AMOR EM CAMPO

35 Capítulo 34: Quartas de Final


Como não tinha aula naquela quarta-feira de manhã, Rafaela decidiu aparecer de surpresa no treino dos Falcões. Caminhou até o complexo esportivo da universidade e procurou um lugar na arquibancada onde o sol não batesse direto em seus olhos. Acomodou a mochila no assento ao lado, disposta apenas a observar.

No gramado, a equipe realizava o aquecimento: corrida leve, séries de alongamento e troca rápida de passes. O som seco do domínio de bola misturava-se aos comandos do técnico, que exigia velocidade de raciocínio e transição imediata.

Enquanto acompanhava o treino, Rafaela refletiu sobre os últimos dias. A conversa no Campo de São Bento não fora sucedida por novas farpas. Pelo contrário: a rotina havia ganhado um compasso silencioso e atento.

Gabriel continuava ali. Presente. Cuidadoso em cada detalhe. Mas sem forçar intimidade, sem piadas para disfarçar o constrangimento e sem tocá-la sem ter certeza de que o gesto seria bem-vindo. Essa postura reservada mexia com o psicológico dela mais do que qualquer insistência pretensiosa. Rafaela sentia falta do ritmo anterior, mas compreendia a necessidade daquele reajuste de rota.

Em campo, o camisa dez se destacava no trabalho tático: ágil, preciso nas tabelas de primeira e focado demais para alguém acostumado a brincar mesmo nos treinos mais puxados.

Em determinado momento, Diego cutucou o capitão com o cotovelo e apontou discretamente para o setor coberto. Gabriel virou o rosto na mesma hora. Rafaela fez um aceno breve, com um sorriso discreto. Ele respondeu com um leve aceno de cabeça e um estreitar de olhos cúmplice antes de voltar a focar na jogada.

Ele realmente não esperava encontrá-la ali. Ambos ainda mediam os passos, testando novos limites e reaprendendo a ocupar o espaço comum. Gabriel estava pensando o dobro antes de falar, calculando o peso de cada atitude. Entendera que escolher Rafaela exigia reconhecer onde terminava o próprio ego e onde começava o cuidado com a mulher ao seu lado.

Quando o apito final determinou o encerramento dos trabalhos, Gabriel fez um sinal indicando para ela esperar e correu para o túnel. Banho tomado e uniforme guardado, ele subiu os degraus de concreto com a mochila no ombro e sentou-se ao lado dela.

— Oi — inclinou-se, deixando um beijo demorado na bochecha dela.

— Oi! — Rafaela sorriu, retirando uma garrafa da bolsa. — Trouxe pra você. Imaginei que ia precisar repor os sais.

Gabriel recebeu o isotônico gelado e bebeu um gole longo.

— Obrigado. Não imaginava te ver por aqui hoje.

— Resolvi dar uma passada — justificou. — O treinador tá cobrando pesado, né?

— Semana que vem é decisão — comentou ele, pousando a garrafa entre os joelhos. — Jogo de quartas de final. Se vacilar, a temporada acaba pra gente.

— Vocês vão se classificar. Tenho certeza.

O silêncio entre eles era calmo, preenchido apenas pela brisa no gramado. Rafaela contemplava o campo quando quebrou a quietude:

— Um dia você me ensina?

Gabriel interrompeu o movimento de girar a tampa plástica e a encarou.

— O quê?

— A jogar futebol, ué.

Ele soltou uma risada aberta, que iluminou suas feições cansadas.

— O que foi? Acha que eu não tenho coordenação motora? — ela provocou. — Fui muito bem no videogame naquele dia, esqueceu?

Gabriel levantou-se num impulso e estendeu a mão:

— Vem. Vou te ensinar agora.

— Agora? — Rafaela arregalou os olhos. — Gabriel, eu tô de sapatilha.

— Agora. Sem desculpas, nerdzinha.

Ela riu, aceitando o toque quente dos dedos dele. Desceram até a linha lateral e Gabriel buscou uma bola no deposito e materiais, conduzindo-a até o círculo central. Dominou a bola no peito do pé com uma naturalidade desconcertante.

— Primeira lição: não é força bruta. É equilíbrio e direção.

Rafaela cruzou os braços.

— Já começou subestimando a aluna, professor?

— Jamais — ele sorriu, posicionando-se atrás dela, perto o suficiente para emanar calor, mas preservando o espaço. — Apoia o pé esquerdo ao lado da bola, mirando para onde quer que ela vá. A perna direita vem de trás, como um pêndulo. E relaxa os ombros, você tá toda tensa.

Ela soltou o ar e arriscou o primeiro chute. A bola saiu torta, pegando de raspão na ponta da sapatilha e desviando fraca para a lateral.

— Droga! — reclamou, rindo da própria falta de jeito.

— Normal — ele acompanhou o riso. — Pra primeira tentativa, foi nota sete. Espera aí.

Gabriel buscou a bola e ajeitou novamente no centro. Desta vez, pousou as mãos com firmeza nas laterais do quadril de Rafaela, alinhando a postura dela com o alvo.

— Respira fundo — murmurou rente à curva do pescoço dela. — Confia no movimento e chuta, gata.

Rafaela fixou o olhar no couro e executou o chute. O contato foi limpo e seco. A bola correu rasteira em linha reta, ganhando velocidade até estufar o centro da rede desprotegida.

— Eu consegui. Fiz o gol!

Num giro eufórico, jogou-se nos braços dele. Gabriel a recebeu no ar, erguendo-a do chão por um instante. Ao colocá-la de volta na grama, o riso festivo deu lugar a uma troca de olhares densa.

Havia semanas de cautela naquele espaço. Uma vontade enorme de apagar a distância.

