AMOR EM CAMPO

26 Capítulo 25: Palco


Notas iniciais
Oi, time! 🦅⚽️❤️ Depois de um período de surtos, sofrimento e uma vibe meio deprê de uma certa autora… ESTAMOS DE VOLTA À PROGRAMAÇÃO NORMAL. 😂 Capítulo novo, casal oficialmente assumido e Gabriel descobrindo que ser namorado da Rafaela é, aparentemente, seu novo esporte favorito. E eu preciso saber: Vocês estão preparados para ver o Gabriel versão NAMORADO? 👀 Porque eu, particularmente, acho que ele está se divertindo demais com essa história. E ela? Bom… a coitada ainda está tentando entender como foi parar nessa situação. 🤡 Então bora, time! Quero vocês comigo nesse capítulo, porque, depois do caos, finalmente temos um pouquinho de açúcar. ☕📖💛 Boa leitura! E já sabem: terminou? Volta aqui porque eu quero fofoca. 👀

Rafaela acordou com a estranha sensação de que o mundo havia mudado durante a noite. Não por causa de alguma notícia bombástica, mas porque agora tinha um namorado. Gabriel. O Gabriel.

Apenas pensar nisso fez seu estômago dar um salto desconfortável, como se estivesse prestes a entrar em uma montanha-russa, aquela mistura de frio na barriga, medo e, ao mesmo tempo, um entusiasmo quase infantil.

Sentou-se na beira da cama, abraçando os joelhos. Era oficial: parte dela ainda não acreditava. Tinha mesmo se tornado a namorada do cara mais popular do campus?

O mais popular e galinha.

Mas, junto da incredulidade, havia também um calor reconfortante, como se algo finalmente tivesse encontrado o lugar certo para estar.

Ela se vestiu como sempre: calça jeans surrada, camiseta larga que escondia as curvas e o tênis gasto que a acompanhava há meses. Não havia maquiagem e os acessórios eram os básicos de sempre. Esse era o seu jeito. Confortável. Simples. Segura em sua neutralidade.

Pegou a mochila, saiu de casa e seguiu até o ponto de ônibus. O balanço do veículo durante o trajeto não ajudava a acalmar a mente, que insistia em repassar cada detalhe do dia anterior. O pedido inesperado, a sinceridade nos olhos dele, o marca-páginas que ela colocou dentro do exemplar de "O sol é para todos" assim que chegou em casa. Era loucura. Uma parte dela ainda se perguntava se aquilo tinha realmente acontecido.

Enquanto caminhava pela calçada que levava ao portão principal da faculdade, uma reflexão incômoda a atravessou: quando foi que ela começou a ceder? Quando Gabriel deixou de ser apenas uma presença irritante, barulhenta e convencida… para se tornar alguém capaz de fazê-la sorrir sozinha só de lembrar do jeito que a olhava?

Então, ela o viu.

Encostado no capô do seu sedan prata reluzente, cabelos negros levemente bagunçados, como se o vento tivesse moldado cada fio no lugar certo. Óculos escuros escondendo os olhos, e no corpo um conjunto simples: camisa creme ajustada ao peito e bermuda escura. Nos pés, um par de tênis brancos impecáveis. Nada fora do comum, e, ainda assim, nele tudo parecia digno de uma campanha de moda.

Segurava um copo de café descartável, rindo distraidamente com dois colegas de time. Aquele sorriso fácil parecia iluminar até o concreto cinza do estacionamento. Ridiculamente bonito. Ridiculamente casual.

O pulso de Rafaela deu um salto imediato. O que deveria fazer? Caminhar até ele, assumir diante de todos que agora fazia parte daquele mundo que não era o dela? Ou seguir em frente, como sempre, tentando se camuflar na multidão apressada?

Optou pelo mais seguro. Acelerou o passo e manteve os olhos no horizonte, torcendo para que Gabriel não a notasse.

Mas, é claro, a esperança foi em vão.

Antes que atravessasse o arco da entrada do bloco C, ouviu uma voz próxima demais para ser ignorada:

— Bom dia, namorada!

Rafaela congelou. Devagar, virou o rosto e o encontrou ao lado dela, surgindo de maneira tão natural que parecia ter sempre estado ali.

Ele abaixou os óculos, revelando os olhos castanhos e intensos.

— Impressão minha ou você ia tentar passar batido?

Ela cruzou os braços para esconder que suas mãos tremiam levemente, mas manteve a postura afiada de sempre:

— Eu? Jamais. Só estava tentando poupar meus olhos da radiação do seu ego logo às oito da manhã. E dá para não sair gritando a palavra com "N" no meio do pátio?

