AMOR EM CAMPO

25 Capítulo 24: Companhia


Notas iniciais
Oi, time. ⚽️🦅❤️ Espero que vocês aproveitem esse capítulo tanto quanto eu gostei de escrever. Boa leitura. ⚽️❤️📖

As coisas com Gabriel pareciam fluir com uma leveza inédita. Para Rafaela, sem o peso da culpa daquele plano de vingança idiota, era como se ela finalmente tivesse permissão para baixar a guarda por completo. As idas à faculdade ganharam outro ritmo e a presença dele, antes vista como uma invasão de espaço, havia se tornado o ponto alto da sua rotina.

Ela não percebia — ou talvez não quisesse perceber — as breves pausas de Gabriel quando o assunto tocava no passado, ou a sombra rápida de hesitação antes de ele retribuir um sorriso. Na mente dela, a tempestade tinha ficado para trás.

Naquela sexta-feira à noite, Rafaela decidiu apenas se dar ao luxo de descansar. Tinha acabado de chegar do trabalho, tomou um banho demorado, vestiu seu pijama velho e confortável e soltou os cabelos. Acomodou-se embaixo das cobertas quentinhas e pegou o seu exemplar surrado de "O Sol é para Todos". Tinha um apego quase sagrado por aquele livro; já o havia lido algumas vezes e ele se tornara sua leitura de conforto definitiva para os dias cansativos.

Estava exatamente na metade do terceiro capítulo quando a tela do celular acendeu sobre o colchão, vibrando com o nome de Gabriel.

Ela sorriu, deslizando o dedo para atender em um tom levemente divertido.

— Não me diga que você está em alguma festa e resolveu me ligar no meio da bagunça só para me perturbar?

Rafaela esperava ouvir ao fundo o som de música alta, vozes animadas e aquele ambiente caótico que parecia ser o habitat natural do capitão. Mas, para sua surpresa, do outro lado da linha havia apenas o ruído abafado do vento e o som eventual do trânsito distante, como se ele estivesse na rua. Nenhuma batida de som, nenhum burburinho de conversas.

— Na verdade, decidi não ir hoje — Gabriel respondeu. A voz dele saiu calma e suave através do alto-falante.

— Sério? Você recusou uma festa em plena sexta-feira? — ela ironizou, fechando o livro com uma das mãos, sem conseguir conter o tom brincalhão. — Está doente, Duarte? É grave? Meu Deus, ligou para dar o seu último adeus para a sua nerd favorita?

Rafaela ouviu uma risada baixa vinda dele pelo receptor.

— Não, não estou doente. Só tem outro lugar onde eu queria estar hoje, só isso.

— Ah, entendi — Rafaela rebateu, rolando de lado na cama, curiosa com o mistério. — Mas esse lugar não deve ser tão bom assim, já que você preferiu gastar o seu tempo me ligando.

— É verdade, não é grande coisa — ele concordou, e ela quase podia ver o canto dos lábios dele se elevando. — Mas vai ficar perfeito assim que você descer.

Rafaela se sentou na cama de supetão. O coração acelerando as batida.

— O quê?

— Olha pela janela.

Ela largou o livro na cama, jogou as cobertas para o lado e caminhou descalça até a janela do quarto. Afastou a cortina de tecido apenas o suficiente para espiar a rua lá embaixo, iluminada pelos postes amarelados de Niterói.

Lá fora, encostado na lateral do carro, estava Gabriel. Ele usava um moletom escuro, tinha as pernas cruzadas de um jeito despojado e segurava o celular junto ao ouvido. Assim que a cortina se mexeu, ele elevou os olhos diretamente para a janela dela, abrindo aquele sorriso convencido e charmoso que Rafaela agora amava.

Gabriel acenou casualmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo aparecer na porta dela em uma sexta-feira à noite, trocando a agitação do final de semana pela calmaria da companhia dela.

— Você enlouqueceu? — ela sussurrou no telefone, embora o sorriso em seu rosto já fosse grande demais para esconder.

— Provavelmente — a voz dele ecoou no ouvido dela, enquanto ele mantinha o olhar fixo na silhueta dela lá no alto. — Vai descer ou eu vou ter que subir para roubar um pedaço desse seu edredom?

Ela desceu as escadas correndo, nem se importando com o fato de estar vestindo um pijama de algodão cinza com estampas de nuvens miúdas e um chinelo de tiras. Quando passou pela porta do prédio, o vento fresco da noite bateu em seus braços, mas o calor que sentiu ao ver Gabriel se desencostar do carro e caminhar na direção dela anulou qualquer frio.

Ele a puxou pela cintura com uma facilidade que a deixou sem fôlego, prensando-a de leve contra o capô do carro, que ainda guardava o calor do motor. O beijo foi urgente, com gosto de saudade acumulada da semana cheia e da distância que a agenda impunha.

Quando se afastaram, ele passou o polegar pela bochecha dela, o olhar descendo para o pijama.

— Adorei a visão exclusiva de sexta-feira à noite — ele brincou, com os olhos brilhando sob a luz do poste. — O que a nerd mais cobiçada da UC estava fazendo antes de eu estragar os planos?

— Lendo “O Sol é para Todos” — ela respondeu, recuperando o fôlego e passando os braços pelo pescoço dele, sustentando o olhar. — É minha leitura de conforto. Estava na metade do terceiro capítulo quando um certo jogador sem programação resolveu aparecer.

