabriel não está brincando, mano. O bagulho ficou louco. A aposta morreu, o assunto acabou aqui. Entendeu?
Lucas levantou as mãos em sinal de rendição, recuando um passo.
— Tá bom, tá bom! Mensagem recebida. Bico fechado. Eu não sou doido de entrar no caminho do capitão apaixonado.
Gabriel relaxou os ombros, mas a sensação de que estava correndo contra o tempo não passou.
— Valeu, cara. De verdade.
Ele saiu do vestiário apressado, precisando encontrar Rafaela antes da primeira aula. Precisava olhar para ela, sentir que as coisas ainda estavam "normais", mesmo que o mundo ao redor estivesse prestes a desmoronar.
Rafaela estava na entrada do laboratório, conversando com Mariana, quando ouviu passos conhecidos vindo em sua direção no corredor. O coração dela disparou no instante em que avistou Gabriel.
— Se a gente não ganhar esse simpósio na Alemanha, eu vou voar no pescoço do Brandão — disse Mariana, completamente alheia ao coração totalmente descompassado da amiga logo ao lado. — É sério, Rafa! Aquele velhote tá praticamente garantindo que a gente já ganhou — continuava resmungando, ajeitando a alça pesada da mochila enquanto folheava uma prancha de anotações. — Se for mentira, eu mesma contamino as amostras dele com Escherichia coli só por desaforo.
Rafaela, no entanto, não ouviu uma única palavra.
Gabriel parou a alguns poucos metros delas. Ele ainda estava com o cabelo levemente úmido do banho pós-treino, vestia o casaco cinza da atlética com as mangas puxadas até os antebraços e trazia uma expressão séria, quase aflita. Mas, assim que os olhos dele focaram em Rafaela, os maxilares relaxaram visivelmente. Era como se ele tivesse passado a manhã inteira prendendo a respiração e só agora conseguisse soltar o ar.
— Uhrum... é, é Escherichia coli. Mari, posso falar com você depois? Lembrei que preciso encontrar um aluno da monitoria daqui a pouco.
— Eu tô me matando de falar e você com a cabeça na lua! — Mariana reclamou, mas logo deu de ombros, sem desconfiar. — Tá bom, tá bom. A gente se fala depois.
Gabriel não pensou duas vezes. Assim que ela se despediu da colega e deu os primeiros passos até ele, seus dedos envolveram o pulso dela com firmeza, puxando-a para um corredor lateral, mais escuro e fora da linha de visão do pátio.
— Gabriel! — ela sussurrou, a voz falhando entre o susto e a expectativa.
Ele não deu tempo para protestos. Pressionou o corpo de Rafaela com cuidado contra a parede e a encurralou ali, colando os quadris e usando a própria altura para fechar qualquer escapatória. Antes que ela pudesse racionalizar, uma das mãos dele já estava em sua nuca, os dedos se enredando nos cabelos dela para puxar a cabeça suavemente para trás, e os lábios dele tomaram os seus.
Não teve nada da hesitação do dia anterior no Campo. Foi um beijo urgente, quente, dono de uma propriedade absurda. A língua dele pediu passagem sem pedir licença de verdade, dominando o ritmo e fazendo Rafaela perder o chão por dois segundos. Ela arfou contra a boca dele, chocada com a força e a precisão daquela investida, e Gabriel aproveitou o entreabrir de seus lábios para aprofundar ainda mais, sugando o lábio inferior dela com uma lentidão provocante.
A outra mão dele desceu até a curva da cintura de Rafaela, apertando o tecido do casaco dela para trazê-la ainda mais colada ao seu peito. O gosto era doce, perigoso e completamente viciante.
Quando ele finalmente desacelerou, distribuindo selinhos curtos pela boca e pelo canto do queixo dela, Rafaela estava com as mãos presas ao peito dele, completamente sem ar e com a pulsação acelerada.
Ele sorriu contra a bochecha dela, atrevido, sabendo exatamente o efeito devastador que causava.
