AMOR EM CAMPO
34 Capítulo 33: Instagram

A livraria tinha aquele cheiro característico de papel novo, um aroma reconfortante que parecia se prender à pele de Rafaela como se fizesse parte de sua própria identidade.
Às vezes, ela gostava de pensar que vivia protegida dentro de um livro. Em outras, sentia que sua rotina se resumia a reorganizar histórias que pertenciam a outras pessoas.
Naquela tarde, estava agachada diante da prateleira de literatura contemporânea, alinhando meticulosamente as lombadas e conferindo os preços no sistema, quando uma cliente se aproximou, segurando um volume contra o peito.
— Você pode me indicar algo parecido com A Vegetariana?
Rafaela ergueu o olhar com satisfação. Adorava aquele tipo de desafio literário. Levantou-se, ajeitou o avental e esticou o braço para a prateleira ao lado.
— Se você gostou daquela atmosfera mais densa, talvez aprecie este aqui. — Entregou As Coisas Que Perdemos no Fogo. — É perturbador, mas brilhante.
— Vou confiar em você.
A cliente agradeceu e seguiu para o caixa.
Rafaela voltou ao trabalho, dividindo as horas seguintes entre caixas do estoque, planilhas e anotações rápidas no tablet da loja. Só conseguiu respirar de verdade durante o intervalo.
Sentada nos fundos da livraria, abriu seu exemplar e mergulhou no silêncio da pausa.
Até o celular vibrar.
Lelê: Amiga, me empresta seu notebook? Preciso terminar um trabalho e o meu tá só pela misericórdia. Preciso mandar arrumar, mas tô sem tempo 💸.
Rafaela digitou a resposta com um riso breve:
“Pode pegar. Tá no meu guarda-roupa”.
Enquanto esperava a resposta da amiga, abriu a conversa com Gabriel. A última mensagem dele havia chegado pouco antes do treino:
Gabriel🐺: Gata, vou pro treino agora. Te busco mais tarde. 😉❤️
Ela respondera quase na hora:
Tá. Vê se não se mata. ❤️
Visualizado. Sem resposta.
Num gesto automático, abriu o Instagram. Rolou o feed sem muita atenção: notícias rápidas, stories de conhecidos, salvou um vídeo de uma receita que jamais faria e o vídeo de um cachorro fofo que ganhou sua curtida imediata.
Até que uma publicação recente ocupou toda a tela.
Gabriel aparecia no gramado de treinamento, sem camisa, com a pele molhada de suor e o tronco tenso no instante em que a bola subia no ar. A definição muscular, os ombros largos e a tatuagem na costela contrastavam com a luz dourada do fim de tarde.
Rafaela mordeu o canto do lábio:
— Exibido.
A legenda dizia: "Sempre no jogo. Sempre focado."
Ela esboçou um sorriso; era a cara dele. Preparou-se para curtir, mas decidiu abrir a aba de comentários antes.
O sorriso desfez-se no mesmo instante.
“Que isso, capitão? Cada dia melhor 😏”
“Oi, sumido. Olha o direct 👀🔥”
“Que homem, meus amigos 🤤”
Rafaela puxou o ar devagar. Era apenas uma rede social. Ela sabia disso. Gabriel era o camisa dez da universidade, popular, com milhares de seguidores. Mensagens assim faziam parte da rotina dele muito antes de ela cruzar seu caminho.
Então, por que aquilo causava um incômodo tão denso no estômago?
Continuou deslizando a tela até travar em um comentário específico.
@mar_de_marina: “Cada dia mais gostoso, hein, @gd10.ofc? Quando vai aparecer no bar novamente? Da última vez você me deu um perdido. Mas, na próxima, não me escapa. 😏😈”
O estômago de Rafaela afundou. Clicou no perfil sem hesitar.
Marina era loira, bonita, confiante. Fotos bem produzidas, roupas impecáveis e um feed milimetricamente planejado.
Rafaela desceu pela grade de fotos até parar em uma publicação de dois meses atrás.
Marina segurava uma caneca de chope, vestindo uma camiseta com a marca do Barcharelado, o bar da Cantareira que Gabriel costumava frequentar com a atlética.
Ela já ia fechar o aplicativo quando encontrou o comentário dele ali:
@gd10.ofc O melhor bar. O melhor chopp. A melhor garota 😜
Rafaela paralisou com os olhos na tela.
Dois meses.