Os lábios de Gabriel se curvaram, suavizando as linhas do rosto, e ele se curvou novamente. Mas, em vez de beijá-la na boca, enterrou o rosto na curva do pescoço dela, deixando um beijo demorado ali antes de subir os lábios até a altura da orelha de Rafaela.

— "As pessoas sensatas nunca se orgulham de seus talentos" — ele sussurrou, a voz grave e pausada, fazendo um arrepio violento correr pela espinha dela.

Ela empurrou os ombros dele de leve, afastando-se o suficiente para fitá-lo espantada.

— Você... você conhece o livro? Você citou a senhorita Maudie?

O rosto de Gabriel se iluminou com satisfação, adorando a reação de choque dela. Ele se encostou de costas no capô, cruzando os braços com aquela pose convencida que ela conhecia tão bem.

— Minha mãe é professora de literatura, esqueceu? — ele se defendeu, piscando para ela. — Cresci com uma biblioteca inteira na sala de casa, Rafa. Querendo ou não, alguma coisa acaba entrando por osmose.

Rafaela também fechou os braços sobre o peito, encenando uma avaliação técnica, embora estivesse completamente derretida por dentro.

— E a minha é contadora, Duarte, mas nem por isso eu vou saber fazer o seu imposto de renda de cabeça.

Ele gargalhou, o som ecoando pela rua residencial silenciosa. Descruzou os braços e segurou o rosto dela entre as mãos, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que a fez esquecer o resto do mundo.

— Tá bom, tá bom, eu assumo — murmurou, aproximando o rosto do dela com um ar ladino. — Eu não sou só um rostinho bonito e um corpinho sarado... eu tenho conteúdo.

— E também é um cara bem modesto — Rafaela acrescentou, rindo contra os lábios dele.

— Isso também — Gabriel concordou, antes de beijá-la novamente.

O momento, que parecia saído de uma bolha perfeita feita só para os dois, foi abruptamente interrompido por um som apressado de passos na calçada.

Quando se afastou dele, o olhar de Rafaela varreu a rua escura até focar na silhueta que se aproximava do portão. Era Letícia.

Ela ainda usava o uniforme social da loja, mas toda a postura impecável que costumava manter tinha desaparecido. O casaco estava desalinhado, o cabelo bagunçado e ela caminhava descalça, segurando os sapatos de salto alto em uma das mãos de qualquer jeito. O rosto estava corado, suado, e o rastro do rímel borrado nas bochechas deixava claro que ela tinha chorado. Muito.

— Letícia? — Rafaela chamou, o tom mudando instantaneamente da leveza romântica para uma preocupação profunda. Ela se desprendeu do aperto de Gabriel e deu dois passos à frente.

Gabriel armou a guarda na mesma hora, os olhos correndo pela rua escura para checar se alguém estava seguindo a garota.

Letícia parou ao ouvir a voz da amiga. Ela piscou, limpando o rosto com as costas da mão livre, e só então pareceu notar a presença do carro e de Gabriel ali. O lábio inferior dela tremeu, e os olhos, vermelhos e inchados, se encheram de lágrimas novamente.

— Rafa... — a voz de Letícia saiu em um fio, rouca e embargada. — O-oi.

— O que aconteceu? Pensei que o Guilherme ia te buscar depois do trabalho. Você... você veio andando?

Rafaela segurou a amiga pelos ombros. Letícia estava tremendo, e o choque de vê-la naquele estado apagou qualquer outro pensamento da mente de Rafaela.

Letícia engoliu em seco, olhando para os próprios pés descalços na calçada áspera e depois para os sapatos que segurava como se fossem um fardo pesado demais.

— Ele... ele não pôde ir. Teve uma reunião de última hora — Letícia começou, tentando controlar o tremor na voz, mas era em vão. Ela limpou o rosto rapidamente, forçando um sorriso. — Vim andando porque o ônibus quebrou na avenida e, como já estava perto... Enfim, não quero atrapalhar vocês. Vou subir. Boa noite!

Letícia se desvencilhou dos braços de Rafaela antes que ela pudesse fazer mais perguntas e passou pela portaria, subindo as escadas às pressas.

— Você engoliu essa história? — Gabriel perguntou desconfiado, aproximando-se por trás de Rafaela enquanto olhava para a direção em que Letícia havia sumido.

Rafaela continuou encarando a entrada do prédio, com o coração apertado. Ela conhecia a melhor amiga bem demais para saber que aquela desculpa não fazia o menor sentido.

— Nem um pouco — Rafaela admitiu, soltando o ar devagar e virando-se para ele com o olhar preocupado. — Acho melhor eu ir lá ver como ela está de verdade. A gente se vê depois?

Gabriel assentiu, compreendendo a gravidade. Ele se aproximou, dando um selinho terno em Rafaela e acariciando o braço dela.

— Depois me liga para dizer como ela está, tá bom? Boa noite, Rafa.

— Boa noite, Gabriel. Obrigada por entender.

Ele esperou que ela entrasse no prédio antes de caminhar em direção ao carro. O clima perfeito de minutos atrás havia evaporado, substituído por uma urgência silenciosa.

