AMOR EM CAMPO

16 Capítulo 15: Amigos


O chiado persistente da cafeteira e o som abafado do trânsito, que já subia pelas ruas de Santa Rosa naquela manhã, serviam de ruído de fundo quando Rafaela surgiu no corredor, arrastando os pés, com os cabelos bagunçados e coçando as pálpebras, que pareciam pesar mais do que o normal.

Letícia já estava a postos na mesa da cozinha, rolando o feed do Instagram, enquanto esperava a bebida ficar pronta, e o sorriso de canto denunciava que o "interrogatório" estava armado.

— Bom dia para quem chegou supertarde ontem à noite — Letícia comentou, apoiando o queixo na palma da mão. — O que houve?

Rafaela bocejou demoradamente, o corpo ainda processando a mistura de exaustão física e a descarga de adrenalina que o cheiro do perfume dele tinha deixado em seu sistema nervoso. Ela caminhou até o balcão, desligando o aparelho com um clique firme.

— O dia foi puxado, só isso. Chegaram remessas novas e o estoque não se arruma sozinho — mentiu ela, ocupando-se em servir uma caneca para evitar o contato visual.

Letícia achou graça, bloqueando a tela do telefone e jogando-o sobre a mesa.

— E, por acaso, o Gabriel agora é estagiário do Seu Alberto? — ela provocou, exibindo um sorriso vitorioso. — Ou está fazendo um extra como Uber Black? Porque, amiga, eu vi pela janela do meu quarto quando ele te deixou aqui ontem com um olhar capaz de derreter o portão. Isso significa que o plano está funcionando melhor do que a gente previu.

Rafaela sentiu o rosto queimar, mas não era de orgulho. Ela sorveu o café devagar, concentrando-se apenas no amargor para não encarar a empolgação da amiga.

— Ele só me levou para tomar um café, Lê. Agradecimento pelas aulas. Nada que altere o planejado.

— "Nada que altere o planejado"? Rafa, acorda! — Letícia levantou e parou ao lado dela, notando a tensão que enrijecia a postura da amiga. — Esse é o momento perfeito. O capitão está na sua mão, correndo atrás de você pelos corredores da UC e fazendo papel de motorista particular. É o cenário ideal para você dar o golpe final e dispensar o Duarte no auge do interesse dele. É a nossa vingança por tudo o que ele e aqueles Falcões fazem no campus.

Rafaela congelou com a caneca ainda suspensa no ar.

As palavras de Letícia, que antes soavam como um hino de guerra justo e divertido, agora batiam com o peso desconfortável de uma bigorna. Ela olhou para o líquido escuro no fundo da porcelana, sentindo um nó doloroso se formar na garganta.

O plano. A queda do camisa dez. A humilhação pública do garoto mais arrogante da UC. Era isso que ela queria, não era?

Então, por que a ideia de puxar o tapete dele agora, de usar aquela aproximação para machucá-lo de propósito, fez o estômago dela revirar de culpa?

Pior do que o remorso de dar o golpe final era o vislumbre do cenário seguinte: para o plano acabar, ela teria que se afastar dele. Definitivamente. Não haveria mais as provocações irritantes, nem o perfume dele impregnando o interior do carro enquanto ele a trazia para casa. Ela voltaria para a sua rotina milimetricamente calculada, e Gabriel voltaria a ser apenas um desconhecido que jogava futebol.

E, por algum motivo puramente irracional, a perspectiva de um mundo sem Gabriel Duarte parecia assustadoramente vazia.

— Rafa? — Letícia chamou, franzindo o cenho ao notar o silêncio prolongado e o jeito que os dedos da amiga apertavam a asa da caneca. — Você está me ouvindo?

— Estou — Rafaela mentiu, piscando rápido para afastar o torpor e forçando a voz a sair o mais firme que pôde, embora tenha falhado miseravelmente no tom. — Só estou... pensando na logística. A feira de ciências é na segunda, Lê. Eu preciso focar no projeto do Brandão primeiro. Não posso me distrair com o Duarte agora. E ele ainda está muito na defensiva; eu preciso de mais tempo para garantir que a queda seja grande.