Dois meses atrás, os dois já trocavam provocações diárias, dividiam caronas e se procuravam pelos cantos do campus. Já existia algo crescendo entre eles, mesmo que nenhum dos dois tivesse admitido em voz alta.
Bloqueou o visor com um estalo seco.
Você não é paranóica, pensou, respirando fundo. Mas também não vai se fazer de boba.
Antes que a mente formulasse mais hipóteses, o alarme disparou, marcando o fim do intervalo. Rafaela engoliu a frustração, guardou o celular e retornou ao balcão.
Quando seu expediente encerrou, cruzou a porta de vidro da loja. O aparelho vibrava sem parar em sua bolsa, mas ela ignorou as notificações e não atendeu sequer à chamada de voz de Gabriel.
Poucos minutos depois, o carro dele parou junto ao meio-fio. Ele desceu com aquele semblante tranquilo e abriu os braços ao se aproximar.
— Oi, gata!
Ele curvou-se para beijá-la, mas Rafaela virou o rosto de lado, oferecendo apenas a bochecha fria.
Gabriel recuou um passo, examinando a rigidez dela.
— Aconteceu alguma coisa?
Rafaela cruzou os braços sobre o peito, sustentando o contato visual.
— Aconteceu.
O atleta soltou o ar, o sorriso desfazendo-se por completo:
— Tá… me diz o que houve.
— Eu vi a foto que você publicou hoje.
Gabriel pareceu desanuviar por uma fração de segundo.
— Ah, aquilo? O Diego tirou no final do treino. Ficou boa, não achou?
— Ficou excelente — respondeu ela, o tom gélido.
— Então qual é o problema?
— Você acha normal o nível dos comentários que deixam nas suas fotos?
A tensão pairou imediatamente entre os dois. Gabriel ajeitou a postura, incomodado com a cobrança em plena calçada.
— Rafa, é o Instagram. Não dá pra controlar o que as pessoas colocam no meu feed, Rafaela.
— Eu sei que você não controla o que os outros digitam. Mas não são perfis aleatórios da internet. São garotas que você conhece, que estudam com a gente no mesmo campus. E uma delas escreveu que, na próxima vez em que te encontrar na Cantareira, você não escapa.
— Mas eu não respondi nada! — ele rebateu, erguendo as palmas.
— Não. Você só deixou os comentários ali, expostos para quem quiser ver, como essa intimidade pública fizesse parte do pacote de namorar você. — A indignação pesou na voz de Rafaela.
A frase atingiu o jogador em cheio. Ele a encarou, incrédulo.
— Sério? Não acha que tá pesando a mão? Não dei intimidade para ninguém, só postei uma foto.
— Pesando a mão? — o tom dela subiu, a mágoa acumulada transbordando. — Gabriel, eu já ouvi gracinhas nos corredores. Já teve gente me dizendo que você ia enjoar de mim em semanas. Fui encurralada no banheiro da sua própria casa para ouvir sobre quem você era antes. E agora abro o Instagram e vejo o mesmo show acontecendo na minha cara.
Gabriel arregalou os olhos.
— Rafa…
— Não. Me escuta — cortou ela, sacando o celular com agilidade e estendendo a tela diante dele. — Você comentou “a melhor garota” no perfil dessa garota há dois meses.
Gabriel travou ao olhar a imagem antiga, o maxilar endurecendo.
— Isso foi antes de a gente…
— Isso foi antes de a gente assumir o namoro em público — corrigiu ela, implacável. — Não antes de você ficar me procurando todos os dias no bloco de Biologia com a sua conversinha.
Sem argumentos para rebater a data, Gabriel passou as mãos pelos cabelos, frustrado.
— Eu não fiquei com ela, Rafa! Não fiquei com mais ninguém a partir do momento em que decidi que queria você. Você sabe disso.
— Mas não é apenas sobre com quem você vai pra cama, Gabriel! — a voz dela vacilou com a dor que tentava mascarar. — É sobre eu olhar pro meu namorado e sentir que o histórico dele continua sentado na mesma mesa em qualquer lugar que a gente vá. Eu decidi confiar em você, e você sabe o tamanho do esforço que isso me custou.
Ele deu um passo à frente, a expressão desarmada pelo arrependimento.
— Você tá certa. Não devia ter comentado aquilo na época e muito menos ter deixado aquela zona nos comentários de hoje. Eu apago tudo agora, tá bem?