⚽️📖⚽️

Na segunda-feira, no campus da UC, os dias passavam com o mesmo ritmo caótico de sempre, mas, para Gabriel, o mundo parecia ter desacelerado.

No pátio central, perto da lanchonete do bloco A, ele estava encostado na mureta, rindo de alguma coisa que Rafaela dizia. Ela segurava uma pasta de relatórios contra o peito e gesticulava com a caneta enquanto explicava algo sobre a matéria de biologia.

Gabriel nem estava prestando atenção; seu olhar estava fixo no jeito que os olhos dela se apertavam quando ela sorria, nas sardas que pontuavam seu rosto em cima do nariz e nas bochechas, em como o marrom suave da sua pele parecia vivo na luz do sol.

Para ele, estar ali com Rafaela era uma espécie de refúgio. Tudo parecia tão leve que Gabriel preferia se agarrar àquela versão da realidade — uma em que a aposta era apenas um fantasma trancado no fundo do armário. Se não falasse sobre isso, se os amigos não tocassem no assunto, podia fingir que a mentira nunca tinha existido. Ele tinha se acomodado no conforto anestésico daquele silêncio, usando o sorriso dela para empurrar a culpa para longe.

— E a Letícia? Como está? — Gabriel perguntou, trazendo o foco de volta para a garota à sua frente.

— Continua insistindo na história do ônibus que quebrou, mas, sei lá... eu sinto que tem algo de errado entre eles — Rafaela desabafou, ajeitando a alça da mochila.

— Errado, tipo...? — Gabriel deixou a pergunta morrer no ar.

— Não sei, não quero acusar ninguém levianamente. Mas o Guilherme sempre foi um cara intenso demais, digamos assim. Enfim... preciso ir para a aula.

— Tá bom. Boa aula, linda. A gente se vê depois!

Ele deu um beijo carinhoso na bochecha dela, mas a vontade real era de selar seus lábios ali mesmo, deixando bem claro para quem quisesse ver que eles estavam juntos. Gabriel estava tão profundamente envolvido pela "nerdzinha" que, enquanto a via guardar a pasta na mochila e se afastar, uma certeza absoluta se formou em sua mente. Ele não queria mais ser apenas o cara das mensagens bobas, das caronas e dos cafés.

Mas, a alguns metros dali, perto das mesas de cimento, o clima era bem diferente. Lucas observava a cena de longe, com uma expressão de desgosto no rosto. Ele deu um gole longo no suco e cutucou Diego com o cotovelo.

— Cara, olha aquilo ali — Lucas murmurou, sacudindo a cabeça com desdém. — Você realmente acha que aquela parada ali é séria? O Duarte está mesmo a fim dessa garota ou o teatro dele ficou bom demais por causa do prêmio?

Diego, que estava digitando no celular, parou o que estava fazendo e olhou para Gabriel à distância. Viu o amigo com um sorriso tão espontâneo e bobo que ninguém conseguiria fingir por dinheiro nenhum.

Diego guardou o celular no bolso, encarou Lucas com o olhar de quem estava sem paciência para criança pequena e soltou:

— Lucas, não tem prêmio nenhum. Esquece essa merda de aposta... pelo bem da integridade física do seu nariz e do resto da minha paciência.

— Ah, qual é, Diego? Vai me dizer que você comprou esse romance de comercial de margarina também? — Um sorriso sarcástico se formou no rosto de Lucas. — O cara é o camisa 10, pô. A gente sabe como ele funciona. Uma hora uma dessas Marias-chuteira vai aparecer atirando a calcinha em cima dele, e ele vai esquecer da nerdzinha no mesmo segundo.

Diego piscou devagar, olhando para Lucas como se tentasse decifrar uma espécie rara de asno.

— Caraca, Lucas. Além de ser um péssimo zagueiro, você agora virou fiscal de calcinha voadora? — Diego pegou o celular de volta no bolso com um sorrisinho cínico. — Tá com inveja incubada do romance do cara? Ou tá querendo ser a Maria-chuteira dele também?

Lucas piscou, quase engasgando com o suco de tão chocado com o coice.

— O quê?! Ficou maluco, Diego? Eu não tô querendo nada! Só acho bizarro o Gabriel parecendo um cãozinho adestrado atrás dessa Rafaela.

— O Duarte tá na dele. Dá para ver na cara de pateta dele que não tem mais jogo nenhum — Diego cortou, o tom caindo para uma ameaça calma e irredutível. — A parada com a Rafaela é de verdade. E se você tiver um pingo de amor à sua vida — e à nossa vaga na final —, vai esquecer essa história de aposta e nunca mais abrir essa boca. Deixa o cara em paz.

Lucas abriu a boca para retrucar, mas, ao ver a cara de poucos amigos de Diego, apenas se levantou e saiu resmungando algo sobre "futebolistas que amoleceram" antes de meter o pé em direção ao bloco de educação física.

Diego soltou uma respiração pesada, olhando mais uma vez para o amigo à distância. Ele sabia que o Gabriel estava jogando um jogo perigoso, mas estava determinado a segurar a corda por ele o máximo que pudesse.