Gabriel deu mais um passo em direção a ela sem o menor pudor. Ele tirou os óculos, ajeitou-os na gola da camisa e abriu um sorriso provocativo.

— Ué, nerdzinha... o que foi? Tá com vergonha do seu namorado? — Ele fez questão de pronunciar a palavra devagar, sabendo perfeitamente do peso que elas carregavam. — Porque eu passei a noite inteira treinando essa palavra na frente do espelho e acho que combina perfeitamente com você.

As palavras, ditas assim, tão públicas e desavergonhadas, fizeram Rafaela sentir o rosto queimar.

— Gabriel… — começou, num sussurro repreensivo.

Ele estendeu o copo de café, ainda quente, com uma expressão que misturava travessura e cuidado.

— Toma. Trouxe para você — disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Achei que ia precisar.

Ela pegou o copo com hesitação, tentando esconder o quanto as palavras dele ainda latejavam em seus ouvidos.

— Obrigada… — murmurou, levando o café aos lábios mais para disfarçar do que pela vontade de beber.

Gabriel voltou a caminhar ao lado dela, ajustando o passo, como se ensaiassem silenciosamente o que significava estarem juntos dali em diante. Não fez piada, não provocou. Apenas ficou ali.

Alguns alunos já notavam. Rafaela sentiu os olhares curiosos, os cochichos abafados. O contraste era gritante: ele, o camisa 10, e ela, a nerd que se escondia no laboratório.

Ela respirou fundo, tentando se convencer de que não ligava. Mas a pressão crescia por dentro.

Como se lesse seus pensamentos, Gabriel moveu-se um pouco para perto, a voz baixa só para ela:

— Relaxa, Rafa. Eles não importam.

— Fácil falar, né? — resmungou, bebendo outro gole de café. — Você já nasceu sabendo andar nesse palco. Eu só quero passar despercebida.

O meio sorriso dele suavizou para uma expressão um pouco mais honesta:

— Não é um palco. É só o caminho até a sala de aula. E eu só quero andar nele com você.

Rafaela percebeu: por trás da confiança que ele exibia para o mundo, havia ali um cuidado genuíno. Ele poderia facilmente tê-la puxado para si, beijado em público, declarado alto. Mas, em vez disso, oferecia café e paciência.

Aquilo a acalmava mais do que qualquer declaração em alto e bom som.

Quando entraram no prédio, colegas cumprimentaram Gabriel com acenos e tapas nas costas; ele respondeu rápido, sem se desviar dela. Se alguém esperava vê-lo largá-la no corredor, ficou sem espetáculo. Ele continuava ali, discreto, seguro.

No meio da caminhada, deixou os dedos roçarem nos dela, como quem testava, sem pressa. Ela sentiu o coração disparar com o gesto simples, quase imperceptível para os outros, mas impossível de ignorar para ela.

Talvez ele tivesse razão. Talvez não fosse um palco. Talvez fosse só o caminho até a sala de aula.

E Rafaela começou a pensar que não havia problema nenhum em percorrê-lo ao lado dele.

⚽📖⚽

Roubar um selinho de Rafaela na porta da sala de aula se mostrou quase um esporte radical. A prova disso foi a trajetória do copo vazio de café, que só não encontrou a cabeça de Gabriel porque o jogador tinha os reflexos em dia. Ignorando a carranca brava — e incrivelmente charmosa — que ela fez para disfarçar a timidez, Gabriel piscou para ela, acenou de longe e saiu em disparada pelo corredor, rindo alto feito um garotinho que acabou de aprontar, a caminho da aula de anatomia.

Já no laboratório, ele vestiu o jaleco por cima da camiseta; tateava com cuidado os acidentes ósseos de um fêmur de plástico, tentando memorizar as inserções musculares para a prova prática da semana seguinte.

Ele anotava cada detalhe com precisão em seu bloco de fichas, determinado a garantir uma nota impecável na avaliação.

Quando a professora encerrou a aula, ele soltou uma lufada de ar, sentindo os ombros relaxarem. Devolveu as peças anatômicas aos suportes, tirou o jaleco, dobrando-o de qualquer jeito antes de enfiá-lo na mochila, e caminhou em direção à saída do bloco de saúde.

Assim que pisou no corredor arejado, o calor da manhã o atingiu. Gabriel puxou o celular do bolso do short e digitou rápido, com um ar animado já surgindo no rosto:

Gabriel: Terminei o laboratório de anatomia agora. Sobrevivi. Onde você está, nerdzinha?