— Mudar de atitude só depois que eu apontei o erro não resolve o que tá por trás — ela respondeu, segurando o brilho das lágrimas nos olhos. — Meu medo é você manter esses velhos hábitos e achar que vou passar o resto do curso fingindo que não vejo.
— Não sou mais aquele cara — ele insistiu, a voz carregada de urgência. — Tô me esforçando de verdade pra ser diferente, Rafa!
— Esforço não é sinônimo de mudança, Gabriel.
— O que você quer que eu faça, então? Me diz.
Rafaela respirou fundo, recuperando o prumo.
— Só quero entender se você realmente quer um relacionamento comigo ou se gosta apenas da ideia de me ter por perto enquanto o resto da faculdade age como se você continuasse solteiro.
— Eu quero você — respondeu sem vacilar, os olhos cravados nos dela. — Só tô aprendendo a ser o cara que você merece.
— Então aprende rápido. Porque não vou disputar atenção com seguidora de rede social.
Sem abrir espaço para réplica, Rafaela virou as costas e caminhou em direção ao ponto de ônibus na esquina.
— Rafa! Espera! — ele chamou, esboçando segui-la.
— Preciso de espaço — pediu ela, sem virar a cabeça.
Gabriel permaneceu imóvel na calçada, acompanhando a silhueta da namorada sumir entre o movimento da rua.
⚽️📖⚽️
Gabriel entrou no apartamento batendo a porta com força excessiva. As chaves voaram de sua mão e estalaram contra a mesa de centro. Ele andou de um lado para o outro na sala, com os dentes trincados.
— Porra…
A discussão na calçada repetia-se em sua mente sem trégua. Desabou no sofá, sentindo o peso do desgaste acumulado. O celular vibrou na palma da mão.
1.247 curtidas.
Ele abriu a postagem e leu novamente o comentário: “... Da última vez você me deu um perdido. Mas, na próxima, não me escapa.”
Da última vez em que vira Marina no bar, mal trocara três palavras de cortesia antes de ir embora. Não imaginara que ela destilaria aquela intimidade que ela achou que ainda existia em público.
Apertou os três pontos no topo da tela, selecionou Excluir e confirmou. A postagem desapareceu. Largou o aparelho no estofado, soltando uma lufada de ar pesada.
Foi nesse momento que Daniel entrou na sala, cantarolando com os fones pendurados no ouvido e soltando a mochila esportiva no canto:
— Eu não negar que ainda te amo, mas… ué, achei que você fosse buscar a Rafaela no trabalho.
Gabriel manteve o braço cobrindo os olhos, sem se mover.
— Eu fui. Mas ela não quis vir comigo.
Daniel tirou os fones, ajeitando a postura.
— Deu merda?
— Deu. Tô tentando entender a proporção da merda até agora.
— Desembucha — Daniel sentou-se na poltrona em frente.
Gabriel explicou a situação do início ao fim. O zagueiro permaneceu em silêncio por alguns instantes, coçando o queixo enquanto organizava os fatos.
— Cara… às vezes me impressiona como você tem visão tática perfeita no campo e é um completo tapado para lidar com namoro.
— Pronto — Gabriel sentou-se com rispidez. — Vai virar o advogado de defesa dela agora?
— Usa a cabeça por dois minutos — Daniel devolveu, calmo. — Imagina que você abre o Instagram agora e vê que a Rafaela postou uma foto linda de biquíni lá em Saquarema.
Fez uma pausa, esperando o impacto visual assentar.
— Aí você clica nos comentários e tem vinte caras marmanjos mandando emoji do foguinho e da berinjela, chamando de gostosa e perguntando quando ela vai aparecer sozinha na praia.
O estômago de Gabriel deu um nó na hora. A mera ideia de outros sujeitos demonstrando intimidade com Rafaela fez seu sangue ferver.
Daniel manteve a voz firme:
— Seja sincero comigo, mano. Você ia achar normal? Ia fechar a tela e falar: “Ah, bobagem, é só coisa de internet”?
— … Não — admitiu em tom baixo, fitando o chão.
— Pois é — Daniel tocou o joelho do amigo. — Não é sobre a foto. É sobre a mensagem que você passa.
— Tá. E faço o quê? Deleto todas as minhas redes e me isolo numa caverna?