Letícia apertou os olhos, captando a vibração estranha no ambiente. Ela conhecia Rafaela desde que as duas ainda usavam fralda e sabia muito bem quando a amiga estava tentando esquivar-se de um assunto.

— Mais tempo para garantir a queda ou para se envolver? — Letícia quis saber, suavizando o tom de voz. — Porque parece que você está meio apavorada com a ideia de se afastar dele.

Rafaela finalmente a encarou, e Letícia enxergou ali exatamente o que suspeitava: uma pontinha de pânico.

— Eu não estou desesperada, Letícia. Pelo contrário, estou sendo metódica. O Gabriel é... instável. Eu preciso manter as rédeas da situação.

— O problema, Rafa — Letícia adotou uma seriedade protetora — é que, quanto mais tempo vocês passam juntos, mais risco você corre de se apegar ao cara. E o Gabriel não é do tipo que cai sem arrastar alguém junto com ele.

— Eu não estou me apegando a ninguém, que saco! — O impacto da porcelana contra a pia de granito ressoou forte pela cozinha.

Ela se virou para a amiga, a respiração ligeiramente apressada.

— Foi você quem insistiu para eu entrar nessa história, Letícia! — Rafaela gesticulou, as palavras saindo em disparada. — 'Faz o Duarte se apaixonar e depois quebra a banca de capitão dele', você dizia todo dia. Por que agora está me olhando como se eu estivesse fazendo algo errado?

Letícia deu um passo atrás, surpresa. Ela sabia que a amiga era como uma rocha sob pressão, sempre racional e equilibrada. Ver aquela faísca de descontrole era como assistir a uma fórmula química estável entrar em combustão espontânea.

— Eu estou cobrando porque você está se esquivando, Rafa — Letícia respondeu com uma calmaria que só irritou Rafaela ainda mais. — Se fosse apenas "o plano", você estaria rindo de como ele é um idiota por ter caído na sua rede. Mas você não está achando graça. Está brava comigo só porque eu sugeri que você está sentindo algo, não é?

Rafaela desviou o olhar, concentrando-se em transferir o café da jarra para a garrafa térmica, mas a imagem de Gabriel limpando a espuma dos lábios pareceu queimar em sua retina novamente.

— Você está delirando, Letícia. Anda assistindo dorama demais, deve ser isso. O café está pronto. Vou me arrumar para a aula.

Rafaela praticamente se refugiou no banheiro. Ela precisava do impacto da água gelada para dissipar o cheiro dele, que parecia ter grudado em seus poros. Debaixo do chuveiro, apoiou a testa nos azulejos frios. A lógica, sua maior aliada, estava falhando.

Ele é um alvo, Rafaela. Só um alvo, ela repetia mentalmente. Mas o alvo tinha nome, um sorriso lindo e uma voz que, na noite anterior, tinha soado sincera demais ao falar de mitocôndrias e expectativas.

Ao sair do banho, enrolada na toalha e com o vapor embaçando o espelho, o visor do celular acendeu.

Uma notificação de "Gabriel".

Rafaela hesitou. O coração deu o mesmo salto que dera na porta da livraria. Ela desbloqueou a tela com os dedos ainda úmidos.

Gabriel:Bom dia, Roberta! Dormiu bem ou passou a noite sonhando com blend de avelã? (ou talvez comigo?)

Rafaela mordeu o lábio inferior, sentindo um frio na barriga. Ela encarou o próprio reflexo borrado. Letícia tinha razão em uma coisa: o plano era simples no papel, mas ela estava começando a se perder na complexidade do que ele causava nela. Com um suspiro resoluto, Rafaela bloqueou a tela sem digitar uma única palavra. Deixá-lo esperando era sua única defesa.

⚽📖⚽

Para Rafaela, o campus da UC havia se tornado um labirinto.

Ela notou o brilho do carro de Gabriel no estacionamento logo cedo e, desde então, seus sentidos operavam em alerta máximo. Quando avistou o grupo com as camisas dos Falcões vindo ao longe pelo corredor principal, ela não pensou duas vezes: mudou de direção bruscamente, quase colidindo com um veterano da biomedicina, e escapou pela escada de emergência.