— Eu precisava disso. Juro que passei o treino todo contando os minutos para te beijar de novo.
Rafaela soltou o ar de uma vez, apoiando as costas contra a parede fria porque, honestamente, não tinha certeza se as próprias pernas sustentariam seu peso. A mão foi direto ao peito, sentindo o coração espancando as costelas.
Ela piscou algumas vezes, tentando fazer a névoa do toque dele se dissipar. Olhou para os lados, subitamente consciente de que estavam no meio de um corredor da universidade.
— Você... você está completamente maluco? — ela sussurrou, a voz saindo mais rouca e sem ar do que pretendia, embora o meio sorriso no canto dos lábios entregasse que ela não tinha nenhuma objeção. — Gabriel, alguém pode ver! E... eu achei que a gente tinha um combinado sobre "ir devagar".
Ele deu um passo à frente de novo, puxando-a pela cintura para colar o corpo dela ao seu mais uma vez. Escondeu o rosto na curva do pescoço dela, inspirando fundo o perfume ali.
— Eu tentei — murmurou contra a pele do pescoço dela, fazendo-a arrepiar até o último fio de cabelo. — Mas a minha lógica falha miseravelmente toda vez que te vejo, Rafa.
Ela riu baixo, uma risada gostosa, encostando a testa no ombro dele por meio segundo para tentar se recuperar do impacto. Afastou o rosto dele apenas o suficiente para fitá-lo, os olhos brilhando.
— Sabe... a minha lógica também foi para o espaço — confessou, dando-se por vencida enquanto sustentava o olhar dele. — Eu passei a manhã toda com medo de que hoje as coisas tivessem mudado, de que ontem, no Campo de São Bento, fizesse parecer... sei lá, estranho. Mas você é uma variável persistente demais.
— Eu não vou a lugar nenhum — ele selou a promessa com um selinho demorado, estalando levemente nos lábios dela. — Quer dizer, agora eu preciso ir para a aula. Mas posso te buscar na livraria mais tarde?
Rafaela confirmou com um aceno de cabeça, incapaz de formular uma resposta mais elaborada enquanto o perfume dele ainda a embebedava.
— Então, até mais, nerdzinha — Gabriel se afastou dela, ajeitando a mochila nas costas e recuperando a postura de capitão do time, embora o brilho nos olhos ainda entregasse o rapaz totalmente rendido do banco da praça.
⚽️📖⚽️
Rafaela e Letícia estavam sentadas no ponto de ônibus, esperando a condução para o trabalho. Letícia tagarelava sem parar, gesticulando dramaticamente sobre como o Guilherme tinha surtado ao descobrir que ela tinha ido à festa do time de futebol. Rafaela, no entanto, mal conseguia processar as palavras da amiga. Seus olhos estavam fixos na tela do celular, completamente imersa na troca de mensagens com Gabriel:
Gabriel: [link do Instagram]
Gabriel:Que tal a gente testar essa aqui qualquer dia?
Gabriel: Acho que você me viciou nesses cafés superfaturados.
Rafaela: Olha só, se rendendo aos encantos do expresso artesanal... Quem te viu, quem te vê, Duarte.
Rafaela: Convite aceito! Mas dessa vez eu pago.
Gabriel: Estou virando um homem refinado, aceita.
Gabriel: E sobre você pagar: olha… eu apoio totalmente a igualdade de direitos. Mas também apoio fortemente a ideia de te mimar com café caro.
Gabriel: Bom trabalho, nerdzinha; avisa quando chegar.
— ...e aí o Guilherme teve a audácia de dizer que o ambiente daquela festa era "tóxico"! Dá para acreditar? Logo ele! — Letícia bufou, ajeitando a bolsa no colo. — Mas, enfim, você não ouviu uma palavra do que eu disse, porque está aí com essa cara de boba apaixonada, olhando para o celular. O que o Duarte mandou?
— Não estou com cara nenhuma — rebateu, virando a tela do celular para a amiga e mostrando a foto da cafeteria. — Ele mandou a foto de uma cafeteria que quer me levar.