Daniel soltou uma risada curta:
— Não, imbecil. Ninguém tá pedindo pra você virar monge. Mas você não pode manter a vitrine de um cara solteiro e esperar que a sua namorada não se sinta desrespeitada. Pra você, são notificações vazias. Pra ela, é a sensação de que a faculdade inteira tá só esperando o momento de você voltar pra pista.
Gabriel absorveu o golpe em silêncio.
— Mas não quero voltar pra pista, Dan. Não quero mais ninguém. Quero ela. Isso não conta?
— Conta muito — Daniel respondeu com seriedade. — Mas não é o que parece quando a sua primeira reação à mágoa dela é dizer que ela tá exagerando.
Gabriel encarou o teto. Pela primeira vez desde a briga, desarmou a postura defensiva por completo. Não dá pra controlar o que as pessoas colocam no meu feed, Rafaela.
⚽️📖⚽️
Na manhã seguinte, Gabriel aguardava junto ao portão do prédio. Camiseta escura, boné virado e óculos escuros disfarçando o semblante abatido.
— Bom dia, Gabriel! — Letícia acenou ao descerem a escada.
— E aí, Pinscher — respondeu ele, contido.
Letícia fechou a cara ao ouvir o apelido infame e inclinou-se no ouvido da amiga:
— Quer um conselho? Faz o miserável suar a camisa antes de perdoar.
Rafaela soltou um riso curto. Gabriel retirou os óculos, revelando o cansaço nos olhos.
— Podemos conversar? — pediu.
Com a concordância silenciosa de Letícia, Rafaela entrou no carona. O percurso seguiu quieto até ele estacionar na rua arborizada junto ao Campo de São Bento.
— Me trouxe aqui de propósito — ela observou.
— Fez sentido na minha cabeça — Gabriel admitiu, deixando o boné sobre o painel. — Foi onde a gente começou a se entender de verdade.
— Também pode ser onde a gente encerra tudo — murmurou ela, olhando para os pedestres na calçada.
Ele virou-se de frente para ela.
— Não foi para isso que vim até aqui. Fiquei puto ontem, mas comigo mesmo. Agi feito um idiota achando que você tava me punindo pelo passado, quando na verdade eu só fui negligente.
Rafaela o encarou, com a respiração pesada.
— O problema nunca foi a foto em si, Gabriel. Foi ver aqueles comentários. Ver o seu comentário antigo na página da Marina e perceber que essas pessoas continuam ali, cruzando com a gente na faculdade todos os dias.
— Não dei corda pra ninguém ontem — pontuou. — E apaguei a foto porque queria abrir a notificação e ver seu nome lá. Qualquer comentário bobo. Um sinal de que você tava comigo.
— Não vou ficar marcando território em rede social como se você fosse uma propriedade minha.
— Nem deve — Gabriel encurtou o espaço, segurando a mão dela. — Mas preciso saber que estamos no mesmo time. Me perdoa por ter feito você se sentir desrespeitada. Aquele comentário antigo foi muito antes de eu saber o que queria com você. Depois que eu entendi… não sobrou espaço pra mais ninguém.
Rafaela sustentou o olhar por longos segundos, encontrando a franqueza direta do capitão. A rigidez em seus ombros finalmente cedeu.
— Eu entendi — respondeu, suavizando a expressão. — Não quero controlar seus passos, Gabriel. Só preciso ter certeza de que, quando algo me machucar, você não vai tratar como um delírio da minha cabeça.
— Aprendi a lição. Desculpa por ter sido um moleque arrogante.
Ele apontou em direção à praça.
— Vamos dar uma volta?
Desceram do veículo e caminharam até o banco sob a copa das árvores. Havia um palmo de espaço entre os dois, uma distância que Gabriel desfez ao trazer o corpo dela para perto.
Rafaela descansou a cabeça no ombro dele. Gabriel relaxou no mesmo instante, envolvendo seu ombro e repousando o queixo em seus cabelos.
— A gente ainda vai cometer muitos erros pelo caminho — murmurou.
— Com certeza vai — concordou ela, fechando os olhos. — Mas se a gente mantiver a conversando desse jeito… talvez consiga fazer dar certo.
Gabriel beijou o topo da cabeça dela.
— Vai dar certo, Rafa. Confia em mim.
Rafaela entrelaçou seus dedos aos dele. O ar entrar ar entrar limpo nos pulmões. O passado de Gabriel não desapareceria magicamente dos corredores da universidade, mas, naquela manhã, ele escolhera provar com quem realmente queria construir o presente e ela decidiu que valia a pena bancar essa escolha.
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