AMOR EM CAMPO
24 Capítulo 23: Esmagado
Notas iniciais

O som metálico das anilhas batendo e a batida repetitiva da música eletrônica que saía das caixas de som da academia pareciam distantes para Gabriel. Daniel estava deitado no banco do supino, com a barra de ferro pesada flutuando perigosamente sobre o peito, enquanto Diego, que deveria estar na contenção para garantir a segurança do exercício, estava completamente distraído a poucos metros dali, fingindo beber água enquanto secava uma loira concentrada no agachamento búlgaro.
— Biel? — Daniel chamou, com os músculos dos braços começando a tremer sob o peso.
Gabriel segurava a barra por cima, mas suas mãos estavam frouxas. Ele não estava realmente ali. Seus pensamentos ainda orbitavam aquele corredor cinzento de concreto atrás do bloco de Engenharia, e a voz suave e embargada de Rafaela continuava ecoando em sua mente como um looping torturante: "O plano era fazer você se interessar por mim... para depois eu te dar o pior fora da sua vida."
— Gabriel! — O grito de Daniel saiu sufocado quando o braço esquerdo falhou de vez, fazendo a barra pender para o lado.
Nessa hora, Diego finalmente virou a cabeça em direção aos amigos. Ao notar o sufoco, arregalou os olhos, largou a garrafa de água e correu para ajudar Daniel, segurando a barra junto com Gabriel antes que o pior acontecesse.
— Caralho, Duarte! Você quer matar o moleque esmagado? — Diego esbravejou, puxando o ar enquanto ajudavam Daniel a travar a barra com segurança no suporte.
Daniel sentou-se no banco de uma vez, massageando os ombros e respirando fundo pelo esforço e pelo susto. Ele olhou para Gabriel, intrigado.
— Pô, Diego, valeu pela força... porque, se dependesse desse aí, eu ia direto para o hospital. Que porra foi essa? Você estava olhando para a barra, mas parecia que estava em outro planeta.
Gabriel sentou-se em um dos bancos livres da academia, passando a toalha de treino pelo pescoço suado. Ele mal conseguia disfarçar o estrago que a conversa do dia anterior tinha feito em sua cabeça.
— Foi mal, Dan. De verdade — pediu. — Minha cabeça está uma bagunça desde ontem.
Diego, que já estava prestes a soltar uma piada sobre como o amigo estava "amaciando" por causa de mulher, desistiu ao notar a seriedade no rosto de Gabriel. Ele puxou uma banqueta e sentou-se de frente para os dois, ao passo que Daniel pegava sua garrafinha de água.
— Beleza, mano. Abre o jogo — Diego cobrou, apoiando os cotovelos nos joelhos e inclinando o corpo para a frente e encarando Gabriel com atenção. — Você está com essa cara de velório desde que foi conversar com a Rafaela. Ela descobriu mesmo sobre a aposta?
— Não — Gabriel soltou o ar devagar, negando com a cabeça. — Ela não descobriu nada. Mas ela me contou uma coisa.
Daniel enxugou o suor da testa com a camiseta e escutou, ainda no seu modo mais atento e sereno.
— O que ela falou? — perguntou.
— Ela me chamou lá para confessar que ela e a Letícia armaram um plano de vingança, porque eu fui um babaca com ela. A ideia era fazer eu me apaixonar, correr atrás dela feito um otário, para depois me dar o pior fora da minha vida na frente de todo mundo. — Gabriel revelou, olhando de relance para os amigos.
Diego abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu de imediato. Ele piscou algumas vezes, completamente chocado. A imagem que tinha de Rafaela — a garota quieta, focada nos livros e aparentemente indefesa diante das piadas do time — simplesmente não batia com a de uma mente articulando um plano de desestruturar o capitão do futebol.
— Cacete, mas que filha da mãe — soltou, impressionado, deixando escapar um risinho tenso. — A nerdzinha morde, irmão. Quem diria? Ela ia te dar um pé na bunda daqueles de lavar a alma.
Ao contrário de Diego, Daniel não riu. Ele colocou a garrafa no chão, pensativo.
— Mas ela não te deu o fora, Biel — ponderou, analisando a situação de forma mais fria. — Se ela foi até lá e te contou isso por livre e espontânea vontade, significa que o plano caiu por terra.
— Caiu. Ela disse que começou a me conhecer de verdade. Disse que tudo o que a gente está vivendo é verdadeiro — Gabriel passou a mão pelo pescoço, sentindo o peso da verdade dela e da mentira dele. — Ela estava se sentindo a pior pessoa do mundo por ter escondido isso de mim. Estava chorando, vulnerável pra caralho, limpando a barra dela para a gente começar direito.
— E como ela reagiu quando você contou do nosso plano? — Diego perguntou. — Ela te perdoou?
— Eu não consegui contar, Diego — Gabriel admitiu. — Como é que eu ia olhar para a garota se abrindo daquele jeito, se culpando por uma vingança boba que ela nem levou adiante, e dizer: "Ah, legal, mas o meu interesse em você nasceu por causa de mil reais?" Eu ia destruí-la ali mesmo. Ia parecer que eu estava competindo para ver quem era mais lixo.