Letícia ergueu as sobrancelhas, cruzando os braços.
— Hum, lugarzinho estratégico, romântico. Aconchegante, sem ninguém da UC por perto para encher o saco... Gostei. Até que o Gabriel não é tão tosco quanto eu pensava.
O ônibus finalmente apontou na avenida, quebrando o momento. Rafaela se levantou, ajustando a alça da mochila no ombro. Quando ambas entraram no coletivo lotado, foram se espremendo entre os outros passageiros em pé no corredor até alcançarem o fundo. Letícia voltou a falar:
— E você já decidiu quando vai contar para ele sobre nosso plano?
— Que plano? — Rafaela perguntou, fingindo uma amnésia conveniente enquanto tentava se equilibrar no encosto do banco do ônibus, que deu uma arrancada brusca.
Letícia revirou os olhos com tanta força que quase deu um nó na própria testa. Ela se virou em direção à amiga, baixando o tom de voz por causa dos outros passageiros.
— Não se faça de louca, Rafaela Maria. O plano de vingança. Aquele em que a gente ia fazer o capitão do time comer na sua mão para depois você dar o fora do século nele, lembra? O plano que nasceu na nossa cozinha.
Rafaela sentiu as bochechas esquentarem. Ela fitou o próprio reflexo na janela suja do ônibus.
— Esse plano morreu, Letícia. Morreu na varanda aquela festa e foi enterrado ontem no Campo de São Bento. Eu não consigo fazer isso. O Gabriel não é o babaca estereotipado que a gente achou que ele era. Ele me levou ao refúgio dele, conversou sério comigo... Ele é... real.
— Eu sei, amiga. Eu estava brincando com você, mas o assunto é sério — Letícia suavizou o tom, trocando o peso de uma perna para outra. — Eu fico feliz que ele seja esse cara legal. De verdade. Mas você percebe a ironia da situação? Você começou a se aproximar dele por orgulho ferido. Se você quer algo limpo e de verdade com ele, vai ter que puxar o band-aid e contar como tudo começou.
Rafaela engoliu em seco, saindo do caminho para um dos passageiros conseguir descer.
— Eu sei. Eu quero contar. Só... estou esperando o momento certo. Tenho medo de ele achar que tudo o que aconteceu até agora foi uma farsa. Porque não foi. No começo podia ser, mas agora...
— Só não espera demais — Letícia alertou, encarando a amiga com seriedade.
Rafaela assentiu, sentindo o peito apertar. A doçura da mensagem sobre o "café superfaturado" agora ganhava um sabor diferente.
Letícia desceu no ponto próximo à boutique, enquanto Rafaela seguiu viagem.
O dia correu em sua rotina profissional de sempre, mas, para ela, as horas pareceram arrastadas. Cada notificação no celular fazia seu coração dar um salto, até que, no fim do expediente, a tela brilhou com o nome dele:
Gabriel: Estou saindo para te buscar e estava pensando: se você não estiver muito cansada, o que acha de irmos até aquela cafeteria hoje? Eu realmente estou precisando de cafeína e de tempo com você. Só que preciso mais de um do que do outro... e, no caso, estou falando do tempo com você.
Rafaela releu a mensagem, sentindo uma mistura imediata de alívio por falar com ele e aquela pontada persistente de culpa que o aviso de Letícia havia deixado em sua mente. Ela respirou fundo, ajeitando as coisas no balcão antes de digitar a resposta.
Rafaela: Estou fechando as coisas aqui agora, Duarte. Mas não precisa se incomodar em vir me buscar, eu pego o ônibus direto para casa. É mais prático para os dois.
Gabriel: Mas a gente tinha combinado de eu ir te buscar, Rafa. Eu já estava quase saindo de casa. Aconteceu alguma coisa?
Rafaela: Eu só estou cansada. O dia de hoje foi puxado. A gente se vê amanhã na UC, tá? Boa noite.