⚽️📖⚽️

Gabriel quase não dormiu na noite anterior. Ficou deitado, revirando-se na cama, lembrando-se da forma como Rafaela o olhava. Não era só o beijo, nem a intensidade que os dois compartilhavam. O que o tirava do eixo era o riso dela, sincero e leve, eram as horas que eles passavam conversando ao telefone. Como se, pela primeira vez, ela tivesse permitido que ele a visse por inteiro, sem muros, sem ironias, sem medo.

Ele havia prometido ir devagar, respeitar o tempo dela. Mas a verdade é que já não conseguia enganar a si mesmo: não queria calma. Queria ela. E cada detalhe que descobria sobre Rafaela só tornava esse desejo mais forte.

Na manhã de terça-feira, ainda sonolento, Gabriel arrastou-se até a cozinha. Encontrou Daniel encostado no balcão, com o liquidificador ligado e um pote de whey protein aberto, preparando seu ritual matinal. O cheiro de banana e pasta de amendoim tomava o ambiente.

Daniel levantou o olhar assim que o viu entrar, e um sorriso preguiçoso se formou em seus lábios.

— Cara… — disse, desligando o liquidificador. — E essa cara amassada aí? Dormiu quanto? Duas horas?

Gabriel pegou um copo d'água, tentando disfarçar o bocejo.

— Um pouco mais.

— Tá. — Daniel apontou a colher de proteína como se fosse um dedo acusador. — E essa insônia atende pelo nome de Rafaela?

— Não — Gabriel rebateu, mas rápido demais, e isso fez Daniel rir.

— Ah, então é a Rafaela mesmo. — Ele virou o shake no copo e deu um gole, observando o amigo com uma expressão intrigada.

Gabriel bufou, mas não respondeu de imediato. Encostou-se na pia, encarando o piso, como as resposta sobre o que deveria fazer fossem surgir entre os rejuntes.

— Eu só… não consigo parar de pensar nela, tá ligado?

Daniel encarou o amigo, agora mais sério.

— E qual é o problema?

Gabriel levantou o olhar, franzindo a testa.

— O problema é que… prometi pra ela que ia devagar. Que não ia apressar nada.

Daniel arqueou a sobrancelha, girando o copo de shake.

— Mas?

Gabriel titubeou por um segundo, mas a resposta saiu firme, sem espaço para dúvidas:

— Quero que ela seja minha namorada.

O copo quase escapoliu por entre os dedos de Daniel; ele olhou Gabriel como se o amigo tivesse acabado de anunciar que ia se mudar para Marte.

— Você quer o quê?! — Daniel soltou uma risada incrédula, largou o copo no balcão com um baque seco e passou a mão pelo rosto, tentando assimilar. — Puta merda, Gabriel... Eu te conheço desde moleque. Já vi você fugir de várias garotas legais como quem foge da peste. Você nunca namorou ninguém. Nem no ensino médio, nem na faculdade, nunca! E agora você quer oficializar justo a garota da aposta? A nerdzinha que você jurava que era só um desafio?

Gabriel não piscou. Sustentou o olhar do amigo com a expressão inteira reduzida a um semblante neutro de quem já previa aquela reação.

— Tô falando sério, Dan.

— Cara... o mundo realmente dá voltas — Daniel murmurou. Aos poucos, a expressão chocada deu lugar a um sorriso verdadeiro. — Mas, fico feliz por você, Biel. De verdade. Eu nunca tinha te visto pilhado assim por alguém.

No entanto, o sorriso de Daniel sumiu no segundo seguinte, dando lugar a um olhar firme.

— Mas você sabe que o namoro muda o patamar de tudo, né? Fica tudo mais sério. Significa fidelidade, respeito e… que aquela merda daquela aposta tem que sumir de vez. Você precisa contar para ela antes de fazer a pergunta. Ela tem que dizer "sim" sabendo de tudo.

Gabriel abaixou o olhar novamente, engolindo em seco. O nó no estômago, que parecia ter dado uma trégua na última semana, apertou de novo.

— Eu sei, Dan. Eu vou contar — Gabriel respondeu, tentando soar verdadeiro.

Mas, no fundo, a mente dele trabalhava em uma direção completamente oposta. A verdade é que ele não ia contar. Não agora. A lembrança de Rafaela vulnerável e magoada ainda estava viva demais na sua cabeça. Se ele jogasse a aposta no ventilador agora, estragaria a calmaria perfeita que tinham alcançado. Ele preferia correr o risco do silêncio a vê-la se afastar.

Daniel, sem conseguir ler a tempestade interna que o amigo mascarava tão bem, deu um tapa amigável no ombro de Gabriel, aceitando a resposta.

— Beleza. Se você vai contar a verdade antes, então conta com o meu apoio — Daniel disse, voltando a sorrir, já mudando o foco para a parte prática. — Agora me diz: como você vai fazer o pedido? Porque se você aparecer na porta dela com um urso de pelúcia gigante segurando um coração brega escrito “I love you” e um buquê de margarida de posto de gasolina, eu juro por Deus que te desço a porrada na frente dela. Tem que ser algo marcante, Biel. Uma parada pensada, bem a cara da Rafaela. Se for para passar vergonha com pedido genérico de adolescente, nem saia de casa.

Gabriel soltou o ar, aliviado pela mudança de assunto, e um sorriso mais confiante voltou a estampar seu rosto.

— Eu já andei pensando em uma parada... — admitiu, pegando o celular do bolso. — Ela comentou que a leitura de conforto dela é “O Sol é para Todos.”

