AMOR EM CAMPO
27 Capítulo 26: Cinema
Notas iniciais

O corredor do segundo andar ainda cheirava ao desinfetante que Daniel tinha usado na faxina daquela manhã, mas o aroma foi completamente atropelado pelo perfume amadeirado de Gabriel quando ele saiu do quarto.
Vestia uma calça jeans escura, jaqueta de couro e camisa branca justa, ajustando o relógio no pulso enquanto descia os degraus de madeira.
— Nossa, Biel. Geralmente a gente toma banho com água e sabão, não com perfume. Mas aí vai de você, né? — Diego provocou, brotando da porta do próprio quarto.
— Não enche, Diego — Gabriel respondeu, segurando o riso.
No térreo, pescou as chaves do sedan no bolso e estava prestes a abrir a porta quando o amigo insistiu:
— Ei, ei, ei… Vai sair?
— Não, meu lindo. Me arrumei e passei perfume só para ficar aqui assistindo você jogar videogame no sofá. Claro que vou sair.
— Haha, engraçadinho. Ó, se for passar perto do centro, me dá uma carona até a casa do Lucas? Preciso pegar um material do treino com ele.
Gabriel ergueu uma sobrancelha.
— Cadê teu carro? Já tem um tempão que não o vejo na garagem.
A postura descontraída de Diego congelou por um segundo.
— Está na oficina. Pô, me quebra esse galho. É no caminho.
— Não. Vai de ônibus, de Uber, dá teus pulos. Estou com pressa.
— Ah, qual é… o que custa?
Diego deu alguns passos na direção dele, até estreitar os olhos.
— Espera aí… você vai encontrar com a nerd, não vai?
O silêncio imediato de Gabriel e o jeito como ele ajeitou a gola foram respostas mais do que suficientes.
— Agora mesmo é que eu vou! — Diego comemorou, pegando o celular e a carteira. — Não perco a chance de ver o camisa dez domesticado por nada nesse mundo.
Gabriel bufou, derrotado.
— Só se você prometer não encher o saco dela. Estou falando sério, Diego.
— Fechado! Sou um túmulo.
Pouco tempo depois, o carro parou em frente ao prédio de Rafaela. Gabriel desligou o motor e olhou para o banco do carona, onde Diego estava largado, claramente satisfeito com a própria vitória.
— Diego, sério. Não fale besteira quando ela chegar.
— Relaxa, Biel. Vou me comportar. Sou a própria etiqueta em pessoa.
Rafaela surgiu no portão poucos segundos depois. Usava uma jaqueta bomber preta sobre uma blusa branca justa e calça escura de alfaiataria. Os cabelos caíam soltos, emoldurando o rosto.
Assim que viu Diego ocupando o assento da frente, seus olhos se arregalaram levemente.
Gabriel se debruçou na janela antes mesmo que ela pudesse travar no lugar.
— Fica tranquila, nerdzinha. Ele não vai junto com a gente para o encontro. Só estou dando uma carona rápida.
Rafaela soltou um riso contido.
— Diego, passa para o banco de trás. Agora — Gabriel ordenou.
— Ah, cara, o banco da frente tem mais espaço para as minhas pernas. Tô confortável aqui.
— Diego… Vai para trás agora ou desce e vai a pé.
O argentino gargalhou, abrindo a porta.
— Tá bom, tá bom! Credo. Mas só estou saindo porque você pediu bonitinho e o romantismo está no ar.
Ele deu a volta e se acomodou no assento traseiro. Gabriel abriu a porta do carona pelo lado de dentro para Rafaela.
— Relaxa, Rafa — disse ele, a voz suavizando no instante em que o perfume doce dela invadiu o veículo. — Rapidinho a gente deixa esse mala no destino dele.
— Tudo bem. Oi, Diego!
Quando ela afivelou o cinto, Diego acenou pelo retrovisor com a cara mais lavada do mundo.
Gabriel respirou fundo e deu a partida.
O trajeto começou com o rádio baixo, mas não demorou para Diego se debruçar no vão entre os assentos dianteiros.
— Ei, pera aí… — Ele olhou alternadamente para os dois antes de soltar uma gargalhada. — Vocês combinaram a roupa por telefone ou o grau de sintonia do casal já tá nesse nível bizarro?
Rafaela olhou para o próprio agasalho escuro e depois para a jaqueta de Gabriel, percebendo no mesmo instante que os dois estavam praticamente uniformizados: couro preto e camiseta branca.
Uma onda de calor súbito subiu por seu pescoço.
— A gente não combinou nada. A Letícia escolheu minha roupa.
— Sei… Jaqueta de couro preta, blusa branca por baixo… De longe parecem até uma dupla de motoqueiros do mal. Ou uma banda cover dos anos oitenta.
Gabriel apertou o volante, contendo a vontade de rir ao ver Rafaela ajeitar uma mecha atrás da orelha e buscar um ponto fixo no painel só para não encarar nenhum dos dois.
— Minha garota tem estilo, fazer o quê?
— Estilo? O nome disso é telepatia de casal! Daqui a pouco vão estar usando até a mesma aliança.