Mais tarde, ao se aproximar do pátio, a risada grave de Gabriel ecoou entre as colunas de concreto. O som reverberou em sua espinha. Sem pestanejar, ela alterou a rota, optando pelo caminho mais longo sob o sol quente, contornando todo o bloco de Geologia apenas para evitar o campo de visão dele. No restaurante universitário, foi o mesmo cenário; bastou avistar o topo daquela cabeça de fios bagunçados em uma das mesas para que sua fome sumisse. Ela girou nos calcanhares e saiu antes mesmo de entrar na fila.

Enquanto isso, no jardim central, Gabriel havia se tornado o fiscal de notificações mais obsessivo da universidade.

A mensagem de "Bom dia" enviada às sete da manhã continuava lá, sem resposta. Nem uma reação sequer. Nada. Aquilo estava testando sua paciência.

Ao redor dele, o mundo continuava girando. Daniel, Vinícius e outros meninos do time trocavam passes curtos com a bola de futebol na grama. Lucas, sentado no banco de cimento, devorava um saco de salgadinho enquanto comentava com Diego sobre o rendimento ruim de um calouro chamado Cadu no último treino.

Ele fez uma pergunta sobre o jogo de sábado, mas Gabriel não registrou. Estava ocupado demais atualizando a tela pela décima vez em cinco minutos. Irritado com a distração do capitão, Lucas amassou a embalagem vazia e a arremessou contra o peito de Gabriel. O plástico atingiu a camisa dele e caiu no chão. Gabriel ergueu a cabeça, fuzilando o amigo.

— Que foi, caralho? — perguntou, guardando o aparelho no bolso com um movimento brusco, como se ocultasse uma evidência.

— Perguntei se o celular grudou na sua mão — Lucas deu de ombros, limpando os farelos na bermuda. — E aí, tá mais calmo hoje ou ainda vai ter um ataque se eu perguntar como vão as coisas com a "Nerd"? Ela já caiu no seu papo de capitão incompreendido ou finalmente te deu o fora que todo mundo está esperando?

Diego, que até então estava apenas observando a fixação de Gabriel no aparelho, soltou uma gargalhada ácida, recostando-se no banco de cimento.

— Ah, você está muito desatualizado, Lucas — Diego alfinetou. — A partir de agora, só podemos chamar a garota pelo nome oficial. Cuidado se você usar “nerd” ou “doida do laboratório” de novo. Corre o risco de levar um soco do nosso capitão aqui.

O riso de Lucas cessou e Daniel prendeu a bola sob o pé. Gabriel sentiu a irritação subir. A sua reação defensiva na noite anterior estava sendo exposta da pior forma diante do grupo.

— Diego — a voz de Gabriel saiu baixa, um aviso que geralmente fazia qualquer um recuar.

— O quê, Gabe? Só estou avisando o cara — Diego insistiu, sustentando o confronto. — Ontem à noite o capitão quase me engoliu vivo de novo porque eu chamei a "professora preferida" dele de esquisita. Ele está tão focado no papel de cavaleiro branco que até esqueceu que isso começou com uma aposta bem aqui neste banco.

Gabriel ergueu-se de uma vez só, sua estatura projetando uma sombra sobre Diego.

— Eu achei que tinha deixado bem claro ontem que esse assunto morreu — Gabriel cortou. Suas feições endureceram por completo, perdendo qualquer vestígio de humor enquanto ele encarava Diego de forma ríspida e impositiva. — Aquela palhaçada de aposta já era. Eu faço o que eu quiser da minha vida e saio com quem eu bem entender. Não devo satisfação para nenhum de vocês. E se eu disser que não quero ouvir o nome dela na boca de ninguém aqui de novo, é bom respeitarem. Entenderam?

Diego sustentou o olhar por alguns segundos, o cinismo vacilando diante da seriedade implacável do capitão. Ele levantou as mãos em um sinal de trégua, mas não resistiu a uma última provocação.