A resposta não demorou mais do que dois minutos para vibrar na palma de sua mão:

Rafaela: Estou sentada no jardim central, perto daquela árvore grande de folhas vermelhas.

Gabriel guardou o aparelho no bolso e acelerou o passo, cortando caminho pelos blocos integrados. No entanto, antes mesmo de alcançar a rampa principal que dava acesso ao pátio gramado, uma silhueta conhecida cruzou seu caminho saindo da aula de Ciências Sociais Aplicadas.

Era Daniel. O amigo vinha com uma pasta de couro sob o braço e o cenho levemente franzido, concentrado em alguns papéis, mas ergueu a cabeça a tempo de ver o amigo.

— Onde é o incêndio, posso saber? — Daniel chamou, mudando a rota para interceptá-lo.

— Ah, oi, Dan. E aí — Gabriel respondeu, parando por um instante, embora seus olhos dessem uma espiada sutil na direção do jardim. — Já tá indo embora?

Daniel notou a pressa do amigo e o jeito que ele tentava disfarçar a animação.

— Não, ainda tenho aula de macroeconomia. Vai encontrar a Rafaela, né? — deduziu, com um meio sorriso. Ele deu um passo para o lado, saindo do caminho do fluxo de alunos que descia a rampa. — Cara, ontem eu não quis insistir porque você estava elétrico com o pedido, mas... e aí, como foi?

Gabriel cedeu e, por mais que tentasse segurar, um sorriso imenso se desenhou em seus lábios.

— Ela aceitou. Oficialmente, a nerdzinha é minha namorada.

Daniel soltou uma risada baixa, batendo no ombro do amigo, verdadeiramente feliz por ele.

— Parabéns, irmão. Quem diria que o plano do marcador de páginas ia funcionar tão bem.

— É. Teve uma correria pelo estacionamento e umas ofensas leves no meio do caminho, mas funcionou — Gabriel brincou, lembrando do desespero fofo de Rafaela ao alcançá-lo perto do carro.

Daniel, no entanto, embora sorrisse e demonstrasse apoio ao amigo, sentiu um estalo de preocupação na mente. O clima leve ganhou uma camada sutil de tensão, lembrando-se da conversa que tivera com ele na cozinha na semana passada.

Ele se inclinou um pouco mais, abaixando o tom de voz para que nenhum outro colega que passava por ali ouvisse:

— Cara, isso é animal. De verdade, você merece. Mas... e o que conversamos naquele dia? Você falou para ela sobre a história daquela aposta idiota?

O estômago de Gabriel deu um nó leve, cortando a leveza do momento. Ele desviou o olhar por um breve segundo antes de encarar o amigo de frente.

— Não deu para contar ontem, Dan. A biblioteca estava cheia; ela entrou em pânico com o pedido, achando que eu estava tirando sarro dela... Se eu falasse da aposta naquele momento, ela teria saído da minha vida antes mesmo de entrar.

Daniel soltou uma respiração pesada, passando a mão pela nuca. O olhar dele carregava a preocupação de quem não queria ver o amigo se dar mal.

— Biel, eu entendo que o momento era delicado. Mas agora vocês são namorados oficiais. O status mudou. Cada hora que passa com você escondendo isso é um risco enorme. Se a Rafaela descobrir por outra pessoa, aí sim vai ser o fim.

— Eu sei, Dan. Eu vou contar — Gabriel garantiu, olhando fixamente para o amigo, tentando passar uma segurança que ele mesmo não tinha. — Só preciso de um momento certo. Um dia em que a gente esteja tranquilo, fora da faculdade. Só mais uns dias e eu conto a verdade de vez. Eu prometo.

Daniel encarou Gabriel por alguns segundos, medindo a sinceridade nos olhos do capitão do time. Por fim, deu um tapinha no ombro dele.

— Beleza. Mas não vacila, Biel. Uma garota como a Rafaela não perdoa mentira. Vai lá.

Gabriel assentiu, agradecido pelo apoio do amigo, e voltou a caminhar em direção ao jardim central. O peso do segredo incomodava no peito, mas a ansiedade boa de ver a namorada acabou falando mais alto conforme ele se aproximava da área verde do campus.

⚽📖⚽

Rafaela estava jogada na ponta do sofá, o indicador deslizando pela tela do celular enquanto um sorriso bobo e involuntário se desenhava em seus lábios. Tinha acabado de ler a mensagem que Gabriel enviara minutos atrás, dando sequência, sem a menor vergonha, à provocação sobre o recente título de namorados.

Gabriel: Ainda estou indignado por estar proibido de usar a tal palavra com 'N'.