Daniel assentiu lentamente, compreendendo perfeitamente o dilema do amigo.
Diego olhava para Gabriel incrédulo, como se tivesse acabado de descobrir que o verdadeiro Gabriel morreu e aquele ali agora era um sósia muito mais bunda mole dele.
— Porra, essa mina deve ter jogado algum feitiço em você, na moral. O Gabriel que eu conhecia jamais ia permitir que uma menina como a Rafaela o colocasse no bolso assim.
Gabriel bufou, levantando-se e pegando a garrafa de água encostada aos pés do supino.
— O Gabriel que você conheceu, Diego, é uma versão planejada para agradar à torcida. Esse aqui só não quer perder a mulher que escolheu confiar nele quando tudo gritava para ela não fazer isso.
Diego o encarou sem dizer mais uma palavra, enquanto Daniel soltou um assovio.
— Você fez certo em calar a boca naquele momento, Biel — disse Daniel. — Se você contasse ali, por puro impulso, não seria honestidade. Seria crueldade. Ela teve coragem de abaixar a guarda. Jogar a aposta na cara dela naquele segundo ia fazer ela achar que tudo entre vocês, desde o primeiro dia, foi uma mentira sua.
— Mas agora a bola de neve ficou maior, não acham? — Diego pontuou, a expressão mudando para uma preocupação real. Ele olhou de Gabriel para Daniel. — O Gabriel acabou de virar o mocinho da história na cabeça dela. Se ela descobrir por terceiros agora, o estrago vai ser dez vezes pior.
A garganta de Gabriel secou no mesmo instante, ouvindo o aviso de Diego. Ele sabia que o amigo tinha razão. O cronômetro continuava correndo, e agora ele precisava de um plano muito melhor para desarmá-la antes que fosse tarde demais.
Enquanto isso, a atmosfera no quarto de Rafaela era o oposto absoluto da tensão que dominava a academia. Deitada de bruços na cama, balançando os pés no ar, ela ditava cada detalhe do dia anterior para Letícia, que estava sentada na cadeira da escrivaninha, com os olhos arregalados.
— Amiga, eu juro, minhas pernas pareciam duas gelatinas quando o vi andando na minha direção — Rafaela confessou, escondendo metade do rosto no travesseiro, com um sorriso que simplesmente não conseguia apagar. — Eu tinha certeza de que ele ia surtar. No mínimo, achei que ele ia virar as costas e me deixar lá falando sozinha.
Letícia observava a amiga em silêncio, fascinada pela narrativa.
— E ele não falou nada? Tipo, nada mesmo? Nem uma piadinha ou uma resposta atravessada ou arrogante?
— Ele ficou quieto por um tempo, processando. Dava para ver que o orgulho dele levou um baque, sabe? Ele mesmo admitiu que foi estranho saber que era um "alvo" nosso — Rafaela sentou-se na cama, cruzando as pernas. — Mas aí, Lelê... ele limpou uma lágrima do meu rosto e disse que não me odiava. Ele simplesmente deixou o orgulho de lado. Disse que agora podíamos seguir sem jogos e sem segredos.
Os olhos de Letícia se arregalaram por um segundo, numa mistura de choque e rendição.
— Caramba! O Duarte transcendeu agora, hein? Se alguém me contasse que o Sr. Arrogância ia ter essa maturidade emocional; eu ia dizer que era fanfic de internet.
— Nem me fale. Eu me senti tão leve depois que saí dali — Rafaela abraçou os próprios joelhos, o olhar perdido na janela do quarto, onde a luz do poste na rua se infiltrava. — Eu passei o dia inteiro com medo de ele me odiar, e o cara foi a pessoa mais compreensível do mundo. Ele me acolheu, Letícia. No momento em que eu fui mais lixo com ele, ele me segurou.
Letícia suavizou a expressão, olhando para a amiga com um carinho autêntico.
— Eu fico muito feliz por você, de verdade, Rafa. Você sabe o quanto eu impliquei com ele no começo, mas um cara que reage assim... ele realmente gosta de você. Você puxou o band-aid, a ferida sarou e agora dá para começar de verdade, sem nenhum fantasma entre os dois.
— Sim. Agora está tudo limpo. — Rafaela sorriu, sentindo um calor confortável no peito, sem ter a menor pista de que, na verdade, o maior fantasma de todos ainda rondava a consciência de Gabriel.
⚽️📖⚽️
A luz quente da cafeteria vazava pelas vitrines de vidro, projetando um brilho acolhedor sobre a calçada fria. Era exatamente a cafeteria que Gabriel tinha enviado na foto no dia anterior — um ambiente aconchegante com cheiro forte de grãos moídos na hora, prateleiras de madeira repletas de lombadas gastas e um jazz suave ao fundo. Para Rafaela, no entanto, a melhor parte daquele lugar não era o aroma de baunilha ou a estética aconchegante, mas a sensação inédita de estar ali sem carregar o peso de nenhuma mentira.