— Calma, cara. Mensagem recebida — murmurou Diego, apontando discretamente com o queixo para além dos ombros de Gabriel. — Só acho que você devia avisar isso para ela também. Porque parece que quem está fazendo o que quer com você é a monitora. Você está aí, quase tendo um troço por causa dela, enquanto ela está atravessando o pátio de cabeça baixa para fingir que você nem existe.

Gabriel girou o corpo a tempo de ver o rabo de cavalo de Rafaela sumindo atrás das colunas do Bloco C. Ela estava fugindo. De novo.

Ele apenas lançou um olhar severo para o grupo, o tipo de aviso que encerrava qualquer discussão por definitivo. Sem dizer mais nada, pegou a mochila e deu as costas aos companheiros de time.

Caminhou a passos largos na direção em que ela havia desaparecido. Suas emoções estavam no limite; tolerar o silêncio no aplicativo era uma coisa, mas vê-la desviar dele fisicamente era demais para o seu orgulho.

Rafaela estava quase alcançando a segurança do laboratório quando percebeu a aproximação rápida atrás de si. Os passos eram firmes e decididos. Ela apressou o passo, mas, antes que pudesse abrir a porta, uma mão espalmou contra a madeira acima de sua cabeça, bloqueando a passagem.

— Você precisa parar com essa mania de deixar minhas mensagens no vácuo — a voz de Gabriel soou baixa, bem rente ao ouvido dela, carregada de frustração. — Achei que já tínhamos passado dessa fase.

Rafaela girou o corpo devagar, ficando espremida entre a madeira e ele. Gabriel permaneceu ali. Ele mantinha uma das mãos no bolso e a outra apoiada na porta, encarando-a com uma intensidade que parecia estreitar o corredor.

— E você precisa entender o conceito de prioridades — ela apontou, adotando uma falsa paciência pedagógica. — Visualizar uma mensagem não significa que tenho a obrigação de responder na mesma hora. Eu estava... estou ocupada.

— Ocupada fugindo de mim? — Gabriel insistiu. — O que foi? O café de ontem foi demais para você? Ou a "Roberta" ficou assustada porque percebeu que eu sou bem mais interessante do que o namorado dela?

— Eu não estou fugindo, Duarte. Só tenho outros compromissos. A Feira Científica é na segunda e eu estou atrasada com as amostras — mentiu ela.

Rafaela indicou o espaço mínimo entre eles com um aceno sutil.

— Agora, dá para se afastar? A menos que você queira que eu use essa pasta para redefinir o formato do seu nariz, eu preciso entrar.

— Sempre apelando para a violência física, né, nerdzinha? — Gabriel ironizou, sem se afastar um milímetro sequer, um sorriso provocativo desenhando-se nos lábios. — Tudo bem, pode ameaçar me bater de novo ou usar essas suas amostras como desculpa. Mas nós dois sabemos que você só está se esquivando porque está com medo.

Rafaela respirou fundo — o que se provou um erro, já que o perfume dele invadiu seus sentidos de imediato — e recuperou a compostura.

— Medo? — Ela soltou um riso irônico. — Por que eu teria medo? Somos apenas amigos.

O semblante confiante de Gabriel desmoronou por um instante, dando lugar a uma expressão séria e desafiadora.

— Amigos? — ele repetiu a palavra como se provasse algo amargo.

Por dentro, ele sentiu o impacto. Gabriel nunca havia estado naquela posição; não sabia o que era ser posto na friendzone, muito menos pela única garota que importava de verdade. Depois da noite anterior, da conversa franca sobre suas falhas, ele achou que tinham mudado de patamar. Ouvir aquilo foi um golpe duro.

— Sim. O que mais seríamos?

Rafaela o desafiou com o olhar. Se ele queria jogar, ela mostraria que também dominava as regras.

Gabriel não recorreu ao sarcasmo frequente. Em vez disso, o maxilar dele relaxou e os ombros cederam de leve, uma mudança de postura tão brusca que surpreendeu Rafaela. O brilho competitivo em seus olhos escuros deu lugar a uma honestidade áspera.

— O que mais seríamos, Rafa? — Ele soltou uma risada sem força, balançando a cabeça. — Você é a cientista, mas não precisa de um microscópio para enxergar que isso aqui passou longe de ser amizade.