Daniel inclinou a cabeça para o lado, o sorriso crescendo.

— E você vai fazer o quê? Comprar outra edição?

— Não, isso seria óbvio demais.

Gabriel explicou, os olhos brilhando enquanto desbloqueava a tela do celular e mostrava para Daniel o site de peças personalizadas que havia encontrado durante a madrugada em claro.

— Pensei em criar um marcador de páginas de couro personalizado. Quero mandar gravar uma frase nele. Algo que conecte com o que a gente conversa, mas que ela possa usar no livro sempre que estiver lendo. Aí eu levo ela para um lugar reservado e faço a surpresa. O que acha?

Daniel avaliou a ideia por alguns segundos, balançando a cabeça em sinal de aprovação clara.

— Cara... isso é perfeito para ela. Mistura o lado nerd dela com uma parada totalmente exclusiva. A Rafaela vai pirar — admitiu, pegando seu copo de shake de volta. — Vai fundo, mano. Monta esse esquema. Só não esquece do que a gente conversou sobre a honestidade primeiro, fechado?

— Fechado — Gabriel mentiu com um aceno, sentindo o peso do marcador de páginas imaginário competir com o peso do segredo que continuava guardando no bolso.

⚽️📖⚽️

Levara quase uma semana inteira para que a encomenda personalizada finalmente ficasse pronta. Foram seis dias em que Gabriel teve que engolir a ansiedade a cada encontro e a cada troca de mensagens com Rafaela, fingindo que não estava prestes a dar o passo mais arriscado do seu ano.

Quando a encomenda finalmente chegou pelos correios naquela manhã — a caixinha discreta contendo o couro escuro gravado com a citação do livro —, um aperto denso tomou conta do peito de Gabriel. Não havia mais como adiar.

Antes de pisar no Centro de Treinamento da UC naquele dia, ele parou no estacionamento e pegou o celular. Seus dedos hesitaram por um segundo antes de digitar a mensagem para Rafaela: “Consegue me encontrar na biblioteca antes da sua primeira aula? Preciso de uma ajuda urgente com um trabalho sobre anatomia. Tô travado."

A resposta dela veio cinco minutos depois, pragmática como sempre: "Se for para salvar sua nota (de novo), eu vou. Mas não se atrase."

Gabriel guardou o aparelho no bolso com um meio sorriso, mas o alívio durou pouco. No campo de futebol, a realidade cobrou o preço. O sol já estava a pino, tingindo o gramado de dourado, e o cheiro de grama cortada misturava-se ao suor da equipe. O treino daquele dia era puxado: toques rápidos, tabelas de primeira e finalizações exaustivas.

Ele até tentou se concentrar, mas a cabeça estava em outro lugar. Cada vez que o técnico gritava seu nome, Gabriel percebia que estava um segundo atrasado na jogada.

No fim do treino, depois de alguns sprints que quase o fizeram vomitar, o técnico finalmente liberou o grupo. Os jogadores foram saindo em bandos, rindo e trocando provocações a caminho do chuveiro, enquanto Gabriel ficou um pouco para trás, caminhando lentamente em direção ao vestiário.

O espaço logo ficou vazio, ecoando apenas o gotejar distante de uma das duchas e o som da sua própria respiração. Gabriel se jogou no banco de madeira, passando a toalha pelo rosto suado. O silêncio do lugar parecia aumentar a pressão no seu peito. Ele jogou a toalha de lado, respirou fundo e se levantou, encarando o próprio reflexo distorcido no espelho do armário metálico.

A caixinha com o marcador de páginas estava guardada no fundo da sua mochila.

Ele passou a mão pelos cabelos molhados de suor e bufou, frustrado. Sempre fora confiante com mulheres. Nunca precisara pensar duas vezes sobre o que dizer. E agora estava ali, sentindo-se como um adolescente inexperiente prestes a se declarar pela primeira vez.

— Patético — riu sozinho, meneando a cabeça. — Tô parecendo um moleque.

Mas, por baixo da autocrítica, sabia exatamente o motivo daquela ansiedade: Rafaela não era "mais uma". Com ela, não dava para brincar de ser casual. Ele queria acertar. Caso contrário, ela diria não e se fecharia novamente.

Foi só quando olhou para o relógio na parede e percebeu que já estava atrasado que soltou um palavrão, correu para o chuveiro e deixou a água fria despencar sobre si em um banho rápido. Vestiu-se, jogou a mochila no ombro e saiu apressado do vestiário. O coração estava acelerado, e ele sabia muito bem que não era por causa do treino físico.

Quando finalmente apareceu na biblioteca, o ambiente estava silencioso, quebrado apenas pelo som de páginas virando. Ele localizou a mesa de Rafaela ao fundo, perto das janelas de vidro. Gabriel caminhou até lá e jogou a mochila em uma cadeira vaga com um ar falsamente despreocupado.

Rafaela desviou a atenção dos seus próprios cadernos e soltou um suspiro longo.

— Devo me impressionar por você realmente ter vindo ou me irritar pelo atraso de quinze minutos, Duarte?

Gabriel puxou a cadeira ao lado dela, sentando-se bem próximo, mantendo aquele sorriso travesso que, ao mesmo tempo, a irritava e a intrigava.