Gabriel: Continuei treinando ela aqui em casa e o Dan e o Diego concordam comigo. Ela combina perfeitamente com você, nerdzinha.

O barulho da chave girando na fechadura a fez esconder o aparelho entre as almofadas com uma rapidez quase culpada. Letícia entrou no apartamento arrastando os pés, a bolsa de couro solta de qualquer jeito no ombro e a expressão de quem tinha sido atropelada por um trem depois de um expediente exaustivo.

— Se mais uma cliente surtar por causa de um vestido de seda importada, eu juro por Deus que peço demissão daquela loja — Letícia reclamou, jogando a bolsa no canto da porta e se soltando no sofá ao lado de Rafaela como um saco de batatas. — Sério, o atendimento na boutique hoje foi um verdadeiro inferno. Passei o dia em pé em cima desses saltos e refazendo a vitrine que o garoto novo montou errada.

Rafaela riu fraco, ajeitando-se no sofá para fazer um carinho nos longos cabelos castanhos da amiga.

— Respira, Lelê. Vender roupa de luxo para gente mimada exige paciência de santo. Mas e aí... o Guilherme vai aparecer por aqui hoje? Ele não vem aqui há dias.

A reação de Letícia foi sutil, mas não passou despercebida por Rafaela. O corpo da amiga tensionou de leve e a reclamação sobre o trabalho sumiu instantaneamente do seu rosto. Ela pigarreou, desviando o olhar para os próprios pés.

— Ah... você sabe como é. O Gui acha o nosso apê claustrofóbico demais — disse, a voz saindo um pouco mais baixa do que o normal. — Ele prefere que a gente fique no dele. É mais espaçoso.

Rafaela franziu a testa, sentindo aquela pontada familiar de preocupação no peito. Não conseguia esquecer daquela noite recente em que Letícia chegou ao prédio chorando, inventando a desculpa esfarrapada de que o ônibus tinha quebrado.

— Lelê, tem certeza de que tá tudo bem entre vocês?

— Rafa, sério, tá tudo ótimo — Letícia a cortou rápido, levantando a mão e forçando um sorriso cansado. — Naquele dia eu só vim andando porque o ônibus quebrou, não precisa remoer isso.

Antes que Rafaela pudesse insistir, o celular vibrou duas vezes seguidas. O som característico da notificação quebrou a tensão. Rafaela nem tentou disfarçar: puxou o aparelho correndo, destravou a tela e riu tão descaradamente que seus olhos se fecharam em duas fendas ao ler a réplica do camisa 10.

Gabriel: Se alguém me perguntar quem eu sou hoje:

Gabriel: "Prazer, Gabriel Duarte. Camisa 10, capitão do time e namorado da Rafaela."

Gabriel: Diz aí se não soa impecável?

Rafaela digitou uma resposta rápida, rindo baixinho. Quando guardou o celular de volta e olhou para a amiga na intenção de se desculpar pela falta de educação, deu de cara com Letícia já sentada, observando-a de sobrancelhas erguidas. O cansaço dela pareceu ter evaporado, dando lugar a uma desconfiança cômica.

— Deixa eu adivinhar... era o Gabriel? Claro que era. Você está quase beijando a tela do celular — Letícia provocou. — E aí, como estão as coisas entre vocês?

Rafaela engoliu em seco e olhou para as próprias mãos, por um segundo, para tomar coragem.

— Eu… preciso te contar uma coisa.

Letícia, que já se abaixava para tirar os sapatos, paralisou o movimento no ato. Virou-se devagar, os olhos estreitados de curiosidade.

— Ok. Agora você está me assustando. O que aconteceu?

— Eu… — Rafaela respirou fundo, brincando com a ponta da manta do sofá. — Eu e o Gabriel estamos namorando.

Silêncio. Dois segundos. Depois, Letícia soltou um grito tão agudo que, se Rafaela não estivesse sentada, teria caído para trás.

— EU SABIA! — ela se levantou, pulando e jogando os braços para cima, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. — Eu disse, eu disse que vocês estavam apaixonadinhos um pelo outro!

— Shhh! — Rafaela tentou abafar a empolgação da amiga, sentindo todo o sangue do corpo subir para o rosto. — Os vizinhos vão ouvir sua gritaria.

— Que se danem os vizinhos! — Letícia berrou, com os olhos faiscando de pura energia fofoqueira. — ME CONTA TUDO. Como foi esse pedido? Ele se ajoelhou? Foi romântico? Te deu flores? Ou foi com aquele jeitinho cafajeste irresistível dele?