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Rafaela estava sentada no ônibus, o rosto encostado no vidro gelado, mas não enxergava a rua passando lá fora. A estrada, o barulho do motor, as pessoas ao redor... tudo havia ficado em segundo plano diante das palavras que ecoavam como um martelo em sua cabeça: "Se você quer algo limpo e de verdade com ele, vai ter que puxar o band-aid e contar como tudo começou."
Quando chegou em casa, deixou a mochila de lado e foi direto para o quarto. Sentou-se na beira da cama, o celular firme nas mãos. O nome de Gabriel brilhava na tela como uma provocação silenciosa.
— Tá… e o que eu vou falar? — perguntou para si mesma, respirando fundo.
Encarou o espelho à sua frente, como se ensaiasse diante de um público invisível.
— "Gabriel, eu preciso te contar uma coisa…" — a própria voz soou pesada, séria demais. Rafaela fez uma careta. — Não. Assim não.
Tentou de novo, mudando o tom:
— "Olha, a gente começou errado, mas…" — a frase morreu antes de terminar. Ela mordeu o lábio, a insegurança queimando no peito. — Ah, Rafaela, ele vai te odiar.
Deitou-se de costas, o celular ainda preso entre os dedos. Os olhos ardiam, não de sono, mas da ansiedade que a corroía. Fechou-os e imaginou a cena: Gabriel à sua frente, o sorriso convencido de sempre, o olhar intenso que a desestabilizava sem esforço. Será que ele riria dela? Será que simplesmente se levantaria e iria embora?
Virou de lado, abraçando o travesseiro como se fosse um escudo.
— Eu não queria que fosse assim… Era só uma vingança idiota, mas agora…" — sussurrou no vazio do quarto.
Rafaela percebeu que o medo não era apenas de decepcionar Gabriel. Era de perder o que estava nascendo entre eles, algo tão novo e assustador que doía só de imaginar. Suspirou e desbloqueou o celular. A tela iluminada parecia um lembrete cruel da conversa inevitável. Ficou um tempo encarando o brilho do visor. O polegar hesitante sobre o teclado. Qualquer palavra podia mudar tudo.
Então digitou:
Gabriel, você pode me encontrar amanhã atrás do bloco de Engenharia no intervalo? Preciso conversar com você. É importante.
Em Icaraí, Gabriel estava sentado no sofá. Ele ainda estava totalmente arrumado, pronto para pegar as chaves do carro e buscar Rafaela na livraria, quando a sequência de mensagens dela mudou o rumo da noite.
Ao ler a última frase — "Preciso conversar com você. É importante." — o sangue dele pareceu congelar nas veias. Ela estava estranha, tinha desmarcado o encontro em cima da hora e agora aquilo.
O pânico se instalou imediatamente. Ah, não... Será que ela descobriu?Pensou, sentindo o estômago dar um nó.
Com os dedos trêmulos, ele respondeu:
Claro, estarei lá.
Bloqueou o celular e o jogou no sofá. Recostou a cabeça no estofado e passou as duas mãos pelos cabelos, bagunçando os fios em uma tentativa frustrada de acalmar os próprios pensamentos. O que ela poderia querer conversar? Será que o maldito do Lucas já tinha dado com a língua nos dentes e ela descobrira a verdade antes de ele ter a oportunidade de contar? Ah, se tivesse sido isso, o Lucas ia se ver com ele.
Diego desceu as escadas sem camisa, usando apenas um short de moletom interrompendo o pequeno surto de Gabriel. Ele olhou para o amigo, confuso por vê-lo ali parado.
— Ué, achei que fosse encontrar a esquisi… — Gabriel fechou a cara imediatamente, lançando um olhar mortal para ele. Diego pigarreou, corrigindo-se rápido: — A Rafaela. Foi mal, força do hábito.
— Ela desmarcou de última hora — Gabriel respondeu, sem desviar o olhar do teto. — Está toda estranha. E agora mandou uma mensagem dizendo que quer conversar amanhã.