— Escolho a segunda opção — sussurrou, abaixando de leve na direção dela. — Você fica ainda mais gata quando está irritadinha.

— Vamos logo com isso — ela rebateu em um murmúrio ríspido, embora o sorriso que tentava conter revelasse que não estava realmente irritada. Ela bateu com a caneta no caderno aberto. — Cadê o texto que você precisa de ajuda? Onde você empacou?

Gabriel olhou para ela, a expressão brincalhona diminuindo aos poucos para dar lugar àquela seriedade que fazia o estômago de Rafaela dar voltas. Ele puxou a mochila para o colo e abriu o zíper devagar.

Ele enfiou a mão na bolsa, tateando o fundo do tecido com uma lentidão calculada. Franziu a testa, fingindo uma confusão impecável enquanto tirava uma caneta, um casaco extra e um caderno espiral amassado, espalhando tudo sobre a mesa de madeira.

— Espera aí... Eu tenho certeza de que coloquei bem aqui — murmurou, olhando para o espaço vazio da mochila e depois para ela, com uma expressão de inocência. — Acho que o Diego jogou as coisas do treino por cima e bagunçou tudo.

Rafaela apoiou o queixo na mão, observando a encenação com ar desconfiado, um meio sorriso cético nos lábios.

— Gabriel, eu poderia estar comendo alguma coisa agora porque estou morrendo de fome e, daqui a pouco, tenho aula. Se você me disser que esqueceu o raio do trabalho no vestiário, eu juro que deixo você reprovar sem o menor remorso.

— Calma, gata, não perde a fé em mim ainda não — ele brincou, voltando a revirar o compartimento menor da mochila. — Tá aqui. Achei.

Em vez de puxar folhas de fichário ou um relatório impresso com formatação acadêmica, Gabriel retirou uma caixinha branca, fina e comprida. Ele a colocou delicadamente sobre a mesa, empurrando-a na direção dela com a ponta dos dedos.

Rafaela olhou para o objeto, confusa, e depois para o rosto dele, que agora tinha perdido completamente o ar de zombaria de segundos atrás.

— O que é isso? — ela perguntou, a voz caindo para um cochicho curioso. — Não tem cara de ser uma análise de introdução à anatomia.

— É verdade — Gabriel respondeu, os olhos castanhos brilhando com uma intensidade que fez a respiração de Rafaela vacilar por um instante. — Então, por que você não abre e descobre o que é?

Com os dedos trêmulos pela quebra repentina de expectativa, Rafaela puxou a caixinha para perto e levantou a tampa.

Dentro havia um cartão pequeno com uma caligrafia profunda, no qual estava escrito: "Para a dona dos meus pensamentos". Embaixo do cartão, deitado sobre um pedaço de veludo preto, um marcador de páginas de couro marrom escuro, perfeitamente cortado com um tassel dourado na ponta e gravado com uma de suas passagens favoritas de "O sol é para todos":

"Você nunca vai entender realmente uma pessoa até considerar as coisas do ponto de vista dela... até entrar na pele dela e caminhar um pouco por aí."

Ela o tirou da embalagem, maravilhada, e o segurou contra a luz da janela. Olhou para o marcador e depois para ele, prendendo o fôlego quando o clique da ficha caindo finalmente aconteceu em sua mente. Não era um trabalho da faculdade. Era um presente de verdade.

— Quer ser minha namorada? — Gabriel perguntou, simples, direto, sem rodeios.

O tempo pareceu congelar dentro da biblioteca. Rafaela piscou, absorvendo as palavras em silêncio. A mente dela foi rapidamente tomada por um ceticismo cruel. Ele só podia estar de brincadeira. Gabriel. Acostumado a dinâmicas superficiais e a ter tudo na palma da mão, agora ali, propondo um relacionamento sério? Parecia uma jogada ensaiada, uma quebra de padrão absurda demais para ser verdade.

— Muito engraçado, Duarte. Agora, se me der licença, preciso ir.

Ela largou o marcador sobre a mesa e começou a recolher o caderno com os movimentos rápidos da defensiva, subindo a níveis alarmantes. Mas Gabriel agiu rápido e segurou sua mão, impedindo-a de continuar.

— Ei, eu estou falando sério — ele disse. Mas, dessa vez, não havia o menor traço de brincadeira no seu tom de voz.

Ela parou de guardar o caderno, paralisada pelo toque morno. Havia segurança no olhar dele. Mas, dentro de Rafaela, de repente, todo o histórico do camisa 10 desfilou por sua mente: a rotina de festas e a facilidade com que as mulheres orbitavam ao seu redor. Ela sabia exatamente quem era e o valor da sua estabilidade; não tinha tempo nem energia para ser o experimento romântico de ninguém.

— E desde quando você é do tipo que namora? — ela disparou, a voz saindo um pouco mais alta do que o permitido na biblioteca, quase rindo de nervoso. — Por favor, Gabriel... a gente fica e é legal, mas olha para a gente. Vivemos em mundos completamente diferentes. Você vive em função de treino, futebol, festa e holofote, e eu estou focada no meu futuro e na minha carreira. Você não quer uma namorada, Duarte. Quer a novidade da temporada, porque eu fui a única que não caiu no seu papinho de primeira.