Ela havia chegado primeiro. Vestia uma calça jeans azul de corte reto e uma camisa branca social sob uma jaqueta curta de camurça marrom-caramelo, com os cabelos escuros caindo em ondas soltas sobre os ombros. Seus olhos brilhavam de uma forma diferente. A segurança de ter sido aceita com todos os seus defeitos e planos bobos tinham tirado um peso invisível de suas costas. Ela não era mais a Rafaela defensiva; era apenas uma garota esperando o cara por quem estava se apaixonando.
Quando a porta de vidro da cafeteria botânica se abriu, trazendo o ar gelado daquela noite, ela levantou o olhar. Gabriel entrou. Ele usava uma jaqueta jeans escura e, ao vê-la, abriu aquele sorriso de canto que fazia seu coração errar uma batida.
O que Rafaela não percebeu foi a fração de segundo antes desse sorriso nascer, o momento em que ele respirou fundo, ajustando a máscara de tranquilidade antes de caminhar até a mesa.
— Cheguei no horário? — brincou, puxando a cadeira de metal à frente dela.
— Surpreendentemente, sim, Duarte — Rafaela riu, aproximando o corpo da mesa para dar um selinho rápido nele.
O toque labial simples fez os músculos do abdômen de Gabriel se enrijecerem involuntariamente. Sentir a iniciativa dela, o carinho espontâneo e livre, era maravilhoso e aterrorizante ao mesmo tempo.
— Eu já pedi o meu — ela apontou para a xícara pequena à sua frente. — E fiz questão de pedir o cardápio para você escolher o seu "mimo". Como prometido, a conta é minha hoje. Sem discussões.
Ele olhou para o cardápio, mas as letras pareciam dançar. Tentou focar na voz dela, na decoração do lugar, em qualquer coisa que o afastasse do pensamento daquela aposta estúpida.
— Acho que vou no expresso duplo, então. Estou precisando de energia — disse, apoiando os cotovelos na mesa.
Rafaela acenou para o garçom, que veio até a mesa anotar o pedido de Gabriel. Quando ele se afastou, ela observou o jogador por um momento.
Ele estava com os ombros levemente tensos, encarando o vapor que subia do café dela sem realmente enxergar a xícara. Havia uma sombra no olhar dele que Rafaela nunca tinha visto antes. Era uma mistura silenciosa de tristeza com decepção.
O peito dela deu um aperto doloroso. A ficha caiu com força: ele estava ali, tentando sorrir e engolindo o orgulho ferido só para não afastá-la, mas a mágoa do plano de vingança ainda estava cravada nele. Ele estava visivelmente exposto, se esforçando por ela, e ver o custo emocional que suas escolhas causaram a fez se sentir subitamente pequena na cadeira.
— Gabriel... — ela chamou baixinho, alcançando a mão dele, que repousava fria ao lado do pires. — Olhos em mim, vai.
Ele ergueu o olhar devagar, piscando como se estivesse voltando de um transe.
— Eu tô aqui — respondeu, com um sorriso fraco, apertando os dedos dela de volta. — Desculpa, só... viajei um pouco.
— Não precisa fingir que está tudo cem por cento incrível só para me deixar confortável — Rafaela falou, sustentando o olhar dele com uma sinceridade quase dolorosa. — Eu sei que te machuquei. E ver você aqui, mesmo depois do que eu fiz... me faz te admirar ainda mais, mas também me faz querer te pedir desculpas de novo. De verdade.
Gabriel engoliu em seco, sentindo o nó na garganta apertar tanto que quase o impediu de respirar. A fragilidade dela, a dor no rosto de Rafaela por achar que era a única vilã da história, caiu sobre ele como uma tonelada de ferro. Ele virou a mão, entrelaçando os dedos nos dela, tentando desesperadamente esconder a culpa que queimava por trás do olhar triste.
— A gente vai passar por isso, Rafa — Gabriel falou, olhando nos olhos dela. — Eu só preciso de um tempo para a minha cabeça acompanhar o meu coração. Mas eu tô aqui. Por você, eu tô aqui.
Rafaela sentiu as bochechas esquentarem, mas não desviou o olhar como costumava fazer.
— Obrigada de verdade, Gabriel.
— Não precisa agradecer, Rafa — ele respondeu, e sua voz saiu um pouco mais rouca do que o planejado. — Eu só... quero que tudo fique bem entre a gente.
— Vai ficar — ela afirmou, com uma certeza matemática que quase quebrou as pernas do capitão.
O garçom aproximou-se para deixar o café de Gabriel na mesa, quebrando o transe momentaneamente. Ele usou o movimento para soltar a mão dela e pegar a xícara, precisando daquela distância física para conseguir respirar e manter a fachada estável.
Deu um gole no café forte, sentindo o amargor na boca. A Rafaela estava completamente entregue, segura e apaixonada. O terreno entre eles parecia perfeito, mas Gabriel sabia que estava caminhando em areia movediça, e cada sorriso apaixonado dela tornava o peso de sua própria mentira ainda mais insuportável de carregar.
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