As bocas se encontraram com a urgência de quem passou dias demais policiando cada gesto. Gabriel a puxou contra si enquanto subia a mão pelas costas dela. Rafaela cedeu ao contato, enlaçando a nuca dele e aprofundando o beijo.

Quando o fôlego diminuiu e se afastaram, ela repousou a testa no ombro dele, respirando no mesmo ritmo.

— É… até que você leva jeito — ele murmurou contra os cabelos dela.

— Eu sei que beijo bem, Duarte.

Gabriel riu, apertando de leve a cintura dela.

— Eu tava falando de futebol, sua convencida.

Decidiram comer algo em uma padaria nos arredores do campus antes do horário da aula dele. Acomodados em uma mesa de canto, a conversa transcorria com a leveza dos velhos tempos.

— O jogo da semana que vem vai ser fora, subindo a serra, em Petrópolis — Gabriel comentou, adoçando a xícara de café.

— Petrópolis? — ela ergueu os olhos do cardápio.

— É. Como a partida acaba tarde descer a serra pode ser perigoso, a delegação vai pernoitar num hotel e voltar no domingo de manhã.

Ele pousou a colher, apoiando os cotovelos no tampo de fórmica e mirando-a com total franqueza.

— Quero que você vá comigo. O hotel reservado pelo clube é modesto. O pessoal divide quarto em duplas, mas consigo pedir um quarto separado pra nós dois... se você topar.

Rafaela pausou o movimento, o pão na chapa a meio caminho da boca.

— Só nós dois?

Gabriel exibiu um sorriso calmo.

— Só nós dois.

Fez uma pausa consciente antes de continuar.

— Mas antes que sua cabeça de cientista comece a criar hipóteses mirabolantes: não tô te chamando com segundas intenções. Quero você lá porque é a partida mais importante do ano pra mim. Quero olhar pra arquibancada e ver você lá por mim.

Ele cobriu a mão dela sobre a mesa.

— Se depois do jogo a gente quiser ficar junto, a gente fica. Se você só quiser dormir, dorme. Se preferir ficar acordada falando sobre bactérias até o amanhecer, a gente conversa. Não tô exigindo nada em troca.

Rafaela sustentou o contato visual, a mente trabalhando rápido.

— Mas você sabe que pode acontecer.

A descontração dele deu lugar a uma seriedade transparente.

— Sei. E não vou ser hipócrita: eu quero você pra caralho. Mas isso não tem que rolar só porque existe uma cama de casal e uma noite na serra. Tem que acontecer porque nós dois decidimos que chegou a hora.

Ela sentiu uma onda gostosa de calor aquecer o peito; a clareza no olhar dele dissipou qualquer resquício de insegurança.

— Eu vou com você.

A expressão de Gabriel se abriu num alívio indisfarçável.

Nos dias que antecederam a viagem, Gabriel manteve um foco quase obsessivo. Cortou saídas, dormiu cedo e dedicou horas ao estudo dos vídeos táticos da ITM. Rafaela esteve presente em cada brecha de tempo: acompanhando treinos da arquibancada e dividindo lanches rápidos no intervalo das aulas.

Na sexta-feira à noite, no apartamento, Rafaela observava Letícia dobrar peças e organizar uma pequena mala sobre a cama.

— Lelê… você acha que isso tá ficando sério demais? — soltou de repente, abraçando os joelhos.

Letícia parou com uma jaqueta nas mãos.

— "Isso" o quê? A quantidade de looks pra um fim de semana?

— Eu e o Gabriel.

A amiga sentou-se ao lado dela, com um sorriso afetuoso.

— Rafa, vocês já passaram da fase de teste há muito tempo. Ainda tem dúvida sobre o cara?

— Não é dúvida sobre ele... é que parece diferente agora.

— Diferente em que sentido?

Rafaela olhou para as próprias mãos, organizando o pensamento.

— Antes parecia que a gente tava tentando provar que conseguia conviver sem sair machucado. Agora… parece que comecei a visualizar como seria continuar com isso a longo prazo.

Letícia tocou o ombro da amiga com carinho.

— Talvez seja porque você finalmente parou de calcular o prazo de validade e começou a viver o que vocês têm hoje.

Rafaela absorveu o conselho em silêncio, sentindo o peito finalmente relaxar.

Mais tarde, sozinha sob a luz baixa do abajur, olhou para a mala fechada perto da porta.

Uma semana inteira de expectativa condensada ali. Apenas uma viagem curta. Uma partida de mata-mata. Uma arquibancada. Um quarto de hotel simples. Gabriel.

E constatou, com uma serenidade inédita, que não estava montando defesas mentais para o que viria a seguir. Havia apenas uma curiosidade honesta sobre o que os aguardava naquelas horas longe de tudo e de todos.

Sem pressa. Sem fardos do passado. Sem interrupções de amigos. Apenas os dois.

Notas finais
GENTE ??? 👀 Eu queria muito comentar o capítulo, mas acho que a última parte merece uma análise científica. Gabriel: “Quero que você vá comigo para Petrópolis.” Rafaela: “Eu vou com você.” E eu, inocentemente, escrevendo: “Só nós dois.” 🤡🔥 Depois de tantos capítulos com brigas, inseguranças e gente batendo na porta do quarto em momentos inoportunos, finalmente teremos uma viagem. Uma partida decisiva. Um hotel. Um quarto separado. E só os dois. E o Diego? Amarrado e amordaçado no porão desse hotel, por favor. 😂 Porque depois do histórico desse homem, eu não estou disposta a correr riscos. KKKKKKKK Eu não sei vocês, mas já estou olhando para Petrópolis com um certo medo. 👀 Até o próximo capítulo, time! ❤️⚽️📖