Gabriel sentiu as palavras dela como um soco direto no estômago. Olhar para a postura desconfiada de Rafaela e perceber que ela o enxergava como alguém incapaz de levar algo a sério o fez entender o tamanho do estrago que a sua própria fama — e o fantasma daquela aposta — causavam.

— Rafa, eu não acredito que você realmente ache que temos é só uma ficada? — A voz de Gabriel saiu baixa e hesitante. Ele respirou fundo antes de continuar, como se pesasse cada palavra. — E que papo é esse de que você é só 'a novidade'?

Rafaela manteve os braços fechados sobre o peito, a guarda alta.

— Com quantas meninas como eu você já ficou antes, Gabriel?

O capitão ficou momentaneamente sem resposta, tentando buscar em sua memória alguma réplica espirituosa, alguma provocação que costumava usar para ganhar as pessoas, mas não encontrou nada. Olhando para o olhar afiado dela, ele percebeu que qualquer resposta evasiva ali destruiria as chances de Rafaela aceitar seu pedido.

— Nenhuma — Gabriel respondeu por fim. — Nenhuma garota como você já passou pela minha vida antes, Rafa. E é exatamente por isso que eu estou aqui.

Rafaela soltou uma risada nervosa que não conseguiu camuflar, recolhendo as a canetas e enfiando no estojo.

— Viu? Você mesmo acabou de provar o meu ponto, Duarte. Eu sou a sua cota de novidade. O desafio da temporada para o camisa dez.

— Não fode, Rafaela! — ele deixou escapar, um pouco alto demais, fazendo um estudante na mesa ao lado olhar feio na direção deles. Gabriel ignorou o olhar alheio, inclinando-se ainda mais sobre a mesa de madeira, reduzindo a distância entre os dois ao mínimo. — "Cota de novidade", sério?

Ele segurou o marcador que ainda estava sobre a mesa e o ergueu delicadamente entre eles.

— Eu nunca pedi ninguém em namoro na minha vida. Nunca. Eu não sei fazer isso direito, não sei falar bonito feito os caras dos seus livros, mas eu sei o que eu sinto bem aqui — ele bateu com o indicador no próprio peito. — Eu não quero a facilidade de antes, Rafa. Eu quero você. Mas você claramente acha que eu sou um moleque e não está a fim. Eu devo ter entendido tudo errado mesmo, e eu… — ele fez um movimento sutil com a mão, indicando o espaço entre os dois. — ...sou apenas o próximo Henrique da sua lista.

Antes que ela pudesse processar o peso daquelas palavras, Gabriel guardou suas coisas num movimento brusco. Ele jogou a caixinha com o marcador dentro da mochila, fechou o zíper com força, colocou a alça no ombro e saiu da biblioteca a passos largos. A certeza absoluta que ele sentira minutos atrás havia ruído por completo, e agora ele se sentia apenas exposto e ridículo.

— Cota de novidade… fala sério! — murmurou para si mesmo enquanto empurrava a porta de vidro da entrada.

Na mesa ao fundo, Rafaela permaneceu imóvel, olhando para o lugar vazio onde Gabriel estava sentado há poucos segundos. O coração dela batia tão forte que ela tinha certeza de que todos na biblioteca podiam ouvir.

Céus, Gabriel havia acabado de pedi-la em namoro de verdade, colocando o próprio coração na mesa, e ela deixou o pânico defensivo a dominar por medo de ter sua vida e foco prejudicados por ele.

— Merda! — ela exclamou, atraindo mais olhares repreendedores ao seu redor.

Rafaela não se importou. Ela enfiou o caderno na bolsa de qualquer jeito, quase derrubando o estojo no processo, e saiu correndo atrás dele.

Seus tênis batiam contra o piso polido do corredor e ela quase tropeçou nas próprias pernas enquanto descia os degraus da entrada. O vento bateu em seu rosto e seus olhos vasculharam desesperados pelo pátio central da UC, procurando pela silhueta alta e de ombros largos com o casaco do time.

Ela não podia deixá-lo ir embora daquele jeito. Não mesmo.

Rafaela avistou o topo do cabelo escuro de Gabriel sumindo na direção da área dos carros. Ela acelerou o passo, ignorando o peso da mochila batendo contra suas costas, correndo pelo asfalto irregular do estacionamento.

— Gabriel! — ela chamou, a voz saindo um pouco ofegante pelo esforço.

Ele não parou. Na verdade, Gabriel apressou o passo, tirando a chave do bolso com um movimento irritado. Ele já estava quase puxando a maçaneta da porta do motorista quando Rafaela conseguiu alcançá-lo, esticando o braço para segurar o tecido do casaco dele, bem na altura do ombro.

— Gabriel, espera! Caramba, me escuta — ela pediu, arfando, parando bem na frente dele para bloquear sua saída.

Ele parou os movimentos, os dedos ainda segurando a chave do carro. Gabriel respirou fundo, os ombros tensos subindo e descendo antes de ele finalmente olhar para ela. A expressão em seu rosto era uma mistura de orgulho ferido e frustração.

— O que foi, Rafaela? — ele perguntou, a voz fria, bem diferente do tom terno que usara para pedi-la em namoro na biblioteca. — Esqueceu de me dar mais alguma nota sobre como o meu estilo de vida é fútil, alienado e previsível? Pode falar, eu aguento.