Diego deu uma risada leve e se sentou ao lado do amigo, pegando o controle e ligando a TV.
— Bem-vindo ao mundo dos relacionamentos, meu parceiro. As mulheres são assim… uma hora é só sorrisos, no minuto seguinte, você não presta.
— Não é isso, Diego — Gabriel disse. Ele finalmente se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos. — O tom da mensagem foi diferente. Ela disse que é importante.
Diego olhou de lado para o amigo, percebendo que a preocupação dele ia muito além de uma DR boba de início de namoro.
— Cara, relaxa. Você está paranoico — tentou amenizar, mudando de canal sem prestar atenção na tela. — O Lucas prometeu que ia ficar de bico fechado. O Dan também está na dele. Ninguém falou nada.
— O Lucas é uma peneira, Diego, você sabe disso. E ainda tem a Brunna — Gabriel rebateu, sentindo um gosto amargo na boca. — Tá puta porque dei um fim no nosso lance...
— A Brunna late, mas não morde desse jeito. Ela tem orgulho demais para ir atrás da Rafaela e tirar satisfação — Diego argumentou, embora sua própria expressão tivesse ficado um pouco mais séria. Ele suspirou, jogando o controle no sofá. — Mas ó, se serve de conselho... se a Rafaela quer conversar amanhã, usa isso para abrir o jogo. Limpa a barra antes que vire uma bola de neve.
Gabriel não respondeu. Ele apenas pegou o celular de volta, encarando a frase de Rafaela: "Preciso conversar com você. É importante."
A ironia era cortante. Ele passou o dia inteiro tentando bolar uma estratégia para calar a boca do Lucas, sem perceber que o verdadeiro perigo estava no silêncio que crescia entre ele e a garota que ele queria proteger.
⚽📖⚽
O pátio da UC estava lotado, mas o espaço atrás do bloco de Engenharia continuava sendo o que era: um corredor de concreto cinzento, cercado por algumas árvores de folhas largas e bancos quase sempre vazios. Era o cenário perfeito para quem não queria ser visto.
Rafaela chegou cinco minutos antes. Suas pernas pareciam pesadas, e cada segundo de espera fazia seu estômago revirar. Ela tinha ensaiado o discurso a noite toda, mas agora, com o vento frio do pátio batendo no rosto, todas as palavras pareciam erradas.
Gabriel surgiu pelo corredor de concreto. Os cabelos estavam ligeiramente bagunçados e ele trazia as mãos afundadas nos bolsos do casaco do time. Havia uma rigidez na postura dele que ela nunca tinha visto antes, a mesma rigidez de quem está entrando em campo para uma final difícil.
Quando ele parou a dois passos dela, o silêncio entre os dois foi quase doloroso. O contraste com as trocas de mensagens sobre o "café superfaturado" do dia anterior era assustador.
— Oi, Rafa — Gabriel falou primeiro.
— Oi, Gabriel — ela respondeu, forçando um sorriso que sumiu em um segundo. — Obrigada por vir.
— Você disse que era importante — ele deu um passo mais perto, os olhos fixos nos dela, tentando ler qualquer sinal de que a bomba já tivesse explodido. — Aconteceu alguma coisa? Você me deixou preocupado ontem.
Rafaela desviou o olhar por um breve instante, focando nas próprias sapatilhas antes de tomar coragem. Era hora de puxar o band-aid.
— Aconteceu — ela começou. — Gabriel... eu preciso ser honesta com você sobre uma coisa. Sobre como a gente começou a se falar.
O sangue dele pareceu gelar em suas veias, exatamente como na noite anterior, mas por um motivo totalmente diferente. Esperou o pior. Sentiu o suor frio brotar na nuca, certo de que ela diria as palavras que acabariam com tudo: "Eu já sei da aposta."