Rafaela ergueu os olhos para Diego pelo retrovisor.
— Antes de pensar em aliança, a biologia exige que a gente classifique a relação ecológica primeiro. Às vezes é mutualismo, às vezes competição… depende muito de como a espécie se comporta em cativeiro.
Diego ficou em silêncio por dois segundos antes de explodir numa gargalhada.
— Caralho! Ela te chamou de animal silvestre, Gabriel!
Gabriel virou o rosto para Rafaela, fingindo indignação.
— “Cativeiro”? Sério?
Ela deu de ombros, mordendo o lábio para segurar o riso.
— Ainda estou analisando o comportamento da espécie. Preciso de mais dados antes de publicar qualquer conclusão científica.
Gabriel soltou uma risada solta, relaxando os ombros. Tirou rapidamente a mão direita do volante e a apoiou sobre a coxa de Rafaela, dando um aperto suave e cúmplice.
— Eu avisei para não mexer com ela, Diego. A mente dela funciona mais rápido que as suas pernas em campo.
— Já percebi — Diego respondeu, ainda em tom de deboche.
Rafaela sentiu a pele do rosto formigar com o calor da vergonha, mas o toque firme da mão de Gabriel trazia uma segurança reconfortante. Aos poucos, aquela sensação de estar invadindo um espaço que não era seu começava a desaparecer.
— Chegamos, seu mala — Gabriel anunciou, parando em frente a um prédio de portão de ferro escuro. — Vaza, antes que eu te cobre a corrida.
— Valeu pela carona, casal!
Diego abriu a porta e, antes de fechá-la, inclinou-se na janela do carona.
— Paciência com esse animal silvestre, Rafa. Qualquer coisa, estamos do seu lado.
Ele bateu no teto do carro duas vezes e caminhou em direção ao portão.
Gabriel esperou o amigo entrar no prédio e então conduziu o sedan prata de volta para a avenida principal.
Finalmente a sós, olhou de relance para ela.
— “Analisando o comportamento da espécie”, é?
Rafaela sustentou o olhar com graça.
— O espécime é muito convencido.
— Mas ganha pontos pelo esforço?
Ela desviou os olhos, um esboço de sorriso surgindo nos lábios.
— Talvez.
Gabriel riu baixo, voltando a focar a pista à frente.
— Você me pegou de surpresa lá atrás. O Diego é insuportável, mas você jantou com ele com classe. Fiquei com medo de você se sentir desconfortável com as piadas dele. Os caras não têm muito filtro.
— Eu estou bem. No começo me assustei, confesso. Mas o Diego foi... legal. No jeito dele. É bom ver que seus amigos não são monstros.
— É, eles são uns idiotas, mas são legais. Você vai se acostumar.
Ele encontrou uma vaga perto dos elevadores centrais do shopping e desligou o motor.
O silêncio do carro foi preenchido apenas pelo estalo sutil da lataria esfriando.
Gabriel virou-se de lado, apoiando o braço no encosto do carona para reduzir a distância entre eles.
— Pronta para o nosso primeiro encontro oficial fora dos muros acadêmicos?
Rafaela ajeitou a bolsa no colo e assentiu.
— Pronta. Mas você prometeu que ia se comportar em público, lembra?
Gabriel desenhou aquele canto de boca lento e sugestivo que sempre fazia as certezas dela vacilarem.
— Eu prometi tentar, nerdzinha.
O Plaza Shopping estava movimentado, mas o ambiente escurinho da sala de cinema trouxe um alívio imediato à timidez de Rafaela. Os assentos das últimas fileiras garantiam a privacidade de que precisavam e, assim que se acomodaram, Gabriel levantou o apoio de braço para se achegar, acomodando o balde gigante de pipoca entre eles.
Na tela, passava o drama histórico europeu que ela escolhera.
Ao lado dela, Gabriel já havia afundado na poltrona pela terceira vez em quarenta minutos.
— Rafa… — sussurrou rente ao ouvido dela. — Eu juro que estou tentando. Mas o ritmo desse filme é medido em anos-luz. Estão falando sobre impostos agrários há vinte minutos.
— Silêncio, Gabriel — ela murmurou, prendendo o riso. — É uma obra premiada. Aprecie a arte.
— Eu aprecio a arte. Só prefiro quando envolve mais ação.
Antes que ela pudesse rebater, Gabriel uniu os lábios aos dela em um beijo firme e quente.
Rafaela até tentou lembrar o trato de “sem demonstrações públicas”, mas o jeito como ele mordiscou seu lábio inferior antes de encerrar o contato fez o enredo sumir da sua cabeça por alguns segundos.
— Gabriel...
— Está escuro, ninguém está olhando — justificou ele, afastando-se apenas o suficiente para respirar, a voz rouca. — Considera isso um serviço de utilidade pública para eu não entrar em coma induzido.
Rafaela soltou o ar devagar, desistindo de resistir. Enlaçou os dedos nos dele.
Pelo restante da sessão, Gabriel não reclamou mais. Usou o tempo para cochichar comentários cômicos sobre os figurinos de época, fazendo-a conter o riso para não chamar a atenção na sala.