Rafaela soltou o ar com força, olhando para os olhos dele. Ela soltou o casaco dele, mas não recuou nenhum centímetro.

— Eu fui uma completa idiota lá dentro — ela disparou de uma vez, as palavras saindo rápidas. — Eu entrei em pânico, Gabriel. Quando eu vi aquele marcador... quando você me fez aquela pergunta, a minha mente simplesmente entrou em colapso.

Gabriel arqueou uma sobrancelha, o maxilar ainda tensionado, mas continuou escutando.

— Eu passei a minha vida inteira construindo a minha independência e sabendo exatamente o que eu quero para mim. — ela continuou, dando um passo à frente, encurtando a distância entre eles ali, entre os carros estacionados. — Quando você veio com aquele papo, o meu cérebro disparou um alarme: 'ele tá acostumado com tudo fácil, vai enjoar da rotina em duas semanas e quem vai sair com a vida bagunçada sou eu'. Eu me defendi porque tive medo de apostar alto demais em alguém que nunca levou nada a sério.

O silêncio do estacionamento pareceu se estender por alguns segundos. O vento balançou os fios soltos do rabo de cavalo dela. Gabriel enfiou a chave do carro de volta no bolso do casaco e olhou para ela com atenção, assimilando cada palavra. A raiva nos olhos dele começou a dar lugar a algo muito mais profundo.

— E o que isso quer dizer, Rafaela? — perguntou, a voz caindo, tensa.

— Quer dizer que é claro que aceito ser sua namorada, seu imbecil — Rafaela respondeu, com os olhos brilhando de uma emoção que ela não tentou mais esconder. — Eu estou completamente apaixonada por você e isso me assusta para caramba. Mas eu aceito.

Um sorriso de canto, lento e aliviado, começou a surgir no rosto de Gabriel, quebrando toda a pose defensiva de antes. Ele deu um passo à frente, segurando a cintura dela com as duas mãos e puxando-a para perto com força, fazendo o corpo dela colar no seu.

— Olha, depois dessa surra que você acabou de dar no meu ego, você vai ter que me reembolsar o valor da terapia, ouviu? — ele murmurou contra o cabelo dela, rindo fraco, com aquela indignação falsa. — Sério, Rafaela... Eu costumava ter orgulho próprio antes de te me apaixonar por você. Agora eu te peço em namoro e ainda levo um esculacho.

Rafaela soltou uma gargalhada, quebrando o resto da tensão que ainda pairava entre eles.

— É bom você ir se acostumando, Duarte — ela provocou, os olhos castanhos brilhando.

Gabriel balançou a cabeça, derrotado e completamente rendido, antes de descer os lábios e finalmente selar os dela em um beijo cheio de alívio.

Quando se afastaram, ainda próximos, o coração de Rafaela batia num ritmo incerto, mas, desta vez, ela não tentou controlar. Talvez fosse loucura. Talvez fosse arriscado demais colocar o coração nas mãos do camisa 10. E, ainda assim, no fundo, havia uma certeza silenciosa: naquele instante, escolher não fugir havia sido a decisão mais corajosa — e certa — do mundo.

Ainda abraçados, Rafaela o olhou e encontrou o sorriso tranquilo de Gabriel, diferente de todos os que já vira antes. Um sorriso só dela. E, por mais que não soubesse o que viria depois, permitiu-se acreditar.

Permitiu-se sentir.

E permitiu-se não ter medo.

— Só promete que não vai partir o meu coração, Duarte? — ela pediu baixinho.

O nó na sua garganta de Gabriel voltou com força total, trazendo o peso da mentira que ele tinha acabado de escolher enterrar. Ele engoliu em seco, segurou o rosto dela com as duas mãos e encostou sua testa na dela.

— Prometo, Rafa. Eu prometo.

A palavra saiu segura por fora, mas reverberou como uma condenação por dentro. E, enquanto ela sorria, aliviada, abraçando o pescoço dele, Gabriel fechou os olhos, torcendo para que o universo nunca cobrasse o preço daquela promessa.



Notas finais
Oi, time! 💛 Chegamos ao final de mais um capítulo. E, olhando agora para tudo o que aconteceu, acho que o título “Companhia” ganhou um significado bem maior do que eu imaginava quando comecei a escrever. Gabriel finalmente decide que não quer mais brincar de sentimentos e escolhe Rafaela. Rafaela, por sua vez, escolhe deixar o medo de lado e ficar com Gabriel. Letícia aparece no meio da noite, precisando desesperadamente de alguém que a acolha. E então temos o nosso querido Gabriel… que conseguiu exatamente o que queria e, ainda assim, terminou o capítulo carregando sozinho a única coisa que realmente importa: a verdade que ele ainda não contou. Talvez essa seja a ironia mais cruel desse capítulo: Rafaela e Gabriel finalmente encontraram um ao outro. Mas Gabriel, mesmo tendo Rafaela nos braços, continua carregando um segredo que o mantém completamente isolado. Porque às vezes não é a falta de alguém ao nosso lado que nos faz sentir sozinhos. É aquilo que não conseguimos dividir com quem mais amamos. E, sinceramente? Esse “prometo” no final vai me dar dor de cabeça por alguns capítulos. 🤡💀 Até segunda, time! 💛