— Quando eu aceitei te dar aulas extras, as suas caronas e comecei a falar com você... não foi por acaso — Rafaela continuou, embora a voz tremesse ligeiramente. — No dia em que você me fez aquela proposta ridícula, eu fiquei com muita raiva. Então, naquela mesma noite, eu e a Letícia meio que... traçamos um plano.
Gabriel piscou, confuso. A engrenagem na cabeça dele, que estava pronta para receber o impacto de uma revelação sobre os mil reais, deu um nó.
— Um plano? — repetiu, o tom saindo mais baixo.
— É — ela abraçou o próprio corpo, como se aquilo pudesse evitar o impacto das palavras que estava prestes a dizer. — Uma vingança. A Letícia deu a ideia e eu, na minha infantilidade, aceitei. O plano era fazer você se interessar por mim, fazer o capitão do time de futebol ficar correndo atrás da garota que ele disse precisar de upgrade, que ele destratou, para depois eu te dar o pior fora da sua vida. Na frente de geral. Para lavar a minha alma.
A pausa incômoda que se estendeu atrás do bloco de Engenharia foi absoluta.
Ele continuou parado, fitando-a. Por um minuto inteiro, a única coisa que sentiu foi um alívio tão violento que quase o fez perder o fôlego. Ela não sabe. Ela não descobriu nada. A bomba da aposta ainda estava sob o seu controle.
Mas então, o alívio evaporou, sendo substituído por um choque que desceu como um balde de água gelada, seguido por uma pontada aguda de algo que ele não esperava sentir: orgulho ferido.
A ficha foi caindo devagar, palavra por palavra. Toda aquela aproximação, as conversas sobre exatidão, os olhares... tudo aquilo tinha sido calculado por ela? Uma vingança? Ele, que achava que estava no controle de um jogo unilateral, tinha sido a peça de um tabuleiro que nem sabia que existia.
O ego de capitão, misturado com o sentimento genuíno que estava nascendo no peito dele, colidiu de frente com a revelação.
— Espera aí... — Gabriel apertou a ponte do nariz, soltando uma risada seca. — Você está me dizendo que tudo isso foi um teatrinho para me dar um fora? Foi por isso que você chamou até aqui? Para me dispensar?
— Não! — Rafaela deu um passo à frente, desesperada, tocando o braço dele. — Não, Gabriel, por favor, me escuta! O que aconteceu ontem… o que eu te disse na festa, o que eu sinto quando estou com você... é real. Eu juro que é! Eu só precisava te contar isso porque não conseguia mais te olhar nos olhos, carregando essa mentira. Eu queria começar do jeito certo com você.
Ele passou a mão pelo rosto, o cérebro trabalhando a mil por hora. A ironia da situação era quase cômica, se não fosse trágica. Estava ali, chocado e se sentindo usado, sendo que ele próprio tinha feito exatamente a mesma coisa — ou pior — com ela.
Ele queria ficar puto. Uma parte dele, a parte arrogante do Duarte do Futebol, queria gritar e dizer que ninguém o fazia de otário. Mas a outra parte, a que estava completamente rendida pela garota à sua frente, sentia uma culpa esmagadora. Como ele poderia cobrar fidelidade e honestidade dela se ele guardava um segredo muito mais sujo no bolso?
— Gabriel, olha para mim — ela pediu, os olhos marejados, a lógica completamente abandonada pela emoção. — Eu desisti daquele plano. Não sou aquela pessoa.
Ele continuou olhando para ela, processando o golpe.
Ver a Rafaela — sempre tão imbatível, racional, com as respostas certas na ponta da língua — ali, encolhida e com os olhos brilhando pelas lágrimas presas, quebrou algo dentro dele.
Ele sentiu o impulso de abrir o jogo. As palavras "eu também estava jogando com você" subiram pela sua garganta. Estava pronto para cuspir a verdade e acabar com aquele peso.
— Eu sei que eu não tenho o direito de pedir nada... — Rafaela continuou no exato segundo em que ele abriu a boca para falar. — Se a situação estivesse invertida, se fosse você criando um jogo para me fazer de otária por causa do seu ego... eu nunca mais olharia na sua cara. Eu te odiaria para o resto da minha vida.