Ele soltou uma risada sem graça, um desabafo de quem estava cansado de fingir.

— "Amigos" não fazem o ar parecer elétrico toda vez que se aproximam. E eu certamente não estou há três noites sem dormir direito por sua causa, porque te considero só uma "amiga".

Rafaela arregalou os olhos. A sinceridade dele a acertou em cheio, desmoronando qualquer linha de defesa que ela vinha elaborando desde cedo.

Gabriel afastou a mão da porta, mas, em vez de se distanciar, deixou os dedos roçarem de leve na nuca dela, logo abaixo do rabo de cavalo. O toque foi sutil, mas o suficiente para Rafaela sentir a eletricidade no ar, como Gabriel havia dito.

— Se você prefere mentir para si mesma para conseguir encarar o seu namorado e dormir em paz, eu aceito o papel — ele confessou, sustentando o olhar. — Mas nós dois sabemos que, se eu fosse só seu amigo, você não estaria correndo de mim pelo campus. Você tem medo do que sente por mim, Rafaela. E tudo bem. Porque eu também estou apavorado.

Vozes e passos ecoaram na entrada do corredor. Um grupo de alunos estava prestes a dobrar a esquina.

A interrupção fez Gabriel piscar, recuperando a postura e vestindo sua costumeira armadura de capitão inabalável no instante em que os primeiros estudantes surgiram. A transição entre o homem vulnerável e o atleta focado foi quase imediata.

Ele ajeitou a gola da camisa, dando um passo atrás, embora seus olhos ainda revelassem o peso daquela conversa.

— Te vejo por aí, "amiga". Mande lembranças para o seu namorado.

Ele afastou-se com sua pose confiante, deixando Rafaela sozinha com os batimentos acelerados, e o discreto sorriso que surgiu nos lábios dela indicava que, como qualquer cientista fascinada por reações intensas, ela estava viciada no efeito que provocava nele e no caos que ele gerava nela.

Gabriel não foi muito longe. Assim que dobrou o corredor adjacente, longe do alcance dos estudantes que haviam interrompido o momento, ele parou. Encostou as costas na parede de concreto, assimilando a conversa como quem sobrevive a um impacto forte. O peito subia e descia com pressa; precisava de um instante para processar o fato de ter se exposto daquela maneira.

Quando finalmente se desencostou para seguir caminho, deparou-se com uma silhueta de um metro e sessenta que o aguardava com uma expressão hostil.

— Cacete! Que susto, Brunna! Quer me matar do coração, pô? — disparou ele. O peito respondeu com batidas aceleradas, mas desta vez por pura irritação.

Brunna permaneceu firme, encarando-o com indignação.

— O susto quem levou fui eu — ela retrucou, com o tom ácido. — Ver você encurralando aquela garota contra a porta no meio do bloco... O que foi, Duarte? Cansou de correr atrás de quem está no seu nível e agora resolveu fazer caridade com as esquisitas?

— Já mandei você medir as palavras para falar dela, porra. — Suas feições perderam qualquer traço de descontração, restando apenas uma rigidez firme e intimidadora.

Brunna franziu a testa, surpresa com a reação dele.

— Qual é a sua, Gabriel? Você está totalmente fora de si! — ela aproximou-se, cobrando satisfações como se tivesse algum direito sobre ele. — Primeiro você faz aquela cena comigo no meio do corredor na semana passada, e agora te encontro aqui, se derretendo por essa... por essa Rafaela? Vocês estão ficando? É isso? Vai me trocar por ela?

Gabriel respirou fundo, soltando um riso incrédulo. Ele se empertigou, usando sua estatura para impor respeito e deixar claro que sua paciência havia chegado ao fim.

— Olha para mim, Brunna. E preste atenção, porque eu só vou falar isso uma vez — ele começou, a voz caindo para um tom calmo e definitivo. — Aquela cena no corredor foi a maior idiotice que eu já fiz; agi daquele jeito porque fui um imbecil. Mas acabou. Não existe "troca" porque nunca existiu um "nós". Eu não te devo satisfações, não te devo fidelidade e não quero você controlando os meus passos. A nossa história, seja lá o que você achou que fosse, terminou ali.