Rafaela cobriu o rosto com as mãos, murmurando contra as palmas:

— Não vou te contar nada, sua escandalosa.

— Ah, vai sim! — Letícia pegou uma almofada do sofá e jogou contra ela. — Você não pode soltar uma bomba dessas e depois se calar. Quero todos os detalhes.

Rafaela abraçou a almofada como se fosse um escudo.

— Letícia, você é insuportável.

— E você é a nova namorada do Gabriel. — Letícia se ajeitou de frente para ela, animada. — Vou ser a amiga mais chata do mundo até ouvir cada detalhe.

Rafaela suspirou, afundando o rosto na almofada.

— Não tem detalhe.

— Claro que tem. — Letícia puxou a almofada de volta, deixando Rafaela sem esconderijo. — Desembucha. Como foi?

Por alguns segundos, Rafaela encarou o teto, como se buscasse coragem. Depois, em um fio de voz, admitiu:

— Caótico como tudo entre nós.

Letícia cruzou os pés sob as coxas, como se estivesse ouvindo um segredo de estado.

— Caótico como? Ele apareceu com uma plaquinha? Cantou uma música brega?

— Lelê! — Rafaela protestou, cobrindo o rosto de novo.

A amiga riu, mas esperou. E Rafaela acabou cedendo, as palavras saindo quase sem querer:

— Ele só… mandou fazer um marcador de páginas personalizado com uma frase do meu livro favorito, me deu e fez a pergunta. Sem enrolar, sem piada, sem aquele jeito exibido. Me olhou nos olhos e perguntou se eu queria ser namorada dele.

O silêncio que se seguiu foi quebrado por um suspiro sonoro de Letícia.

— E o que tem de caótico nisso? — perguntou, os olhos brilhando. — Isso é literalmente o sonho de consumo de qualquer garota que lê romance, Rafaela! O cara mandou fazer um marcador personalizado?

Rafaela soltou o ar devagar, sentindo o calor subir pelas bochechas de novo ao lembrar da cena.

— O caótico veio depois, Lelê. Eu entrei em pânico. Achei que era uma piada de mau gosto por causa da fama dele, e simplesmente comecei a catar minhas coisas para fugir da biblioteca.

Letícia arregalou os olhos, boquiaberta.

— Você não fez isso.

— Fiz — Rafaela admitiu, afundando a cabeça no encosto do sofá. — Ele ficou super magoado, pegou o marcador, disse que tinha entendido tudo errado e foi embora pisando duro. Eu precisei sair correndo pelo estacionamento atrás dele e me declarar no meio dos carros para ele não ir embora. Chamei ele de imbecil e tudo.

Letícia estourou em uma gargalhada alta, batendo palmas e jogando a cabeça para trás.

— Aí, que ódio. Queria ser uma mosquinha para ver isso! Mas, no fim, deu certo. Vocês se acertaram.

— É... deu certo — Rafaela sorriu de canto, o coração batendo mais forte só de lembrar do beijo que oficializou o pedido no asfalto quente. — Ele foi muito fofo hoje de manhã. Me esperou na entrada, me trouxe café... Mas eu ainda sinto medo, Lelê. Dá um frio enorme na barriga olhar ao redor e ver todo mundo encarando, sabendo do histórico dele.

Letícia suavizou o riso, mudando a expressão para algo muito mais terno e acolhedor. Ela se esticou no sofá e segurou a mão de Rafaela, apertando-a com carinho.

— O histórico dele pertence ao passado, Rafa. Se tem uma coisa que eu aprendi convivendo com você e vendo o jeito que o Gabriel te olha de longe, é que você não é só mais uma na lista dele. Você mudou o jogo desse homem. Então, limpa essa cabeça de nerd cheia de teorias e se permite viver isso, tá? Você merece ser feliz.

Rafaela olhou para as mãos unidas das duas e sentiu um nó de gratidão na garganta. Ela apertou a mão da amiga de volta, sentindo que, com o apoio de Letícia, aquele novo mundo de repente parecia um pouco menos assustador.

— Obrigada, Lelê. De verdade.

— Não precisa agradecer — Letícia piscou, recuperando o tom brincalhão de antes e se levantando do sofá com um pulo. — Agora, chega de melodrama. Já que você é a nova primeira-dama do futebol da UC, você vai pagar a nossa janta. Quero pizza de quatro queijos para comemorar!

Rafaela riu alto, jogando a almofada de volta na amiga. O peso no seu estômago finalmente havia sumido por completo, dando lugar a uma certeza confortável. O caminho dali para frente podia ser desconhecido, mas ela estava pronta para andar nele.