As palavras saíram da boca dela, caindo direto sobre a pilha de culpa que Gabriel já sentia.
A voz dele morreu antes de virar som. A confissão entalou na garganta, queimando feito ácido.
— Mas eu vi quem você é de verdade e caí na minha própria armadilha. — Ela implorou, uma lágrima finalmente escapando e desenhando uma linha quente pelo rosto dela. — Me odiar é um direito seu, mas, por favor, acredita que o que eu sinto por você agora é de verdade.
Ele olhou para o rosto dela, para o leve tremor em suas mãos e para a coragem monumental que ela teve ao se colocar naquela posição por ele. Rafaela estava se sentindo a pior pessoa do mundo por causa de uma vingança boba que nunca chegou a executar. Se ele contasse agora que o interesse dele nasceu de um desafio e de algumas notas de cem, ele não estaria apenas limpando a própria barra; ele estaria humilhando-a no momento em que ela mais confiara nele.
Seria o mesmo que dizer: "Você se sentiu culpada à toa, porque eu sou dez vezes pior". A verdade ali, naquele segundo, não seria libertadora. Seria destrutiva. Ela nunca mais olharia na cara dele, e com toda a razão do mundo.
— Por favor, diz alguma coisa... — Rafaela pediu, a voz saindo em um sopro.
Ele soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo cabelo e dando um passo hesitante na direção dela.
— Mas que caralho, hein, Rafaela? — a voz dele saiu rouca, quebrada. Ele estendeu a mão, os dedos hesitando no ar por um segundo antes de limparem a lágrima no rosto dela com o polegar. — Namorado falso, plano de vingança... O que mais você tá escondendo de mim, porra?
— Nada! Eu juro... me desculpa — ela respondeu rápido, encolhendo os ombros.
Rafaela baixou a cabeça, envergonhada, mas ele usou o indicador e o polegar para erguer o queixo dela delicadamente, obrigando-a a encará-lo.
— Ei, olhos em mim — Gabriel pediu num tom baixinho, quase um apelo. — Eu não te odeio, tá bom? Confesso que estou um pouco bolado por saber que eu era um alvo para você e para a Letícia no começo. Mas, se a gente vai continuar com isso... se isso aqui for de verdade... Chega de planos. Chega de jogos. Chega de segredos. Promete?
O peito de Rafaela deu um aperto doloroso. A sinceridade na voz dele, o olhar vulnerável de quem costumava ser inabalável, fez o resto do orgulho dela se desfazer em pó.
— Eu prometo — ela sussurrou, a voz falhando um pouco. — Sem mais segredos.
Ele fechou os olhos por um segundo, engolindo a seco enquanto as palavras dela soavam como um eco acusador na sua mente. Chega de segredos. A ironia era brutal.
Gabriel aproximou-se mais alguns centímetros, encostando a testa na dela por um breve instante, apenas sentindo a respiração irregular da garota. Era um toque velado, um refúgio que nenhum dos dois queria abandonar, mesmo sabendo que estavam pisando em terreno minado.
— Eu preciso ir agora — murmurou, relutante em se afastar. — A gente se fala depois, tá?
Rafaela assentiu, sentindo o calor dos dedos dele deixar seu queixo aos poucos. Gabriel deu dois passos para trás, mantendo os olhos nela até que a distância forçada entre os dois se estabelecesse novamente. Ele se virou e caminhou em direção ao bloco principal, com as mãos afundadas nos bolsos e a cabeça a fervendo. A Rafaela tinha acabado de zerar o passado dela. Mas o dele ainda era um campo minado bem debaixo dos seus pés.
Enquanto observava as costas dele sumirem no corredor de concreto, Rafaela encostou na parede fria do prédio de Engenharia, soltando o ar que parecia preso em seus pulmões há horas. O peso da mentira tinha saído dos seus ombros, mas a dúvida do que o futuro reservava para eles estava apenas começando.
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