Brunna recuou, a boca entreaberta, o choque da rejeição evidente em seu rosto de forma humilhante.

— Você é um canalha, Duarte — ela sibilou, a voz trêmula de raiva.

— Pode ser — ele deu de ombros, indiferente. — Mas pelo menos estou sendo honesto com você agora. Não me procura mais.

Gabriel passou por ela e desceu os degraus do bloco C sem olhar para trás, deixando o chamado irritado de Brunna morrer no corredor silencioso. Ele só parou quando alcançou o pátio externo, onde o sol castigava o asfalto.

Ele puxou o celular do bolso. O grupo do time estava cheio de mensagens sobre o treino de mais tarde, mas Gabriel ignorou todas. Seus dedos hesitaram sobre o nome de Rafaela na lista de contatos. Ele não escreveu. Não agora.

Bloqueou a tela, enfiando o aparelho de volta no bolso com um meio-sorriso que tinha pouquíssimo de bom moço e tudo do capitão obstinado de sempre.

Ele não ia insistir por mensagem. Gabriel preferia o corpo a corpo, o confronto direto, onde ela não tinha como se esconder atrás de um aplicativo ou de uma desculpa sobre a Feira Científica.

Amigos? Ele soltou uma risada baixa, o som se misturando ao barulho do campus. Rafaela podia tentar inventar as regras que quisesse, desenhar as linhas que achava seguras e até usar o fantasma daquele namorado como escudo. Não fazia diferença. Gabriel nunca tinha entrado em uma disputa para perder, e certamente não seria agora que iria experimentar o gosto da derrota.

Ele ia dar o espaço que ela fingia precisar para respirar. Mas só até o próximo encontro. Porque, na cabeça do camisa dez dos Falcões, aquele jogo estava apenas começando e ele já sabia exatamente em qual brecha da armadura dela iria atacar em seguida.


Notas finais
EU NÃO ACREDITO QUE A RAFAELA METEU UM “SOMOS APENAS AMIGOS.” KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Gente… a filha da mãe colocou o coitado na FRIENDZONE. O GABRIEL. O camisa 10. O terror da Universidade Central. O homem que nunca deve ter ouvido um “não” na vida. 😭😭😭😭😭😭😭 E O MELHOR É QUE ELA FALOU ISSO… DEPOIS DE PASSAR O DIA INTEIRO SE ESCONDENDO DELE PELO CAMPUS. Rafaela: 🏃🏻‍♀️➡️ Bloco A 🏃🏻‍♀️➡️ Escada 🏃🏻‍♀️➡️ RU 🏃🏻‍♀️➡️ Laboratório Gabriel: 📱 📱 📱 “POR QUE ESSA MULHER NÃO RESPONDE A MINHA MENSAGEM???” KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK E depois ele simplesmente resolveu… “NÃO QUER RESPONDER? BELEZA, ENTÃO EU VOU PESSOALMENTE.” Esse homem nasceu antes da vergonha. E A DECLARAÇÃO??? “Eu também estou apavorado.” EU. VIREI. GELATINA. 🥹🤏🏻 Mas calma… Porque o nosso capitão mal saiu do momento romântico e… 💥 BRUNNA APARECEU. 😒 A lambisgoia escolheu exatamente o pior momento possível. E levou um “Nunca existiu um nós.” MEU DEUS. A violência psicológica. 💀 Agora eu quero MUITO saber: 📱 Qual foi a maior humilhação do Gabriel neste capítulo? • Ser ignorado no WhatsApp? • Descobrir que virou “amigo”? • Ver a Rafaela fugindo dele igual a gente foge dos boletos? • Ou perceber que a nerdzinha já sabe exatamente onde apertar os botões dele? Eu quero teorias, surtos, análises e memes nos comentários. Se esse capítulo fez você rir ou sacudir esses dois pelos ombros, não esquece de favoritar! ❤️ Isso ajuda demais. Nos vemos na segunda-feira. ⚽