Quando as luzes se acenderam e os créditos subiram, ele se espreguiçou com uma pose vitoriosa.
— Sobrevivi à tortura cultural. Mereço um prêmio ou o quê?
— O seu prêmio é ter expandido a sua mente, Duarte — ela respondeu, levantando-se. — E, da próxima vez, você escolhe.
— Combinado. E vai ter carro capotando.
Ele jogou o balde no lixo e colocou a mão na cintura dela, guiando-a em direção à saída.
O clima entre os dois era de pura cumplicidade, com Gabriel prestes a sugerir um milk-shake na praça de alimentação, quando uma voz conhecida e arrastada ecoou à direita deles:
— Ora, ora… Se não é o nosso capitão curtindo um cineminha no domingo à noite.
A mão dele nas costas de Rafaela se retesou no mesmo instante.
Parada perto do totem de um filme de terror, acompanhada por duas colegas da Nutrição, estava Brunna. O cropped branco e a calça jeans clara reforçavam sua postura imponente, mas foi o olhar sarcástico que atraiu a atenção de Rafaela.
Os olhos de Brunna correram de Gabriel para ela, demorando-se com desdém sobre seu rosto.
— Brunna — Gabriel pronunciou em tom contido. A descontração de instantes atrás desapareceu por completo.
— Não sabia que você curtia dramas de época, Duarte. Achei que seu negócio fosse mais… dinâmico. — Ela avançou um passo. — O campus inteiro está falando de vocês, mas ver ao vivo é outra coisa.
Rafaela apertou a alça da bolsa contra o peito. A presença de Brunna carregava uma energia invasiva, e a entonação da garota fazia parecer que o relacionamento dos dois fosse uma anomalia.
— A gente já estava de saída, Brunna — Gabriel cortou, enrijecendo a postura. — Bom filme pra você.
Brunna soltou uma risada anasalada.
— Claro, claro. O tempo é precioso. Principalmente quando a gente se esforça tanto para mudar de estilo, né, capitão? — Ela lançou um olhar rápido para Rafaela antes de mirar Gabriel. — É engraçado. Você passou meses me dizendo que “não era cara de namorar ninguém” e que relacionamentos eram perda de tempo na faculdade. Acho que eu só não tinha o perfil certo de projeto de caridade para te fazer mudar de ideia.
Gabriel deu um passo à frente, os maxilares travados.
Ele abriu a boca para responder, mas Rafaela tocou de leve em seu antebraço.
O contato sutil foi suficiente para contê-lo.
Ela deu meio passo à frente, desvencilhando-se da sombra protetora do namorado. Seus olhos castanhos sustentaram a provocação de Brunna com uma frieza calculada.
— Sabe o que é engraçado, Brunna? — começou, a voz calma e firme. — Na faculdade, a gente aprende que o conceito de “caridade” envolve dar algo para quem não tem condições de conseguir por si mesmo. O Gabriel não está me fazendo nenhum favor. Nós estamos juntos porque escolhemos estar juntos.
Ela desenhou um riso mínimo no canto dos lábios.
— Mas, se você precisa terceirizar a culpa da sua frustração, criando teorias sobre a vida alheia para se sentir melhor, quem sou eu para contestar a sua psicologia de corredor? Tenha um bom filme.
Brunna estancou.
A empáfia sumiu de sua expressão, dando lugar a um choque mudo. As duas garotas ao lado se entreolharam, visivelmente desconfortáveis com o corte.
Sem esperar por réplica, Rafaela virou o rosto para Gabriel.
Ele a encarava com os olhos arregalados e uma ponta de incredulidade orgulhosa estampada na face.
— Você não ia me pagar um milk-shake? — ela perguntou, retomando o tom leve. — Quero um de morango.
— Agora mesmo, nerdzinha.
Gabriel envolveu os ombros dela com o braço, guiando-a em direção à escada rolante. Antes de virar as costas, lançou uma última olhada para Brunna, cujo ressentimento era evidente.
Ele não deu a menor importância.
Enquanto desciam rumo à praça de alimentação, Gabriel soltou uma risada rouca.
— Meu Deus, você hoje tá afiada, hein? “Psicologia de corredor”? Sério? Eu já ia partir para a ignorância.
Um calor gostoso se espalhou pelo peito de Rafaela, mas ela manteve a cabeça erguida.
— Pensa bem: se eu consigo aguentar suas provocações todos os dias, a Brunna foi um passeio no parque. — Ela encostou a cabeça de leve no ombro dele. — Além disso, ninguém desmerece o que é nosso e sai impune. Muito menos no nosso encontro.
Gabriel depositou um beijo carinhoso no topo da cabeça dela.
— Quer dizer que eu sou um treino diário para você? Que honra. — Ele se inclinou na direção dela. — Mas, falando sério... ver você colocando a Brunna no lugar dela com essa calma toda foi a coisa mais atraente que eu vi hoje. Por essa aula de elegância, você oficialmente ganhou um milk-shake gigante com calda extra.
Rafaela riu, deixando-se conduzir até o quiosque, com a certeza confortável de que estavam construindo algo sólido demais para ser abalado por fofocas de corredor.
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